segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Crianças zumbis

      É possível o descaso com outro ser humano transformá-lo em um “morto-vivo”? Onde a falta de afetividade nos primeiros anos de vida apresentem comprometimento na fala, na expressão facial, no controle emocional? Quem nos ensina a amar? Falar? Nos relacionar?


      Na ditadura de Nicolai Chauchescu, derrubada em 1989, 60 crianças carentes da Romênia, que passaram suas infâncias em abrigos e que não foram expostas a praticamente nenhum estímulo cognitivo ou vínculo afetivo, tiveram suas vidas completamente desestruturadas.  Eram apenas alimentados e limpas,  não sorriam e não choravam. Se recusavam a brincar. Elas basicamente não reagiam, nem em expressões faciais, a nada.
      O desenvolvimento linguístico ficou comprometido, sendo que muitas nem chegaram a falar. Do ponto de vista emocional, não tinham autocontrole: rapidamente explodiam em acessos de raiva. As pessoas que conheceram o local, as descreviam como "fantasmas" e "crianças-zumbi".
       Os choques vividos pelos pequenos acarretaram graves resultados negativos. As crianças romenas que viveram sem estímulo e sem afeto, apresentaram uma baixa de 30 pontos de QI (Quociente de Inteligência), em comparação outras que cresceram sob os cuidados dos pais.
        O professor Charles Nelson, professor de Pediatria e Neurociência da Escola de Medicina de Harvard, no II Simpósio Internacional de Desenvolvimento da Primeira Infância, mencionou  que as vivências negativas não ficam registradas apenas no psiquismo da pessoa, mas podem ser percebidas na própria arquitetura do cérebro.  Ele constatou que os estímulos vivenciados pela criança nos primeiros anos de vida ficam registrados fisicamente e afetam diretamente no amadurecimento delas. Os exames cerebrais de ressonância magnética mostraram que as crianças que moravam em instituições degradadas na Romênia desenvolveram volume menor de massa cinzenta e volume de substância branca no córtex cerebral do que as crianças que cresceram entre suas famílias.
     A afetividade constitui-se como  parte importante de todo o desenvolvimento estrutural e psicológico do ser humano.  As impressões registradas no inconsciente, pela presença ou ausência das relações afetivas entre pais e filhos, ou mesmo por quem faz o papel de cuidador da  criança, podem causar graves transtornos afetivos e emocionais.
     A interação social exerce grande influência na constituição da nossa personalidade nos primeiros anos de vida, considerando que aquilo que acontece ao indivíduo neste período irá refletir-se na adolescência e na fase adulta.
    Segundo Palmini (2012),  “Aquilo que acontece na infância mexe na genética e pode marcar para o resto da vida. O mundo de cada indivíduo molda seu desenvolvimento cerebral. Como cada um tem experiências diferentes, as trocas que a gente tem com o mundo, vai fazendo com que cada um de nós tenhamos “avenidas” mais fortificadas. É como se  cada indivíduo além de ter uma impressão digital, tem uma impressão cerebral.

Fontes:

Um comentário:

  1. 60 crianças foram só as participantes do estudo. foram 170 mil crianças afetadas pelas políticas de Ceauscescu

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