sábado, 11 de agosto de 2012

Olhe para mim professora!




"Sabe...Eu sou aquela criança que senta num cantinho qualquer da aula, de roupinhas velhas, rostinho feio, cabelos sem brilho e quase não fala.
Sabe... Eu sou aquela criança que nunca traz uma merenda gostosa pra poder lhe dar um pedacinho, aquela criança que não lhe dá os desenhos bonitos porque só tem lápis preto para colorir.
Sabe... Eu sou aquela criança que nunca ganhou um colinho do papai, que nunca ganhou ovinhos de Páscoa, a não ser os que a senhora me dá.
Sabe... Eu sou aquela criança que muitas vezes traz o tema mal feito, porque a mesa lá de casa é um caixote de madeira, que sacoleja todo quando a gente escreve, aquela criança que a senhora nem nota, que nunca chega perto porque não tem cheirinho de perfume.
Sou aquela criança que a senhora reclama sempre que não é como as outras, aquela que lhe traz com carinho uma florzinha murcha, que a senhora finge gostar, mas que acaba esquecendo sobre a mesa.
Sou, enfim, professora, aquela criança que gostaria de ser como as outras, mas não é; que gostaria de receber um sorriso, mas não recebe; que gostaria de receber um "parabéns", que gostaria de lhe dar flores bem lindas para que a senhora se orgulhasse de mim.
Mas, assim mesmo eu lhe peço me aceite como sou, gosta de mim como a senhora gosta dos outros, preste atenção em mim, não me vire as costas, acredite em mim. Porque eu queria ser importante para a senhora. Porque eu sou aquela criança feinha e sem graça, que senta num cantinho qualquer da sala e que, se a senhora tiver um tempinho para prestar atenção em mim, verá em meus olhos sem brilho um brilho de esperança, na espera de uma chance para poder lhe dizer:
"OLHE PRA MIM, PROFESSORA, PRECISO DE VOCÊ!"

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