terça-feira, 23 de outubro de 2012

Sobre a Alegoria da Caverna de Platão e o Contexto Educativo




Falar sobre a Alegoria da Caverna, descrita por Platão remete-se a vários contextos. A história original fala do questionamento de Platão sobre como a humanidade se perceberia estando livre. No link apresentado pelo vídeo “As sombras da Vida”(vide no final do texto), utilizando-se dos personagens de Maurício de Souza é possível perceber a alusão feita por Platão de forma moderna e atual, frente aos instrumentos de mídia dos quais se tem disponível.
Sendo assim, a pergunta que se faz é: que sombras seguimos? Padrões estereotipados de beleza, modo de ser, de agir, de estar no mundo. As sombras que seguimos são elencadas por nós, ou são a nós “embutidas”? E na educação? Será que o contexto escolar está livre desse preceito, ou será que é o mais escravizante de todos?
As cavernas existem, inclusive dentro do contexto educativo. Em muitos locais o próprio “educador” reproduz este mito da caverna, dono da verdade, usufruindo-se da metodologia de Skinner, faz com que seus alunos deem créditos somente ao seu saber, ao seu modo de ser, seu modo de pensar. Não há lugar para o diálogo, não há lugar para as dúvidas, existe meramente a reprodução do conhecimento. É uma educação tradicionalista, onde os alunos que por ali passarem serão ótimos reprodutores de informações, pois eles não foram induzidos à busca do conhecimento, não houve dúvidas, somente certezas trazidas pela figura do educador. E nesse momento questiona-se a sequencia desse sistema. Até onde se terá formadores de opinião, estudiosos, doutores e novos saberes? Quais serão os novos saberes a partir de pessoas que não pensam, não inovam, apenas reproduzem uma sombra de educação?
O mito da caverna mostra-se questionado em muitos filmes e livros nas diversas formas, citamos, por exemplo, o filme “Sociedade dos Poetas Mortos”, em que um educador instiga aos alunos para sua libertação, sair dos moldes pré-estabelecidos da sociedade daquela época, ir à busca dos seus sonhos, seus ideais, não aceitar tudo que lhes é transmitido. Leonardo Boff, na sua majestosa sabedoria conta a história da “Águia e a Galinha” onde fala da descoberta de cada um, quando consegue se libertar dos moldes da sociedade da qual o indivíduo está inserido. Também citamos o vídeo “ La Educación Prohibida”, o qual faz o retrato do Mito da Caverna, dentro do contexto educativo. E dentro do gênero musical, a banda Pink Floyd, que de certa forma fez um grande  questionamento sobre  as escolas e sociedades  reprodutoras de conhecimentos, enfatizado isso na música “Another Brick In The Wall”.


São muitos os aportes que poderíamos citar para elucidar tal mito, mas por outro lado nosso foco vem de encontro à proposta de Freire, a partilha de saberes, o diálogo entre o educador e o aluno. Uma estrutura, onde ambas as partes saem ganhando, por que ensinam e aprendem concomitantemente. Ninguém é dono da verdade. Ela é mutável e esta sempre em transformação. É construída diariamente, levando-se em consideração os anseios e desejos dos dois.
Reforçando a proposta de Freire, Cortella (2008, p. 159) nos apresenta um sábio ditado chinês convidando-nos a questionar sobre o que é partilhar saberes, é cada um carregar seu pão? Ou cada um dividir suas ideias?
...se dois homens vem andando por uma estrada, cada um carregando um pão, e, ao se encontrarem, eles trocam os pães, cada homem vai embora com um, porém, se dois homens vêm andando por uma estrada, cada um carregando uma ideia, e, ao se encontrarem, eles trocam as ideias, cada homem vai embora com duas.


Faz-se necessário romper os mitos da caverna, os mitos da alienação, devem ser estas as práxis de um verdadeiro educador. Os pães devem se transformar em ideias e com certeza se multiplicarem, sendo que ações tais como: a mediação do conhecimento, o despertar no aluno a curiosidade de aprender, a persistência, o despertar para o mundo todas são propostas de libertação. Cortella (2008) ainda traz o alerta de transformar as informações em conhecimento, pois estamos na era da tecnologia, da rápida disseminação de informações e isso exige perspicácia do educador para saber conduzir os educandos, se faz necessário torná-los questionadores, indivíduos que não aceitem tudo do modo que lhes é inserido, mas sim que consigam ultrapassar as barreiras às quais a realidade aparentemente apresenta.
Nesse fazer pedagógico também devem ser agregadas as ideias de Becker (2002) que questiona a figura do educador que não faz pesquisa, pois este é um educador que não tem o que ensinar. O verdadeiro educador é questionador, é pesquisador, vai à busca dos conhecimentos científicos, não se deixa contagiar pelo senso comum, sua práxis se volta para o rompimento dos mitos das cavernas e assim ele encanta seus alunos e nesse encantar eles também vem em busca dos seus próprios conhecimentos, suas pesquisas, suas descobertas.

Também dentro desta perspectiva Gadotti (2003, p.9) ressalta a figura do professor como um reorganizador de aprendizagens uma vez que:
Ser professor hoje é viver intensamente o seu tempo com consciência e sensibilidade. Não se pode imaginar um futuro para a humanidade sem educadores. Os educadores, numa visão emancipadora, não só transformam a informação em conhecimento e em consciência crítica, mas também formam pessoas. Diante dos falsos pregadores da palavra, dos marqueteiros, eles são os verdadeiros “amantes da sabedoria”, os filósofos de que nos falava Sócrates. Eles fazem fluir o saber - não o dado, a informação, o puro conhecimento - porque constroem sentido para a vida das pessoas e para a humanidade e buscam, juntos, um mundo mais justo, mais produtivo e mais saudável para todos. Por isso eles são imprescindíveis.

Dentro de todas as perspectivas abordadas podemos dizer que, na atualidade, somente permanece na caverna aquele que por algum motivo não se permite experimentar novos caminhos, novas aprendizagens, novas propostas educacionais. Ainda há educadores que privam seus alunos de ver a luz, de enxergar um mundo com infinitas possibilidades, mas estes estão fadados a terem suas práticas interrompidas antes do tempo, pois o mundo se movimenta e faz com que a luz de algum modo chegue até os educandos. No mesmo local de trabalho em que está aquele que não investe no conhecimento e somente transmite informação, há também o oposto, e o brilho deste outro educador com propostas mais desafiadoras, convidativas para o mundo atual, irá se salientar, fazendo com que os “oprimidos” se organizem para se libertarem dos “opressores”, e assim as palavras de Freire terão vida, voz e vez.

  
   


REFERÊNCIAS:


- BECKER, Fernando. A Epistemologia do professor: o cotidiano da escola. Petrópolis: Vozes, 2002. 
- CORTELLA, Mario Sergio. A escola e o conhecimento: fundamentos epistemológicos e políticos. São Paulo: Cortez, 2008.
- GADOTTI, Moacir. Boniteza de um sonho: ensinar-e-aprender com sentido. Novo Hamburgo: Feevale, 2003. 
- REEVO. La Educación Prohibida. Disponível em < http://www.youtube.com/watch?v=-1Y9OqSJKCc >. Acesso em 22/08/2012.

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