segunda-feira, 9 de abril de 2012

Ensino da letra cursiva para crianças em alfabetização divide a opinião de educadores

Por HÉLIO SCHWARTSMAN


       Deve-se ou não exigir que as crianças escrevam com letra cursiva? A questão, que divide educadores e semeia insegurança entre pais, está -- ao lado da pergunta sobre o ensino da tabuada-- entre as mais ouvidas pela consultora em educação e pesquisadora em neurociência Elvira Souza Lima. A resposta, porém, não é trivial.
       Quatro ou cinco décadas atrás, a dúvida seria inconcebível. Escrever à mão era só em cursiva e, para garantir que a letra fosse legível, os alunos eram obrigados desde cedo a passar horas e horas debruçados sobre os cadernos de caligrafia.
Luiz Carlos Murauskas/Folha Imagem
A profesora Silvana D'Ambrosio, do colégio Sion, na cidade de São Paulo, ajuda o aluno Mateus Yoona fazer letra cursiva
A profesora Silvana D'Ambrosio, do colégio Sion, na cidade de São Paulo, ajuda o aluno Mateus Yoona fazer letra cursiva
        Veio, contudo, a pedagogia moderna, em grande parte inspirada no construtivismo de Piaget, e as coisas começaram a mudar. O que importava era que o aluno descobrisse por si próprio os caminhos para a alfabetização e a escrita proficiente. Primeiro os professores deixaram de cobrar aquele desenho perfeito. Alguns até toleravam que o aluno levantasse o lápis no meio do traçado. Depois os cadernos de caligrafia foram caindo em desuso até quase desaparecer.
       O segundo golpe contra a cursiva veio na forma de tecnologia. A disseminação dos computadores contribuiu para que a letra de imprensa, já preponderante, avançasse ainda mais. Manuscrever foi-se tornando um ato cada vez mais raro.
         No que parece ser o mais perto de um consenso a que é possível chegar, hoje a maior parte das escolas do Brasil inicia o processo de alfabetização usando apenas a letra de forma, também chamada de bastão.
     Tal preferência, como explica Magda Soares, professora emérita da Faculdade de Educação da UFMG, tem razões de desenvolvimento cognitivo, linguístico: "No momento em que a criança está descobrindo as letras e suas correspondências com fonemas, é importante que cada letra mantenha sua individualidade, o que não acontece com a escrita "emendada' que é a cursiva; daí o uso exclusivo da letra de imprensa, cujos traços são mais fáceis para a criança grafar, na fase em que ainda está desenvolvendo suas habilidades motoras".
       O que os críticos da cursiva se perguntam é: se essa tipologia é cada vez menos usada e exige um boa dose de esforço para ser assimilada, por que perder tempo com ela? Por que não ensinar as crianças apenas a reconhecê-la e deixar que escrevam como preferirem? Essa é a posição do linguista Carlos Alberto Faraco, da Universidade Federal do Paraná, para quem a cursiva se mantém "por pura tradição". "E você sabe que a escola é cheia de mil regras sem qualquer sentido", acrescenta.
       A pedagoga Juliana Storino, que coordena um bem-sucedido programa de alfabetização em Lagoa Santa, na região metropolitana de Belo Horizonte, é ainda mais radical: "Acho que ela [a cursiva] é uma das responsáveis pelo analfabetismo em nosso país. As crianças além de decodificar o código da língua escrita (relação fonema/ grafema) têm também de desenvolver habilidades motoras específicas para "bordar' as letras. O tempo perdido tanto pelo aluno, como pelo professor com essa prática, aliada ao cansaço muscular, desmotivam o aluno a aprender a ler e muitas vezes emperram o processo".
     Esse diagnóstico, entretanto, está longe de unânime. O educador João Batista Oliveira, especialista em alfabetização, diz que a prática da caligrafia é importante para tornar a escrita mais fluente, o que é essencial para o aluno escrever "em tempo real" e, assim, acompanhar a escola. E por que letra cursiva? "Jabuti não sobe em árvore: é a forma que a humanidade encontrou, ao longo do tempo, de aperfeiçoar essa arte", diz.
     Magda Soares acrescenta que a demanda pela cursiva frequentemente parte das próprias crianças, que se mostram ansiosas para começar a escrever com esse tipo de letra. "Penso que isso se deve ao fato de que veem os adultos escrevendo com letra cursiva, nos usos quotidianos, e não com letras de imprensa".
     Para Elvira Souza Lima, que prefere não tomar partido na controvérsia, "os processos de desenvolvimento na infância criam a possibilidade da escrita cursiva". A pesquisadora explica que crianças desenhando formas geométricas, curvas e ângulos são um sério candidato a universal humano. Recrutar essa predisposição inata para ensinar a cursiva não constitui, na maioria dos casos, um problema. Trata-se antes de uma opção pedagógica e cultural.
    Souza Lima, entretanto, lança dois alertas. O tempo dedicado a tarefas complementares como a cópia de textos e exercícios de caligrafia não deve exceder 15% da carga horária. No Brasil, frequentemente, elas ocupam bem mais do que isso.
    Ainda mais importante, não se deve antecipar o processo de ensino da escrita. Se se exigir da criança que comece a escrever antes de ela ter a maturidade cognitiva e motora necessárias (que costumam surgir em torno dos sete anos) o resultado tende a ser frustração, o que pode comprometer o sucesso escolar no futuro.
    O que a ciência tem a dizer sobre isso? Embora o processo de alfabetização venha recebendo grande atenção da neurociência, estudos sobre a escrita são bem mais raros, de modo que não há evidências suficientes seja para decretar a morte da cursiva, seja para clamar por sua sobrevida.
     Há neurocientistas, como o canadense Norman Doidge, que sustentam que a escrita cursiva, por exigir maior esforço de integração entre áreas simbólicas e motoras do cérebro, é mais eficiente do que a letra de forma para ajudar a criança a adquirir fluência.
     Outra corrente de pesquisadores, entretanto, afirma que, se a cursiva desaparecer, as habilidades cognitivas específicas serão substituídas por novas, sem maiores traumas.


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16 comentários:

  1. Faltou a fonte acerca da "corrente de pesquisadores" que afirma que com o desaparecimento da cursiva, novas habilidades cognitivas específicas surgirão...

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  2. Olá! Achei relevante tua opinião a cerca desta postagem, não sou contra o uso da letra cursiva, acho que ela desenvolve sim, muitas habilidades, porém, creio que a idade em que isso é ensinado para as crianças é muito cedo. Pois geralmente, o ensino da mesma se dá no 1º ou no 2º ano do Ensino Fundamental, particularmente creio que as crianças teriam maior facilidade lá pelo 3º ano, pois conforme a postagem que fiz hoje(21/08/12), que fala sobre as funções cognitivas, por volta dos 9 anos é que as crianças apresentam maiores habilidades motoras.

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    1. Na escola que eu trabalho é inserida a letra cursiva com crianças de 4 anos já. É muito triste isso...

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  3. Bobagem...Todos.nós.aprendemos.as.duas.sem.maiores.traumas;estamos.aí.bem.formados.e.escrevendo.com.letra.bonita,sim,por.que.não?
    Preguiça.ou.incompetência.dos.professores,ou.os.alunos.ficaram.mais.burros?
    Não.atrasem.ainda.mais.a.educação.das.nossas.crianças...
    E,se,é.verdade.que.o.ato.de.escrever.á.mão.é.um.exercício.para.o.cérebro,por.que.não.exercitá-lo?
    É.por.estas.e.outras.que.temos.crianças.chegando.à.quinta.série.sem.saber.ler,escrever,fazer.contas,fazer.uma.redação,interpretar.um.texto.e.cometendo.erros.homéricos.de.terminação.e.conjugação.verbal...
    Com.seis.anos.aprendi.a.ler,escrever,fazer.contas.Com.sete.anos.alfabetizei.minhas.irmãs.Não.sou.gênio;apenas.aprendi.direito,com.bons.professores,com.a.boa.e.velha."educação.antiga".
    Não.tornem.nossos.alunos.mais.burros.do.que.já.estão...
    Educação.já!Letra.cursiva.já!E.o.quanto.antes,melhor!

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    1. Bom dia!
      Pelo que percebo em sala de aula, a questão da escrita da letra cursiva não é problema de incompetência dos professores, nem do nível intelectual do aluno, mas sim de todo um sistema em que estamos vivenciando, pois nossas crianças já não brincam mais como brincávamos,deixando assim de desenvolver em muito suas habilidades motoras.É comum estarem num 3ºano do ensino fundamental e não conseguirem nem amarrar um cadarço de sapato, organizar-se dentro de suas mochilas, guardar uma folha dentro de uma pasta, sem amassá-la. E também diante os estudos apontados pela neurociência, escrever ativa regiões cerebrais importantes, mas nenhum estudo aponta que a letra cursiva em si,é melhor que a script. Tanto que podemos observar nas culturas orientais, que utilizam-se de ideogramas e muitas pesquisas apontam que cognitivamente eles apresentam maior desempenho que nós... Mas concordo com você, no seguinte aspecto, as séries iniciais deveriam focar mais no "fazer bem feito", trabalhar mais escrita, interpretação, redação, porém, fazendo o aluno repensar sobre suas produções, avaliar porque repete tal erro, como poderia fazer melhor da próxima vez...

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    2. Para o anônimo àcima. Concordo plenamente com você. A moderniação do ensino tá realmente faclitando o aprendizado, mas deixando-o a desejar. Vejo professores aí, Pós graduados, escrevendo com erros que, com o ensino fundamental bem feito já não seria perdoável...

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    3. ... sem contar que a letra cursiva é mais uma identidade. Estão modernizando demais e acabando com o que é básico e fundamental. Ninguém tem a obrigação de ter letras bonitas. Foi assim que tudo começou: tiraram o ensino religioso, depois tiraram educação, moral e cívica, organização social e política brasileira, pais não podem dar palmadinhas no filho ( mas a polícia pode descer o cacete), o professor não pode nem mais alterar a voz para o aluno, mas o aluno pode bater no professor e assim vamos aceitando tudo e colhendo os resultados.

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    4. Antigamente letra bonita (cursiva) era associada a professores. Atualmente nem professoras primária tem letra legível, tão pouco escrevem corretamente. Triste caminho da educação que se emburrece e torna as crianças cobaias de pensadores modernistas.

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    5. DefendO o uso da letra cursiva e vejo que as crianças que iniciam a alfabetização com as letras cx alta e cursiva são estimuladas a superarem os desafios. Isso acontece naturalmente sem traumas.Querem modernizar o ensino e não sabem por onde começar e ficam criando teorias sem fundamentação comprovada. LETRA CURSIVA JÁ ajuda a estimular o cérebro e a supetarde desafios desde sempre. Esses próprios que não defendem o estímulo e a cobrança desde cedo, elogiam a rígida educação do Japão. E nossas crianças não podem ser desafiadas.

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  4. Discordo totalmente dessa invenção de ensinar nos primeiros anos letra cursiva .A explicação de ser mais fácil a forma bastão não procede.A primeira impressão pode parecer verdadeira no tocante às letras maiúsculas ,no entanto , quanta dificuldade teria a criança em escrever de forma bastão as letras minúsculas!!

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  5. É o que um dos anônimos falou e está coberto de razão, todos nós adultos aprendemos com letra cursiva e ninguém tem problema algum ou algum trauma, muito pelo contrário, hoje em dia é que se vê cada vez mais a decadência da educação.
    Letra cursiva é essencial, afinal as anotações e demais atividades "em papel" se tornam mais rápidas. Quem acha que a escrita em papel acabará está muito enganado.
    E como diz uma professora que até hoje alfabetiza, e maravilhosamente bem, em letra cursiva : o problema é que alfabetizar em letra cursiva DÁ MUITO MAIS TRABALHO, não precisa dizer mais nada.

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    1. Eu tenho sim trauma. Gostava (e gosto) de pensar e não de ter que fazer atividades cansativas e mecânicas que formam um autômato. A cobrança exagerada era horrível. Temos que contextualizar a educação para um infância do século XXI, onde a escola, mais do que tudo, tem que ajudar na formação de pessoas que pensem e não apenas repitam tarefas massantes.

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  6. "Acho que ela [a cursiva] é uma das responsáveis pelo analfabetismo em nosso país. As crianças além de decodificar o código da língua escrita (relação fonema/ grafema) têm também de desenvolver habilidades motoras específicas para "bordar' as letras.

    Na minha opinião esta pedagoga está equivocada.Nada a ver, quando a criança não tem um respaldo na alfabetização ela pode escrever de qualquer maneira , independe da sua letra.E eu faço um do caderno de caligrafia sim , para que as crianças possam conhecer melhor as letras e se familiarizando com elas.

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  7. A escola pública brasileira recebe crianças cada vez mais desprovidas de habilidades básicas para o desenvolvimento neuropsicomotor. Ensinar letra cursiva despende tempo, o qual é precioso para ajudar essas crianças a adquirirem uma base alfabética sólida, que garanta o letramento, despender em sala de aula um tempo para ensinar a letra cursiva, como aprendemos, não é viável. Precisamos erradicar o analfabetismo, formar cidadãos capazes de discernir falsos cientistas, políticos, jornalistas, enfim, que usem de recursos tecnológicos que contribuam para seu crescimento. A letra cursiva hoje é Arte, não precisa ensinar uma criança a usá-la, precisamos ensiná-la a entender se será necessária para sua vida ou não.

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  8. O importante é ter letra legível e boa ortografia. Quando estudava lembro de tantas meninas com letra bonita, mas escreviam tantas palavras erradas, pontuação péssima, bem como deficiência nas demais disciplinas.

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  9. Acho que não se deve EXIGIR que as crianças saibam escrever em letra cursiva, porém entendo ser fundamental que se ensine, que as crianças saibam que existe.

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