quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

TDAH - Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade


Ana Lúcia Hennemann*

O sinal anunciava o início da aula, as crianças já se encontravam na fila. Alguns pais acompanhavam apreensivos a entrada das crianças à sala de aula, observavam o menino num estado de euforia pulando sobre os ombros dos colegas, quase os derrubando. Apresentava uma fala ligeira e cheia de gestos, entretanto não tinha noção espacial de seu corpo e não percebia quando a extensão de seu braço atingia o corpo dos demais.  
Na sala de aula, mostrava-se inquieto, o espaço da mesma era pequeno demais para ele, não conseguia organizar-se, o lápis com frequência caia no chão, o caderno incompleto cheio de dobras nas pontas, a borracha num instante se transformava num carrinho.
Na mochila, além de todos os pertences escolares também estavam vários brinquedos, que constantemente insistia em pegá-los durante a execução de tarefas escolares.
O conteúdo da aula era deixado de lado por qualquer motivo.  
Cadeira, pra que serve mesmo? aquele corpinho inquieto mal conseguia permanecer 15 minutos sentado. Porém o problema é que sua inquietação tirava a concentração dos demais...hora de chamar a família...
Na fala entristecida o histórico de pais que já conheciam todo o repertório do diálogo proposto, já não era a primeira escola pela qual passavam, a inquietação do filho, a falta de atenção nas atividades, as brincadeiras constantes, a dificuldade de cumprir regras, a desatenção...
Em casa também vivenciavam as mesmas situações, mas mencionaram que não entendiam, pois a criança era tão inteligente e conseguia passar muito tempo concentrado no computador...

    Existem muitos mitos em torno do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), mas este é distúrbio neurobiológico crônico que afeta de 3% a 5% das crianças em idade escolar e sua prevalência é maior entre os meninos. Esses sinais devem obrigatoriamente manifestar-se na infância, mas podem perdurar por toda a vida, se não forem devidamente reconhecidos e tratados. Os sintomas incluem dificuldade em se concentrar e prestar atenção além da dificuldade em controlar o comportamento.
    Segundo  Leonardi, Rubano e Assis (2010, p.114), estudos de neuroimagem e de neurobiologia mostraram que crianças com TDAH possuem volumes cerebrais quase 3% menores que o restante da população e assimetrias no córtex pré-frontal, estriado e cerebelo, além de alterações no funcionamento de alguns neurotransmissores, em especial dopamina e noradrenalina.
   Nesse sentido, o TDAH não acontece devido a fatores culturais ou conflitos psicológicos, mas por apresentar alterações na região frontal do cérebro, responsável pela inibição do comportamento e do controle da atenção.
    De acordo com o Manual de Classificação das Doenças Mentais – DSM-V, o TDAH é considerado um Transtorno do Neurodesenvolvimento apresentando as seguintes características:
Desatenção: falta de atenção para detalhes, cometem erros por omissão, as tarefas são realizadas sem o devido cuidado e meticulosidade, dificuldade para manter a atenção, dificuldade para persistir e terminar as tarefas, parece estar com a cabeça “em outro lugar”.
Hiperatividade: inquietação, não consegue permanecer quieto ou sentado por muito tempo e quando deveria; apresenta dificuldade em realizar tarefas de lazer em silêncio; demonstra estar “a todo vapor”.
Impulsividade: impaciência, não espera sua vez, responde antes da pergunta ser finalizada, interrompe conversas alheias.
 Os critérios para o diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) são
Seis (ou mais) dos seguintes sintomas persistem por pelo menos seis meses em um grau que é inconsistente com o nível do desenvolvimento e têm impacto negativo diretamente nas atividades sociais e acadêmicas/profissionais. Para adolescentes mais velhos e adultos (17 anos ou mais), pelo menos cinco sintomas são necessários.
A
1)Desatenção: (Seis (ou mais) dos seguintes sintomas de desatenção (duração mínima de 6 meses)
a) Frequentemente não presta atenção em detalhes ou comete erros por descuido em tarefas escolares, no trabalho ou durante outras atividades (p. ex, negligencia ou deixa passar detalhes, o trabalho é impreciso).
b) Frequentemente tem dificuldade de manter a atenção em tarefas ou atividades lúdicas (p. ex, dificuldade de manter o foco durante aulas, conversas ou leituras prolongadas).
c) Frequentemente parece não escutar quando alguém lhe dirige a palavra diretamente (p. ex, parece estar com a cabeça longe, mesmo na ausência de qualquer distração óbvia).
d) Frequentemente não segue instruções até o fim e não consegue e não consegue terminar trabalhos escolares, tarefas ou deveres no local de trabalho (p. ex, começa as tarefas, mas rapidamente perde o foco e facilmente perde o rumo).
e) Frequentemente tem dificuldade para organizar tarefas e atividades (p. ex, dificuldade em gerenciar tarefas sequenciais; dificuldade em manter materiais e objetos pessoais em ordem; trabalho desorganizado e desleixado; mau gerenciamento do tempo; dificuldade em cumprir prazos).
f ) Frequentemente evita, não gosta ou reluta em se envolver em tarefas que exijam esforço mental prolongado (p. ex, trabalhos escolares ou lições de casa; para adolescentes mais velhos e adultos, preparo de relatórios, preenchimento de formulários, revisão de trabalhos longos).
g) Frequentemente perde coisas necessárias para tarefas ou atividades (p. ex, materiais escolares, lápis, livros, instrumentos, carteiras, chaves, documentos, óculos, celular).

2) Hiperatividade e Impulsividade:
Seis (ou mais) dos seguintes sintomas de hiperatividade (duração mínima de 6 meses)

a) Frequentemente remexe ou batuca as mãos ou os pés ou se contorce na cadeira;
b) Frequentemente levanta da cadeira em situações em que se espera que permaneça sentado (p. ex, sai do seu lugar em sala de aula, no escritório ou em outro lugar de trabalho ou em outras situações que exijam que se permaneça em um mesmo lugar).
 c) Frequentemente corre ou sobe nas coisas em situações em que isso é inapropriado. Nota: Em adolescentes ou adultos, pode se limitar a sensações de inquietude).
 d) Com frequência é incapaz de brincar ou se envolver em atividades de lazer calmamente
e) Com frequência “não para”, agindo como se estivesse “com o motor ligado” (p. ex, não consegue ou se sente desconfortável em ficar parado por muito tempo, como em restaurantes, reuniões, outros podem ver o indivíduo como inquieto ou difícil de acompanhar.

Impulsividade (duração mínima de 6 meses)
 f) Frequentemente fala demais.
g) Frequentemente deixa escapar uma resposta antes que a pergunta tenha sido concluída (p. ex, termina frases dos outros, não consegue aguardar a vez de falar).
h) Frequentemente tem dificuldade para esperar a sua vez (p. ex, aguardar em uma fila)
i) Frequentemente interrompe ou se intromete (p. ex, mete-se nas conversas, jogos ou atividades; pode começar a usar as coisas de outras pessoas sem pedir ou receber permissão; para adolescentes ou adultos, pode intrometer-se em ou assumir o controle sobre o que os outros estão fazendo.
B
Vários sintomas de desatenção ou hiperatividade-impulsividade estavam presentes antes dos 12 anos de idade
C
Vários sintomas de desatenção ou hiperatividade-impulsividade estão presentes em dois ou mais ambientes (p. ex, em casa, na escola, no trabalho; com amigos ou parentes; em outras atividades).
D
Há evidências claras de que os sintomas interferem no funcionamento social, acadêmico ou profissional ou de que reduzem a sua qualidade.

E
Os sintomas não ocorrem durante o curso de esquizofrenia ou outro transtorno psicótico e não são mais bem explicados por outro transtorno mental (p. ex, transtorno do humor, transtorno de ansiedade, transtorno dissociativo, transtorno da personalidade, intoxicação ou abuso de substâncias). 


TEIXEIRA (2010, p 65 - 67) elenca algumas atitudes que o indivíduo com TDAH pode manifestar na escola:
® Deixa de prestar atenção a detalhes ou comete erros por descuido em atividades.
® Tem dificuldade para manter a atenção em tarefas ou atividades lúdicas.
® Parece não escutar quando lhe dirigem a palavra.
® Não segue instruções e não termina seus deveres escolares.
® Tem dificuldade para organizar tarefas e atividades.
® Evita, antipatiza ou reluta em envolver-se em atividades que exijam esforço mental constante (como tarefas escolares ou deveres de casa).
® Perde coisas necessárias para tarefas ou atividades (por exemplo: brinquedos, lápis, livros, etc.).
® É facilmente distraído por estímulos alheios à tarefa.
® Apresenta esquecimento em atividades diárias.
® Agita as mãos ou pés, ou se remexe na cadeira.
® Abandona sua cadeira em sala de aula ou em outras situações nas quais se espera que permaneça sentado.
® Corre ou escala em demasia, em situações nas quais fazer isso é inapropriado (em adolescentes e adultos pode estar limitado a sensações subjetivas de inquietação).
® Tem dificuldade para brincar ou se envolver silenciosamente em atividades de lazer.
® Fica a “mil” ou muitas vezes age como se estivesse “a todo vapor”.
® Fala muito.
® Dá respostas precipitadas antes de as perguntas terem sido completadas.
® Tem dificuldade para aguardar a vez.
® Interrompe ou se mete em assuntos dos outros (por exemplo: intromete-se em conversas ou brincadeiras).

Visando o melhor desempenho destes alunos em sala de aula, sugere-se que os professores:
ï Organizem as mesas em círculos, ou em forma de U, ao invés de fileiras: facilita o contato e particularmente o “olho no olho” com os demais colegas da classe;
ï Ensinem técnicas de organização e de estudo;
ï Estimulem e reforcem positivamente atitudes assertivas através de elogios;
ï Proporcionem atividades que contemplem as inteligências múltiplas.

Fonte: G1


Para maior entendimento , assista ao vídeo do Psicólogo Thales Vianna Coutinho: 




Referência Bibliográfica:

COUTINHO, Thales. Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Youtube Canal TVCChanelNews
LEONARDI, Jan. RUBANO, Denize. ASSIS, Fátima. Subsídios da Análise do Comportamento para Avaliação de Diagnóstico e Tratamento do Transtorno do déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). In.: Medicalização de crianças e adolescentes: conflitos silenciados pela redução de questões sociais a doença de indivíduos. CONSELHO REGIONAL DE PSICOLOGIA DE SÃO PAULO. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2010.
SOUZA, Felipe. Transtornos do Neurodesenvolvimento. Disponível online em: http://pt.slideshare.net/FelipedeSouza10/curso-dsm-5-transtornos-do-neurodesenvolvimento
TEIXEIRA, Gustavo. Manual dos Transtornos Escolares: entendendo os problemas de crianças e adolescentes na escola. Rio de Janeiro: Best Seller, 2013.
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* Especialista em Alfabetização/ Educação Inclusiva/ Neuropsicopedagogia.
   Pós-graduanda em Neuroaprendizagem/ Professora em cursos de pós-graduação nas disciplinas voltados às  Neurociências, Neuropsicopedagogia, Educação Inclusiva, Alfabetização.

   Email: ana.hennemann@outlook.com   

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