Os avanços da neurociência estão permitindo descortinar
um novo konzept não apenas sobre a estrutura, mas também
sobre o funcionamento e o papel do cérebro em todo o corpo humano. Ele faz
parte de um sistema integrado, holístico.
Com os estudos já realizados a partir do Connectome[1],
chegamos
a um ponto de entendimento de que o cérebro, na realidade, é uma grande rede, e
não uma parte estanque do corpo. Tampouco se limita a ser apenas aquele órgão
que conhecemos dentro da caixa craniana. Por mais paradoxal que possa parecer,
ao mesmo tempo em que deixa de ter o poder absoluto que lhe foi arbitrado em
séculos de estudos, o cérebro ganha uma nova dimensão e se espalha por todo o
corpo.
Acreditem, senhores, e, por favor, dispensem as camisas de força.
Podemos afirmar que o cérebro não está apenas na cabeça. Ele se 'espraia' como
rede formando a identidade do seu próprio corpo (self) e se estende extracorpo
na formação de uma fisionomia cultural e social. Ele vai da ponta do dedão do
pé até o teto da Capela Sistina ou da sonda Phoenix, pousada em Marte, passando
por panturrilhas e braços. Ou seja: passe a cuidar bem dos seus cotovelos. Eles
também pensam e sentem por você.
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| Antonio Damasio |
Estudos recentes comprovam este novo conceito do cérebro.
Uma das pesquisas mais emblemáticas foi conduzida pelo médico português António
Damásio, um dos grandes nomes da neurociência e professor da University of
Southern California. Ele forjou a invasão de uma casa com homens encapuzados,
que assaltaram as pessoas. Nenhum dos presentes viu o rosto dos supostos
ladrões. Depois ele criou uma situação para que um dos “assaltantes” passasse
na rua ao lado de uma das pessoas que estavam na residência. Ela teve uma
sensação horrorosa, algo que não estava na elaboração mental dela, mas, sim, em
seu corpo. Automaticamente, ela vinculou aquele sujeito a seu lado a um
episódio de estresse e angústia. Essa associação comprovada pela experiência
feita por António Damásio apenas revelou a importância de um mecanismo
fundamental para o entendimento desta nova concepção sobre o funcionamento do
sistema nervoso e, mais especificamente, do cérebro: os marcadores somáticos.
Segundo a tese de Damásio, os marcadores somáticos podem
guiar o processo emocional, o comportamento, principalmente a tomada de
decisões. São associações entre estímulos e um estado afetivo e
fisiológico, capazes de interferir em nosso processo cognitivo.
A tese de António Damásio apenas reforça a ideia de que o cérebro está em todas as partes, ou
seja, há um sistema integrado que rege
as reações nervosas e emocionais. Nosso corpo é cheio de marcadores
somáticos, sensores que captam deslocamentos táteis, vozes, gestuais, enfim,
qualquer fenômeno externo capaz de criar uma resposta interna. Essas sensações
são enviadas para as diversas regiões do cérebro, que funciona como uma espécie
de satélite e retransmite o sinal para o corpo. Portanto, dentro deste novo ângulo de compreensão, é absolutamente
equivocado dizer que a emoção está no cérebro. Ela até está, mas não apenas
lá. Distribui-se, isso sim, pelos marcadores somáticos, mecanismos como disparo
do coração, mal-estar epigástrico, uma dor na virilha ou sensações de medo,
fome, sede, desejo sexual. Por isso, podemos dizer:
o cérebro mudou e não mais está circunscrito à caixa craniana.
Não há qualquer exagero ou crime de lesa-ciência ao se afirmar que ele está no
joelho, nas dobras do mindinho, no baço, no lóbulo da orelha, nos quadris, na
virilha. O corpo está no
cérebro, e o cérebro, por meio dos marcadores somáticos, está em todas as
latitudes do corpo. Quando disse que o homem pinta com o cérebro
e não com as mãos, Michelangelo atirou no que viu e acertou no que não viu. A
partir desta nova concepção do sistema nervoso, cérebro e mãos funcionam como
um só órgão.
O
caso Gage
Dois casos famosos na medicina neuropsiquiátrica ilustram
bem a importância dos marcadores somáticos no funcionamento do cérebro. Um
deles tem como protagonista Phineas Gage, que trabalhava na construção da
estrada de ferro Rutland & Burlington, em Cavendish, no estado
norte-americano de Vermont. No dia 13 de setembro de 1848, Gage foi vítima de
uma explosão. No acidente, uma barra de ferro de um metro e meio atravessou seu
rosto. Entrou pela face esquerda, esmagando seu olho, cruzou a parte frontal do
cérebro e saiu pelo topo do crânio, no lado direito. Logo após, ele se levantou
e andou e falou normalmente. Phineas Gage foi submetido a testes de memória,
que apresentaram resultados normais. Tempos depois, no entanto, Gage, que era
considerado um funcionário absolutamente exemplar, começou a ter um
comportamento errático e irresponsável. Tomava decisões completamente
equivocadas e tinha atitudes impróprias. O médico John Harlow, que o atendeu
logo após o acidente, cunhou uma frase que se tornaria famosa no estudo da
neurociência: “Gage não é mais Gage”.
Simplesmente sua personalidade mudou depois do acidente.
Dentro da rede de neurônios que compõem o cérebro ele não tinha mais empatia
por nada. Ele não conseguia mais interpretar seus marcadores somáticos, que,
por sua vez, perderam conectividade. Como diz António Damásio, a emoção norteia
a nossa razão. Gage perdeu a razão porque teve subtraída a emoção.
Outro exemplo emblemático do funcionamento dos marcadores
somáticos vem de uma experiência feita por um grande neurologista e filósofo
chamado Miller Fisher. Ele selecionou um grupo de pessoas com catarata
congênita. Em sua maioria, eram filhos de mães sifilíticas e tinham zero de
visão. Todos foram operados e, aos 20 e poucos anos, passaram a enxergar. Ou
seja: o módulo receptivo da visão foi acionado. Miller, então, começou a
mostrar objetos a essas pessoas. Todos olhavam e ninguém sabia dizer o que era.
Depois, todos puderam pegar o material em questão nas mãos. Miller, então,
exibiu mais uma vez o objeto e, ao vê-lo, todos passaram a identificá-lo. A conclusão dessa experiência é que, na teoria do conhecimento, o toque é o mais
importante, acima da própria visão. Esse estudo deu origem à pirâmide do
conhecimento: - Palestras nos permitem
reter 5% de conhecimento; - a leitura, 10%; - o audiovisual, 20%; - a demonstração empírica, 30%; - grupos de discussão, 50%; - a prática, 75%; e - ensinar os outros, 80%. Ou seja: o ensinamento, como eufemismo para o toque,
é fundamental.
Fonte: Recorte do artigo "A Parte e o Todo: O Novo Cérebro e seu contexto histórico" que se encontra no blog Neuroscience
[1] Um
projeto sem precedentes na história da neurociência e praticamente ainda
desconhecido no Brasil. Guardadas as devidas proporções, trata-se de uma
espécie de “Genoma do cérebro”. O próprio Projeto Genoma chegou a contemplar
estudos sobre as conexões cerebrais, trazendo
avanços importantes para a hodologia, a ciência das conexões. No
entanto, o Connectome é a promessa de um salto triplo no conhecimento
neurocientífico. É como se, finalmente, o manual de instruções do mais
intrincado equipamento do corpo humano começasse a ser traduzido. O projeto
prevê o mais completo mapeamento jamais feito pela medicina de todos os
sistemas cerebrais, desde o nível das transações moleculares na conexão até os
níveis celulares, sistêmicos, comportamentais, sociais e culturais. Ao longo de
séculos, após muitos ziguezagues, posto que a ciência não foi feita para
caminhar em linha reta, a medicina conseguiu desvendar a macroestrutura do
cérebro. Agora, estamos dando um mergulho de Jacques Costeau nas profundezas do
órgão. Chegou a hora de conhecermos, no detalhe do detalhe, a microestrutura cerebral.





excitante!!!!
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