domingo, 20 de janeiro de 2013

Sonhos, Freud e Neurociências

Imagem: Ciência Hoje

 Numa época em que a fisiologia do sono e sonhos era desconhecida, Freud utilizando-se da interpretação psicanalítica teorizou  que os sonhos refletiam a experiência inconsciente e era um guardião do sono. Para ele, os desejos reprimidos são, particularmente, aqueles associados ao sexo e à hostilidade, os quais eram liberados nos sonhos quando a consciência era diminuída.
Fraga (2010) cita que um dos maiores responsáveis no Brasil por pesquisas nessa área é o neurocientista Sidarta Ribeiro[1]. Ele e outros pesquisadores desenvolvem estudos que seguem uma linha da neurociência cujas conclusões contrariam as convicções de muitos cientistas: Freud estava certo, afinal!
Imagem: Istoé

Ele dizia, por exemplo, que sonhos representam a satisfação de desejos. “Na linguagem da neurociência, isso significaria que sonhos concatenam fragmentos de memórias de forma a simular expectativas futuras de recompensa e punição mediadas por dopamina”, explica Ribeiro. “Tudo indica que o sonho tem a função de simular comportamentos – tanto os que levam a recompensa (os bons) como os que levam a punição (os pesadelos). Portanto, sua função seria evitar ações que resultem em punição e procurar aquelas que levam à satisfação do desejo.” “Hoje sabemos que a reverberação das memórias, que Freud chamava de ‘restos’ do dia, acontece durante o sono profundo. Durante o sono REM, quando os sonhos acontecem, são ativados os genes que promovem a fixação das memórias”, diz Sidarta. Somente agora, no entanto, com os progressos da neurociência, compreende-se muito mais seu papel real na vida cotidiana – a prática e a emocional.
Imagem: Istoé

Para entender como isso acontece, percebe-se por meio de eletroencefalogramas que durante o sono a atividade cerebral não se mantém constante. Ondas cerebrais lentas são sucedidas por curtos períodos de ondas mais aceleradas, acompanhadas por rápidos movimentos involuntários dos olhos. É o chamado sono REM (do inglês “movimento rápido dos olhos”). Constatou-se, posteriormente, que, durante esse período mais agitado, o fluxo sanguíneo cerebral se intensifica e uma série de imagens toma conta do cérebro. É o nascimento dos sonhos. A fixação de memórias acontece quando as memórias de curta duração, armazenadas no hipocampo, são transpostas para o córtex cerebral, região mais exterior, onde são armazenadas as memórias de longa duração.
Imagem: Istoé

Cheniaux(2006) traz um recorte interessante sobre os sonhos,
Segundo Francis Crick - ganhador do prêmio Nobel por suas pesquisas sobre o DNA - e Graeme Mitchison36, sonhamos não com as memórias que estão sendo consolidadas, mas com aquelas que estão sendo apagadas. Para eles, o sono REM é necessário para a eliminação de informações erradas ou inúteis armazenadas no cérebro. O sonho seria um reflexo de um processo de aprendizagem reversa, no qual determinadas sinapses são enfraquecidas. Embora esta formulação não tenha recebido muito apoio nos meios acadêmicos, ela é frequentemente citada e parece ser coerente com o fato de os sonhos retratarem eventos bizarros ou irreais, os quais precisariam ser eliminados da memória.
Nesse sentido, o neurologista Flávio Alóe diz que "O sonho serve para depurar a emoção negativa recente. É como se você limpasse o seu HD para sofrer menos durante o dia. Já os pesadelos são sonhos que provocam sensação de impotência diante de ameaças de sobrevivência, segurança pessoal ou autoestima. Com sequências temporais semelhantes à realidade, eles se confundem com esta, tornam-se perturbadores e terminam com o despertar consciente e com emoções negativas como ansiedade, medo, raiva, vergonha e nojo, que permanecem na memória. Também podem ser acompanhados de taquicardia, respiração ofegante, sudorese ou ereção". Porém, noites cortadas por pesadelos prejudicam o sono REM, essencial para regular funções como criatividade e memória.

Segundo a revista  QUANTA as descobertas sobre o sono também arremetem a algumas situações que ocorrem na escola...

"Sonho e escola"

Na educação, as descobertas sobre sono, sonho e aprendizado têm implicações importantes. “O sono deve ser visto como algo relevante para os alunos, e não como um mero problema de disciplina”,  diz Fernando Louzada, neurocientista da Universidade Federal do Paraná. Ou seja, quando um aluno dormir na aula, o professor deve lembrar que isso não é necessariamente falta de interesse.

Um dos problemas é que as aulas começam muito cedo e não respeitam o ritmo biológico dos jovens. Embora entre os cientistas isso seja um consenso, o horário das aulas nas escolas não mudou. A principal dificuldade é reorganizar o horário de forma que seja bom para todo mundo: escolas, alunos e professores. “Mas poderia começar pelo menos um pouco mais tarde, pois o horário das 7h afeta até os pequenos. Os mais prejudicados, porém, são os alunos que têm dificuldades”, alerta Fernando.

Além disso, é importante perceber que o bom sono não serve só para manter os alunos atentos no dia seguinte durante as aulas, mas também para consolidar o que se aprendeu na aula do dia anterior. “A falta de sono na noite anterior pode fazer com que o aluno não aprenda direito. Se ele dormir mal no dia seguinte, porém, ele vai aprender, mas seu aprendizado será menos flexível”, explica Paula Tiba. “Em laboratório, observamos que ratos aprendem a se localizar em um labirinto, mas dormem mal no dia seguinte, fazem sempre o mesmo caminho. Se você bloquear esse caminho, ele tem dificuldade em achar uma alternativa.” Dormindo bem e sonhando, o cérebro reativa redes neurais ativadas durante o dia e transforma memórias de curto prazo em longo prazo, que poderão ser utilizadas depois, aproveitando ao máximo as informações.

Quando o sono é irresistível, uma alternativa para muitos alunos pode ser a sesta. “Uma dormida rápida tem um papel reparador e diminui a sonolência”, diz Fernando. Além disso, é importante reconhecer as mudanças no sono nas diferentes fases na vida. Assim como o idoso adianta o sono, o adolescente atrasa. “Uma possível explicação do ponto de vista biológico é que o adolescente fica acordado até mais tarde porque está entrando na fase reprodutiva”, diz Fernando Louzada.

A falta de sono também pode estar por trás de problemas de aprendizagem “Alguns alunos que parecem ter dificuldade para acompanhar a aula podem na verdade estar com algum distúrbio do sono, como a apneia, que diminui o fluxo de oxigênio e atrapalha o aprendizado”, diz Camila Cruz Rodrigues, neuropsicóloga do Mackenzie.

Fonte:
COSTA, Raquel. JULIÃO, André. Por que os sonhos nos ajudam a viver melhor. Revista Istoé. Disponível online em: http://www.istoe.com.br/reportagens/99517_POR+QUE+OS+SONHOS+NOS+AJUDAM+A+VIVER+MELHOR
CHENIAUX, Elie. Os sonhos: integrando as visões psicanalítica e neurocientífica. Scielo, 2006. Disponível online em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-81082006000200009
FRAGA, Isabela. Um neurocientista enrustido. Ciência Hoje, 2010. Disponível online em: <http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-27/anais-da-neurociencia/sonhos-de-natal>




[1] Chefe de laboratório do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS), vinculado à Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Nenhum comentário:

Postar um comentário