Em 1970, uma menina de 13 anos chamada
Genie (nome fictício) foi descoberta em um subúrbio de Los Angeles. Vítima de
violência por parte do pai, ela foi confinada por quase 12 anos em um pequeno
quarto na casa dos pais, amarrada a uma espécie de “troninho”(vaso sanitário) e
isolada do contato humano normal. Ela pesava só 29,5 kg, não conseguia esticar
braços ou as pernas nem mastigar, não tinha controle sobre a bexiga e os
intestinos e não falava. Reconhecia apenas seu nome e a palavra
sorry (desculpe).
Exatamente três anos antes, Eric Lenneberg
sugeriu que há um período crítico para a aquisição da linguagem, que começa no
início do primeiro ano de vida e termina próximo à puberdade. Lenneberg
argumentou que seria difícil, ou até impossível, uma criança que ainda não
tivesse adquirido a linguagem fazê-lo após aquela idade.
A descoberta de Genie acabou propiciando
um teste da hipótese de Lenneberg. Genie poderia aprender a falar, ou já era
muito tarde?
EXPRESSE SUA OPINIÃO SOBRE O CASO...
O National Institutes of Mental Health
(NIMH) iniciou um estudo, e um grupo de pesquisadores assumiu o comando dos
cuidados de Genie, aplicando-lhes vários testes e treinamento intensivo da
linguagem.
O progresso de Genie durante os anos seguintes
(antes de o NIMH suspender o financiamento e a mãe recuperar a custódia e
isolá-la do contato com os profissionais que a ensinavam) tanto desafia quanto
sustenta a ideia de um período crítico para a aquisição da linguagem. Genie
aprendeu algumas palavras simples e podia juntá-las em sentenças primitivas,
mas regradas. Ela também aprendeu os fundamentos da linguagem de sinais. No
entanto, nunca usou a linguagem normalmente, e “seu discurso permaneceu, na
maior parte, como um telegrama um tanto confuso”. Quando sua mãe, incapaz de
cuidar dela, a entregou a diversos lares adotivos violentos, ela retornou ao
silêncio total.
Estudos de caso como os de Genie e Victor,
o menino selvagem de Aveyron, ilustram a dificuldade
de aquisição da linguagem depois dos primeiros anos de vida; entretanto, por
haver tantos fatores complicadores, eles não permitem chegar a conclusões
definitivas sobre a possibilidade
dessa aquisição. Por causa da plasticidade do cérebro, alguns pesquisadores
consideram os anos que antecedem a puberdade um período mais sensível que
crítico para o aprendizado da linguagem.
As pesquisas de imagens do cérebro revelam que, apesar de as partes do
cérebro mais adequadas ao processamento da linguagem serem danificadas no desenvolvimento da linguagem próximo ao normal pode
continuar à medida que outras partes do cérebro assumem o comando.
De fato, acontecem mudanças na organização
e na utilização do cérebro ao longo do aprendizado normal da linguagem.
Neurocientistas também observaram diferentes padrões da atividade cerebral durante
o processamento entre pessoas que aprendem Língua de Sinais, como linguagem
nativa e aquelas que aprenderam como segunda língua, após a puberdade.
Outra pesquisa concentrou-se em um período
mais curto no começo da vida. Em algum momento, entre 6 e os 12 meses, os bebês
normalmente começam a se “especializar” em perceber os sons de suas línguas. Em
um estudo, bebês que, aos 7 meses, já tinham desenvolvido essa percepção
fonética especializada, dois anos mais tarde apresentaram habilidades de
linguagem mais avançadas do que bebês que aos 7 meses eram mais capazes de discriminar
sons não nativos. Essa pesquisa,
sugerem os pesquisadores, pode apontar para a existência de um período crítico
para a percepção fonética: se os bebês não começam a se concentrar
exclusivamente nos sons de suas línguas nativas durante aquele período, seu
desenvolvimento da linguagem é desacelerado. Isso talvez explique por que o
aprendizado de uma segunda língua na idade adulta não é tão fácil quanto nos
primeiros anos da infância.
Se existe um período crítico quanto um
período sensível para o aprendizado da linguagem, o que explica isso? Os
mecanismos do cérebro para a aquisição da linguagem declinam à medida que o
cérebro amadurece? Isso poderia parecer estranho, já que outras habilidades
melhoram. Uma hipótese alternativa é que esse aprimoramento na sofisticação
cognitiva interfere na capacidade de um adolescente ou de um adulto aprender um
idioma. As crianças pequenas adquirem a linguagem em pequenos blocos, que podem
ser prontamente aprendidos. Os mais velhos, quando começam a aprender um
idioma, tendem a absorver grande quantidade de uma vez e podem ter problemas
para analisar e interpretar essas informações.
Estudo de caso extraído do livro O mundo da Criança
O acompanhamento completo do caso de
Genie, se encontra neste link (porém em inglês) http://kccesl.tripod.com/genie.html
E para quem deseja saber mais sobre as
alterações da linguagem na infância, tem este outro link aqui (também em
inglês) www.alphadictionary.com/articles/ling001.html


Bom dia, Existe algum estudo que contrarie a hipótese do período crítico? Imagine a frustração de um senhor de 60 anos ao ouvir que não conseguirá aprender propriamente um novo idioma porque o seu cérebro está ficando cada vez mais inapto.
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