sábado, 15 de junho de 2013

Tricotilomania


Ela tinha uma mania específica, adorava colocar os dedos entre os cabelos e enrolá-los, do nada se percebia fazendo este gesto. Talvez fosse algo que trouxesse desde a infância. Seus cabelos sempre foram foco de interesse, em alguns momentos percebia-se sentido o comprimento do fio, alisando-o com a mão. Num determinado dia, o ato de enrolar e sentir o fio já não era mais suficiente, começou a arrancar fio a fio, sentia prazer em separar um único fio e puxá-lo, em seguida ficava contemplando o mesmo, observando cada detalhe... e foi assim que deparou-se no espelho com cicatrizes em sua cabeça, havia locais em que seus cabelos não cresciam mais...
    O nome lembra “tricô”, mas na verdade essa palavra cunhada pela dermatologista francês Henri Hallopeau nos arremate a um transtorno antes característico apenas em adultos, mas que de uns tempos vem sendo percebida em crianças e adolescentes. O termo Tricotilomania, TTM, (trhix em grego significa cabelo etillein refere-se a arrancar) aparece na literatura científica como casos em que o indivíduo “arranca cabelo”. As áreas mais comuns para puxar cabelo são o couro cabeludo, cílios e sobrancelhas, mas pode envolver o cabelo em qualquer parte do corpo. Em crianças, a tricotilomania ocorre igualmente em meninos e meninas. Em adultos, é mais comum em mulheres do que em homens.


     Segundo Toledo alguns podem arrancar só fios que estão nascendo ou os mais curtos, os mais grossos, os longos, os com textura ou cor diferentes, o grosso ou o escuro. Alguns arrancadores de cabelos demonstram interesse no cabelo alisando-o, sentindo o fio na mão, correndo o fio entre os lábios, mordendo a raiz ou comendo o fio ou parte dele. Crianças com TTM frequentemente se ocupam de outros comportamentos impulsivos, como onicofagia (roer unha), arrancar a cutícula ou cutucar ferimentos (skin picking), contrair a face, morder as juntas dos dedos, chupar o dedo polegar, bater no rosto, mastigar ou morder a língua, bruxismo (ranger os dentes), bater a cabeça na parede, masturbar-se, beliscar, morder ou torcer os lábios e balançar o corpo.
     Episódio de arrancar o cabelo podem ocorrer em qualquer lugar e durar minutos ou horas. Em crianças com TTM pode ser passageira, episódica ou contínua, e podem durar semanas ou meses até interromper o comportamento, levando a acreditar que está completamente livre, mas inesperadamente ter um súbito e inexplicado retorno da TTM. Como qualquer transtorno, há graus de severidade. Para alguns a perda pode ser mínima; para outros, o dano pode ser extenso, até mesmo chegar à calvície total.
     Muitas crianças planejam e desenvolvem seu próprio tratamento antes de buscar ajuda formal. Elas reconhecem a necessidade de manter as mãos ocupadas ou de ficar com elas quietas enquanto fazem atividades como ler para impedir que uma das mãos inicie o ato de arrancar cabelo, pois a TTM teria a função calmante, semelhante a outros comportamentos ( p. ex. chupar dedo). Entretanto quando estas tentativas falham, principalmente em adolescentes, começa a tentativa de disfarçar os danos causados (perda do cabelo) fazendo penteados especiais, maquilagem, uso de chapéus, bonés, lenços... 


      Conforme Rufer, a tensão interna causada por medos, inibições sociais, dificuldades de expressão de emoções e estados depressivos faz com que os sintomas sejam mantidos. E frequentemente acrescenta-se a ele a força do hábito: arrancar cabelos torna-se um ritual diário, por exemplo, ao dirigir, ler ou telefonar, que ocorre de forma inconsciente e automática, sem um desencadeador concreto. Além desses fatores psicossociais, causas biológicas, como o genótipo, por exemplo, parecem desempenhar papel importante: estudos mostram que o transtorno surge com frequência de 5% a 8% acima da média se outro membro da família já sofre do mesmo problema. O quadro, no entanto, não pode ser atribuído apenas à herança genética; também pode ser explicado como comportamento aprendido.
     A tricotilomania é muito mais que uma 'mania' de arrancar os fios de cabelo. É um distúrbio sério que vem acompanhado de outros problemas e merece muita atenção e que pode trazer danos irreversíveis ou de difícil tratamento.

Fonte:
TOLEDO. Edson Luiz. TARAGONO, Rogéria. CORDÁS, Táki. Tricotilomania. São Paulo: Revista Psiquiatrica Clínica. Vol 37, nº 6. 2010. Disponível online em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-60832010000600003

TOLEDO. Edson Luiz. Tricotilomania. In PETERSEN. WAINER. Terapias Cognitivo Comportamentais para Crianças e Adolescentes. Porto Alegra: Artmed, 2011.

RUFER, Michael. Arrancando os cabelos. Disponível online em http://www2.uol.com.br/vivermente/reportagens/arrancando_os_cabelos.html

Um comentário:

  1. EU TENHO ISSO E NAO CONSIGO CONTROLAR, SINTO VERGONHA, EU TENHO 38 ANOS E A UNS 15 OU MAIS TENHO ISSO, MEUS CABELOS E TÃO POUCO E RALOS, QUE TENHO VERGONHA DE SAIR A RUA, E DEPRIMENTE

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