Ana Lúcia Hennemann*
Frequentemente algumas crianças vinham brincar com João. Entre uma brincadeira e outra corriam até um
pequeno cercado na porta e chamavam o cachorro até ele.
Era um dog alemão
enorme, mas muito manso, porém cada vez que o cão chegava perto do cercado, as
crianças saiam em disparada, rindo e procurando ficar longe do campo de visão
do mesmo.
Sentado no carrinho, o
irmãozinho de João observa tudo, cada detalhe, a ida das crianças até o cercado,
as provocações, o cachorro vindo, e elas correndo sorrindo. Ele tinha apenas 8
meses, mas acompanhava tudo com olhares e movimentos com os pés como se
estivesse a correr junto com as crianças.
Foram alguns meses
apenas de observação, mas assim que começou a caminhar foi até a porta, tentou expressar
algo como se estivesse a chamar o cachorro e saiu correndo, meio que cambaleando,
mas feliz pelo feito realizado com tantos meses de espera...
A criança descrita no texto, após
longo período observando as demais interagirem conseguiu um dia imitá-las, ou
seja, ela teve uma aprendizagem por observação.
O psicólogo canadense, Albert
Bandura (1925-1988) realizou experiências onde crianças assistiam vídeos de
adultos agredindo um boneco “João Bobo”, e em seguida eram colocadas numa sala
com alguns brinquedos e também o referido boneco. Constatou-se que 90% das crianças
apresentavam as mesmas atitudes do adulto em relação ao tal boneco, confirmando
assim, que a experiência de outros podem conduzir à aquisição de novos
comportamentos.
Para Bandura, a aprendizagem por
observação, ou aprendizagem social, ocorre pela observação dos comportamentos
daqueles com quem convivemos (pais, irmãos, amigos, professores). Bandura
designa por modelação ou modelagem o processo de aprendizagem social feito com
base na observação e imitação sociais.
Em meados de 1990, na
Universidade de Parma, Giacomo Rizzolati e seus colaboradores, descobriram
neurônios no cérebro que são responsáveis por esta aprendizagem por imitação,
os neurônios-espelho. As pessoas, crianças e até mesmo animais podem aprender
observando e imitando os outros.
Entretanto, aprendemos não
somente com aqueles que estão presencialmente, podemos aprender
virtualmente também, um exemplo disso é a tal “Galinha Pintadinha” que serve de
babás para muitas crianças. Também há o enorme repertório de filmes, novelas e
comerciais que estão a modular muitos neurônios-espelho por aí.
Na questão da aprendizagem
escolar, o quanto é importante o professor entender o impacto da aprendizagem
por observação. Seja pelo seu modo de atuar em sala de aula, seja pelo
entendimento de que alunos também aprendem com alunos. Por exemplo, há salas de
aula onde indivíduos passam o ano e anos sentados com os mesmos colegas, repetem
os mesmos padrões de comportamento, deixam de aprender e deixam de ensinar aos
demais. O famoso espelho de classe é uma ferramenta essencial, pois oportuniza
que alunos aprendam a observar diferentes colegas e ampliarem sua capacidade de
aprendizagem.
Mas, pensando neste mundo cada
vez mais tecnológico, pais queixando-se que seus filhos vivem conectados,
professores preocupados com a defasagem da leitura e escrita e os neurônios-espelho
nos evidenciando que aprendemos por imitação, quem sabe devemos parar de
reclamar e tornar nossas ações mais visíveis para que possam ser imitadas. Quem
sabe 20 minutos de leitura juntamente com os filhos ou alunos faria um grande
diferencial.
Referência Bibliográfica:
BANDURA, Alfred. AZZI, Roberta.
POLYDORO, Soely. Teoria Social Cognitiva:
conceitos básicos. Porto Alegre: Artmed, 2008.
LA ROSA, Jorge. Psicologia e educação: o significado do
aprender. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003.
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* Especialista em Alfabetização/ Educação Inclusiva/
Neuropsicopedagogia.
Pós-graduanda em Neuroaprendizagem/ Professora em
cursos de pós-graduação nas disciplinas voltados às Neurociências,
Neuropsicopedagogia, Educação Inclusiva, Alfabetização.
Email: ana.hennemann@outlook.com


Parabéns pelo texto-chave de educação, quem sabe um dia tenhamos mãos para rodar estas chaves.
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