"Sabe...Eu sou aquela criança que senta num cantinho
qualquer da aula, de roupinhas velhas, rostinho feio, cabelos sem brilho e
quase não fala.
Sabe... Eu sou aquela criança que nunca traz uma merenda
gostosa pra poder lhe dar um pedacinho, aquela criança que não lhe dá os
desenhos bonitos porque só tem lápis preto para colorir.
Sabe... Eu sou aquela criança que nunca ganhou um colinho do
papai, que nunca ganhou ovinhos de Páscoa, a não ser os que a senhora me dá.
Sabe... Eu sou aquela criança que muitas vezes traz o tema
mal feito, porque a mesa lá de casa é um caixote de madeira, que sacoleja todo
quando a gente escreve, aquela criança que a senhora nem nota, que nunca chega
perto porque não tem cheirinho de perfume.
Sou aquela criança que a senhora reclama sempre que não é
como as outras, aquela que lhe traz com carinho uma florzinha murcha, que a
senhora finge gostar, mas que acaba esquecendo sobre a mesa.
Sou, enfim, professora, aquela criança que gostaria de ser
como as outras, mas não é; que gostaria de receber um sorriso, mas não recebe;
que gostaria de receber um "parabéns", que gostaria de lhe dar flores
bem lindas para que a senhora se orgulhasse de mim.
Mas, assim mesmo eu lhe peço me aceite como sou, gosta de
mim como a senhora gosta dos outros, preste atenção em mim, não me vire as
costas, acredite em mim. Porque eu queria ser importante para a senhora. Porque
eu sou aquela criança feinha e sem graça, que senta num cantinho qualquer da
sala e que, se a senhora tiver um tempinho para prestar atenção em mim, verá em
meus olhos sem brilho um brilho de esperança, na espera de uma chance para
poder lhe dizer:
"OLHE PRA MIM, PROFESSORA, PRECISO DE VOCÊ!"

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