quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Autodidatismo amigável ao cérebro: três pilares


Tudo leva a crer que as mudanças na educação finalmente terão que acontecer, seja pela evolução da escola atual ou pelo seu colapso.  No entanto, o sistema formal de ensino é um organismo gigantesco e complexo, que tem seguidamente mostrado dificuldades em incorporar os avanços da ciência e da tecnologia no seu dia-a-dia no ritmo necessário. É conhecida a piada que diz que se um cidadão do século XIX viajasse no tempo e viesse parar nos dias de hoje, a única coisa que ele reconheceria sem dificuldades seria a sala de aula...
Enquanto isso, o mundo caminha a passos largos para um futuro onde a capacidade de digerir e apreender grandes quantidades de informação será tão fundamental quanto a capacidade de ler e escrever é hoje em dia. Para tornar a situação um pouco mais complicada, a quantidade de dados novos sendo gerada a cada instante pela humanidade tende ao infinito. A cada minuto, nós produzimos mais informação do que é humanamente possível consumir em um ano. Ou seja, precisamos saber aprender muito, e rápido.
Mas enquanto isso não acontece, o que nós -- filhos dos últimos suspiros do sistema educacional "industrial" -- fazemos para lidar com esse "admirável mundo novo"?
A resposta está na busca da autonomia cognitiva: precisamos aprender a aprender sozinhos ou com bem pouca ajuda. As gerações atuais não podem se dar ao luxo de esperar que os educadores passem a ser realmente mais um auxílio e menos um empecilho a nossa aprendizagem. Em outras palavras, precisamos ser autodidatas e construir nossos próprios caminhos de aprendizagem.
O primeiro passo nessa direção é entender como nossos cérebros aprendem, e, a partir desse conhecimento, criar para nós mesmos as condições que a escola de hoje não consegue proporcionar para aprender de forma eficiente e eficaz. Mas em que a neurociência contemporânea pode ajudar neste desafio de nos tornarmos os nossos próprios educadores?
Um pouco de história
A década de 90 ficou conhecida como a década do cérebro, e a principal responsável pelo início daquela que foi uma verdadeira revolução no conhecimento desta pequena maravilha que temos entre as duas orelhas foi invenção da ressonância magnética funcional (RMF). Capaz de registrar o funcionamento do cérebro em imagens, e sem a necessidade do uso de radiação, a RMF tornou possível o estudo extensivo e ao vivo de cérebros saudáveis, enquanto as pessoas realizavam diferentes atividades cognitivas.
Não demorou muito para que educadores e pessoas interessadas em aprendizagem se interessassem pelas novidades que estavam sendo descobertas todos os dias nos laboratórios dos neurocientistas. Afinal, o sistema educacional no mundo todo já dava sinais da imensa crise que atravessa hoje, e era natural que se começasse a procurar saídas.
A seguir, são discutidas algumas das principais descobertas da neurociência que afetam diretamente a aprendizagem. Em seguida são apresentadas algumas ideias de como pessoas autodidatas podem utilizar esses conhecimentos para aprender mais e melhor por conta própria.
Sinto, logo existo
Está cada vez mais claro que as emoções afetam diretamente e de forma mensurável a capacidade de aprender. Esta descoberta que não chega a surpreender, já que confirma aquilo que qualquer aprendiz já sabe por experiência própria: estudar irritado com a discussão havida ontem com o colega de trabalho não funciona muito bem. Nesse caso, é melhor usar os neurônios buscando soluções para o problema, para depois retomar o estudo com mais foco e concentração. 
Mas é possível ir um pouco além do óbvio aqui: a relação entre emoções e capacidade de aprendizagem deixa claro que uma vida equilibrada é fundamental na conquista da autonomia cognitiva. Estudar horas a fio e deixar outros aspectos importantes da vida sem a devida atenção normalmente é menos eficiente que estudar por um tempo menor. Claro, supondo que usamos o restante do tempo para garantir as condições psicológicas necessárias para nos concentrarmos naquilo que estamos tentando aprender.
Formação da Memória
Apesar da má-fama da tenebrosa "decoreba", o fato é que sem memória, não há aprendizagem. A diferença é que a "decoreba" é a memorização mecânica e sem significado, que se perde rapidamente após alguns dias. Já uma boa memória de longo prazo (MLP) é essencial para aprendizagem e se constrói através de associações significativas com aquilo que já se conhece, além de repetições que reforcem a rede neuronal responsável por essas novas associações.
Uma das descobertas de aplicação prática mais imediata nesta área é o papel fundamental do sono na consolidação da MLP. Ou seja, dormir mais tarde para estudar pode não estar sendo tão proveitoso quanto você imagina: você pode até estudar mais tempo, e eventualmente aumentar a sensação de "dever cumprido", mas na prática acaba aprendendo menos. 
Outro fator fundamental para uma memorização eficiente é o intervalo entre as repetidas exposições à mesma informação. A consolidação da memória é, essencialmente, um processo químico, e como tal, não acontece instantaneamente. Ao contrário, as pesquisas mostram que é preciso um intervalo de tempo significativo para uma certa quantidade de informação "assentar" nos nossos neurônios. Esse "assentamento" se traduz concretamente no engrossamento da camada de mielina que recobre o caminho neuronal recém-formado. E quanto mais mielina em uma rede de neurônios, mas rapidamente a informação trafega nesse caminho, e menos esforço é necessário para nos lembrarmos das informações contidas nele.
Experimentos práticos com estudantes como os da aprendizagem espaçada(link) mostram que intervalos em torno de 10 minutos entre sessões de estudo podem multiplicar muitas vezes a eficiência da memorização de grandes quantidades de informações.
Em resumo, para termos uma boa memória (e portanto aprender mais) precisamos revisar as novas informações em intervalos regulares e dormir tudo o que o nosso cérebro tem direito.
Para aprender, tem que se mexer!
Neste item, as escolas estão totalmente na contramão da ciência. A movimentação do corpo aumenta o fluxo sanguíneo no cérebro, melhorando a sua nutrição e oxigenação, o que comprovadamente melhora a aprendizagem. Ou seja, do ponto de vista do nosso cérebro, as famigeradas filas de carteiras apertadas onde os estudantes são obrigados a ficar sentados por horas a fio estão bem longe de representar o cenário ideal para a aprendizagem.
Isso também vale para aquela escrivaninha em que passamos horas e horas sem sequer levantar para beber água. Além de não dar os intervalos necessários para a formação da memória, essa situação pode, literalmente, deixar seu cérebro dormente!
A incorporação dessa informação na nossa vida de autodidatas pode ser feita sob dois pontos de vista: um deles é a prática de exercícios regulares. O outro é a movimentação durante pelo menos alguns dos nossos períodos de estudo. Ou seja, por incrível que pareça, aquela caminhada no parque que você faz ouvindo uma aula gravada pode ser bem mais produtiva que ouvir o mesmo material na própria sala de aula ou deitado no sofá. Não só porque você está aproveitando o tempo, mas também porque o seu cérebro está em melhores condições de capturar a informação.
Neurogênese: nunca é tarde para aprender
As descobertas mais festejadas dos últimos anos giram em torno da neurogênese, o processo de formação de novos neurônios. Até bem pouco tempo atrás, acreditava-se que neurônios só eram formados durante a infância. Mas hoje, está comprovado que a neurogênese ocorre durante toda a vida. Na vida adulta, ela se concentra em uma área do cérebro chamada de hipocampo, que é justamente onde a memória de longo prazo é formada. Ora, se aprender é armazenar informações significativas na memória de longo prazo, a consequência é óbvia desse fato é: podemos sim, aprender coisas completamente novas a partir de qualquer idade. As universidades da Terceira Idade estão aí para comprovar.
Neuroplasticidade: nem tudo está perdido
Atualmente sabe-se que, além de formar novos neurônios, o cérebro é capaz de modificar a sua estrutura em qualquer momento da vida. Novas conexões entre os neurônios são formadas o tempo todo, e redes cerebrais inteiras podem literalmente "migrar" de um lugar para o outro em caso de necessidade.
A neuroplasticidade significa que grande parte dos danos físicos  que podem acontecer ao cérebro tem boas chances de ser recuperados com “re-treinamento” da pessoa para as funções afetadas, que passam pouco a pouco a ser controladas por outras regiões diferentes daquelas originalmente utilizadas. É o caso de pessoas que ficam cegas e passam a usar o córtex visual para funções de tato, por exemplo.
A palavra-chave do parágrafo anterior é "re-treinamento". Quando estamos falando de aprendizagem, a neuroplasticidade comprova a nossa capacidade virtualmente ilimitada para aprender coisas novas, mesmo em áreas onde a pessoa inicialmente não tenha uma grande habilidade previamente desenvolvida.
Em termos concretos, a neuroplasticidade significa que é possível sim -- através do treinamento consistente -- aprender uma segunda língua depois de adulto ou tornar-se proficiente em leitura ou matemática mesmo com um histórico de dificuldades nessas áreas. A esse  "treinamento consistente", dá-se o nome de prática deliberada, expressão que se consagrou e popularizou nos últimos anos com a publicação do livro "Fora de Série", de Malcom Gladwell, seguido depois por vários outros autores.
Os três pilares
Da discussão anterior é possível resumir três grandes pilares para um autodidatismo competente e eficiente:
·       ter uma vida equilibrada - física e emocionalmente
·       estudar sempre, revisando de forma intervalada
·       fazer uso de técnicas de prática deliberada para consolidar novos conhecimentos e habilidades
É importante ressaltar que esses pilares -- aparentemente simples -- não são técnicas de “autoajuda” baseadas em casos isolados e sem comprovação. Na verdade, eles são derivadas diretamente das mais recentes contribuições da neurociência para a aprendizagem. Vale, portanto, prestar um pouco mais de atenção a eles.


[i] Autora do livro “Histórias de Aprendizagem” (http://www.amazon.com.br/Hist%C3%B3rias-de-Aprendizagem-ebook/dp/B00B8BRKYY/
e do vídeo-blog VideoAulas ByAna (http://www.facebook.com/VideoAulasByAna ), Ana Lopes tem Doutorado em Ciência da Computação e paixão irremediável por aprendizagem.

6 comentários:

  1. Gostei bastante, vou tentar aplicar. Gosto de ler esse tipo de artigo pois posso entender bem como funciona o processo de aprendizagem e assim me concentrar em fazer o que realmente é eficiente na hora de estudar. Obrigado!

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  2. Olá Dra. Ana! Muito bom o texto. Por algum tempo procurava algo que tratasse o Autodidatismo de uma forma não pejorativa, mas como a saída para o "aprender a aprender", o "aprender por si" ditos por pensadores da educação, mas, segundo minha maneira de ver, a escola em nada facilita esta necessidade para o mundo de hoje. Gostaria de saber se publicastes isso em livro (comprarei o E-Book, mas não sei se encontrarei tuas palavras ali). Atte. Rubens Balestro

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    1. Boa noite Rubens!
      O artigo publicado acima pertence a outra Ana, ela é autora do VideoAulas ByAna, mas concordo com você em muitos casos a escola não facilita as necessidades que o mundo está nos exigindo. Como diz Gabriel Perissé, o discurso é sempre de trocas de interações, mas nos momentos das provas este discurso vai por água abaixo, troca-se as palavras proferidas por Paulo Freire e entra ditadura de General. Geiser. Abç

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  3. Aproveitei esse artigo da professora Ana para colocar em prática o meu autodidatismo: Fazendo uma leitura dinâmica em voz alta dando ênfase e entonações em pontos importantes do texto trabalhando, assim, a respiração e a dicção.

    Parabéns pelo seu artigo.

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