Martha Medeiros*
Eu estava na fila do cinema, e ela dois passos à frente. Ela
virava para trás, me olhava, e logo virava para frente de novo. Até que numa
dessas viradas ela disse oi. Eu retribui: Oi. Ela: É isso aí, tu não me
conhece, mas eu te conheço: tem que cumprimentar.
Eu sei, amiga.
Leitores me cumprimentam sem que eu os conheça, e tudo
certo, já que há uma foto minha ao lado da coluna do jornal. Só vira um
problema quando eu realmente conheço a pessoa que me cumprimenta, já conversei
com ela em algum momento da vida, e não faço ideia de quem seja. Escrevi certa
vez sobre isso: se a pessoa é a recepcionista da minha médica, e sempre a vejo
de coque e de uniforme branco, ao passar por mim de vestido floreado e
cabeleira solta no shopping, não vou reconhecê-la. Se o sujeito com quem cruzo
na academia, sempre de calção e camiseta, entrar no restaurante de camisa polo
e um blusão amarrado em torno do pescoço, não vou reconhecê-lo. Se o porteiro
do meu prédio for filmado na arquibancada de um estádio vestindo a camiseta do
seu time e segurando um cartaz dizendo “Olha eu aqui, Galvão”, periga o Galvão
saber quem é: eu, não. Tenho uma incapacidade crônica de identificar pessoas
fora do habitat em que costumo encontrá-las.
Sempre me justifiquei dizendo “Sou péssima fisionomista”,
que é um chavão, mas não é mentira, e que, aliado aos meus três graus de
astigmatismo, me garantia o perdão de algumas boas almas. Até que outro dia
entrei numa loja de conveniências, um cara abriu os braços ao me ver e disse
numa alegria comovente: “Marthinha!”. Achei meio íntimo para um leitor. Sorri
amarelo e dei um “oi” igual ao que ofereci à moça da fila do cinema. Ele
insistiu: “Martha, sou eu!”. Socorro, eu quem? Então ele disse seu nome. Pasme:
era um ex-namorado!! A meu favor, deponho que foi um namorado da época da
faculdade (não me obrigue a fazer as contas), mas, ora, ainda que tenha sido no
tempo das cavernas, conviveu comigo. Ao menos o seu olhar deveria ser o mesmo.
Me senti um inseto.
Pois bem, depois de anos soterrada em culpa, descubro que a
medicina está do meu lado. Acabo de saber que “sou péssima fisionomista” possui
nome científico: prosopagnosia. Uma doença que debilita a área do cérebro que
distingue traços e expressões faciais. Estou lendo o excelente Barba Ensopada
de Sangue, de Daniel Galera, cujo personagem vive o mesmo desconforto. Alguns
médicos dizem que há apenas 100 casos diagnosticados no mundo – provavelmente
eu e outros 99 acusados injustamente de ter o nariz em pé. Mas há quem diga
também que o problema é mais comum do que se pensa e que atinge uma a cada 50
pessoas, ou seja, é praticamente uma epidemia.
Comum ou incomum, me concedam o benefício da dúvida: talvez
eu seja uma pobre vítima da prosopagnosia e por isso não saio por aí dando dois
beijinhos e perguntando pela família de quem, a priori, nunca vi antes. Se não
for prosopagnosia, acredite: é astigmatismo evoluindo para uma catarata, somada
a uma palermice que me dificulta distinguir semblantes. Nariz em pé, juro que
não é.
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* Escritora. Cronista da ZH
Fonte: ZH on line, 13/01/2013
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Também tenho. Um total desconforto. Detesto lugares com muita gente por que tenho que fazer muito esforço ao ver muita gente. Para não passar por metida passei a ser melhor amiga de todos que me olham na rua. Resultado : andando na noite um senhor me olhava fixamente. Abri um enorme sorriso e dei um caloroso Olá. Daqueles que simbolizam felicidade ao ver um amigo que não vê a algum tempo. Quando percebi a cena me dei conta que era apenas um mendigo olhando uma pessoa que passava a sua frente. Resumo da opera: não falo mais com ninguém na rua. Só falo se o marido der uma cutucada antes.
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