Vera
Lucia de Siqueira Mietto[1]
Não é de hoje que as questões
acerca do desempenho escolar são pauta de discussões entre professores e
profissionais da educação e saúde.
Crianças e adolescentes que no
curso de seu desenvolvimento escolar, apesar de não apresentarem nenhum
impedimento cognitivo, transtorno de aprendizagem ou falhas sensoriais, não
conseguem obter o resultado esperado por pais e professores.
O que poderia estar
acontecendo? Onde estaria o cerne do problema? Estaria na escola? Na
metodologia utilizada?
Muitas questões precisam ser
analisadas quando se fala de baixo desempenho acadêmico. Sabe-se que para a
criança obter êxito na escola é preciso que cresça aprendendo a se regular, a
estabelecer estratégias para alcançar suas metas, saber estudar e se organizar.
Aprender a ter autonomia
constitui um fator primordial para crescer independente, organizado e ter
metacognição, isso quer dizer que é preciso que o indivíduo tenha conhecimento
sobre suas capacidades, percepção, avaliação, regulação comportamental e
refletir sobre suas ações: é aprender a aprender. RIBEIRO (2003)
Mas, hoje em dia, com a
demanda diária do fazer dos pais e cuidadores da criança, com o apressamento da
vida que estamos expostos, a criança tende a ter tudo pronto, tudo muito
arrumado para que seus cuidadores não percam tempo, e com isso, habilidades que
iriam desenvolver a autonomia da criança ficam como que “adormecidas” e ela
passa a ter um comportamento passivo, a não ter que se preocupar com nada, com
suas necessidades mais básicas pois tem quem faça por ela, rápido, pois não há
tempo a perder. Por outro lado, temos ainda a carência de tempo dos pais com
seus filhos, que acabam por fazer todas as suas vontades, por conta de
sentirem-se tão ausentes. E a criança cresce com suas vontades sendo atendidas
de pronto. Não aprendem a esperar, querem no seu tempo e assim crescem, com
suas vontades sendo satisfeitas de pronto. Caso não sejam atendidas, vem a
birra! Apavorados e sem saber como lidar com esse comportamento, os cuidadores
cedem! E como essas crianças crescem?
Vemos isso com muita
frequência, demanda muito comum nos consultórios, com a queixa de que a criança
é geniosa, insatisfeita, desatenta, desorganizada, ansiosa, sem
responsabilidade ou que ainda está imatura, só desejando brincar em sala de
aula, ignorando muitas vezes o fazer acadêmico a que está inserida.
Adolescentes que não tem responsabilidade, não se esforçam e ficam a esperar
tudo pronto, e com isso, as dificuldades em manter um bom desempenho acadêmico
não acontecem. Entendendo que toda a satisfação pessoal vem do fazer, do buscar
que faz parte do amadurecimento emocional.
Ao chegarem na escola, também
esperam que sejam atendidas como acontece em casa, querem que seus professores
organizem tudo, que tenham o mesmo comportamento que incorporam de seus
cuidadores e quando não são atendidos, desafiam, se dispersam e o processo de
aprendizagem fica prejudicado.
É a brincadeira e as tarefas
não terminadas em sala de aula, os deveres que não são realizados em casa, a
falta de compromisso evidente! As tarefas escolares se tornam desinteressantes,
desestimulantes, pois precisam parar, pensar e organizar o pensamento na busca
de respostas e soluções. Como sentir prazer nesse fazer que requer trabalho e
autorregulação se estão acostumados a uma variedade de estímulos do mundo digital,
onde só precisam clicar e uma gama de soluções se colocam á disposição?
Habilidades cruciais que
desenvolvem a criança em sua capacidade de ter autonomia e gerir suas
necessidades individuais não foram estimuladas e o resultado começa a aparecer
desde cedo no fazer acadêmico.
Mas como adquirir essas
habilidades tão importantes para a vida escolar? Como a criança vai se
organizar nas tarefas escolares, arrumar seus pertences na mochila ou parar e
prestar atenção no que o professor diz, nas tarefas que precisa iniciar e
terminar em tempo hábil, se não aprendeu a ter autonomia e a cuidar de si?
Ter bom desempenho acadêmico
requer possuir habilidades que possibilitem foco e metas pré- estabelecidas,
habilidades essas que, como se sabe, compõe as Funções Executivas.
Segundo Gazaniga (2006) as
Funções Executivas são um conjunto de habilidades cognitivas fundamentais para
a cumprir-se diversas atividades que requerem planejamento e monitoramento de
comportamentos intencionais relacionados a um objetivo ou a demandas do meio
ambiente.
As funções executivas, deste
modo, possibilitam ao indivíduo uma interação com o meio de maneira mais
ajustada, mais harmoniosa , sendo a base para a orientação e estruturação de
várias habilidades intelectuais, emocionais e sociais, como se programar para
as tarefas domesticas, ir à escola, ir ao trabalho, fazer os deveres de casa,
estudar para a prova, terminar suas atividades dentro do tempo estabelecido,
priorizar necessidades individuais e coletivas entre muitas outras tarefas
importantes do dia a dia. VASCONCELOS (2011)
O desenvolvimento das
habilidades executivas começa no primeiro ano de vida do bebê e vai se acentuar
por volta dos 6 e 8 anos de idade, avançando até o final da adolescência e o
início da fase adulta do indivíduo. ROTTA(2016).
Podemos aqui observar ao longo
desse período, à medida que a criança cresce e se desenvolve, que as diversas
habilidades executivas vão se aprimorando e quanto mais vivencio e experimento
situações que demandem autorregulação e atenção vou amadurecendo essas
habilidades e tendo ganhos comportamentais que me possibilitarão melhores
aprendizagens.
As funções Executivas e suas
habilidades tem sido alvo de muitos estudos e pesquisas por diversos autores
que pontuam a existência de componentes diferenciados e de crucial importância.
Para Miyake et al(2000), três componentes são fundamentais: o controle
inibitório, a memória de trabalho e a flexibilidade cognitiva. Outros autores acrescentam
a esse construto componentes de maior complexidade como a resolução de
problemas e planejamento. ROTTA(2006)
Para entendermos a importância
desse construto, vamos ver o que Rotta (2006), Diamond(2007) e Barkley (2001)
nos falam dessas habilidades:
1-Controle inibitório: é a capacidade de pensar antes de agir, ou
seja, inibir uma resposta comportamental impulsivamente, passando de uma
resposta para outra melhor e mais considerada, adequada para a situação. É a
maneira com que o cérebro modula o nosso comportamento.
2-Memória de trabalho é a capacidade de se armazenar temporariamente
as informações e as incorporar a outros estímulos do meio ambiente, ou seja,
poder buscar uma informação na memória de longo prazo, facilitando seu resgate
quando necessário. Tem um papal fundamental na capacidade de compreender o que
se está lendo, o que se está a aprender e na capacidade de manter o raciocínio
com logicidade. É ela que dá sentido aos acontecimentos, evocando eventos já
armazenados e integrando com os novos que se está a prender.
3-Flexibilidade cognitiva é a capacidade em alternar o foco, mudar de
atividade ou de planos: se um caminho escolhido não traz resultados positivos,
outro caminho é elaborado e percorrido. É a capacidade de mudar de planos em
decorrência da demanda imposta pelo meio a que está inserido.
Como se pode observar nas
falas de Rotta (2006 ), Diamond(2007) e Barkley (2001), as habilidades simples
que se requer nas atividades escolares podem ser alteradas, por exemplo, por
ausência do controle inibitório: se eu não paro, não presto atenção e assim a
habilidade executiva que tem como função selecionar, dentre vários estímulos
distratores o que é relevante (atenção seletiva), fica prejudicada e me
distraio em sala de aula.
Outra habilidade que exerce
grande influência no desempenho escolar é a memória de trabalho: ela me faculta
a compreensão do que está sendo aprendido, por evocar o que já aprendi e me
facilitar também a compreensão do que estou lendo.
Da mesma maneira, ser flexível
me viabiliza novas possibilidade e planejar qual caminho ou rota devo seguir
para obter sucesso. Se o comportamento é rígido, não saio do lugar, não aceito
novas possibilidades e continuo fazendo do mesmo jeito, mesmo percebendo que o
caminho escolhido não é o melhor a ser adotado. Outro comportamento observado
na ausência de flexibilidade na escola é a dificuldade de me adaptar a mudança
ou planos em sala de aula, em trabalhos em grupos onde escutar o outro e mudar
planos se faz necessário para que obtenhamos sucesso. ROTTA (2006 ),
DIAMOND(2007) E BARKLEY (2001)
A relação das habilidades
executivas e o bom desempenho acadêmico tem sido evidenciado por diversos
autores: Capovilla (2008), Dias(2010), Gathercole et al (2006) comprovaram que
o controle da atenção e a autorregulação são predistores de bom desempenho
escolar em disciplinas como as de matemática e linguagem.
Gathercole et al (2006)
evidenciaram que a memória de trabalho influencia diretamente sobre a leitura,
prejudicando a memória de curto prazo visoespacial, interferindo diretamente na
linguagem, consciência fonológica e memória de curto prazo fonológica. Impacto
que pode ser evidenciado no não cumprimento de uma tarefa escolar, por
dificuldades de manter-se focado e terminá-la dentro do tempo estabelecido.
Outros estudos vieram
comprovar a relação das habilidades executivas bem desenvolvidas e o êxito no
contexto acadêmico. DIAMOND(2007), DIAS(2010)
Crianças na fase pré- escolar
com controle inibitório e autorregulação já bem desenvolvidas conseguem
compreender melhor ordens e seguirem regras, facilitando a aprendizagem e o
desejo em realizar tais tarefas. DIAMOND(2012)
Com base nesses dados fica
aqui um questionamento: por que não estimular as habilidades executivas em sala
de aula? Não seria uma forma de preparamos nossos estudantes a terem sucesso
acadêmico e em sua vida?
Na literatura vários métodos
de estimulação das habilidades executivas já se encontram disponíveis e um
estudo criterioso de qual melhor método a ser utilizado pelas escolas (inserido em sua
metodologia) deveria fazer parte de discussões entre os educadores.
Fica aqui uma reflexão: a quem
caberá esse novo olhar, aos terapeutas, aos pais ou a escola? Uma ação em conjunto sem
dúvida traria benefícios a nossas crianças e melhoraria o fazer acadêmico,
evitando repetências e a evasão escolar.
Bibliografia:
Barkley RA. The
executive functions and self-regulation: an evolutionary neuropsychological
perspective. Neuropsychol Rev. 2001; 11(1):1-29.
Capovilla AGS, Dias NM. Desenvolvimento
de habilidades atencionais em estudantes da 1ª a 4ª série do ensino fundamental
e relação com rendimento escolar. Rev Psicopedagogia. 2008;25(78):198-211.
Célia Ribeiro.
Metacognição: Um Apoio ao Processo de Aprendizagem. Psicologia: Reflexão e
Crítica, 2003, 16(1), pp. 109-116
Dias, N. M., Menezes, A., & Seabra, A. G. (2010). Alterações das funções executivas em
crianças e adolescentes. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, 1(1),
80-95.
Dias NM. (2009). Avaliação
neuropsicológica das funções executivas: Tendências desenvolvimentais e
evidências de validade de instrumentos [Dissertação]. São Paulo: Universidade
Presbiteriana Mackenzie
Diamond A, Barnett WS, Thomas J, Munro S. Preschool program improves cognitive
control. Science. 2007;318(5855):1387-8.
Diamond A.(2012) IV
Seminário Internacional Educação Infantil: evidências científicas, melhores
práticas. São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie. Disponível em:
http://www.alfaebeto.org.br/279
Fuentes, D., Malloy-Diniz, L. F., Camargo, C. H. P., &
Cosenza, R. M. (2008). Neuropsicologia:
teoria e prática. Porto Alegre: Artmed
Gathercole SE, Alloway TP, Willis C, Adams A. Working memory in children with reading
disabilities. J Exp Child Psychol. 2006; 93:265-81.
Gazzaniga MS, Ivry RB, Mangun GR. Neurociência cognitiva. Porto Alegre: Artmed; 2006.
Goldberg, E. (2002). O
cérebro executivo: lobos frontais e a mente civilizada. Rio de Janeiro:
Imago
Luria, A. R. (1981). Fundamentos
de Neuropsicologia. São Paulo: Livros Técnicos e Científicos
Malloy-Diniz, L. F., Fuentes, D., Mattos, P., & Abreu,
N. (2010). Avaliação Neuropsicológica.
Porto Alegre: Artmed.
Mello, C. B. de, Miranda, M. C., & Muszkat, M. (2005). Neuropsicologia do Desenvolvimento. São
Paulo: Memnon.
Menezes A, Godoy S, Teixeira MCTV, Carreiro LRR, Seabra
AG(2012). Definições teóricas acerca das
funções executivas e da atenção. In: Seabra AG, Dias NM, eds. Avaliação
neuropsicológica cognitiva: atenção e funções executivas. Vol. 1. São Paulo:
Memnon;. p.34-41.
Miyake A, Friedman NP, Emerson MJ, Witzki AH, Howerter A,
Wager TD.(2000). The unity and diversity
of executive functions and their contributions to complex "frontal
lobe" tasks: a latent variable analysis. Cogn Psychol.; 41(1):49-100.
Natale, L. L. (2007). Adaptação
e investigação psicométrica de um conjunto de tarefas para a avaliação das
funções executivas em pré-escolares: um estudo transversal. Dissertação de
Mestrado em Psicologia, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade
Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, Brasil.
Porto, C. S. (2003). Síndromes frontais: Avaliação neuropsicológica. In R.
Nitrini, P. Caranelli, & L. L. Mansur (Eds.), Neuropsicologia: Das bases
anatômicas à reabilitação (pp. 73-87). São Paulo, SP: Editora da Universidade
de São Paulo.
Rotta, N. (2006) Transtornos
da aprendizagem: Abordagem neurobiológica e multidisciplinar, Porto Alegre:
Artmed
Santos, F. H. (2004). Funções
executivas. In V. M. Andrade & F. H. Santos & O. F. A. Bueno
(Eds.), Neuropsicologia hoje. São Paulo: Artes Médicas
Vasconcelos, L. Funções
executivas e resolução de problemas aritméticos. In: Valle LELR, Capovilla,
FC orgs. Temas multidisciplinares de neuropsicologia e aprendizagem. Ribeirão
Preto: Novo Conceito; 2011. p.475-85.
Como
fazer a citação deste artigo:
MIETTO,
Vera. As
funções executivas e sua importância no bom desempenho acadêmico . Novo
Hamburgo, 04 de setembro/ 2018. Disponível online em: http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com/2018/09/as-funcoes-executivas-e-sua-importancia.html
|
[1]
Fonoaudióloga, Mestre em Educação,
Neuropsicopedagoga, Psicopedagoga, Especialista em Neurociência Pedagógica










