domingo, 13 de julho de 2014

O que é mesmo aprendizagem???

Ana Lúcia Hennemann

Aprendizagem nada mais é do que modificarmos nossos comportamentos. Adquirir uma nova habilidade seja ela psicomotora, cognitiva ou afetiva (uma nova atitude frente a algo). Entretanto, aprendizagem depende da interação que temos com o meio, e esta é tão significativa que ao pensarmos no caso da inclusão percebemos indivíduos que antes eram colocados em total segregação, destacando-se na mídia seja como repórteres, seja como cineastas, enfim “o céu não é mais o limite” , novos horizontes estão se abrindo para todos.

Mas, focando na questão da aprendizagem... Para que nosso comportamento seja modificado, se faz necessário ocorrer uma mudança física dentro de nosso cérebro, que é justamente o crescimento das espinhas dendríticas (espículas dendríticas). Imagine que você tenha uma prova no dia seguinte e não teve tempo de estudar com antecedência e restou somente a noite anterior para isso. Você estuda, estuda e estuda, é capaz de até fixar alguns conceitos, mas estas informações ficam apenas passando pelos seus neurônios, não ocorre nenhuma modificação nos mesmos, não há crescimento de espinhas dendríticas. Essa aprendizagem “não se consolidou”, certamente ao terminar a prova, esta aprendizagem se tornará descartável. Para que a aprendizagem realmente aconteça ela necessita de “repetição”. Se faz necessário, estudo diário, troca de informação com outras pessoas, assistir palestras, documentários envolvendo o conteúdo, no caso das séries iniciais: além de exercícios envolvendo o conteúdo, pode-se utilizar-se de jogos que façam os alunos interagirem e evidenciarem os conhecimentos que estão sendo oportunizados. 

Quanto mais conhecimentos prévios o indivíduo tiver sobre o assunto, maior será a quantidade de conexões que ele fará, e de certa forma, mais aumento de espinhas dendríticas.

Espinhas dendríticas crescendo durante as atividades.
(Crédito: Yi Zuo, da Universidade da Califórnia, Santa Cruz)
 
Uma pesquisa interessante foi realizada na Universidade da Califórnia onde um grupo de cientistas estudaram a alteração de neurônios em três grupos de ratos que aprenderam diferentes tipos de comportamentos durante quatro dias.  O primeiro grupo deveria aprender a esticar as patas entre duas gaiolas para alcançar uma semente que lhe serviria de alimentação. O segundo grupo além de pegar a semente, também deveriam aprender a comer uma massa fina e escorregadia.  Os ratos do terceiro grupo não tiveram uma tarefa específica, mas suas gaiolas foram equipadas com muitos materiais tais como: cordas, escadas e locais onde poderiam subir e correr.

Através de equipamentos, as atividades neurais dos ratos eram monitoradas diariamente, sendo que todos os grupos apresentaram modificação nas espinhas dendríticas, mas o grupo que teve apenas uma tarefa específica apresentou maior crescimento neste local. A conclusão desta pesquisa é que a prática (repetição) constante manifesta-se mais rapidamente no cérebro.

Quando adquirimos novas habilidades (aprendizagem) adquirimos novos comportamentos importantes para nossa vida. A aprendizagem precisa acontecer em espiral, ou seja, precisamos repassar sobre aquela informações mais vezes, dificilmente aprendemos algo em uma aula só, se faz necessário que aquela informação que estamos tendo contato não fique somente na nossa memória operacional, mas sim que ela se consolide na memória de longo prazo, e um dos fatores importantes para que isso ocorra é o sono, pois somente durante o sono é que se formam novas espinhas dendríticas. É durante o sono que fazemos uma reorganização dos conhecimentos adquiridos durante o dia com os conhecimentos já armazenados na nossa memória.



Fontes:
- COSENZA, Ramon. GUERRA, Leonor. Neurociência e Educação – Porto Alegre: Artmed, 2011.



5 comentários:

  1. Muitas vezes parece que o que estamos fazendo não esta dando resultado algum quando de repente a pedra se quebra. Parabéns excelente postagem!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi!
      Obrigada quanto ao comentário da postagem. Porém, se olharmos por outra perspectiva...TUDO...que fazemos tem resultado, entretanto ele pode não ser de imediato, ele pode não ser o resultado que planejamos, mas tudo nos leva a algum lugar, mesmo que esse lugar seja de reavaliação e reestruturação daquilo que pretendíamos. Abç

      Excluir
  2. Concordo. Mas, é relevante destacar que a aprendizagem deve ter sentido, ser significativa para posterior intervenção do sujeito no seu entorno

    ResponderExcluir
  3. Oi Jurema!
    Colocaste muito bem, se a aprendizagem não for significativa ela nem acontece, pois aprendemos aquilo que nos chama a atenção. Quando redigi o texto acima, fiz apenas um pequeno tópico do que envolve a aprendizagem, mas há muitos outros fatores, e a relevância, o significado é um deles. abç

    ResponderExcluir
  4. Obrigado pelo excelente texto!
    Graças ao avanço do conhecimento científico nomeadamente no campo da neuro psicofisiologia, cada vez mais se coloca a tónica na necessidade da estimulação e activação das diferentes partes do cérebro, assim como das diferentes partes do corpo, através da facilitação de uma aprendizagem diferenciada, significativa, plural, multimodal, multicultural, sistémica, assente em metodologias pedagógicas criativas, vivenciais, reflexivas, dinâmicas, cooperativas, interactivas, ecológicas, de transmissão de valores, na tentativa de se aceder a um ser humano integral, criativo, integrador, total. A aprendizagem assume assim um papel de grande importância ao estimular o maior número de experiências desafiantes, estimuladoras da imaginação e da criatividade, construtoras de novos sentidos e significados, que visam activar a capacidade cerebral, as suas diferentes habilidades e potencialidades, as suas diferentes inteligências e em consequência promover o desenvolvimento de todo o potencial do individuo. Podemos dizer que as diversas experiências irão influenciar o pensamento e este por sua vez irá influenciar o próprio conhecimento. Lembramo-nos de Maturana e Varela, através da afirmação “conhecer é viver, e viver é conhecer”, a vida não pode assim ser separada do acto de conhecer assim como conhecer está directamente relacionado com a vida.
    Contudo, muitas das vezes ainda assistimos que o ensino-aprendizagem que vigora nas nossas escolas e universidades, é ainda aquele considerado como “educação tradicional”, centrada na figura do professor como detentor de todo o conhecimento, ocupando o aluno uma posição passiva de mero acumulador de conhecimento.
    Torna-se importante assim abandonarmos esta velha concepção e questionarmos o que queremos, em relação à aprendizagem, se uma educação onde impera o conformismo, que é caracterizada por ser reprodutora, baseando-se numa aprendizagem automática, instrumental, mecânica e repetitiva, que estimula e incentiva a memorização e acumulação de conhecimentos, advindo apenas da transmissão de conteúdos. Este tipo de aprendizagem não estimula nos alunos formas autónomas de pensar e agir, já que privilegia o pensamento racional, lógico e dedutivo, ao invés do pensamento indutivo, criativo e divergente. O nosso bem conhecido Sir Ken Robinson, tem defendido estas ideias sobre o tema “A Escola mata a criatividade”
    Vivemos numa era marcada pelo avanço rápido no conhecimento técnico e científico, mas ao mesmo tempo marcada por uma grande incerteza, indeterminação, era do imprevisto, do caos, era da ambiguidade, da contradição, dos paradoxos, onde a certeza de hoje é a incerteza do amanhã. Para fazer face aos desafios e à incerteza do mundo actual, nesta época do conhecimento e da informação pela qual estamos passando, urge apelarmos a algo que dá pelo nome de criatividade. A criatividade surge como um conceito que cada vez mais urge ser conhecido.
    Neste sentido, este texto é revelador do conhecimento da dinâmica e da arquitectura cerebral e por isso vem mais uma vez salientar a importância da estimulação de diferentes competências e saberes, contribuindo para que possamos ampliar a plasticidade, a capacidade cerebral, através das novas conexões sinápticos. Só com acção, criação, recriação, construção e reconstrução é que certamente conseguiremos ultrapassar a rigidez do pensamento, a repetição dos padrões e das formas antigas que inibem a capacidade crítica e restringem a capacidade criativa, procurando novas formas, activando novas competências.No caso da aprendizagem é necessário afastarmos o modelo conservador, cognitivo-informativo-passivo-mecânico-reprodutor-livresco-avaliativo-exclusivo de ensino aprendizagem que ainda vigora no contexto educativo, institucional e comunitário, para um modelo inovador, activo-criativo-produtor-emancipatório-intercultural-inclusivo, para fazer face à complexidade da actualidade dos nossos dias.

    ResponderExcluir