Miguel Nicolelis saiu do Brasil e foi
dirigir o Centro de Neurociências da Universidade de Duke, no estado americano
da Carolina do Norte, e virou uma referencia mundial na pesquisa das interfaces
entre cérebros e computadores. A revista americana Science (com 130 anos de existência)
fez uma matéria de capa sobre o trabalho dele, coisa que nem Santos Dumont, Vidal
Brasil ou Carlos Chagas tiveram antes, aliás, brasileiro nenhum teve antes. E
hoje onde está esse senhor? Está em Natal, Rio Grande do Norte, trabalhando
para mudar cabeça da pesquisa e da universidade do Brasil.
Abujamra- Como se vai da capa da Science
para a periferia de Natal?
Miguel Nicolelis- Com muito prazer e com
muita felicidade, pois a ciência está em torno de nós, em todos lugares. A
demonstração que se pode fazer ciência de ponta; e que se pode usar a ciência
como um agente transformador da realidade social da periferia de uma grande
cidade do mundo é a demonstração que devemos olhar para a ciência de um modo
diferente. Então para mim é de grande privilégio poder usar esta tese.
Abujamra - Por que Natal e não Porto Velho
ou a favela de Ilópolis?
Miguel Nicolelis- A ideia é que a produção
de conhecimento de ponta pode ser descentralizado no Brasil. Ele não precisava
ocorrer somente cidade de São Paulo que detém 70% da ciência do país. O talento
científico quanto o talento artístico existe onde estiver mais de um ser
humano, ou um ser humano que está pensando. Temos ao mesmo
tempo, uma das grandes belezas do país
rodeada pelos piores índices de desenvolvimento humano, coisas que a agente não
acredita que existe no Brasil, que é outro Brasil, um Brasil que não conhecia.
Se a gente conseguir fazer algo lá, acontece em qualquer lugar do país...
Abujamra - O Rio Grande do Norte sabe que
você está lá?
Miguel Nicolelis- Uma parcela do Rio
Grande do Norte sabe que estamos lá. As famílias tem total noção do que está
acontecendo lá. Elas estão testemunhando este voo (metáfora de santos Dumont)
de ousadia que seus filhos estão dando, usando a ciência como seu agente de protagonismo educacional. Tanto as mães, os
pais, a localidade da Macaíba (que fica na periferia de Natal) eles estão vendo
esta pequena revolução tomando forma.
Abujamra - O que é, no que deu e no que
ainda vai dar a sua pesquisa?
Miguel Nicolelis- A ideia de tentar
entender como os circuitos do cérebro, que são formados por estas redes de
neurônios, de células cerebrais, como eles produzem todos os comportamentos que
fazem a gente ser o que é.
Abujamra - Você pretende libertar o
cérebro do corpo? Isso não é um pouco metafísico?
Miguel Nicolelis- Esse domínio era um
pouco ficção científica. O corpo para o cérebro, nada mais é do que um invólucro
que ele usa, para exercer seu desejo voluntário de interagir com o mundo,
interagir com outros membros da espécie, ele é um modelo que o cérebro cria,
apesar de cultuarmos tanto o corpo, na realidade ele é simplesmente um modelo, que
pode ser alterado rapidamente. E o que descobrimos agora é que o processo evolutivo concedeu ao cérebro a
capacidade de exercer, dada um forma de mandar os sinais elétricos, fora do cérebro
. Ele pode se interfaciar com outras ferramentas que curiosamente ele mesmo
criou. Tudo o que criamos vem do cérebro.
Abujamra - Em muito menos de 30 anos vamos
ter nossa presença a distância, isso não é um seriado de televisão?
Miguel Nicolelis- Do tempo de vista
teórico, na neurociência é possível prever que nós possamos atuar simplesmente
pensando no que nós queremos realizar, do ponto de vista motor, à distancia. Nós já
temos estudos publicados demonstrando isso. Ano passado fizemos uma macaca
andar na costa leste dos EUA e comandar em tempo real um robô no Japão, que
andava de acordo as instruções que vinham do cérebro da
macaca e mandava sinais de volta para este cérebro, mostrando quão bem essa locomoção estava se realizando no outro
lado do mundo. Essa presença a distância já acorreu. Já houve a libertação do
cérebro.
Abjumra - Quer dizer que vamos poder
visitar outro planeta sem sair de casa?
Miguel Nicolelis - Eu chamaria isso de
poesia porque é a Neurociência conjugada com uma série de tecnologia permitindo
que o cérebro humano expresse essa condição humana, sem limites espaciais ou
temporais. Isso para mim é muito poético.
Abujamra- E o que virá após isso?
Miguel Nicolelis - Vai ser uma existência
muito diferente da nossa. A nossa é muito egocêntrica, muito gotistica,
centrada no self, do eu. Talvez isso, contrário do que todo mundo diz. Todo
mundo tem medo da tecnologia, eu acredito que esse seja o único caminho que nos
sobrou para entender os outros, entender a condição humana de forma geral, pois
vamos interagir com outros seres humanos de maneira mais completa.
Abujamra -
Será que temos medo da tecnologia ou somos apaixonadas pela tecnologia?
Miguel Nicolelis- Somos viciados na
tecnologia, mas temos um temor muito grande, pois não conseguimos
entender como essa tecnologia surge.
Abujamra -
O que tem dentro da sua cabeça?
Miguel Nicolelis - Cresci aqui em São Paulo
com o desejo de criar algo. Fui da geração que não teve a chance de interagir
com o Brasil, quando estava aqui. Essa minha tentativa de retorno ao Brasil é
para realizar algo que acho que deveria ter feito há 25 anos atrás.
Abujamra -Os cientistas do primeiro mundo
sabem da existência de vida pensante por
aqui?
Miguel Nicolelis - Sim, sabem. A
ciência é uma das únicas das atividades humanas que se globalizou antes de
qualquer coisa. A ciência brasileira era conhecida, o problema é que os canais
de comunicação foram interrompidos, durante muito tempo. O intercambio era
muito pequeno. O Brasil não era visto como fonte de cientista de primeiro plano,
por exemplo, para a ciência de ponta. Tivemos várias diásporas (as dos anos 50, e
também uma depois do golpe). Tem pessoas que não eram somente grandes cientistas,
mas grandes seres humanos, que poderiam ter contribuindo muito pra nós. E nós
tivemos a diáspora, que eu sou parte
dela, do final dos anos 80, quase 90, onde a ciência brasileira quase colapsou.
Abujamra - Qual a diferença da menor
universidade de lá e a maior daqui?
Miguel Nicolelis - A maior diferença é o
jeito de encarar a ciência. Não existe um corporativismo, não existe uma tentativa
de homogeneizar todo mundo. Todo mundo tem que melhorar pelo seu próprio
talento. Apesar que aqui no Brasil já melhorou muito, mas na época que eu era
aluno existia uma hierarquia muito grande, onde quem era o chefe ditava a
filosofia do lugar. Se o cara era medíocre, os que vinham abaixo dele tinham
que ser medíocres.
Abujamra - Quem financia sua pesquisa
americana, o pentágono?
Miguel Nicolelis - Eu tive um financiamento
muito bom do departamento de defesa para a reabilitação de pacientes com lesões
de medula espinhal. Este projeto foi o maior da história da neurociência
americana, ele terminou, conseguimos realizar o que foi necessário, hoje
existem várias terapias de reabilitação
que estão sendo estabelecidas para soldados veteranos e outros pacientes. Hoje,
nós somos financiados pelo Departamento de Saúde Pública do Governo americano e
por fundações do mundo todo.
Abujamra -Se um dia dos americanos invadirem
o país só com robôs movidos a distância?
Miguel Nicolelis - A lógica disso poder
funcionar iria demorar muito tempo, isso é ficção científica.
Abujamra -Ciência e Burocracia. O divórcio
é possível?
Miguel Nicolelis - Aconteceu em vários países, ele é
totalmente possível. Esse matrimônio tem que ser dissolvido, por qualquer via
judicial que existe, pois aqui no Brasil é difícil receber doações. Existe
instituto do mundo inteiro querendo doar milhões de dólares, eles estão
tão fascinados com o que está acontecendo e estamos procurando uma via legal
para receber isso, sem levar muito tempo de receber isso.
Abujamra - Isso não seria uma conversa
direta com o presidente da república?
Miguel Nicolelis - Já estamos levando para
o governo porque são coisas astronômicas, coisas que vão mudar, fazer a diferença
quântica na produção de ciência do país.
Abujamra- Como você vê a educação nesse
seu pobre país?
Miguel Nicolelis - A educação está só agora
fazendo parte da agenda, do nosso projeto de nação. O Brasil teve grandes
projetos de poder, só recentemente caímos em si que sem educação de grande
qualidade, estamos traindo não somente os que estão aqui, como os que estão
para nascer.
Abujamra- A gente só vê piorar?
Miguel Nicolelis -Tem certas coisas
melhorando. Tem certas ações, recentemente, do MEC que estão nos deixando
entusiasmados.
Uma geração de visão estratégica de longo
prazo (20 anos) mudará o país.
Abujamra - Como podemos mudar a
universidade?
Miguel Nicolelis - A universidade brasileira
tem que ser invadida pela população brasileira e ela tem que retornar a sociedade
brasileira uma justificativa que seja convincente para um investimento tão necessário
em pesquisa básica, pesquisa aplicada, educação de ponta, nós temos que
transformar esta universidade num modelo novo e não é seguir os demais modelos (americano,
japonês) mas sim, descobrir seu modelo. Uma universidade dos trópicos.
Abujamra - Você é daqueles que implicam
pelo Brasil ser governado por um simples torneiro mecânico?
Miguel Nicolelis - Não, eu chorei de emoção
quando isso aconteceu. Isso que me fez voltar ao Brasil, pois senti que esse
era o momento. A democracia brasileira conseguiu dar esta demonstração,
pro o mundo inteiro, pois por onde eu vou no mundo, o que ouço é isso. Acho que
esse foi um dos grandes fatos históricos da democratização do Brasil. Foi uma
coisa emocionante. O Brasil hoje está
numa posição invejável. O que pecamos é não reconhecer nossas falhas. É uma
questão cultural, é muito importante que se olhe de frente para o Brasil e
vejamos que falta muita coisa.
Abujamra - Pra ciência Deus existe?
Miguel Nicolelis - Pra ciências a ciência
existe. Deus não é necessário para a ciência. Espero que um dia os
neurocientista possam oferecer uma alternativa...
Abujamra - Milagres existem?
Miguel Nicolelis-Se uma certa outra
atividade humana, não tivesse monopolizado o uso da palavra milagre, a ciência
deveria ter direito de usá-la. Por que
existem certas coisas que são descobertas, que se provam milagrosamente, que a
probabilidade de isso acontecer é tão raro que a única palavra que se pode
utilizar seria milagre.
Abujamra - Para nós artistas: o sucesso e
o fracasso são iguais os dois são impostores, pra ciência não?
Miguel Nicolelis -O cientista só tem uma
coisa que é dele, é a reputação e uma vez que isso é perdido é muito difícil de
recuperar.
Abujamra - A morte é terrível?
Miguel Nicolelis -A morte não é bem aceita,
o nosso cérebro não aceita o final da história de uma forma boa.
Abujamra - E a neurociência pode mexer no
cérebro em relação à morte?
Miguel Nicolelis -Não, a neurociência na
realidade desvendando quem nós somos de um ponto muito mecanicista Qual são os
mecanismos que faz nos existir, pensar e viver ela talvez alivie o fim da
história. Se nós assumíssemos que esta história tem
um fim, nós viveríamos diferente, eu acredito. O futuro da medicina será bem diferente
dessas que a gente vê, a medicina terminal. Nós estamos chegando num ponto de estamos
perdendo a dignidade de morrer.
Abujamra - A velhice já é um contato com a
morte?
Miguel Nicolelis -Este contato pode ser
transformado, pode ser alterado.
Abujamra - Você seria capaz de olhar pra
dentro de você mesmo sem susto?
Miguel Nicolelis -Não, todos nós olhamos
para dentro de nós com sustos.
“ Existem muitas coisas que eu gostaria de
fazer e acho que muitas pessoas que conheço
e que também não puderam fazer ainda
pelo Brasil, então esse é o momento de criar um país que sempre sonhamos e não
tivemos ainda.”

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