domingo, 15 de junho de 2014

A aprendizagem deve provocar mudanças


Ana Lúcia Hennemann
Assim que recebeu a devolução do teste, o menino olhou e não se sentiu satisfeito pelo que viu. Criança esperta, daquelas que sempre tem um feedaback do conteúdo que está sendo estudado. Entretanto, sua destreza e expertise não foram o suficiente para ajudar-lhe num teste de ciências. Assim que a professora fez a devolução do mesmo, os olhos do menino, percorreram item por item, como se procurasse algo que justificasse os acertos que não obteve.
Ficou alguns instantes como se estivesse se reportado a outro mundo, talvez um local somente dele e o do resultado de sua aprendizagem. O que se passava naquela massa encefálica? O que fez com que alguém com tantas capacidades não obtivesse um resultado satisfatório? O semblante da criança era de dúvida? De descrédito de que aquilo estivesse realmente acontecendo...eram milhões de pensamentos em frações de segundos, entretanto,  só percebeu-se dentro do contexto da sala quando o colega ao lado veio questionar quantos acertos ele havia feito no teste. Tentando se libertar da situação que lhe parecia constrangedora, mencionou qualquer coisa e rapidamente guardou a folha na mochila. Naquele dia, algo lhe pareceu diferente, não era mais aquela criança risonha e rápida em tudo... Seus pensamentos estavam longe, muito longe...
A tarde chegou ao final, a noite veio, a manhã passou rápida demais e novamente mais uma tarde, mais um período letivo...
Discretamente, o aluno alegre e ágil em tudo, deu lugar a uma criança quieta e que humildemente foi se “aprochegando” até a professora, e antes mesmo que ela pudesse dar boa tarde a todos, foi interrompida por aquele olhar de ternura que a fitava enquanto lhe entregava a folha do dia anterior:
- Professora, se você quiser pode corrigir meu teste novamente, mas está tudo certo, cheguei a casa, pesquisei no meu caderno as respostas. Quando minha mãe chegou do trabalho ela conferiu e está tudo certo. Será que você pode trocar minha nota?
Num gesto silencioso ele deixou a folha sobre a mesa da professora. Assistia a aula cabisbaixo, volta e meia seu olhar pairava sobre aquele papel rasurado de tanto ter sido apagado e reescrito. Era lógico que ia haver alguma alteração na nota, pois o conceito de aprendizagem que  ele tinha de si mesmo o fez ir à busca de melhorias. Mostrou que era capaz de mudar,  de promover sua neuroplasticidade, sendo que a aprendizagem que a situação lhe proporcionou provocou mudanças: de atitude, de conhecimento, de reconhecimento de si mesmo de metacognição, “pensar sobre o repensar”,  de saber que aquele saber evidenciado num teste não é o seu saber absoluto.
Neste simples gesto, quantas aprendizagens...quantas mudanças...
A verdadeira aprendizagem é justamente essa: proporcionar ao aluno ser agente e ao mesmo tempo sujeito de sua aprendizagem
A nota/conceito foi alterada(o) e entregue ao aluno com um grandioso parabéns por sua atitude, por procurar demonstrar que tem capacidade de melhorar sempre e ir à busca de conhecimento a partir de um resultado obtido.
Alguns profissionais mais inflexíveis frente aos resultados apresentados pelos alunos abordam que esta flexibilidade da educação é que faz com que os alunos estudem menos, alguns usam em seu discurso “está tudo fácil, o aluno não precisa mais se esforçar porque sabe que tem a “recuperação”, etc, e tal. Mas já tenho anos de experiência, tanto como professora, tanto como aluna e sempre fui apaixonada por meus mestres, então se hoje tenho a perspicácia de perceber que o aluno é muito mais do que o resultado evidenciado em determinado contexto é porque tive bons mestres, profissionais que serviram de modelo pra minha atuação no contexto educacional.
 Lembrei com carinho, da minha professora, que há mais ou menos 30 e poucos anos atrás, entreguei a prova de conjugação verbal e naquele exato instante olhei para ela e disse: - Professora, minha prova está errada, conjuguei o verbo “querer” com “z” e agora lembrei que é com “s”!  A expressão dela, franzindo a testa, pensando o que fazer reavivaram diante de todo o contexto ocorrido com tal aluno, entretanto  num gesto inesperado ela devolveu-me a folha e solicitou que a refizesse novamente.

Exemplos como esse que guardamos no coração e  que servem de modelo para nossa atuação como profissionais. O professor, mesmo que não queira, sempre foi e sempre será “modelo de vida”. Para os que vivenciaram esta época, sabem que não havia muitas regalias, era uma educação mais tradicional, pautada no acerto e no erro, ou seja, ou você sabia ou tinha que esperar para a tal recuperação lá no final do bimestre ou até do ano.  A atitude que a professora teve naquela situação, quando ainda nem pensava em atuar no cenário educacional, deixaram marcas registradas, ensinando-me  sobre o fazer pedagógico, respeito com o educando e acima de tudo que a verdadeira educação promove reflexão sobre nosso ato de aprender. 

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