domingo, 6 de maio de 2012

SUPERANDO BARREIRAS PARA INTERAGIR COM OS DEFICIENTES VISUAIS


Ana Lúcia Hennemann - Maio/2012
  Fonte imagem: http://colormehouse.wordpress.com/page/6/

Refletir sobre a educação de um aluno cego na escola regular nos faz pensar de que forma isso pode acontecer. Muitas são as barreiras a serem superadas para que o início da aprendizagem propriamente dita ocorra, entretanto uma das barreiras iniciais se encontra “instaladas” em nós educadores. O que fazer? Como o fazer? De que maneira fazer?
Confesso que antes de estudar sobre a  “Deficiência Visual”, tinha uma vaga ideia de que os alunos com tais necessidades pudessem aprender através do Braille, porém existe uma diferença entre saber e o saber fazer. O manuseio do material da escrita Braile me proporcionou saberes diferenciados, serviram de “válvula de conhecimento”, iniciação a prática do saber fazer. Removeram barreiras do medo, pois me deram segurança de que se por ventura eu tiver a oportunidade de interagir com um aluno com deficiência visual possa assim ter perspectivas de contribuir com um ótimo trabalho.
Também por outro lado, percebo a importância de identificar em nossos educandos problemas visuais e dessa forma encaminhá-los ao oftalmologista como medida de prevenção. Por isso se faz necessário conceituar o que é Deficiência Visual.
Segundo Santos (2008, p.127) em estudos realizados pela Organização Mundial da Saúde,
O termo deficiência visual refere-se a uma situação irreversível de diminuição da resposta visual, em virtude de causas congênitas ou hereditárias, mesmo após tratamento clínico e/ou cirúrgico e uso de óculos convencionais. A diminuição da resposta pode ser leve, moderada, severa, profunda ou ausência total da resposta visual.
Entretanto se faz necessário ter conhecimento a respeito da acuidade visual, pois segundo a Wikipédia: 
Acuidade visual (AV) é uma característica do olho de reconhecer dois pontos muito próximos. Vários fatores especificam a esta acuidade, em especial, a distância entre os foto-receptores na retina e também da precisão da refração.Ela é determinada pela menor imagem retiniana percebida pelo indivíduo. Sua medida é dada pela relação entre o tamanho do menor objeto (optotipo) visualizado e a distância entre observador e objeto. A diminuição da acuidade visual causa importante déficit (défice) funcional e considerável morbidade a seus portadores. Seu reconhecimento é importante, pois na maior parte das vezes tal deficiência pode ser corrigida com terapêutica adequada. A acuidade visual pode ser medida através de escalas optótipos.(WIKIPÉDIA, 2011)

Existem testes de acuidade visual[1] que podem ser realizados por qualquer indivíduo, sendo que educadores podem utilizá-los como medida de prevenção para identificar possíveis problemas visuais e desta forma encaminhar o educando para o atendimento especializado, ou seja, o oftalmologista.
O Sistema Braille é um sistema que tem como objetivo suprir boa parte das limitações das pessoas que apresentam deficiência visual, a escrita desse sistema é feita em auto-relevo, facilitando a leitura tátil. Conforme Santos (2008) o Braille é muito importante para os deficientes visuais não só pelo processo de alfabetização em si, mas também por ele ser um meio de que estes indivíduos possam expressar suas sensações, sentimentos e sonhos. Conforme definição da mesma autora,
O Braille é constituído de combinações de pontos em alto relevo, sendo que, cada combinação corresponde a um caractere diferente formando, ao todo, 63 sinais, dentre os quais são encontradas letras, números, sinais de pontuação, símbolos matemáticos, notas musicais, etc.(SANTOS, 2008, p. 163)

Como forma de contemplar o aprendizado matemático dos indivíduos com deficiência visual, o Sorobã serve de instrumento indispensável para que tal objetivo seja atingido. Entretanto ele não executa as operações matemáticas, mas sim é um meio que proporciona a realização das mesmas. O sorobã na verdade é um ábaco de origem japonesa que foi adaptado por Joaquim Lima de Moraes, onde Florência (2008) comenta toda a trajetória deste professor a fim de adaptar o sorobã para o uso dos deficientes visuais,
O primeiro brasileiro a se preocupar com as ferramentas de que os cegos dispunham para efetuar cálculos em nosso país foi o professor Joaquim Lima de Moraes. Uma miopia fez com que ele interrompesse seu curso ginasial e após 25 anos, em 1947, matriculou-se na Associação Pró-Biblioteca e Alfabetização para aprender o Sistema Braille. Por ser a matemática uma de suas matérias prediletas, após aprender o Sistema Braille, voltou sua atenção para o modo de calcular dos cegos. Na época, existia disponível o cubarítmo[2], a chapa a e a prancheta Taylor. As dificuldades observadas por Moraes para os cegos operarem esses instrumentos foram impulsionadoras de sua busca por um aparelho que tornasse essa atividade mais ágil e prazerosa.  Em suas pesquisas por um aparelho de custo acessível e que trouxesse facilidade e mais rapidez para a realização de cálculos por pessoas cegas, Moraes soube da existência do sorobã ou ábaco japonês. Em seus primeiros contatos com esse contador mecânico, ele percebeu a leveza e a mobilidade das contas nos eixos, constatando que seria difícil para uma pessoa cega manipular as contas que deslizariam a um simples toque dos dedos. Este primeiro obstáculo foi um incentivo para o aprofundamento de seus estudos. [...] O ano de 1949 foi decisivo para as adaptações do sorobã para pessoas cegas e de baixa visão. Em janeiro daquele ano, Moraes recebeu os três primeiros sorobãs adaptados e em julho, juntamente com seu aluno e amigo José Valesin, procedeu à modificação consagrada, que consistiu na introdução da borracha compressora, a qual resolveu a dificuldade dos cegos em manipular esse aparelho. A inserção da borracha permitiu finalmente que os cegos pudessem empurrar as contas com mais segurança e autonomia para representar os valores numéricos conforme as operações a serem efetuadas.(FLORENCIO, 2008, p.25)

No atual contexto educacional brasileiro se faz necessário uma adaptação curricular voltado a melhoria do atendimento aos educando com deficiência visual. Muitas já foram as conquistas a esse respeito, o sistema Braille, o Sorobã... Entretanto a deficiência visual nos mostra que dispomos de inteligências múltiplas que muitas vezes  não são utilizadas, e que precisamos estar preparados para todas as formas de aprendizagens.
Se os educadores não estiverem buscando melhor qualificação no atendimento aos  educandos com necessidades especiais de nada irá adiantar o esforço realizado por estes indivíduos. Se faz necessário uma busca contínua e progressiva no sentido de melhorias curriculares, novas formas de perceber o ambiente escolar. A escola hoje projetada para os videntes necessita de novas formas que contemple a toda e qualquer necessidade especial.
As adaptações curriculares devem abranger a todos os sentidos que o ser humano dispõe, mesmo que o educando não apresente nenhuma necessidade especial, com certeza ele também terá um ganho maior se todos os seus sentidos forem contemplados. Por exemplo, para um aluno com deficiência visual, a hidrografia será apresentada com relevo, a matemática: com o sorobã, as imagens: com textura, mapas táteis,  o computador com programas que contemplem a utilização do mesmo, por indivíduos com necessidades especiais, enfim, as adaptações que são feitas a uns, são ganhos para todos.
A deficiência visual em qualquer grau faz com que o indivíduo tenha dificuldade em se orientar e de se movimentar no ambiente com segurança e de forma independente. Então, se faz todo um trabalho para que este indivíduo consiga adquirir tal aptidão. A orientação e mobilidade da pessoa que perdeu a visão e a própria execução de tarefas do dia-a-dia necessita de muito aprimoramento dos demais sentidos, além de grande capacidade de concentração e atenção. Alguns possuem um vidente ao seu lado, outros a bengala longa, e em outros casos há a possibilidade do cão-guia. Segundo Gil (2000, p.13) na Cartilha sobre Deficiência Visual,
O desenvolvimento das habilidades de orientação e mobilidade, parte essencial do processo educacional de qualquer criança deficiente visual, precisa começar desde cedo, em casa, com o apoio dos pais. Depois, o treinamento continuará na escola, com o professor especializado.

Existem relatos de casos em que crianças cegas são trancadas em casa, pois os pais temem que possam se machucar, se perder e demais fatos relativos a estes. Por aí podemos perceber o quanto ainda se faz necessário todo um trabalho no contexto familiar antes de que se consiga chegar ao educando. Quantos anos de estímulos estas crianças perdem quando estão dentro deste tipo de ambiente familiar.
Gil(2000) também nos alerta que as famílias tem tendência a prolongar seus momentos de angústia, negação, frustração e desesperança por não dispor de interlocutores com os quais possam se identificar e discutir seus problemas. Sendo assim,  necessitam de programas onde possam conversar e compartilhar não somente seus sofrimentos, mas sim seus momentos de alegria e de vitória.
A caminhada da inclusão precisa ser intensificada almejando maior esclarecimento, menos sentimento de que “fulano é um coitadinho, não consegue fazer isso, ou aquilo”, precisamos levantar a bandeira de que quase tudo é possível, basta modificarmos os caminhos.


[1]          Este exame pode ser feito no consultório médico, na escola, no local de trabalho ou em qualquer outro    lugar. A pessoa deve ficar em pé, atrás de uma linha imaginária distante 6 m da tabela de teste, e retirar os óculos ou lentes de contato. Os olhos são mantidos abertos, cobrindo-se um dos olhos com a palma da mão, ou um pedaço de papel enquanto a pessoa lê a menor linha de letras que ela possa ler da tabela, em voz alta. Se o paciente não estiver seguro quanto às letras, ele poderá adivinhar. O procedimento deve ser repetido com o outro olho e posteriormente usando os óculos ou as lentes de contato.

[2]          O cubarítmo foi largamente usado pelos cegos no Brasil. Trata-se de uma caixa com uma grade metálica onde são dispostos pequenos cubos, em que se armam as contas de maneira como os videntes às efetuam com lápis e papel. Os cubos fabricados em plástico têm cinco de suas seis faces, impressos em alto relevo, os dez primeiros caracteres do Sistema Braille que representam os algarismos sem o sinal de número. Na sexta face de cada cubo há um traço, usado para representar os sinais de operação e outros. Os cubos são manipulados pelo aluno que deve armar toda a conta antes de realizá-la. Caso os cubos caiam ou a própria caixa vá ao chão, o cálculo será todo desfeito, sendo uma dificuldade a mais para o aluno que teria de encontrar os cubos e colocar tudo em ordem novamente. O sorobã, por ter suas contas fixas nas hastes, evita esse inconveniente, sendo os valores rapidamente modificados.
  
REFERÊNCIAS:
FLORENCIO, Mariana Aguiar. Matemática Braille: a utilização do sorobã. São Paulo: FAI, 2008.
GIL, Marta. Deficiência Visual.Brasília: MEC, 2000. 
SANTOS, Fabiana. ROSA, Suely Pereira da Silva. Fundamentos Teóricos e Metodológicos da Inclusão. Curitiba:IESDE Brasil S.A., 2008. 
WIKIPÉDIA. Acuidade Visual. Disponível on line em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Acuidade_visual. Último acesso em 09 de abril de 2011.

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