sábado, 23 de fevereiro de 2013

Há um período crítico para a aquisição da linguagem?


Em 1970, uma menina de 13 anos chamada Genie (nome fictício) foi descoberta em um subúrbio de Los Angeles. Vítima de violência por parte do pai, ela foi confinada por quase 12 anos em um pequeno quarto na casa dos pais, amarrada a uma espécie de “troninho”(vaso sanitário) e isolada do contato humano normal. Ela pesava só 29,5 kg, não conseguia esticar braços ou as pernas nem mastigar, não tinha controle sobre a bexiga e os intestinos e não falava. Reconhecia apenas seu nome e a palavra sorry (desculpe).
Exatamente três anos antes, Eric Lenneberg sugeriu que há um período crítico para a aquisição da linguagem, que começa no início do primeiro ano de vida e termina próximo à puberdade. Lenneberg argumentou que seria difícil, ou até impossível, uma criança que ainda não tivesse adquirido a linguagem fazê-lo após aquela idade.
A descoberta de Genie acabou propiciando um teste da hipótese de Lenneberg. Genie poderia aprender a falar, ou já era muito tarde?
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   O National Institutes of Mental Health (NIMH) iniciou um estudo, e um grupo de pesquisadores assumiu o comando dos cuidados de Genie, aplicando-lhes vários testes e treinamento intensivo da linguagem.
   O progresso de Genie durante os anos seguintes (antes de o NIMH suspender o financiamento e a mãe recuperar a custódia e isolá-la do contato com os profissionais que a ensinavam) tanto desafia quanto sustenta a ideia de um período crítico para a aquisição da linguagem. Genie aprendeu algumas palavras simples e podia juntá-las em sentenças primitivas, mas regradas. Ela também aprendeu os fundamentos da linguagem de sinais. No entanto, nunca usou a linguagem normalmente, e “seu discurso permaneceu, na maior parte, como um telegrama um tanto confuso”. Quando sua mãe, incapaz de cuidar dela, a entregou a diversos lares adotivos violentos, ela retornou ao silêncio total.
   Estudos de caso como os de Genie e Victor, o menino selvagem de Aveyron, ilustram a dificuldade de aquisição da linguagem depois dos primeiros anos de vida; entretanto, por haver tantos fatores complicadores, eles não permitem chegar a conclusões definitivas sobre a possibilidade dessa aquisição. Por causa da plasticidade do cérebro, alguns pesquisadores consideram os anos que antecedem a puberdade um período mais sensível que crítico para o aprendizado da linguagem.  As pesquisas de imagens do cérebro revelam que, apesar de as partes do cérebro mais adequadas ao processamento da linguagem  serem danificadas no desenvolvimento da linguagem próximo ao normal pode continuar à medida que outras partes do cérebro assumem o comando.
    De fato, acontecem mudanças na organização e na utilização do cérebro ao longo do aprendizado normal da linguagem. Neurocientistas também observaram diferentes padrões da atividade cerebral durante o processamento entre pessoas que aprendem Língua de Sinais, como linguagem nativa e aquelas que aprenderam como segunda língua, após a puberdade.
    Outra pesquisa concentrou-se em um período mais curto no começo da vida. Em algum momento, entre 6 e os 12 meses, os bebês normalmente começam a se “especializar” em perceber os sons de suas línguas. Em um estudo, bebês que, aos 7 meses, já tinham desenvolvido essa percepção fonética especializada, dois anos mais tarde apresentaram habilidades de linguagem mais avançadas do que bebês que aos 7 meses eram mais capazes de discriminar sons não nativos. Essa pesquisa, sugerem os pesquisadores, pode apontar para a existência de um período crítico para a percepção fonética: se os bebês não começam a se concentrar exclusivamente nos sons de suas línguas nativas durante aquele período, seu desenvolvimento da linguagem é desacelerado. Isso talvez explique por que o aprendizado de uma segunda língua na idade adulta não é tão fácil quanto nos primeiros anos da infância.
    Se existe um período crítico quanto um período sensível para o aprendizado da linguagem, o que explica isso? Os mecanismos do cérebro para a aquisição da linguagem declinam à medida que o cérebro amadurece? Isso poderia parecer estranho, já que outras habilidades melhoram. Uma hipótese alternativa é que esse aprimoramento na sofisticação cognitiva interfere na capacidade de um adolescente ou de um adulto aprender um idioma. As crianças pequenas adquirem a linguagem em pequenos blocos, que podem ser prontamente aprendidos. Os mais velhos, quando começam a aprender um idioma, tendem a absorver grande quantidade de uma vez e podem ter problemas para analisar e interpretar essas informações.

Estudo de caso extraído do livro O mundo da Criança

O acompanhamento completo do caso de Genie, se encontra neste link (porém em inglês) http://kccesl.tripod.com/genie.html
E para quem deseja saber mais sobre as alterações da linguagem na infância, tem este outro link aqui (também em inglês) www.alphadictionary.com/articles/ling001.html

Um comentário:

  1. Bom dia, Existe algum estudo que contrarie a hipótese do período crítico? Imagine a frustração de um senhor de 60 anos ao ouvir que não conseguirá aprender propriamente um novo idioma porque o seu cérebro está ficando cada vez mais inapto.

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