quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Transtorno de Conduta


Ana Lúcia Hennemann*

Fato 1:
O garoto de 8 anos colocou o caderno fechado embaixo da mesa, a professora parou ao seu lado e questionou: - Terminou!
E ele com um sorriso no canto da boca responde: - Sim, prontinho! E desviando o olhar pôs-se a procurar algo em seu estojo.
- Por favor, posso dar uma olhada em seu caderno? - perguntou a professora. Olhando-a fixamente e esboçando outro sorriso, o garoto lhe entrega o mesmo.
Apenas a data do dia constava ali e quando questionado sobre o restante da atividade, ele calmamente folheia as páginas do mesmo e menciona que não sabe o que aconteceu, pois tinha certeza que havia copiado.
Fato 2:
Naquele dia tirou o lápis da mão da colega, quebrou-o e jogou longe.  Os diálogos não estavam funcionando, a cena já estava se repetindo. A professora solicitou a agenda, escreveu um recado aos pais. O término da aula chegou, ela viu quando ele rasgou a página da agenda e colocou embaixo da mesa, então calmamente o questionou: - Lembrou de pegar todos os teus pertences? Olhaste embaixo da mesa?
- Tudo que preciso está na mochila professora!
Fato 3:
Todos estavam posicionados olhando para a porta, a qualquer momento a aniversariante entraria... 3, 2, 1 começou o canto de parabéns. Era um dia de festa, eis que em determinado momento uma das crianças que não falava (mutismo seletivo) sai da sala correndo e chorando. Inúmeras perguntas foram feitas para que se tentasse entender o que havia acontecido. Nas costas, a marca de um soco que alguém lhe dera durante aquele momento em que todos cantavam.
O suposto suspeito mostrava-se desolado e comentava com os demais colegas: - Quem pode ter tido a coragem de fazer isso com aquele coitadinho?

    O Transtorno de Conduta classificado como um dos Transtornos Disruptivos, do controle de impulsos e da conduta, pode ter seu início na infância. Pequenos atos que evidenciam falta de sentimentos ao sofrimento alheio, demonstrações de agressividade física para com os outros ou mesmo torturas praticadas com animais, denotam um olhar mais atento do adulto em relação às atitudes da criança. Conforme DSM-V algumas características deste transtorno aparecem antes de 10 anos e geralmente são meninos.
   Conforme Burke (et al, 2002) é um padrão comportamental repetitivo e persistente no qual são violados direitos básicos de outras pessoas ou normas ou regaras sociais relevantes e apropriadas para a idade, podem implicar uma conduta agressiva de ferir ou ameaçar outras pessoas ou animais, desonestidade ou violações graves de regras.
Indivíduos com o transtorno de conduta apresentam:
- Ausência de remorso ou culpa: não se sentem mal quando fazem algo errado e nem se preocupam quanto às consequências negativas de suas ações.
- Insensibilidade – falta de empatia: ignora e não está preocupado com os sentimentos de outras pessoas.
- Despreocupação com o desempenho: não se preocupa com o desempenho escolar, com o trabalho ou outras atividades importantes. Geralmente culpa os outros pelas situações.
- Afeto superficial ou deficiente: não expressam sentimentos e nem demonstram emoções para os outros, a não ser de uma maneira que parece superficial, insincera ou rasa (ex. as ações contradizem a emoção demonstrada; pode “ligar” ou “desligar” emoções rapidamente) ou quando as expressões emocionais são usadas para obter algum ganho (ex. emoções com a finalidade de manipular ou intimidar outras pessoas).
    O DSM-V apresenta os seguintes critérios para o diagnóstico de transtorno de Conduta:
Um padrão de comportamento repetitivo e persistente no qual são violados direitos básicos de outras pessoas ou normas ou regras sociais relevantes e apropriadas para idade
- presença de ao menos 3 dos 15 critérios seguintes, nos últimos 12 meses, mas com ao menos 1 critério presente nos últimos 6 meses.
A
- Agressão a Pessoas e Animais
1) Frequentemente provoca, ameaça ou intimida outros.
2) Frequentemente inicia brigas físicas.
3) Usou alguma arma que pode causar danos físicos graves a outros (ex. bastão, tijolo, garrafa quebrada, faca, arama de fogo)
4) Foi fisicamente cruel com as pessoas.
5) Foi fisicamente cruel com animais.
6) Roubou durante o confronto com uma vítima (ex. assalto, roubo de bolsa, extorsão, roubo à mão armada)
7) Forçou alguém a atividade sexual.

- Destruição de propriedade
8) Envolveu-se deliberadamente na provocação de incêndios com a intenção de causar danos graves.
9) Destruiu deliberadamente propriedade de outras pessoas (excluindo provocação de incêndios)

-Falsidade ou Furto
10) Invadiu a casa, o edifício ou o carro de outra pessoa.
11) Frequentemente mente para obter bens materiais ou favores ou para evitar obrigações (“trapaceia”)
12) Furtou itens de valores consideráveis sem confrontar a vítima (ex: furto em lojas, mas sem invadir ou forçar a entrada; falsificação)

- Violações Graves de Regras
13) Frequentemente fica fora de casa à noite, apesar da proibição dos pais, com início antes dos 13 anos de idade.
14) Fugiu de casa, passando a noite fora, pelo menos duas vezes enquanto morando com os pais ou em lar substituto, ou uma vez sem retornar por um longo período.
15) Com frequência falta às aulas, com ínicio antes dos 13 anos de idade
B
A perturbação comportamental causa prejuízos clinicamente significativos no funcionamento social, acadêmico ou profissional.
C
Se o indivíduo tem 18 anos ou mais, os critérios para transtornos de personalidade antissocial não são preenchidos

   Conforme Teixeira (2013, p.65) na escola essas são algumas ações perceptíveis do transtorno de conduta:

 Mentiras
 Agressões físicas
 “Matar aula”
 Destruição de carteiras
 Roubo de material escolar
 Agressividade e ameaças contra professores e alunos
 Hostilidade com colegas de turma
 Ausência de remorso
 Comportamento sádico
 Consumo de álcool e drogas
 Desempenho escolar fraco
 Isolamento social
 Prática de bullying

    Sugere-se que as famílias juntamente com a escola permaneçam atentos e utilizem-se de medidas socioeducativas, treinamento de habilidades sociais e técnicas cognitivo-comportamentais como forma de controlar a agressão, a modulação do comportamento social e o estímulo ao diálogo e melhoria de relacionamento.

Referência Bibliográfica:
APA. Referência Rápida aso Critérios Diagnósticos do DSM-V. Porto Alegre: Artmed, 2014
TEIXEIRA, Gustavo. Manual dos Transtornos Escolares: entendendo os problemas de crianças e adolescentes na escola. Rio de Janeiro: Best Seller, 2013.
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* Especialista em Alfabetização/ Educação Inclusiva/ Neuropsicopedagogia.
   Pós-graduanda em Neuroaprendizagem/ Professora em cursos de pós-graduação nas disciplinas voltados às  Neurociências, Neuropsicopedagogia, Educação Inclusiva, Alfabetização.

   Email: ana.hennemann@outlook.com   

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