sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Alguém pode estar manipulando você...

Ana Lúcia Hennemann*
“Os truques de mágica funcionam porque os seres humanos têm um processo estruturado de atenção e consciência que pode ser invadido e alterado.”
 Macknik e Martinez-Conde

     Assim como a música, a pintura, a poesia, o teatro, também a magia é uma arte de encantar. Não importa a idade, o fato é que ela nos ilude e o fascínio disso encanta, principalmente quando o truque é feito com maestria. O mágico, sorridente e encantador gesticula dando a impressão de um simples movimento, mas não, sabiamente o gesto inocente foi utilizado para distrair e direcionar a atenção do público para aquilo que deseja enfatizar.
    Mágica tem muita semelhança com a neurociência cognitiva, ou seja, ambas estudam o comportamento humano – suas experiências, consciência e expectativas. Entretanto, na mágica há uma sequência de atos bem planejados, ensaiados milhares de vezes e intencionais. Durante uma única apresentação informações inverídicas são “implantadas” nos cérebros dos espectadores, porém a credibilidade naquilo que se vê e toda a carga emocional recebida no momento, faz com que detalhes minuciosos passem despercebidos.
   Os mágicos utilizam-se de um mecanismo chamado atenção seletiva. Por exemplo, quanto mais focamos nossa atenção para determinado estímulo, maior a probabilidade de desconsiderar o que ocorre a nossa volta. E a maioria dos truques faz com que o indivíduo foque sua atenção, e aí vem a perspicácia e agilidade do mágico, porque geralmente eles apresentam um truque inicial dando a entender que o mesmo não funcionou, e no que a pessoa relaxa, aí a verdadeira mágica acontece. Ou então, utilizam-se de estratégias que façam as pessoas rirem, e é difícil pensar criticamente quando se está rindo.

    Mágicos são manipuladores de atenção e não de olhares das pessoas, pois vemos a mágica acontecer, mas não percebemos todos os detalhes que estão ocorrendo junto com a mesma. Quanto mais um indivíduo procura atentar para alguma coisa mais ele a acentua e mais elimina as informações circundantes.
    Quando pensamos em tomada de decisões, acentuar ou eliminar informações fazem muita diferença, pois conforme os neurocientistas Macknik e Martinez-Conde (2011, p 96) “no dia a dia mesmo quando a pessoa se concentra em realizar um trabalho crucial, ela ainda precisa se lembrar de dar uma olhadela em volta de vez em quando para não correr o risco de deixar passar fatos importantes e oportunidades potenciais.”  Um exemplo disso é quando o indivíduo tem algo a resolver, mantém o foco naquilo, mas parece difícil encontrar a solução. No momento que “desligou”, relaxou, aí a resposta aparece.
   Um teste muito conhecido desenvolvido pelo psicólogo e pesquisador Daniel J. Simons é aquele onde jogadores estão driblando e passando entre si uma bola de basquete. A tarefa é contar durante 60 segundos o número de vezes que cada jogador faz um passe. Enquanto permanecemos concentrados e focando na bola e na quantidade de passes, alguém vestido de gorila caminha entre os jogadores, vira o rosto para os espectadores, bate no peito e vai embora. E muitos não conseguem perceber o gorila.
   Há também um outro fator interessante, quando vamos ao show de mágica, estamos cientes que se trata de um espetáculo, de que alguém durante um determinado período irá se utilizar de todos seus conhecimentos e habilidades para fazer o inacreditável acontecer...no entanto, no dia a dia, somos vulneráveis a muitas manipulações de atenção seletiva, e nem sempre o percebemos...

Fontes Bibliográficas:

GRAVENOR, Misha. Mágica a truques que iludem o cérebro. http://www2.uol.com.br/sciam/reportagens/magica_e_truques_que_iludem_o_cerebro.html
JOU, Gaziela. Atenção seletiva: Um estudo sobre cegueira por desatenção. http://www.psicologia.pt/artigos/textos/A0305.pdf
MACKNIK, Stephen. MARTINEZ-CONDE, Suzana. Truques da mente: o que a mágica revela sobre o nosso cérebro. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.


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* Especialista em Alfabetização/ Educação Inclusiva/ Neuropsicopedagogia.
   Pós-graduanda em Neuroaprendizagem/ Professora em cursos de pós-graduação nas disciplinas voltados às  Neurociências, Neuropsicopedagogia, Educação Inclusiva, Alfabetização.
   Email: ana.hennemann@outlook.com   

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