Camila Sbeghen
Ana Lúcia Hennemann
1.
INTRODUÇÃO
Pensar e refletir sobre a educação
são desafios constantes e intermináveis. O que antes tínhamos como certeza,
talvez hoje já não o seja mais. O professor, durante longos anos ocupou o
cenário principal da sala de aula, os alunos eram meros coadjuvantes.
Entretanto os anos mudam, as
pessoas pensam diferente, a sociedade muda. Aquele que antes era o “poço” de
sabedoria, já não consegue mais abarcar tamanha responsabilidade, os alunos em
alguns momentos demonstram maior informação do que o professor, e aí aparecem
os questionamentos. Que "tipo" de professores transitam por nossas escolas? Será
que tudo realmente está mudando? Estamos diante de um mito educacional ou algum
fato verídico?
Entender a caminhada educacional
ao longo da história é transitar por diferentes teóricos e apropriar-se de seus
conceitos educacionais. Perceber que estávamos em uma educação completamente
tradicional, migramos para outra completamente oposta, onde o aluno que se
apresenta como ator principal e nos últimos tempos estamos tentando “equilibrar
a balança”, onde ambos exercem papéis de protagonistas e coadjuvantes, requer estudo
e compreensão.
Portanto, o presente
trabalho tem como objetivo refletir as diferentes abordagens educacionais e mostrar
através de recortes de entrevista o contexto educacional em que se encontra um professor,
procurando entender quais os mecanismos que ele se utiliza para sua práxis.
2.
REFLEXÕES
PEDAGÓGICAS
A educação hoje é um desafio
diário. Desafio por parte da escola em manter seus alunos presentes nas aulas,
em disponibilizar recursos e estrutura mínima a sua aprendizagem e conforto.
Desafio por parte dos professores em manter seus alunos interessados no
conteúdo, em passá-lo da melhor forma possível e fazer com que o mesmo seja
assimilado. E desafio por parte dos alunos em cumprir a sua função como aluno,
como construto dessa aprendizagem, desse sistema integral que é disposto para a
sua formação.
Para iniciarmos nosso diálogo
precisamos ter em mente que devemos nos identificar e trabalhar com a linha de
pensamento que acreditamos. Devemos ser coerentes com o que pensamos. E ao
longo da construção do ensino / aprendizagem vários pensadores, filósofos,
educadores expuseram suas ideias e trabalhos a favor da educação. Podemos citar
neste momento Piaget, psicólogo, mas, um dos pensadores mais utilizados na
educação. É o autor da psicologia que dá base para a pedagogia. Seus ideais, conceitos são até hoje
referencia na educação. O seu questionamento sempre foi saber como os homens
construíam o seu próprio conhecimento. E para isso criava situações problemas
para as crianças resolverem e verificava a capacidade de resolução dos mesmos e
também quais eram as dificuldades dessa resolução, e se ela era resolvida. Para Piaget o conhecimento é feito de dentro
para fora, o conhecimento era construído. Para isso ele dividiu em fases o
desenvolvimento (a inteligência) da criança, que são: estágio sensório motor (0
a 24 meses) – nesta fase a criança apresenta uma inteligência prática, em ação.
Inteligência sim, por que para Piaget, a inteligência é anterior a fala, começa
bem antes da aquisição da linguagem, e esse, também, foi uma das grandes
contribuições de Piaget a futura educação.
O estágio pré-operatório (2
a 7 anos) corresponde à capacidade de representação da criança. É a partir
deste momento que ela reconhece um objeto através de outro. Ocorrem neste
momento, também, a introdução à linguagem e a moralidade.
No estágio operatório (7
anos em diante) a criança já tem a capacidade de ver a ação interiorizada e
reversível. Ou seja, ela tem uma ação através de uma representação interior
(pensamento) e sabe que ela pode ser modificada (reversível).
Piaget tem a base do seu
trabalho, a sua epistemologia no construtivismo. Que segundo Becker (1994.
p.88) o construtivismo significa:
...a ideia de que
nada, a rigor, está pronto, acabado, e de que, especificamente, o conhecimento
não é dado, em nenhuma instância, como algo terminado. Ele se constitui pela
interação do indivíduo com o meio físico e social, com o simbolismo humano,
como mundo das relações sociais; e se constitui por força de sua ação e não por
qualquer dotação, prévia, na bagagem hereditária ou no meio, de tal modo que podemos
afirmar que antes da ação não há psiquismo nem consciência e, muito menos,
pensamento.
Já Vygotsky, ao contrário de
Piaget acreditava que o conhecimento se dava de fora para dentro, que a
intervenção pedagógica era essencial. Que o meio era responsável pela forma
como as pessoas aprendiam. Vygotsky se
preocupava com a escola, com os professores, como era estabelecida essa
dualidade. Para ele a relação entre o mundo e homem era mediada através de
símbolos e signos, uma possibilidade de representação mental. A aprendizagem
gera o desenvolvimento do sujeito, o sujeito só se desenvolve por que aprende.
Agora Wallon trouxe uma
novidade. Algo que até então era ignorado, e que até hoje "respinga" nas salas de
aula. Trouxe-nos a concepção de que as crianças têm corpo e emoções e não
apenas cabeça em sala de aula. Mostra que as emoções têm papel preponderante no
desenvolvimento da pessoa e que é por meio delas que o aluno exterioriza seus
desejos e vontades.
E é a partir dessas
reflexões, desses caminhos do conhecimento que traçamos o nosso ver sobre o dia
a dia do professor em sala de aula. Como será que esta sendo a didática do
professor hoje? Qual é o modelo que ele segue em sua sala de aula? Como ele
esta transmitindo aos seus alunos o conteúdo proposto? Será que esta sendo
eficiente? Será que há espaço para o saber do aluno? Ou será que somente o
professor é dono da verdade? Essas são algumas das perguntas que nos fazemos e
buscamos relativar. Como estão sendo propostas a educação, a aprendizagem nas
escolas hoje, com todos os seus desafios e diretrizes do mundo moderno, da era
digital?
Quando se falava em escola
logo vem em mente uma imagem de uma sala de aula com classes uma atrás da
outra, um quadro negro à frente e um professor na posição de onipotência, único
detentor do conhecimento. Hoje, porém, sabemos que esse quadro pode e deve ser
diferente. Sabemos da importância da construção conjunta do conhecimento, do
aproveitamento que se tem da troca e interação entre alunos e professor e que
como o conhecimento é construído paulatinamente e gradativamente todos são responsáveis
pelo resultado da aprendizagem.
E foi dentro deste contexto
que conseguimos perceber o professor que nos serviu de apoio nesta pesquisa.
Através de seus relatos conseguimos perceber uma práxis completamente voltada à
interação, a construção do saber e a busca de constantes aprendizagens. Alguém
que aprende seus alunos e partilha os seus conhecimentos, fazendo todos autores
de suas descobertas tornando a aprendizagem um processo coletivo.
Através de um recorte da
entrevista, conseguimos fazer boas análises do modo de agir do professor, pois
quando perguntado “O que teus alunos/alunas precisam para aprender o conteúdo
de tua matéria?”, obtivemos a seguinte resposta:
“Interação
com o professor, consigo e com os colegas. Algo que enfatizo muito é o respeito
ao modo de aprendizagem de cada um, ou seja, que cada um tem seu tempo, se
estamos numa escola é porque todos tem algo a ensinar e a aprender. Nesse
sentido, creio que além da interação eles precisam saber respeitar-se como
indivíduos e creio que também ter o desejo de aprender, desejo este que pode
deve ser cultivado diariamente, pois se eu não desejo aprender é lógico que não
aprendo.”
Através deste relato percebemos
que os alunos podem trazer seus conhecimentos e que o erro faz parte do
processo educativo. Vislumbramos uma educação completamente diferenciada da
educação empirista, a qual nunca deixa de reproduzir o mito da caverna. Dentro
desta reflexão, pensamos o que faz um professor ter tal metodologia, e nos
deparamos com a questão do conhecimento, pois somente aquele que tem o saber é
capaz de proporcionar o saber alheio, vinculando as palavras de Cortella (2008,
15) onde retrata que o educador necessita de constantes aperfeiçoamentos
pedagógicos, para que dessa forma venha proporcionar a democratização do saber,
A formação do
educador necessita abranger o elemento técnico de especialização em uma área do
saber (e a capacitação contínua) e também a dimensão pedagógica da capacidade
de ensinar; a discussão sobre tal dimensão envolve ainda temas mais amplos como
a democratização da relação professor/aluno, a democratização da relação dos
educadores entre si e com as instâncias dirigentes, a gestão democrática
englobando as comunidades e por fim, com objetivo político/social mais
equânime, a democratização do saber.
Também fazendo menção as
palavras de Cortella (2008), onde ressalta a questão da democratização de
saber, citamos outro recorte desta entrevista onde questionamos “Qual o papel
do professor e qual o do aluno no processo de aprendizagem?” e recebemos a
seguinte resposta:
O papel
de ambos é ser aprendente e ensinante ao mesmo tempo, porém cabe ao professor
fazer o aluno se descobrir como alguém que também pode proporcionar
conhecimentos. Em suma o professor é aquele que instiga o aluno a
autodescobrir-se.
Diante destes poucos relatos
acreditamos que nosso entrevistado esteja com sua práxis pautadas nas
concepções de Vygotsky (Sócio-interacionismo) e Piaget (Construtivismo) onde a mente
e o pensamento são construídos, através de situações “reais”, que são as da
vida cotidiana e considera que o indivíduo agregue aprendizagem através de sua
interação com os outros e partilha de seus conhecimentos, de seus problemas e de
suas descobertas num processo coletivo.
3.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Iniciamos o trabalho
enfatizando a importância do ato de refletir as ações educacionais, pois ter o
entendimento do fazer pedagógico do professor é perceber de que forma o
conhecimento está se estruturando no indivíduo chamado aluno. Essa reflexão não
cabe somente ao contexto educativo, mas sim, a todos que estão envolvidos com o
processo de “maturação” dos indivíduos, pois se o psicólogo, o psicopedagogo,
não tem o mínimo de entendimento do processo de aprender, suas abordagens serão
deficitárias, apresentarão lacunas.
Enfim, o importante é
discernir entre o conhecimento e a informação, romper os mitos das cavernas e
entender quando o mesmo está ou não sendo reproduzido no contexto educativo
através da práxis do professor, pois segundo Cortella (2008, p. 102),
Quando um educador ou
uma educadora nega (com ou sem intenção) aos alunos a compreensão das condições
culturais, históricas e sociais de produção do Conhecimento, termina por
reforçar a mitificação e a sensação de perplexidade, impotências e incapacidade
cognitiva.
Perceber a forma do
professor interagir com seus educandos faz com que tenhamos o entendimento de
que modo a aprendizagem se dá, pois se ela não acontece na interação na troca,
o aluno terá como único recurso de aprendizagem a memorização, e o preenchimento
de cópias e mais cópias reprodutivistas. Futuramente poderá ser alguém que não
se questiona, apenas aceita os fatos como eles se apresentam, seu mestre talvez
não seja alguém fisicamente representado pela figura de um professor, mas terá
como mestre, o círculo vicioso do capitalismo, do consumismo, de achar que no
verão terá que usar cinza, pois é a tendência do momento, talvez o indivíduo
nunca achou o cinza legal, mas se o professor está dizendo, porque ele vai
duvidar?
REFERÊNCIAS:
BECKER, Fernando. O
que é construtivismo? Série Ideias n. 20, São Paulo: FDE, 1994. p. 87-93.
CORTELLA,
Mario Sergio. A escola e o conhecimento:
fundamentos epistemológicos e políticos. São Paulo: Cortez, 2008.
PONTES,
Ana Lúcia; REGO, Sérgio; SILVA JÚNIOR, Aluísio Gomes. Saber e Prática Docente na Transformação do Ensino Médico. IN:
Revista Brasileira de Educação Médica. 30 (2), p. 66-75, 2006. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=s0100-55022006000200009&script=sci_arttext.

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