Ana Lúcia Hennemann*
O menino recém havia completado 2 anos de idade. A festa de
seu aniversário lhe rendeu alguns brinquedos interessantes. Um deles era um
jogo de encaixe repleto de blocos coloridos, e eis que numa tarde qualquer
montava-o no tapete da sala com a mãe sentada ao lado observando aquelas
mãozinhas pouco habilidosas tentando encaixar as peças.
O filho estava crescendo rapidamente e devido a fatores como emprego, ritmo acelerado de vida, quase nem conseguia acompanhar as mudanças.
O filho estava crescendo rapidamente e devido a fatores como emprego, ritmo acelerado de vida, quase nem conseguia acompanhar as mudanças.
Vagando em seus pensamentos quase nem percebeu a interrupção
da criança mostrando a montagem que havia realizado: - Tá bonito mamãe?
E ela num meigo sorriso, responde:
- Sim filho. Hummmmm estou até com ciúmes deste jogo, você nem
dá mais bola para mim...
Neste instante pega o celular e começa a visualizar as
mensagens recebidas.
A criança silenciosamente
levanta-se e dirige-se a outro local da casa. Segundos depois, volta e diz: -
Tá mamãe!
E com os braços estendidos, e o sentido de dever cumprido, entrega a bola para a mesma.
Perceber
nossos próprios sentimentos não é tarefa fácil, mas é fruto de uma construção
que inicia na relação mãe/filho (pais/filhos, cuidadores/ crianças). A
interação com os outros nos proporciona a autodescoberta, bem como a
autoconsciência de nossos atos e sentimentos. No exemplo acima a mãe
utilizou-se de uma metáfora para externar aquilo que sentia, entretanto a criança
não conseguiu entender a metáfora utilizada, mas já traz dentro de si todos os
neurônios que lhe possibilitem sentir a empatia.
Empatia
não se resume apenas a responder com sorrisos a quem nos sorri ou ficar
comovido quando alguém chora. Ela envolve conhecimento de si e do outro,
trata-se de entender o sentimento dos demais, colocar-se no lugar dos mesmos. Herculano-Houzel
nos diz que empatia é a capacidade de "sofrer junto", ou seja, de
sentir, ou ao menos intuir, o que o outro sente.
Se uma criança de 2 anos percebe sua mãe
chorando ela pode oferecer-lhe algum brinquedo ou até mesmo algum alimento que
esteja comendo como forma de ver a mesma se sentir melhor, pois geralmente, são
estes os atos que ela recebe do adulto quando a mesma está chorando.
"Aos 3 anos, as crianças percebem que,
se alguém consegue o que quer, fica feliz e, se não consegue, fica triste
(Wellman e Woolley, 1990)."
Porém,
por volta dos 4 anos de idade ela já adquiriu mais vivencias em relação às suas
emoções e as dos demais indivíduos a sua volta. Por exemplo, se alguém diz que
sente dor em determinado local a criança já tenta confortar a pessoa, pois a
dor do outro pode lhe parecer desconfortável.
Todo
ser humano nasce com neurônios-espelho, ou seja, neurônios que tem como função a
capacidade de imitar gestos e atitudes dos demais seres humanos. Os neurônios-espelho
(localizados no lobo frontal) conforme o neurocientista Ramachandran podem
fornecer a base da empatia, do autoconhecimento, da autoconsciência. Alfred
Adler, psicólogo austríaco, há décadas afirmou que a empatia deve ser
estimulada em crianças pelos pais e demais cuidadores ou permanecerá
enfraquecida.
A
maneira como os pais/cuidadores tratam a criança é o modo como ela vai
aprendendo a ter empatia. Crianças que crescem em ambientes onde dizem o que
querem ofendendo as pessoas ou apresentam atitudes de agressão física (um simples
tapa que for) e a família se mantém omissa, afinal: - Meu filho tem
personalidade! Ele é assim! - estão sendo ensinadas a serem insensíveis aos
sentimentos alheios.
. O dever dos pais/cuidadores sempre é dialogar sobre as situações, fazer a
criança entender que tudo há consequências. Não importa a idade da criança, o diferencial
é os pais a ensinarem como lidar com as situações, pois dessa forma estão oportunizando
o fortalecimento da empatia e automaticamente ensinado seus filhos lições de
gestão emocional, instrumentalizando-os para uma melhor convivência em
sociedade e quem sabe a conquista de melhores empregos, pois num mundo em que
cada vez mais as pessoas estão conectadas em máquinas e menos em gente
(Gardner), um simples sorriso poderá fazer toda a diferença.
Referências Bibliográficas:
FIORE-CORREIA, Olívia. LAMPREIA,
Carolina. SOLLERO-DE-CAMPOS, Flávia. As falhas na emergência da autoconsciência
na criança autista. Disponível online em http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-56652010000100007&script=sci_arttext
HERCULANO-HOUZEL, Suzana. Vida em
Sociedade. Disponível online em: http://www.cerebronosso.bio.br/vida-em-sociedade/
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* Especialista em Alfabetização/ Educação Inclusiva/ Neuropsicopedagogia.
Pós-graduanda em Neuroaprendizagem/ Professora em cursos de pós-graduação nas disciplinas voltados às Neurociências, Neuropsicopedagogia, Educação Inclusiva, Alfabetização.
Email: ana.hennemann@outlook.com

Solicito à autora, a autorização de publicar seu texto no Cuidaqui.com pois nosso tema é o cuidado que muito tem a ver com a empatia.
ResponderExcluirO seu texto está muito adequado ao nosso trabalho.
Agradeço a atenção.