terça-feira, 15 de maio de 2012

Desenvolvimento Neural e Comportamental na Adolescência



ADOLESCÊNCIA: LAPIDAÇÃO SINÁPTICA E MIELINIZAÇÃO AXÔNICA

         O processo que forma uma grande massa de conexões sinápticas durante a infância apresenta seu ápice durante os 8 a 10 anos de idade, quando começa a se estabelecer o período da pré-adolescência, este momento já nos alerta de que transformações dramáticas no corpo e no cérebro irão acontecer.

            Até o século XIX, a adolescência se estabelecia em termos biológicos aos 16, 17 anos, socialmente, era um fenômeno bastante negligenciado pelo ocidente, tendo em vista que mesmo antes de deixar de ser criança muitas pessoas já estavam no mercado de trabalho. Esta idade caiu para 12,5 anos no Brasil durante a década de 1970 e parece estar ocorrendo cada vez em mais tenra idade.

            O corpo de meninos e meninas começa a armazenar energia na forma de lipídios na camada de pele denominada hipoderme, cujos adipócitos, células especializadas em armazenar ácidos graxos e triglicerídeos, aumentam o seu volume. Isso já pode ser visualizado durante a pré-adolescência. Com mais lipídios armazenados na hipoderme deve haver um mecanismo para comunicar isso ao cérebro, como as moléculas de lipídios são muito grandes para passar a barreira hematoencefálica, àquela barreira entre o sangue e o tecido nervoso, produzida pelos capilares sangüíneos e pelos astrócitos, uma outra molécula denominada Leptina, produzida pelos adipócitos à medida que acumulam lipídios, passa a barreira e informa o hipotálamo destas reservas.

         O hipotálamo, como discutido em outros tópicos do caderno de estudos, é a porção do diencéfalo que controla todas as glândulas do corpo, e que, graças ao aumento da leptina passa a reativar o eixo Hipotálamo-hipófise-gônadas, ativo no início da infância. Mais lipídios, mais leptina, significa um corpo preparado para uma gestação e o cuidado das crias no caso das meninas e um corpo preparado para defender o território, competir pelo acesso às fêmeas e mesmo a dominância do bando. No entanto, maior exposição e estimulação erótica podem diminuir a idade média da menarca em meninas, bem como fatores genéticos são determinantes da faixa etária em que adolescentes de ambos os sexos apresentam a puberdade (Sisk e Foster, 2004).

           O fenômeno da adolescência estabelecido leva a alteração brusca e extensa do corpo e da mente. Em um primeiro momento a ativação do eixo hipotálamo-hipófise-gônadas propicia a produção e liberação de testosterona nos meninos e de estrógenos nas meninas, de grande relevância para determinar os caracteres sexuais secundários próprios desta faixa etária. Os meninos passam a produzir espermatozóides, a testosterona define melhor os músculos (maior síntese de proteínas) promove também o espessamento das cordas vocais, o aumento de pelos nas pernas, região pubiana e aparecimento da barba, uma agressividade em relação a outros machos aumentada, bem como um desejo por sexo. Nas meninas, a ativação do eixo promoverá a menarca, a primeira menstruação, desenvolvimento de pêlos na região pubiana principalmente, aumento dos seios e dos quadris, uma maior síntese de lipídios e aumento do desejo sexual. Um estirão do crescimento é comum neste período. Em termos neurais as principais ocorrências são as podas sináptica, uma perda de até 30% dos neurônios e sinapses e a mielinização axônica proeminente nas áreas mais utilizadas (Herculano-Houzel, 2005; Giedd et. al., 1999) como pode ser visto no esquema.



Representação esquemática dos processos de exuberância sináptica da infância, poda sináptica da adolescência e a mielinização axônica entre a adolescência e a fase adulta.
FONTE: FRIEDRICH, G. e PREISS, G. Educar com a cabeça. Viver: Mente e Cérebro, XIV(157), 2006.p.55.

          O estirão do crescimento que marca a adolescência no seu início promove uma perda da identidade corpórea. Isso ocorre por termos na região do córtex parietal o mapa somatotópico, um mapa cortical da topografia do nosso corpo. O corpo muda de configuração mais rápida do que o cérebro tem condições de mapear, e a representação do corpo no cérebro fica reduzida em proporção às diversas partes do corpo. As conseqüências são os desastres na mesa do jantar, pois o cérebro comanda um braço e uma mão maiores do que os representados por ele, e são comuns os adolescentes derrubarem coisas à mesa. O andar desajeitado de muitos adolescentes, e a postura por vezes arqueada de gente que cresce rápido e vertiginosamente também são característicos deste momento do desenvolvimento. De forma similar as mulheres grávidas esbarram o ventre com freqüência nos objetos e móveis, pois a representação do ventre na mente é diferente da extensão e formato do mesmo.

          Adolescentes adeptos de esporte com regularidade e que tocam algum instrumento musical irão superar esta perda da identidade corpórea mais rápida, pois o cérebro promove com mais sintonia e agilidade o ajuste das representações que forma do corpo. O comportamento corriqueiro de se prostrar na frente do espelho verificando cada pedaço do rosto e do corpo parece estar em sintonia com esta necessidade de ajuste de uma imagem corpórea, os meninos verificando a espessura e rigidez dos músculos e as meninas atestando o formato e tamanho dos seios, pernas e nádegas, e ambos os sexos olhando muito o rosto, agora um pouco transformado e muitas vezes com as famigeradas espinhas e cravos que tanto mal fazem para a auto-estima já ferida de um corpo que não é mais o de criança, mas que tampouco é de um adulto; um corpo em transformação radical.

          Juntamente com a perda da identidade corpórea e amplificada por esta, ocorre a perda da identidade social. O adolescente não é mais criança e ao mesmo tempo é tratado por muitos como o sendo, também não é ainda adulto e apresenta desejos e necessidades parecidos com um adulto. O estabelecimento de uma identidade social ocorre principalmente no contato com outros de sua mesma faixa etária, o que pode ser inferido do ponto de vista evolucionista. No passado primitivo humano e em muitas outras espécies de mamíferos, os indivíduos juvenis do bando devem dispersar, formando novos bandos ou ainda migrando para bandos já estabelecidos. Isso ocorre em particular quando meninos passaram a produzir espermatozóides e a desafiar a hierarquia e mesmo ameaçar o acesso privilegiado de outros machos adultos a sexo. O mesmo ocorrendo com as meninas que deveriam competir por recursos para seus futuros filhotes, caso viessem a acasalar com os machos do bando.

           A puberdade e o período da adolescência eram momentos decisivos para ser convidado a se retirar do bando, isso explica em muitas medidas a necessidade que os jovens têm de formar grupos (as tribos urbanas são exemplos marcantes deste comportamento) e também o motivo pelo qual muito se escondem quando estão em público com seus pais e são vistos por um colega, o que lhes parece uma vergonha, afinal: “está pensando que eu ainda sou criança”. Muitos dos comportamentos de revolta apresentados pelos adolescentes retratam uma necessidade neural de criar a sua visão de mundo e não mais incorporar a visão de mundo dos pais e das gerações agora “ultrapassadas”. As tribos urbanas refletem esta necessidade por espaço, por uma ideologia. A música parece ter um efeito também mediador deste processo na medida em que movimenta o corpo por meio da dança, melhorando a imagem corpórea, e se for a alto som e na companhia dos amigos, melhor, pois facilita esta integração entre imagem corpórea e imagem social, o que lembra a frase que acompanha todos os discos da banda Legião Urbana: “ouça no volume máximo”.

            Uma das conseqüências mais fortes da adolescência é a perda de até 30% das sinapses do núcleo acumbente, área do córtex relacionada ao prazer. Esta redução considerável de sinapses dopaminérgicas faz com que o adolescente se engaje nos chamados comportamento de risco, relacionados aos prazeres consumatórios: não basta pensar em sexo, tem que fazer sexo, não dá mais prazer brincar de roda, mas sim esportes radicais, aquela transa em um lugar bem perigoso, correr em alta velocidade de carro e o uso de drogas psicoestimulantes, principalmente cocaína e anfetaminas. Ou seja, 30% menos sinapses do prazer significa atividades que possam liberar uma quantidade maior de dopamina para suprir as demandas de um cérebro carente. A principal conseqüência é que o jovem passa a procurar novidades, passa a procurar os riscos que o conduzirão a fase adulta, caso contrário nosso cérebro continuaria fazendo as mesmas coisas da infância e não amadureceria. Outra característica disso é o tédio e a falta de motivação da idade; é necessária maior estimulação para ativar um cérebro carente de prazer.

        A diminuição das áreas de recompensa do cérebro expõe os adolescentes aos comportamentos impulsivos próprios da idade, mas principalmente ao uso de drogas de abuso, entre elas o álcool, as drogas estimulantes, que aumentam as concentrações de dopamina na fenda sináptica e o tabaco, que coopta amplas áreas do cérebro, incluindo os sistemas de recompensa e apresenta alto potencial aditivo.

               Por último, a adolescência é marcada pelo processo de mielinização axônica, ou seja, depois da poda sináptica é chagada a hora de reforçar aquelas vias neurais que continuaram a ser usadas, afinal, se estão sendo usadas deverão continuar servindo no futuro. Um bom exemplo para se fixar estes processos de desenvolvimento neural é a busca pelo prazer, se aprendemos desde pequeno a sentir prazer com coisas simples, formamos sinapses para estes prazeres, mesmo que diminua a quantidade destas no cérebro adolescente, as que sobram podem ser mielinizadas, portanto, reforçadas e mais rápidas ao longo do processo, originando adultos também mais simples nas suas buscas pelo prazer.

              A adolescência será um período de exercícios de tudo aquilo que nós seremos na fase adulta, um período de maturação das vias neurais construídas ao longo da infância e um instante para delegar um segundo plano para aquilo que já não havia sido muito estimulado durante o início do processo. Neste sentido, há um jargão em neurociências de que “menos é melhor”, que vale também para a memória, num sentido de que precisamos “esquecer para lembrar”.

           Para Giedd e seus colaboradores (1999) a adolescência num sentido neural pode se estender até os 30 anos de idade, momento no qual o córtex pré-frontal e as áreas de tomadas de decisões sofrem por último seus processos de mielinização. É quando conseguimos antecipar os resultados danosos dos nossos atos e projetar nossas vidas a mais longo prazo.


REFERÊNCIAS:

FRIEDRICH, G. e PREISS, G. Educar com a cabeça. Viver: Mente e Cérebro, XIV(157), p.50-57, 2006.
GIEDD, J. N., BLUMENTHAL, J., Jeffries N. O., CASTELLANOS, F. X., Liu H., ZIJDENBOS, A., Paus T., EVANS A. C., RAPOPORT J. L. Brain development during childhood and adolescence: a longitudinal MRI study. Nature Neuroscience 2:861-863, 1999.
HERCULANO-HOUZEL, Suzana. O cérebro em transformação. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.
SISK, Cheryl L. e FOSTER, Douglas L. The neural basis of puberty and adolescence. Nature Neuroscience. 7(10):1040-1047, 2004.

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