segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O novo cérebro...


    Os avanços da neurociência estão permitindo descortinar um novo konzept não apenas sobre a estrutura, mas também sobre o funcionamento e o papel do cérebro em todo o corpo humano. Ele faz parte de um sistema integrado, holístico.
   Com os estudos já realizados a partir do Connectome[1], chegamos a um ponto de entendimento de que o cérebro, na realidade, é uma grande rede, e não uma parte estanque do corpo. Tampouco se limita a ser apenas aquele órgão que conhecemos dentro da caixa craniana. Por mais paradoxal que possa parecer, ao mesmo tempo em que deixa de ter o poder absoluto que lhe foi arbitrado em séculos de estudos, o cérebro ganha uma nova dimensão e se espalha por todo o corpo. 


    Acreditem, senhores, e, por favor, dispensem as camisas de força. Podemos afirmar que o cérebro não está apenas na cabeça. Ele se 'espraia' como rede formando a identidade do seu próprio corpo (self) e se estende extracorpo na formação de uma fisionomia cultural e social. Ele vai da ponta do dedão do pé até o teto da Capela Sistina ou da sonda Phoenix, pousada em Marte, passando por panturrilhas e braços. Ou seja: passe a cuidar bem dos seus cotovelos. Eles também pensam e sentem por você.
Antonio Damasio
Estudos recentes comprovam este novo conceito do cérebro. Uma das pesquisas mais emblemáticas foi conduzida pelo médico português António Damásio, um dos grandes nomes da neurociência e professor da University of Southern California. Ele forjou a invasão de uma casa com homens encapuzados, que assaltaram as pessoas. Nenhum dos presentes viu o rosto dos supostos ladrões. Depois ele criou uma situação para que um dos “assaltantes” passasse na rua ao lado de uma das pessoas que estavam na residência. Ela teve uma sensação horrorosa, algo que não estava na elaboração mental dela, mas, sim, em seu corpo. Automaticamente, ela vinculou aquele sujeito a seu lado a um episódio de estresse e angústia. Essa associação comprovada pela experiência feita por António Damásio apenas revelou a importância de um mecanismo fundamental para o entendimento desta nova concepção sobre o funcionamento do sistema nervoso e, mais especificamente, do cérebro: os marcadores somáticos. Segundo a tese de Damásio, os marcadores somáticos podem guiar o processo emocional, o comportamento, principalmente a tomada de decisões. São associações entre estímulos e um estado afetivo e fisiológico, capazes de interferir em nosso processo cognitivo.
    A tese de António Damásio apenas reforça a ideia de que o cérebro está em todas as partes, ou seja, há um sistema integrado que rege as reações nervosas e emocionais. Nosso corpo é cheio de marcadores somáticos, sensores que captam deslocamentos táteis, vozes, gestuais, enfim, qualquer fenômeno externo capaz de criar uma resposta interna. Essas sensações são enviadas para as diversas regiões do cérebro, que funciona como uma espécie de satélite e retransmite o sinal para o corpo. Portanto, dentro deste novo ângulo de compreensão, é absolutamente equivocado dizer que a emoção está no cérebro. Ela até está, mas não apenas lá. Distribui-se, isso sim, pelos marcadores somáticos, mecanismos como disparo do coração, mal-estar epigástrico, uma dor na virilha ou sensações de medo, fome, sede, desejo sexual. Por isso, podemos dizer: o cérebro mudou e não mais está circunscrito à caixa craniana. Não há qualquer exagero ou crime de lesa-ciência ao se afirmar que ele está no joelho, nas dobras do mindinho, no baço, no lóbulo da orelha, nos quadris, na virilha. O corpo está no cérebro, e o cérebro, por meio dos marcadores somáticos, está em todas as latitudes do corpo. Quando disse que o homem pinta com o cérebro e não com as mãos, Michelangelo atirou no que viu e acertou no que não viu. A partir desta nova concepção do sistema nervoso, cérebro e mãos funcionam como um só órgão.

O caso Gage


     Dois casos famosos na medicina neuropsiquiátrica ilustram bem a importância dos marcadores somáticos no funcionamento do cérebro. Um deles tem como protagonista Phineas Gage, que trabalhava na construção da estrada de ferro Rutland & Burlington, em Cavendish, no estado norte-americano de Vermont. No dia 13 de setembro de 1848, Gage foi vítima de uma explosão. No acidente, uma barra de ferro de um metro e meio atravessou seu rosto. Entrou pela face esquerda, esmagando seu olho, cruzou a parte frontal do cérebro e saiu pelo topo do crânio, no lado direito. Logo após, ele se levantou e andou e falou normalmente. Phineas Gage foi submetido a testes de memória, que apresentaram resultados normais. Tempos depois, no entanto, Gage, que era considerado um funcionário absolutamente exemplar, começou a ter um comportamento errático e irresponsável. Tomava decisões completamente equivocadas e tinha atitudes impróprias. O médico John Harlow, que o atendeu logo após o acidente, cunhou uma frase que se tornaria famosa no estudo da neurociência: “Gage não é mais Gage”.
    Simplesmente sua personalidade mudou depois do acidente. Dentro da rede de neurônios que compõem o cérebro ele não tinha mais empatia por nada. Ele não conseguia mais interpretar seus marcadores somáticos, que, por sua vez, perderam conectividade. Como diz António Damásio, a emoção norteia a nossa razão. Gage perdeu a razão porque teve subtraída a emoção.
    Outro exemplo emblemático do funcionamento dos marcadores somáticos vem de uma experiência feita por um grande neurologista e filósofo chamado Miller Fisher. Ele selecionou um grupo de pessoas com catarata congênita. Em sua maioria, eram filhos de mães sifilíticas e tinham zero de visão. Todos foram operados e, aos 20 e poucos anos, passaram a enxergar. Ou seja: o módulo receptivo da visão foi acionado. Miller, então, começou a mostrar objetos a essas pessoas. Todos olhavam e ninguém sabia dizer o que era. Depois, todos puderam pegar o material em questão nas mãos. Miller, então, exibiu mais uma vez o objeto e, ao vê-lo, todos passaram a identificá-lo. A conclusão dessa experiência é que, na teoria do conhecimento, o toque é o mais importante, acima da própria visão. Esse estudo deu origem à pirâmide do conhecimento: - Palestras nos permitem reter 5% de conhecimento; - a leitura, 10%; - o audiovisual, 20%; - a demonstração empírica, 30%; - grupos de discussão, 50%; - a prática, 75%; e - ensinar os outros, 80%. Ou seja: o ensinamento, como eufemismo para o toque, é fundamental.



Fonte: Recorte do artigo "A Parte e o Todo: O Novo Cérebro e seu contexto histórico" que se encontra no blog Neuroscience



[1] Um projeto sem precedentes na história da neurociência e praticamente ainda desconhecido no Brasil. Guardadas as devidas proporções, trata-se de uma espécie de “Genoma do cérebro”. O próprio Projeto Genoma chegou a contemplar estudos sobre as conexões cerebrais, trazendo  avanços importantes para a hodologia, a ciência das conexões. No entanto, o Connectome é a promessa de um salto triplo no conhecimento neurocientífico. É como se, finalmente, o manual de instruções do mais intrincado equipamento do corpo humano começasse a ser traduzido. O projeto prevê o mais completo mapeamento jamais feito pela medicina de todos os sistemas cerebrais, desde o nível das transações moleculares na conexão até os níveis celulares, sistêmicos, comportamentais, sociais e culturais. Ao longo de séculos, após muitos ziguezagues, posto que a ciência não foi feita para caminhar em linha reta, a medicina conseguiu desvendar a macroestrutura do cérebro. Agora, estamos dando um mergulho de Jacques Costeau nas profundezas do órgão. Chegou a hora de conhecermos, no detalhe do detalhe, a microestrutura cerebral.

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