domingo, 27 de janeiro de 2013

Síndrome de Charles Bonnet

O neurologista e escritor Oliver Sacks  Chama Nossa Atenção para à Síndrome de Charles Bonnet - na qual PESSOAS lúcidas, com deficiência visual experimentam alucinações. 


Nós vemos com os olhos. Mas também vemos com o cérebro. E ver com o cérebro é geralmente chamado de imaginação. E estamos familiarizados com os cenários de nossa própria imaginação, nossos cenários internos. Vivemos com eles por toda vida. Mas também existem alucinações. E alucinações são completamente diferentes. Elas não parecem ser criadas por nós. Elas não parecem estar sob controle. Elas parecem vir do exterior e imitar a percepção. 
 Então vou falar sobre alucinações. E um tipo particular de alucinação visual que eu observo em meus pacientes. Alguns meses atrás recebi um telefonema de uma enfermaria onde eu trabalho. me informaram que um dos pacientes, uma senhora na casa dos 90 anos, estava vendo coisas. E eles se perguntavam se ela estava senil. Ou, por ela ser uma senhora idosa, se ela teve um derrame, ou se ela estava com Alzheimer. 
 E então me perguntaram se eu poderia ir e ver a Rosalie, a senhora idosa. Eu fui vê-la. Era evidente de início que ela estava perfeitamente sã e lúcida e com boa inteligência. Mas ela estava muito assustada, e muito desconcertada porque ela estava vendo coisas. E ela me disse -- as enfermeiras não tinham mencionado isso -- que ela era cega, que ela tinha se tornado completamente cega, por degeneração macular, havia cinco anos. Mas agora, nos últimos dias, ela estava vendo coisas. 
 Então eu disse, "Que tipo de coisas?" E ela disse, "Pessoas com roupas orientais, em vestes, subindo e descendo escadas. Um homem que se vira para mim e sorri. Mas ele tem dentes enormes num lado da boca. Animais também. Eu vejo um prédio branco. Está nevando, uma neve suave. Eu vejo esse cavalo, com um arreio, dragando a neve. Então, uma noite, a imagem muda. Eu vejo gatos e cachorros andando na minha direção. Eles chegam até um certo ponto e param. Então a cena muda de novo. Eu vejo um monte de crianças. Elas sobem e descem escadas. Elas vestem cores brilhantes, rosa e azul, como vestidos orientais." 
 Algumas vezes, ela disse, antes das pessoas entrarem ela podia alucinar quadrados rosas e azuis no chão, que pareciam subir até o teto. Eu disse, "É como se fosse um sonho?" E ela disse, "Não, não é como um sonho. É como um filme." Ela disse, "Ele tem cor. Tem movimento Mas é completamente silencioso, como um filme mudo." E ela disse que parecia como um filme muito entediante. Ela disse, "Todas essas pessoas com vestidos orientais, subindo e descendo, tão repetitivos, tão limitados."
E ela tinha senso de humor. Ela sabia que aquilo era uma alucinação. Mas ela estava assustada. Ela tinha vivido 95 anos e nunca teve uma alucinação antes. Ela disse que as alucinações não eram relacionadas com nada que ela estivesse pensando, sentindo ou fazendo. Que elas pareciam chegar ou desaparecer por elas mesmas, Ela não tinha controle sobre as alucinações Ela disse que não reconhecia nenhuma das pessoas ou lugares nas alucinações. E nenhuma das pessoas ou dos animais, eles pareciam todos insignificantes para ela. E ela não sabia o que estava acontecendo. Ela se perguntou se ela estava enlouquecendo, ou perdendo a cabeça. 
Bem, eu a examinei cuidadosamente. Ela era um senhora idosa brilhante. Perfeitamente sã. Ela não tinha problemas médicos. Ela não tomava nenhuma medicação que pudesse produzir alucinações. Mas ela estava cega. E então eu disse a ela, "Eu acho que eu sei o que você tem." Eu disse, "Existe um tipo especial de alucinação visual que pode surgir com a deterioração da visão, ou a cegueira." "Ela foi originalmente descrita" eu disse, "no século 18, por um homem chamado Charles Bonnet. E você tem a síndrome de Charles Bonnet. Não há nada de errado com seu cérebro. Não há nada de errado com sua mente. Você tem a síndrome de Charles Bonnet." 
E ela ficou muito aliviada com isso, que não havia nada sério para se preocupar, e também muito curioso. Ela disse, "Quem é esse Charles Bonnet?" Ela disse, "Ele também teve isso?" E ela disse, "Diga a todas as enfermeiras que eu tenho a síndrome de Charles Bonnet." "Eu não estou louca. Não estou demente. Tenho a síndrome de Charles Bonnet." Bem, então eu contei pras enfermeiras. 
Agora isso, para mim, é uma situação comum. Eu trabalho em casas para idosos, basicamente. Eu vejo um monte de pessoas idosas que têm perda auditiva ou perda visual. Cerca de 10 por cento das pessoas com perda auditiva apresentam alucinações musicais. E cerca de 10 por cento das pessoas com perda visual têm alucinações visuais. Você não precisa estar completamente cego, apenas suficientemente prejudicado.
Agora com relação à descrição original no século 18, Charles Bonnet não as tinha. Seu avô tinha essas alucinações. Seu avô era um magistrado, um homem idoso. Ele havia feito uma cirurgia de catarata. Sua visão era bastante pobre. E em 1759 ele descreveu para seu neto várias coisas que ele estava vendo.
A primeira coisa que ele disse foi que viu um lenço pairando no ar. Era um grande lenço azul com quatro círculos laranjas. E ele sabia que aquilo era uma alucinação. Você não encontra lenços pairando no ar. E então ele viu uma grande roda em pleno ar. Mas às vezes ele não estava certo se estava alucinando ou não. Pois as alucinações poderiam encaixar no contexto das visões. Então uma vez, quando suas netas foram visitá-los, ele disse, "E quem são esses jovens bonitos com vocês?" E elas disseram, "Mas, vovô, não tem nenhum jovem bonito." E então os jovens bonitos desapareceram. Isso é típico dessas alucinações que elas podem surgir e desaparecer instantaneamente Elas geralmente não aparecem e desaparecem gradualmente. Elas são mais repentinas. E elas mudam repentinamente.
 Charles Lullin, o avô, via centenas de figuras diferentes, paisagens diferentes de todos os tipos. Em uma ocasião ele viu um homem com roupão fumando cachimbo, e percebeu que era ele mesmo. Essa foi a única figura que ele reconheceu. Numa ocasião que ele andava pelas ruas de Paris, ele viu -- isso foi real -- um andaime. Mas quando voltou para casa ele viu uma miniatura do andaime de 15 cm de altura, na sua mesa de estudo. Essa repetição de percepção é às vezes denominada palinopsia.
 Com ele, e com Rosalie, o que parece acontecer -- e Rosalie disse, "O que está acontecendo?" -- e eu disse que quando você perde a visão, como as partes visuais do cérebro não recebem mais sinais, elas se tornam hiperativas e excitáveis. E elas começam a disparar espontaneamente. E você começa a ver coisas. As coisas que você vê podem ser muito complexas.
 Em outra paciente minha, que tinha alguma visão, a visão que ela tinha podia ser perturbadora. Numa ocasião ela disse que viu um homem com uma camisa rasgada num restaurante. E ele se virou. E então ele se dividiu em seis figuras idênticas com camisas rasgadas, que começaram a andar na direção dela. E então as seis figuras se juntaram novamente, como uma concertina. Certa vez, quando ela estava dirigindo, ou melhor, seu marido estava dirigindo, a estrada se dividiu em quatro. E ela se sentiu indo simultaneamente em quatro estradas.
 Ela tinha muitas alucinações móveis também. Várias delas tinham relação com um carro. Algumas vezes ela via um adolescente sentado no capô do carro. Ele era muito persistente e se movia graciosamente quando o carro virava. E então quando eles paravam num semáforo, o garoto fazia um voo vertical súbito, 30 metros para cima, e então desaparecia.
 Outra paciente minha tinha um tipo diferente de alucinação. Essa mulher não tinha problemas nos olhos, mas nas partes visuais do cérebro. Um pequeno tumor no córtex occipital. E, acima de tudo, ela via desenhos animados. Esses desenhos eram transparentes e cobriam metade do campo visual, como uma tela. Ela via especialmente desenhos do sapo Caco. (Risos) Agora, eu não assisto Vila Sésamo. Mas ela fez uma observação dizendo, "Por que o Caco? Sapo Caco não significa nada pra mim." Sabe, eu esperava determinantes freudianos. Por que o Caco? Sapo Caco não significa nada para mim."
 Ela não ligava muito para desenhos. Mas o que a preocupava era que ela tinha imagens ou alucinações de faces e como Rosalie, as faces eram geralmente deformadas, com dentes muito grandes, ou olhos grandes. E isso a assustava. Bem, o que está acontecendo com essas pessoas? Como médico, eu tenho de tentar definir o que está acontecendo, e confortar essas pessoas. Especialmente assegurá-las que elas não estão ficando loucas.
 Algo em torno de 10 por cento, como eu dizia, de pessoas com perda visual têm essas alucinações. Mas não mais que um por cento das pessoas as percebem. Porque elas têm medo que pareçam loucas, ou algo do tipo. E se elas não as mencionam para seus médicos elas podem ser mal diagnosticadas.
Em particular, a noção é que se você ver coisas ou ou ouvir coisas, você está ficando louco. Mas as alucinações psicóticas são bem diferentes. As alucinações psicóticas, sejam visuais ou vocais, se referem a você. Elas acusam você. Elas seduzem você. Elas humilham você. Elas zombam de você. Você interage com elas. Não há nenhuma qualidade de referência nessas alucinações de Charles Bonnet. Há um filme. Você assiste um filme que não tem nada a ver com você. Ou é assim que as pessoas pensam disso.
 Há também uma coisa rara chamada epilepsia do lobo temporal. E às vezes, se um indivíduo sofre disso, ele pode se sentir transportado de volta a um momento ou lugar no passado. Você está num cruzamento de estrada particular. Você cheira castanhas tostando. Você ouve o tráfego. Todos os sentidos estão envolvidos. E você espera por sua namorada. E isso é aquela tarde de terça em 1982. E as alucinações do lobo temporal são todas alucinações multissensoriais, cheias de sentimento, cheias de familiaridade, localizadas no espaço e tempo, coerentes, dramáticas. As de Charles Bonnet são bem diferentes.
 Então nas alucinações de Charles Bonnet, você têm de todos os tipos, desde alucinações geométricas, os quadrados rosas e azuis que a mulher tinha, até alucinações bem elaboradas com figuras e especialmente rostos. Rostos, e às vezes rostos deformados, são as únicas coisas em comum nessas alucinações. E das mais comuns é o desenho animado.
 Então, o que está acontecendo? Fascinantemente, nos últimos anos, foi possível fazer neuroimagem funcional, fazer fMRI em pessoas que estão alucinando. E de fato, descobrir que diferentes partes do cérebro visual são ativadas enquanto elas estão alucinando. Quando pessoas têm essas alucinações geométricas simples, o córtex visual primário é ativado. Isso é a parte do cérebro que percebe bordas e padrões. Você não forma imagens com seu córtex visual primário.
 Quando imagens são formadas, um parte superior do córtex visual é envolvido no lobo temporal. E em particular, uma área do lobo temporal chamada de giro fusiforme. E é sabido que se pessoas têm lesões no giro fusiforme, elas talvez percam a habilidade de reconhecer rostos. Mas se há uma atividade anormal no giro fusiforme, elas podem alucinar rostos. E isso é exatamente o que você encontra em algumas dessas pessoas. Há uma área na parte anterior desse giro onde dentes e olhos estão representados. E essa parte do giro é ativada quando pessoas têm essas alucinações deformadas.
 Há uma outra parte do cérebro que é especialmente ativada quando alguém vê desenhos animados. Ela é ativada quando alguém reconhece desenhos, quando os desenha e quando alucina com eles. É muito interessante que isso seja específico. Há outras partes do cérebro que estão especificamente envolvidas com o reconhecimento e alucinação de edifícios e paisagens.
 Por volta de 1970 foi descoberto que não havia apenas partes particulares do cérebro, mas células particulares. "Células de rosto" foram descobertas por volta de 1970. E agora sabemos que há centenas de outros tipos de células, que podem ser muito específicas. Então você pode não ter apenas células de "carro", você pode ter células de "Aston Martin". Eu vi um Aston Martin essa manhã. Eu tinha de falar disso. E agora ele está em algum lugar.
 Agora, nesse nível, no que é chamado de córtex inferotemporal, há apenas imagens visuais, figmentos ou fragmentos. É apenas nos níveis superiores que os outros sentidos se juntam e há conexões com a memória e emoção. E na síndrome de Charles Bonnet você não vai até esses níveis superiores. Você está nesses níveis do córtex visual inferior onde você tem milhares e dezenas de milhares e milhões de imagens, ou figmentos, ou figmentos fragmentários, todos codificados neuralmente, em células ou pequenos grupos de células particulares.
 Normalmente todas elas fazem parte do fluxo integrado de percepção, ou imaginação. E não há consciência delas. Só se alguém tiver perda de visão, ou for cego, que o processo é interrompido. E ao invés de ter uma percepção normal, você está tendo uma estimulação anárquica e convulsiva, ou liberação, de todas essas células visuais, no córtex inferotemporal. Então, de repente você vê uma face. De repente você vê um carro. De repente isso, e de repente aquilo. A mente faz o possível para se organizar, e dar algum tipo de coerência para isso. Mas não é bem sucedida.
 Quando elas foram descritas pela primeira vez pensou-se que podiam ser interpretadas como sonhos. Mas de fato as pessoas dizem, "Eu não reconheço as pessoas. Eu não posso formar nenhuma associação." "Caco não significa nada para mim." Você não chega a lugar nenhum pensando nelas como sonhos.
 Bem, eu disse mais ou menos o que eu queria. Eu acho que quero apenas recapitular e dizer que isso é comum. Pense no número de pessoas cegas. Deve haver centenas ou milhares de pessoas cegas que têm essas alucinações, mas estão muito assustadas para mencioná-las. Então esse tipo de coisa precisa ser divulgada, para os pacientes, para os médicos, para o público. Finalmente, eu penso que elas são infinitamente interessantes, e valiosas, por nos oferecer alguns indícios de como o cérebro funciona.
 Charles Bonnet disse, 250 anos atrás -- ele se perguntava de que forma, pensando sobre essas alucinações, de que forma, como ele colocou, o teatro da mente podia ser gerado pela maquinaria do cérebro. Agora, 250 anos mais tarde, eu acho que estamos começando a vislumbrar como isso é feito. Muito obrigado.

Chris Anderson: Isso foi esplêndido. Muito obrigado. Você fala sobre essas coisas com tanto discernimento e empatia com seus pacientes. Você mesmo experimentou algumas das síndromes que você descreveu?
 Oliver Sacks: Eu temia que você perguntasse isso.  Bem, sim, um monte delas. E na verdade eu mesmo tenho perda de visão. Eu sou cego de um olho, e o outro não está muito bom. E eu vejo alucinações geométricas. Mas elas param por aí.
 C.A.: E elas não incomodam você? Pois você entende o que está acontecendo. Isso não deixa você se preocupar?
 O.S.: Bem, elas não me incomodam mais do que meu zumbido. Que eu ignoro. Elas me interessam ocasionalmente. E eu tenho vários desenhos delas nos meus cadernos. Eu fiz uma fMRI em mim mesmo para ver como meu córtex visual está dominando. E quando eu vejo todos esses hexágonos e coisas complexas, que eu também tenho, com enxaqueca visual, eu me pergunto se todo mundo vê coisas assim, e se coisas como arte rupestre, ou arte ornamental podem ter sido derivadas disso.

3 comentários:

  1. Minha avó já está com 90 anos e já perdeu boa parte da visão. Ela vê paisagens com flores, um rio de águas cristalinas cheia de peixes e pessoas desconhecidas que sorriem para ela (no sorriso falta um dos dentes da frente). Muito obrigada por postarem o artigo acima, ajudará muitas pessoas a entender melhor esta síndrome!

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  2. jltesseroli@uol.com.br15 de agosto de 2013 09:15

    Meu pai tem 85 anos, e por ocasião de remoção de catarata nos dois olhos para implante de lentes artificiais ele sofreu descolamento de retina em ambos em 1995. Sua visão ficou bastante limitada desde então. Há dois anos ele vem relatando sobre coisas que vê e julga muito estranhas, felizmente com pouca frequência. Após tomografia, ressonância magnética e eletroencéfalograma concluímos que seu cérebro está dentro do esperado para a sua idade, e que, muito provavelmente, ele possa estar passando por situações que se encaixam no descrito por Bonnet. Nos restou então tentar fazer com que ele possa compreender o que imaginamos estar se passando em sua mente, ou seja: a mente "pregando peças".

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  3. Que esclarecedor. Eureka! sou grata ao autor deste artigo.

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