Confesso que depois que conheci a Gê sonhei com ela, ou seria... com elas???
Através do texto
abaixo, meu olhar de neuropsicopedagoga se expandiu, mas em sala de aula sou
somente professora, entretanto tudo que vi e ouvi da Gê teve conexão, não pude deixar
de fazer links, de imaginar o que se passava ali. Porém, tudo isso você vai
entender no final, o que interessa agora é te apresentar a Gê...
Faça como meus alunos, leia os dois primeiros parágrafos e
entre o 2º e o 3º dê uma pausa e tente dizer como você imaginou a Gê...
Duvido…
- Daiana Campani de Castilhos
Não me lembro exatamente do dia em que conheci a Gê. Acho que
ninguém nos apresentou oficialmente. Ela morou em frente à casa da minha vó
Nilse, em Tramandaí, e nós simplesmente fomos crescendo e nos conhecendo. Está
certo que ela era um pouco mais velha do que eu, mas isso nunca importou. A
cada ano que passava, eu gostava mais dela e, durante os meses na cidade, a
saudade apertava. Sim, porque a Gê morava
na praia com a família; eu nunca poderia encontrá-la na cidade grande. Para
agravar a saudade, era raro irmos fora da época do veraneio para a praia. Uma
vez, ou outra, meu pai, minha mãe ou minha vó iam apenas cortar a grama ou
abrir a casa e diziam para eu ficar na casa de algum parente na cidade. A
desculpa era que a visita seria coisa rápida e que não daria para aproveitar o
mar por causa do frio. Mar???? Para mim, o mar era o que menos importava. O que
eu mais queria era ver a Gê.
Brincávamos tanto durante a temporada!! Ela, minhas irmãs e
eu... Ela sempre estava acompanhada de algumas parentas de sua idade, mas das
outras eu nem lembro bem o nome. Eu só tinha olhos para ela. Ela era a mais
linda, a mais simpática, a mais receptiva. Com ela, eu me imaginava sendo tanta
coisa! Quantas tardes inteiras passei na companhia dela. E quantos picolés nós
comemos! Esperávamos o tiozinho do sorvete passar e nos divertíamos tanto!
Quantas cucas e sonhos que a minha avó fazia eu comi na companhia dela. Até
das rodas de chimarrão com os adultos nós participávamos.
Porém, um dia, quando finalmente chegou o mês de dezembro e
nós fomos para a praia, levei um choque: a Gê simplesmente não estava mais lá.
Nem ela, nem ninguém de sua família. Eu não quis acreditar que minha vó tinha
feito isso comigo e com ela! “Vó, por que, vó? Por que cortar a Gê, vó?” A vó
Nilse veio com uma explicação para o inexplicável. Disse que a Gê era um tal de
pinus e que suas raízes estavam muito
altas para a casa. Nenhum carro conseguia mais entrar direito na garagem por
causa dela. Além disso, me disse que as folhinhas que caíam dela não deixavam
crescer grama boa no chão.
Carros? Grama? Desde quando eles eram mais importantes que a
Gê? Carros e gramas não tinham o tamanho dos galhos da Gertrudes, que possuía
as medidas perfeitas para mim e para minhas irmãs. Subíamos nela sem nenhuma
dificuldade. Os galhos delas pareciam ser branquinhos feitos pela natureza só
para nós. Desde lá, o veraneio não teve mais graça. A vó disse que logo, logo
eu teria uma outra árvore para brincar. Ela colocou no lugar de Gê um... um... tal
de ... Joãobobalhão... Joãobobão... Jambolão. Diz que faz uma sombra também.
Mas duvido que o Joãobobalhão do Jambolão tenha os mesmos galhos perfeitos da
gê. Duvido... Até porque, quando ele chegar no tamanho da Gê, eu não vou mais
ter idade para subir em árvores...
Pois é, essa era a Gê! Foi uma euforia quando descobriram e
falaram como se sentiram nessa descoberta, mas o que me deixou em estado de
alerta foi a próxima atividade. Tiveram que desenhar a Gê.
Cada um refletiu uma Gê com muitos significados: raízes profundas... sem raízes, árvores com
muita copa, árvores desfolhadas, galhos partidos, galhos cortados, galhos muito
grossos, galhos finos, buracos profundos no tronco da árvore...e estas Gês
mexeram comigo, quantidade de galhos de cada desenho relativos à quantidade de
pessoas significativas para cada criança, estas árvores tinham vida,
expressavam sentimentos, profundos sentimentos de cada um.
Quantas impressões, quantos significados, numa simples atividade
conseguimos perceber fatos importantes da vida de cada um. Os desenhos sempre
nos mostram a subliminaridade, aquilo que está intrínseco em cada indivíduo.
Como coloquei no início, em sala de aula, sou apenas uma simples professora, mas
meu olhar se torna diferente, não posso pensar somente na aprendizagem, é
preciso ver o que aquele desenho me revelou, me mostrou, porque aquela
aprendizagem está difícil ou porque ela é muito fácil.
Mas se quiserem passar pelo tamanho desta percepção...basta
perguntar à seus alunos: Você conhece a Gê????
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| Texto extraído do Projeto Ler 2012 nº 2 - Ano X |




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