terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Neurônios Espelho – Aprendizagem por observação/imitação

 
Ana Lúcia Hennemann*

Frequentemente algumas crianças vinham brincar com João. Entre uma brincadeira e outra corriam até um pequeno cercado na porta e chamavam o cachorro até ele.
Era um dog alemão enorme, mas muito manso, porém cada vez que o cão chegava perto do cercado, as crianças saiam em disparada, rindo e procurando ficar longe do campo de visão do mesmo.
Sentado no carrinho, o irmãozinho de João observa tudo, cada detalhe, a ida das crianças até o cercado, as provocações, o cachorro vindo, e elas correndo sorrindo. Ele tinha apenas 8 meses, mas acompanhava tudo com olhares e movimentos com os pés como se estivesse a correr junto com as crianças.
Foram alguns meses apenas de observação, mas assim que começou a caminhar foi até a porta, tentou expressar algo como se estivesse a chamar o cachorro e saiu correndo, meio que cambaleando, mas feliz pelo feito realizado com tantos meses de espera...

     A criança descrita no texto, após longo período observando as demais interagirem conseguiu um dia imitá-las, ou seja, ela teve uma aprendizagem por observação.
      O psicólogo canadense, Albert Bandura (1925-1988) realizou experiências onde crianças assistiam vídeos de adultos agredindo um boneco “João Bobo”, e em seguida eram colocadas numa sala com alguns brinquedos e também o referido boneco. Constatou-se que 90% das crianças apresentavam as mesmas atitudes do adulto em relação ao tal boneco, confirmando assim, que a experiência de outros podem conduzir à aquisição de novos comportamentos.
    Para Bandura, a aprendizagem por observação, ou aprendizagem social, ocorre pela observação dos comportamentos daqueles com quem convivemos (pais, irmãos, amigos, professores). Bandura designa por modelação ou modelagem o processo de aprendizagem social feito com base na observação e imitação sociais.
     Em meados de 1990, na Universidade de Parma, Giacomo Rizzolati e seus colaboradores, descobriram neurônios no cérebro que são responsáveis por esta aprendizagem por imitação, os neurônios-espelho. As pessoas, crianças e até mesmo animais podem aprender observando e imitando os outros.

   Entretanto, aprendemos não somente com aqueles que estão presencialmente, podemos aprender virtualmente também, um exemplo disso é a tal “Galinha Pintadinha” que serve de babás para muitas crianças. Também há o enorme repertório de filmes, novelas e comerciais que estão a modular muitos neurônios-espelho por aí.
     Na questão da aprendizagem escolar, o quanto é importante o professor entender o impacto da aprendizagem por observação. Seja pelo seu modo de atuar em sala de aula, seja pelo entendimento de que alunos também aprendem com alunos. Por exemplo, há salas de aula onde indivíduos passam o ano e anos sentados com os mesmos colegas, repetem os mesmos padrões de comportamento, deixam de aprender e deixam de ensinar aos demais. O famoso espelho de classe é uma ferramenta essencial, pois oportuniza que alunos aprendam a observar diferentes colegas e ampliarem sua capacidade de aprendizagem.
    Mas, pensando neste mundo cada vez mais tecnológico, pais queixando-se que seus filhos vivem conectados, professores preocupados com a defasagem da leitura e escrita e os neurônios-espelho nos evidenciando que aprendemos por imitação, quem sabe devemos parar de reclamar e tornar nossas ações mais visíveis para que possam ser imitadas. Quem sabe 20 minutos de leitura juntamente com os filhos ou alunos faria um grande diferencial.


Referência Bibliográfica:
BANDURA, Alfred. AZZI, Roberta. POLYDORO, Soely. Teoria Social Cognitiva: conceitos básicos. Porto Alegre: Artmed, 2008.
LA ROSA, Jorge. Psicologia e educação: o significado do aprender. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003.
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* Especialista em Alfabetização/ Educação Inclusiva/ Neuropsicopedagogia.
   Pós-graduanda em Neuroaprendizagem/ Professora em cursos de pós-graduação nas disciplinas voltados às  Neurociências, Neuropsicopedagogia, Educação Inclusiva, Alfabetização.
   Email: ana.hennemann@outlook.com   

Um comentário:

  1. Parabéns pelo texto-chave de educação, quem sabe um dia tenhamos mãos para rodar estas chaves.

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