domingo, 6 de outubro de 2013

Letra cursiva ainda está em uso?

     Ana Lúcia Hennemann


      Provinda de uma época em que não existiam nenhum aparato tecnológico a escrita cursiva  foi um estilo de letra muito utilizado principalmente pela questão da agilidade na escrita das palavras. Há relatos de pessoas que passavam horas treinando para ter aquela letra cheia de curvinhas, traçado perfeito, “letra de mestre”... mas, hoje, neste mundo cada vez mais tecnológico, será que a letra cursiva será aposentada? Pois, escrever à mão tem se tornado um exercício raro...
      Em algumas escolas, principalmente nas séries iniciais a escrita cursiva ainda é uma exigência, porém, existem alguns questionamentos a serem feitos neste contexto: alunos com necessidades especiais conseguem acompanhar o ritmo desta caligrafia? E,  se o aprendizado da letra cursiva é tão importante como é enfatizado por alguns, porque, a medida que os alunos vão crescendo, ela é deixada de lado? Por exemplo, nas universidades o mundo já é completamente digital...
      Relacionado ao assunto, lembrei do surgimento das câmeras fotográficas digitais... antes das mesmas, as pessoas tinham que se empenhar em caprichar para aparecer bem na foto, porém as novas tecnologias foram mostrando que não era mais necessário tanta dedicação em fazer o melhor, pois com um simples clic (deletar) novas fotos aparecem no lugar. É tudo muito prático, descartável, e, aquilo que não nos agradou, deletamos e com a simplicidade de alguns toques refazemos tudo novamente.
    No entanto, a comodidade da tecnologia nos cega, pois o mundo não percebeu quantas pessoas que trabalhavam na revelação de fotografias perderam silenciosamente seus empregos... E com a escrita cursiva não está sendo diferente, estamos “desempregando” várias sinapses, que com certeza serão “podadas”...
    Àqueles que trabalham na área da neuropsicopedagogia tem muita clareza o quanto escrever à mão trabalha com nossa coordenação motora fina, exercitando regiões cerebrais que ficam esquecidas diante a comodidade ofertada pelos teclados. Cursiva ou Script, ao meu ver tanto faz, o importante é o ato de escrever... Porém, o cérebro se adapta às necessidades do corpo, e diversas outras atividades podem desenvolver a motricidade fina, ou seja, a capacidade de execução de movimentos pequenos e delicados, com outras atividades, como por exemplo, o desenho, modelagem com argila, massa de modelar.
   Somos sim, capazes de nos adaptar assim às novas condições impostas pelo desenvolvimento humano, mas para os que amam o mundo digital assim como eu, deixo como reflexão a passagem de Abraham Lincoln, no ato da assinatura da Proclamação da Emancipação, em 1863, onde conta a história que ele prestes a colocar sua assinatura na proclamação, percebeu sua mão dormente e tremendo. Sendo assim, largou a caneta e disse: 'Se alguma vez a minha alma estava em um ato, é neste, mas se eu assinar com a mão trêmula, a posteridade dirá: - Ele hesitou.”
    Então, esperou até que pudesse segurar a caneta e assinar com ousadia e clareza. Na verdade o que ocorreu aqui, não foi somente um ato de escrita, mas sim, que através da força de nossas mãos, da coragem e determinação é que as gerações futuras conseguirão identificar que marcas estamos deixando. Longe de ser apenas uma discussão entre escrita manual e digital, estamos nos tornando uma sociedade mecanizada, robotizada, onde nossa assinatura pouco a pouco vem trocando espaço de alguns traços extremamente significativos, por simbologias compostas de números e letras, enfim, estamos codificando a nossa escrita e reprimindo a nossa história.

Sugestão de leitura complementar: 

2 comentários:

  1. Tem um artigo bem legal sobre esse assunto na Presença Pedagógica desse mês. Não sei se tem online, mas aí vai o site: http://presencapedagogica.com.br/conteudo.php?LISTA=menu&MENU=19

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  2. Penso que a reflexão sobre a letra cursiva é legítima, assim como as dificuldades motoras do aluno especial também. Então o necessário é o pensar, o comentar, o expressar-se, o participar, escrever e poder ler o que escreve com letra cursiva ou script.
    Adorei o artigo.
    Abraços
    Amalia Cardoso Psicopedagoga e Educadora Especial

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