segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Felicidade

Já se passaram quase 30 anos, mas até hoje lembro a euforia de nossa “entrevista” com Lya Luft. Éramos apenas alunas do Ensino Médio, 2º grau na época, mas conseguimos ir à casa da autora e enriquecer nosso trabalho escolar. Quando li o texto abaixo, me lembrei deste momento com muita alegria, e para mim FELICIDADE é isso, ter bons momentos para recordar, lógico, não viver somente de lembranças do passado, mas saber curtir o hoje, pois ele será tuas lembranças no amanhã...
  
FELICIDADE
Por Lya Luft, revista Veja, 17 de Agosto de 2011.

     Não se preocupem: não vou dar, pois não tenho, receita de ser feliz. Não vou querer, pois não consigo, dar lição de coisa alguma. Decido escrever sobre esse tema tão gasto, tão vago, quase sem sentido, porque leio sobre felicidade. Recebo livros sobre felicidade. Vejo que, longe de ser objeto de certa ironia atribuída somente a livros de autoajuda (hoje em dia o melhor meio de querer insultar um escritor é dizer que ele escreve autoajuda), ela serve para análises ? filosóficas, psicanalíticas. Parece que existe até um movimento bobo para que a felicidade seja um direito do ser humano, oficializado, como casa, comida, dignidade, educação.

     Mas ela é um estado de espírito. Não depende de atributos físicos. Nem de inteligência: acho até que, quanto mais inteligente se é mais possibilidade de ser infeliz, porque se analisa o mundo, a vida, tudo, e o resultado tende a não ser cor-de-rosa. Posso estar saudabilíssimo e infeliz. Posso ter montanhas de dinheiro, mas viver ansioso, solitário. Talvez felicidade seja uma harmonia com nós mesmos. com os outros, com o mundo. Alguma inserção consciente na natureza, da qual as muralhas de concreto nos isolam, ajuda. Mas dormimos de cortinas cerradas para não ver a claridade do dia, ou para escutar menos o rumor do mundo (trem passando embaixo da janela não dá). Tenho um amigo que detesta o canto dos pássaros, se pudesse mataria a tiro de chumbinhos os sabiás que alegram minhas manhãs. Um parente meu não suportava praia, porque o barulho do mar lhe dava insônia.
     Portanto, cada um é infeliz à sua maneira. Acho que felicidade também é uma predisposição genética: vemos bebês e criancinhas mal-humorados ou luminosos. Parte dela se constrói com projetos e afetos. O que se precisa para ser feliz?. Me perguntam os jornalistas. Melhor seria: O que é preciso para não ser infeliz? Pois a infelicidade é mais fácil de avaliar, ela dói. Concordo que felicidade e uma construção laboriosa quando se racionaliza: melhor deixar de lado, ela vai se construir apesar dos nossos desastres. Difícil ser feliz assistindo ao noticioso, refletindo um pouco, e vendo, por exemplo, que as bolsas despencam no mundo todo, os dinheiros derretem, muitas vidas se consumiram por nada, muita gente boa empobrece dramaticamente, muita gente boa enriquece (não direi que os maus enriquecem com a desgraça dos bons por que isso e preconceito burro). Enquanto a histeria coletiva solapa grandes fortunas ou devora pequenas economias juntadas com sacrifício, Obama, de quem ainda sou fã, aparece elegante e pronuncia algumas de suas frases elegantes, mas aparentemente não diz grande coisa porque na legenda móvel embaixo de sua bela figura as bolsas continuam a despencar. Vamos consumir. vamos poupar, vamos desviar os olhos, vamos fazer o que? Talvez em conjunto gastar menos, pensar menos em aproveitar a vida, e trabalhar mais – mas aí a gente reclama, queremos e trabalhar menos e gastar mais.
     Aqui entre nós, vejo uma reportagem sobre a gastança de nossas crianças e jovens. Gostei do tênis azul, do amarelo e do rosa, diz uma menininha encantadora. Ha, e do lilás também. Qual a senhora vai comprar?, pergunta a repórter. A mãe, também encantadora, ri: Acho que todos. Está decretada a dificuldade de ser feliz, pois se eu quero todas as cores, todas as marcas, todos os carros, todos os homens ricos e mulheres gostosas, preparo a minha frustração, portanto a infelicidade. Na ex-fleumática Inglaterra, bandos de jovens desocupados destroem bairros de Londres e cidades vizinhas. Seu terror são pobreza, desemprego, falta de assistência para os velhos e de futuro para os moços. Não há como, nessa condição, pensar em ser feliz. a gente quer mesmo é punir, destruir, talvez matar. Complicado.
     Uma boa rima para felicidade pode ser simplicidade. Ainda tenho projetos, sempre tive bons afetos. O que mais devo querer? A pele imaculada, o corpo perfeito, a bolsa cheia, a bolsa ou a vida? Acho que, pensando bem, com altos e baixos, dotes e amores, e cores e sombras, eu ainda prefiro a vida.

Um comentário:

  1. Texto assaz interessante. Obrigado, é um presente poder refletir num tema tão abrangível e abstrato quanto parece ser a tão " fantasiosa e utópica " felicidade. Pelo lado do texto, concordo que ela está na simplicidade. Moro no interior e aqui sou feliz quando vejo o por do sol no mirante da cidade, quando medito em beira à represa diante dos clarões de relâmpagos e sinto o vento soprar meu rosto, sem exageros, nesses momentos sou feliz, e como disse no texto, é a harmonia com si, com as outras pessoas e com o mundo. E a vida transcende a vaidade, pois nela que construímos projetos e sonhos, a vaidade só serve para destruirmo-nos de fora pra dentro, isso quando não destruímos afetos, que vai de encontro com a tese de harmonia com as outras pessoas.

    Grato!

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