quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Resenha Um discurso sobre as Ciências na transição para uma ciência pós-moderna

Por Ana Lúcia Hennemann- setembro /2012   

Santos (2008) em “Um discurso sobre as ciências” nos traz apontamentos relativos sobre as ciências, o progresso, nossos valores... O autor aponta, inicialmente, que nos encontramos em uma fase de transição entre "tempos" científicos, tempos de perplexidade, exemplificada pela metáfora do vaso da Gestalt,

“olhando a mesma figura, ora vemos um vaso grego branco recortado sobre um fundo preto, ora vemos dois rostos gregos de perfil, frente a frente, recortados sobre um fundo branco. Qual das imagens é verdadeira? Ambas e nenhuma. E esta a ambiguidade e a complexidade da situação do tempo presente, um tempo de transição, síncrone com muita coisa que está além ou aquém dele, mas descompassado em relação a tudo o que o habita. (SANTOS, p.46, 2008)


Por outro lado, utiliza-se do exemplo de Rousseau, que na obra "Discours sur Le Sciences et lês Arts", de 1750, que buscou respostas por meio de perguntas elementares e simples, mas que também apontava para a ideia de que não haveria respostas para tudo. Sendo assim, Santos (2008) enfatiza que continuamos a viver em um tempo atônito, e se nos voltarmos para os progressos científicos dos últimos trinta anos, nos deparamos com uma ordem tão dramática de avanços que todo o período anterior parecerá uma pré- história longínqua. Vivemos uma sociedade sem limites para o progresso científico, uma sociedade de comunicação e interação, mas que convive com conflitos que não sabe mais distinguir do que é útil para o que nos deixa feliz.
O autor sistematiza seu discurso em 3 enfoques importantes: - o primeiro, refere-se ao paradigma dominante ou paradigma da modernidade; - o segundo, destaca a crise do paradigma dominante, que estamos vivendo atualmente; - o terceiro, aponta quatro aspectos ou teses essenciais de um paradigma emergente.
No paradigma dominante, Santos (2008) inicia afirmando que a própria ciência ao se aprofundar começa a observar que o alicerce fundador de sua estrutura não tem base sólida, sendo que questiona a estrutura deste modelo científico desenvolvido a partir do século XVI e que ao longo dos anos foi fortalecendo-se. Esta estrutura científica compromete-se unicamente com uma forma singular de se buscar o conhecimento verdadeiro, baseando-se em seus princípios epistemológicos e em metodologias restritas. Caracterizando-se como um modelo autoritário e que não corresponde às necessidades humanas, opondo-se duramente ao senso comum e afastado da natureza e das carências humanas.
Na crise do paradigma dominante, que segundo Santos (2008) decorrente da interatividade de uma série de condições teóricas e sociais, sendo que o mesmo aponta quatro condições teóricas que contribuíram para esta crise: - a teoria da relatividade de Einstein; - a mecânica quântica; - o questionamento do rigorismo matemático; - o avanço do conhecimento nas áreas da microfísica, química e biologia na segunda metade do século XX.
No paradigma emergente Santos (2008) também apresenta quatro hipóteses básicas: - todo conhecimento científico-natural é científico social, no sentido de que o novo paradigma deve romper com a dicotomia ciências naturais/ciências sociais, a fim de que se revalorizem os estudos humanísticos; - todo conhecimento local é total, no sentido de que a especialização do conhecimento gera a criação de ignorantes especializados, sendo necessária exploração circular entre a relação do conhecimento local (especializado) em face do total; - todo conhecimento é autoconhecimento, no sentido que temos muitos saberes científicos que devem nos ensinar a viver e traduzir-se num saber prático ; - todo o conhecimento científico visa constituir-se num novo senso comum, no sentido de que  o conhecimento científico deva fundamentar-se na conciliação de diversas áreas das ciências existentes da atualidade, enfatizando a interdisciplinaridade e transdisciplinaridade para alcançar uma dimensão mais aproximada do real.  
Ao analisar as propostas do autor percebe-se que transpassa uma sensação de desacomodação, inquietude frente aquilo que pensamos. Nossos valores e tudo o que nos cerca, nossas certezas são incertas, pode-se comparar tais reflexões com as do autor Otto Maduro, no seu livro intitulado “Mapas para a festa”, onde ele faz estes mesmos questionamentos, mas numa outra abordagem, sendo que de certa forma ele questiona sobre o valor de nossos conhecimentos se dentro de uma diferente cultura não conseguimos utilizá-los, e Santos nos arremete a isso, a nos questionar o porque de ter tanto, querer saber tanto, investir tanto, mas  o que fazer com tudo isso, quais melhorias que iremos trazer para as nossas vidas e a das pessoas que nos rodeiam? Diante a tantos paradigmas, qual a certeza de nosso futuro que se mostra incerto?
 Não tendo tanta propriedade de conhecimento quanto ao autor, mas divagando na atualidade, pode-se perceber que muito daquilo que tínhamos como certo, já não é mais tão certo: - casamento, - meios de comunicação, - doenças terminais e outros, sendo assim, creio que a própria Psicologia Social está aí, para fazer-nos perceber que todo conhecimento adquirido pelo homem deve primar por uma melhoria na sua qualidade de vida, mas que devemos estar abertos, perceber as mudanças, romper paradigmas e perceber que não existe uma única verdade. O mundo é multifacetado, tudo depende de qual prisma se está olhando.
  

REFERÊNCIA:

SANTOS, Boaventura de Souza. Um discurso sobre as ciências. São Paulo: Cortez, 2008.

2 comentários:

  1. Gostei da sua resenha, Ana, muito útil e bem explicada.

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