quinta-feira, 8 de novembro de 2012

A neurociência explica tudo?


   

  Esses dias brinquei que havia virado moda colocar a palavra “neuro” na frente de qualquer profissão. Mas a grande verdade é que isso tem se tornado o grande chamarisco de muito material de mídia. E não é por qualquer motivo, afinal de contas quem não quer estar por dentro das novidades envolvendo o sistema cerebral?
     São muitos os artigos publicados relatando descobertas neurocientíficas nas mais diversas áreas. Mas o que de concreto tem se modificado através destas pesquisas? Se um dia publicam que tal alimento faz bem para o cérebro, em outro dia, já há outro artigo evidenciando que não é bem assim. Um dos artigos mais bizarros que li esta semana foi do médico austríaco Friedrich Bischingerde, afirmando que pessoas que comem suas “melecas do nariz” reforçam seu sistema autoimune, pois o nariz funciona como um filtro onde se concentram as bactérias que, com o ar, tentam entrar em nossos pulmões. “Quando comemos o muco, isto funciona como uma espécie de vacina”. E aí, vai arriscar? Não haveria necessidade de se gastar dinheiro com a vacina para gripe!



        Mas o fato é que atrás de todas estas pesquisas há sempre uma imagem de um cérebro ou neuroimagem focalizando determinadas áreas cerebrais atingidas para cada circunstância. E quem somos nós, para duvidar a eficácia de tal estudo? Confesso que através de minha curiosidade e estudos sobre o assunto, tenho um pequeníssimo conhecimento dentro da área, mas diante de um saber “renomado” nem me atreveria a questionar...
     Entretanto, em recente artigo publicado por Steven Poole no site da revista NewStatesman ele faz um alerta de que a explicação “neural” se tornou o padrão áureo para a exegese (Interpretação, explicação ou comentário (gramatical, histórico, jurídico etc.) de textos, principalmente da Bíblia) de não ficção, adicionando a sua própria marca composta por um coletivo de elementos e estudos auxiliados por computadores a todo um novo setor de charlatanismo intelectual que pretende desvendar até mesmo fenômenos socioculturais complexos. Trata-se da praga do neurocientificismo – também conhecido como neurobaboseira, neurobobagem ou neurolixo – e ela está em todos os lugares.
    Segundo Poole um novo ramo do gênero neurociência-explica-tudo pode ser criado a qualquer momento pelo simples expediente de adicionar o prefixo “neuro” a qualquer assunto sobre o qual você esteja falando. Assim, a “neuroeconomia”, “neurogastronomia”; “neuropolítica”; “neurocrítica”. Há também a “neuroteologia”, “neuromagia” e até o “neuromarketing”. Se você quer se tornar mais criativo, tomar melhores decisões, mais feliz, ou mais magro, não se preocupe as pesquisas do cérebro têm as respostas. Trata-se de autoajuda revestida de ciência séria. Os conselhos são o gancho para quase todos livros desse tipo. Em uma época auto congratulatória e igualitária, não é mais possível dizer às pessoas que se aprimorem moralmente, de modo que o auto aperfeiçoamento é ensinado em termos instrumentais e cientificamente aprovados. 
   O artigo segue por aí a diante, fazendo toda uma crítica a respeito da questão das neurociências e de que forma vem sendo veiculada na mídia, mas o interessante é que o artigo "surgiu" paralelamente com a publicação de seu livro "Você não é o que você come". Coincidência ou não, mas é algo a se pensar...
     Ah, e para os que pensam que não sei a diferença do saber científico para o saber popular, não se enganem, afinal de contas você teria curiosidade em saber somente o que realmente é científico??? Por isso, que a neurociência explica tudo!!!

Nenhum comentário:

Postar um comentário