quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Escrita espelho no enfoque da neurociência

                                                                                  Ana Lúcia Hennemann
Observe a imagem abaixo, percebeu o que aparece na mesma? 

     Óbvio é uma xícara. Os mais detalhistas falariam que a mesma aparece em posições diferenciadas, mas mesmo assim é uma xícara, mesmo estando de cabeça para baixo, com a alça posicionada para direita ou para esquerda.  E foi através desta questão dos objetos que Dehaene (imagem) buscou elementos acerca da letra espelhada.
Conta o pesquisador que seu filho Olivier, por volta de seus 5 anos, iniciou a escrita de seu nome da direita para a esquerda: REIVILO. O pai relata que teve um ímpeto de orgulho, pois imaginou que seu filho fosse capaz de imitar Leonardo da Vinci, mas junto com a euforia veio a ansiedade: - E se o filho estivesse sinalizando indícios de dislexia?

   E foi assim, por curiosidade que iniciou as pesquisas em torno da escrita espelhada. Primeiras descobertas de Dehaene (2012, p.281)
Está constado que todas as crianças do mundo fazem os mesmos erros. Todas passam pelas mesmas dificuldades em discriminar as letras ou palavras de sua imagem espelho. [...] Trata-se aí de um comportamento estritamente normal, que se manifesta em todas as culturas, inclusas as da China e do Japão. Ele é observado na idade em que a criança produz seus primeiros escritos. Só o prolongamento desse fenômeno além dos 8 ou 10 anos dá razões para inquietar-se. (grifo meu) Nesta idade, com efeito, os erros de inversão em espelho são claramente mais frequentes nas crianças disléxicas, mesmo se eles tendem de modo igual a desaparecer em seguida.
      Contudo o autor se sentiu desafiado a descobrir mais, pois como pode uma criança que mal pode segurar um lápis, exibir sem o menor treinamento, uma habilidade superior a de um adulto? A resposta a seu questionamento foi encontrada em mecanismos antigos herdados de nossa história evolutiva.
  Para nossos ancestrais esta poderia ser uma função de sobrevivência, enquanto que a detecção de um animal perigoso, inicialmente visto no lado direito, pode ser rapidamente identificado se apresentados do lado esquerdo num outro processo por este processo de simetria.   Ou seja, Dehaene, nos diz com isso que podemos identificar um “tigre” vendo ele de perfil direito, mas a simetria de seu plano corporal também pode ser identificada em nosso cérebro se ele se encontra de perfil esquerdo.        
Possuir um sistema nervoso simétrico e conservá-lo no curso da aprendizagem apresenta pois dupla vantagem: - a simetria do plano cerebral permite reconstruir as propriedades dos objetos de modo invariante, independentemente de sua orientação esquerda-direita; - mas ela não impede, no entanto, codificar sua orientação no espaço, e nem responder com ações espaciais adaptadas, aí compreendidas as ações assimétricas. (Dehaene, 2012, p.295)
     Observe novamente a imagem da xícara colocada anteriormente e tente entender como por exemplo, a letra "q" seria visualizada no cérebro de um indivíduo no início de suas escritas...
 Os circuitos visuais da criança, se são aptos a se reciclar a fim de aprenderem a ler, possuem uma propriedade indesejável para a leitura: eles simetrizam objetos. É a razão porque todas as crianças cometem erros, no início de sua aprendizagem, erros de leitura e de escrita espelho. Para elas, as letras b e d não são senão um e o mesmo objeto sob dois ângulos diferentes. (Dehaene, 2012).

     Para a aprendizagem da leitura e escrita a criança precisa ultrapassar este estágio do espelhamento e “desaprender” a generalização por simetria, enfim entender que letras como “d” e “b”, são letras diferentes.

     Sendo que a distinção entre direita e esquerda começa na via visual dorsal (comanda os gestos no espaço). A criança aprende a traçar os contornos das letras e associa os gestos e orientações diferentes de cada um deles. Aos poucos esta aprendizagem motora se transfere à via visual ventral que reconhece os objetos. Dessa forma a simetria é quebrada, sendo que o leitor competente adquire conhecimentos visuais sobre a escrita normal.
      Também como forma de auxiliar as crianças neste “desaprender da escrita espelho”, atividades tais como a exploração tátil das letras feitas com diversas atividades e materiais:
- caminhar sobre a letra desenhada com giz no chão;
- molhar o dedo na água e contornar a letra;
-  manipular letras  feitas com lixa, madeira, enfim texturas diferenciadas;
- pedir para a criança desenhar números e letras no ar, experimentando diferentes dimensões, escrever na parede, no chão;
- praticar a escrita com os olhos fechados, etc;
- brincar de saco surpresa: coloca-se as letras dentro de um saco e ela deve através do tato descobrir qual letra é (observação: coloca-se letras feitas de material de diversas texturas coladas em cartolina);

- construir letras com diferentes objetos motivadores para as crianças; massa de modelar, argila, e pode-se comprar aquelas forminhas de alfabeto encontradas nos  brinquedos de  areia para fazer gelatina dentro......qual criança não gostaria de comer uma letra feita de gelatina?

Fonte: DEHAENE, Stanislas. Os neurônios da leitura: como a ciência explica a capacidade de ler. Porto Alegre: Penso, 2012.

5 comentários:

  1. Bom dia! Eu gostaria de manifestar-me a respeito da escrita espelhada. Tenho 45 anos e aos 12 descobri que possuía habilidade para escrever espelhado, sem nem saber da habilidade de Leonardo Da Vinci e sem ter jamais treinado. Sou ambidestra também. E descobri que escrevo e leio qualquer texto em qualquer sentido (como o exemplo da xícara), escrevendo inclusive com ambas as mãos simultaneamente, uma espelhando o que escrevo com a outra, também em qualquer sentido. Nunca pensei que isso fosse uma anomalia, mas sim uma percepção espacial bem desenvolvida aliada a uma habilidade motora. Gostaria que, se existirem pesquisas nesta área, de me colocar a sua disposição para participar.

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    1. Pode entrar em contato?
      marcusbergrj@hotmail.com
      www.facebook.com/marcusbergrj
      Obrigado,

      Marcus Berg

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  2. O livro de Stanilas Dehaene é muito interessante. Aprendi muito com ele. Eu nem tinha percebido que tem uma versão em Portuguê! Genial. Ganhei meu dia hoje! Eu li o livro em Francês mas vou poder recomendar o livro em Português para o meu aluno de Mestrado!!

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  3. Gostei dos esclarecimento sobre o espelhamento que ocorre com as crianças. Levarei este texto aos professores também. Só uma dúvida "a cerca" não seria "acerca"?

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    1. Obrigada pelo questionamento. Quando nos colocam dúvidas, a aprendizagem realmente se torna significativa.
      Havia esquecido que quando se trata de locução prepositiva o uso de "a cerca", é diferente de "acerca", já fiz a devida correção no texto. abç

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