domingo, 13 de janeiro de 2013

Surdos: trajetórias e conquistas


Ana Lúcia Hennemann



Durante muito tempo os surdos sempre foram estigmatizados e vistos como indivíduos que apresentavam uma doença ou algo trágico que poderia ser transmitido aos que estivessem próximos. De acordo com FELIPE (2007) muitos surdos eram excluídos da sociedade pois não falavam, dessa forma, a sociedade demonstrava que a maior dificuldade era a fala e não a surdez.
Na Grécia os surdos eram privados  de toda a possibilidade de desenvolvimento intelectual e moral porque confundiam a habilidade de falar com voz, com a inteligência desta pessoa, embora a palavra “fala” esteja relacionada ao verbo/pensamento/ação e não ao simples fato de emitir sons articulados.
As pessoas que nasciam surdas  eram consideradas incapazes para a prática de atos da vida acadêmica. Eles não possuíam uma linguagem reconhecida e respeitada que proporcionasse a valorização de sua comunicação e expressão. Eram vistos como ineducáveis e considerados inúteis à coletividade, além de enfretarem preconceito, descrédito e muitas vezes foram considerados loucos.
A partir do século XVI, com a influência da ciência e da tecnologia, inicia-se na Espanha a educação para pessoas surdas. Muitos métodos forma desenvolvidos a partir dos gestos e chegavam à escrita e à fala.
Conforme estudos de Meserlian (2009) a primeira escola para surdos foi criada em 1775, por Charles Michel L'Epée em Paris,
Em 1775, L'Epée fundou a primeira escola pública para o ensino da pessoa surda, em Paris, onde professores e alunos utilizavam-se dos sinais metódicos, sendo seus trabalhos divulgados em reuniões periódicas com objetivo de discutir os resultados obtidos. Para L'Epée a linguagem de sinais seria a língua natural dos surdos e, por meio dela, poderia desenvolver o pensamento e a comunicação. (MESERLIAN, 2009, P. 4)

Esta escola tinha uma filosofia manualista e oralista, sendo assim, essa foi a primeira vez na história que os surdos adquiriram o direito a uma linguagem própria, apesar de que o sistema de sinais utilizados eram metódicos e formado por uma combinação dos sinais dos surdos com sinais inventados por L'epée, mas que garantiam o aprendizado da leitura e da escrita aos surdos. Em 1791, esta escola tornou-se o Instituto Nacional para Surdos-Mudos em Paris.
Contudo o fato mais marcante na história dos surdos foi o Congresso de Milão, no ano de 1880, em que se decidiu que os surdos seriam educados através da oralização[1], pois acreditavam que o método oral era superior ao gestual e como forma de comprovarem essa teoria, apresentaram vários surdos que falavam bem, como forma de mostrar a eficiência do método oral. Dessa forma os surdos tiveram que abandonar sua cultura, sua identidade surda e se submeteram as práticas de pessoas ouvintistas que acreditavam que a aprendizagem da língua oral era de suma importância para a vida social do surdo, e que os gestos e sinais os desviavam desse caminho.
Skliar  ( apud MESERLIAN, 2009, p.6), menciona que as conclusões do Congresso de Milão dividiram a história da educação dos surdos em dois períodos:
Um período prévio, que vai desde meados do século XVIII até a primeira metade do século XIX, quando eram comuns as experiências educativas por intermédio da Língua de Sinais, e outro posterior, que vai de 1880, até nossos dias, de predomínio absoluto de uma única 'equação', segundo a qual a educação dos surdos se reduz à língua oral.
A proibição da língua de sinais por mais de 100 anos, permanece viva nas mentes dos povos surdos. Em 1971, no Congresso Mundial de surdos em Paris, que a Língua de Sinais passou a ser valorizada.
Muitas conquistas e melhoria de condições de vida para os surdos já ocorreram, pois se lembrarmos as dificuldades que os mesmos tiveram no passado, pode-se dizer que hoje eles são integrantes de uma sociedade, já tem a oficialização da Libras (Língua Brasileira de Sinais)[2], bem como possuem alguns recursos, tais como: telefone, despertador para surdos, legenda em alguns programas de TV. O surdo luta por seus direitos como cidadão e um espaço maior dentro da sociedade.
Faz-se necessário um novo olhar frente a trajetória dos surdos, conhecer sua história é muito importante, bem como mostrá-la a toda a comunidade surda, ou seja, a todos envolvidos neste processo. Precisamos ter em mente toda essa identidade cultural para que dessa forma possamos almejar novos rumos, redefinir prioridades, saborear  vitórias. Nesse sentido transcrevo as orientações do MEC (2007, p. 13) que nos alertam sobre a educação dos surdos:”Estudar a educação escolar das pessoas com surdez nos reporta não só a questões referentes aos seus limites e possibilidades, como também aos preconceitos existentes nas atitudes da sociedade para com elas.”
A comunidade surda precisa ser respeitada e vista como uma sociedade com uma cultura diferenciada, com saberes próprios. Assim como se luta pelos povos quilombolas e povos indígenas, devemos saber que a comunidade surda também tem sua própria linguagem, linguagem que as caracteriza  que as torna singulares.
  

REFERÊNCIAS:

BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Formação Continuada a Distância de Professores para o Atendimento Educacional Especializado: Pessoa com surdez. Brasília: 2007.
BRITO, Lucinda F. Integração Social & Educação de Surdos. Rio de Janeiro: Babel, 1993.
FELIPE, Tayna. Libras em Contexto: curso básico. Rio de Janeiro: Walprint, 2007.
MESERLIAN, Kátia Tavares. Análise sobre a trajetória histórica da educação dos surdos. IX Congresso Nacional de Educação – EDUCERE. III Encontro Sul Brasileiro de Psicopedagogia. 26 a 29 de outubro de 2009.


[1]          O Oralismo vigorou na educação do aluno surdo por um longo período, até mesmo nos dias atuais encontramos escolas de educação de surdos que seguem essa perspectiva. Nesta filosofia são utilizados três elementos para o seu desenvolvimento, que são: o treinamento auditivo, a leitura labial e o desenvolvimento da fala, também o uso da prótese individual que amplifica os sons, com o objetivo de aproveitar os resíduos auditivos do aluno surdo, possibilitando aos mesmos a comunicação oral (SILVA, 2003).
[2]          A língua de sinais é o canal que os surdos dispõem para receber a herança cultural, e a Língua Brasileira de Sinais - LIBRAS é utilizada pela comunidade surda brasileira que se torna diferente das línguas orais, pois, utiliza o canal visual-espacial. É adquirida como língua materna pelas crianças surdas e o simples contato com a comunidade de surdos adultos propicia a sua aquisição naturalmente (BRITO, 1993).

3 comentários:

  1. Otimo conteúdo !!!É muito bom saber que existem pessoas com esse olhar diferenciado!!

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  2. Me ajudou muito, conteúdo muito bem explicado !!

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  3. bom conteudo e eu amo o bruno

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