Ana Lúcia Hennemann*
As crianças brincavam
na pracinha, o local era cheio de árvores e numa das laterais havia um enorme
muro.
Duas turmas dividiam o
espaço, uma com crianças entre 3-4 anos e outra com 4-5 anos de idade. Os meninos
começaram a brincar de cientistas, juntaram alguns gravetos e começaram
suas pesquisas. Acompanhavam o trajeto feito por formigas e quando uma
delas entrava em qualquer buraco eles usavam "suas ferramentas" para exploravam o esconderijo. A professora ouviu e olhou
de relance quando o menino falou:
- Os inimigos estão
mortos.
Na ponta do graveto uma
abelha espetada e rapidamente o ambiente foi se transformando numa nuvem negra
de insetos saindo por uma fenda do muro. Era um enorme enxame de abelhas.
Em fração de segundos a
professora viu um filme passar por seus pensamentos, não podia ficar ali,
pois uma simples picada poderia ser a porta de entrada para um hospital e na
rapidez de tentar se salvar, saiu correndo gritando para que todas crianças corressem
também.
Longe do perigo, há
alguns metros de distância, iniciou a contagem de quantos ali estavam, mas
nisso voltou seus olhos para a nuvem preta e percebeu sua colega tentando salvar
as crianças que ficaram se debatendo como tentativa de se livrar das abelhas.
Novamente a fração de
segundos veio à mente, alergia a picada, dor intensa, inchaço, náuseas, mas era
preciso ajudar, como pode ter sido tão egoísta e foi assim que enfrentou seu
medo e voltou para o ambiente nada convidativo.
Durante milhares de anos nosso
cérebro mantém a função primordial de cuidar do nosso bem estar e nossa
sobrevivência. Qualquer sinal de perigo faz com que tomamos ações imediatas,
muitas vezes impensadas, que podem tanto manter nossa sobrevivência quanto
causar a morte. Por exemplo: “O sujeito era muito calmo, nunca reagiu a nada,
mas levou um tiro por ter atacado o assaltante”. E mesmo sem entendermos, foi apenas o instinto
de sobrevivência falando mais alto, que em situações estressantes podem tanto
paralisar um indivíduo quanto fazê-lo ter reações agressivas, ou seja, fuga ou
luta.
Nosso cérebro possui uma região chamada
neocórtex que nos faz raciocinar, prever situações, analisar o ambiente e a
partir daí tomar decisões mais sensatas. É essa região que nos diferencia dos
demais animais, pois somos os únicos capazes de antecipar o futuro e pensar em
possíveis estratégias a serem realizadas. Entretanto, quando se trata de emoções e
situações que exigem tomadas de decisões bruscas, será que é esta a região que
comanda nosso cérebro?
O neurofisiologista Paul MacLean,
em 1990, propôs a teoria do “Cérebro Triúno” ou “Cérebro Trino”, na qual teríamos
três cérebros: reptiliano, límbico, neocórtex.
Réptil – onde se manifestam nossos comportamentos de
autopreservação: alimentação, agressão e fuga, território e sexualidade;
Mamífero ou Límbico – apresentando os instintos de “rebanho’,
cuidados com a prole e hierarquias sociais
Neocórtex- processamento da linguagem simbólica, das abstrações, da
lógica.
Conforme esta teoria, grande
parte dos humanos em situações de emergência estariam expressando ações mais
voltadas ao cérebro réptil e mamífero.
Dalgalarrondo (2010, p 21), mencionando
sobre a evolução do cérebro, enfatiza que essa visão não é mais aceita nos dias
atuais, pois a evolução não ocorre de modo linear, mas em ramificações arbóreas,
e cada ramo segue seu próprio caminho evolutivo.
Nesta concepção, há a Teoria do
Sistema Funcional, desenvolvida pelo neuropsicólogos russo Aleksandr Romanovick
Luria, considerado o principal destaque da Neuropsicologia. Para Luria há em
nosso cérebro 3 unidades funcionais, mas que trabalham de modo integral:
Primeira Unidade funcional – Não
recebe nenhuma informação externa, sua única atividade é regular o estado do
funcionamento do córtex e o nível de vigilância, controlando o tônus, a vigília
e os estados mentais do indivíduo, porém, é uma unidade extremamente importante
porque o funcionamento cortical é essencial para a sobrevivência do indivíduo e
para a execução das outras funções superiores.
Segunda Unidade Funcional - responsável pela recepção, análise e pelo armazenamento
das informações. É uma das unidades mais importantes e que compõe grande parte
do funcionamento neurológico. O cérebro, ao receber as informações provindas
tanto do meio externo quanto do próprio organismo precisa processá-las
(interpretá-las) e quando entende que estas informações são muito importantes
passa a armazená-las no que pode ser comumente chamado de memória.
Terceira Unidade Funcional - é a região responsável pela programação,
regulação e verificação da atividade consciente do homem.
Para Luria, nosso cérebro ao
executar qualquer ação, qualquer atividade ele não envolve apenas uma região cerebral,
mas várias. Luria comparou nosso cérebro ao funcionamento de uma orquestra, ou
seja, para que trabalhe com harmonia
precisa ter seus instrumentos afinados e trabalhando de forma integrada.
Explica que cada área da orquestra é importante e interdependente, mas que
precisam das outras áreas funcionando conjuntamente para que seja tocada uma boa
música.
Quando temos esse entendimento de
que nosso cérebro trabalha em unidade, entendemos o quanto é importante praticarmos
atividades que visem o nosso bem estar, não somente mental, mas físico também, pois
frequentemente somos expostos a muitas situações e muitas delas requerem
tomadas de decisões rápidas e somente quando estamos em harmonia é que podemos
ter atitudes e/ou ações mais inteligentes. Se a função de nosso cérebro é
manter nosso bem estar e sobrevivência, que ele o faça de modo assertivo.
Referência
Bibliográfica:
ANDRADE,
M.V., SANTOS, F.R., BRUNO, O.F.A. Neuropsicologia
Hoje. São Paulo: Editora Artes Médicas, 2004.
DALGALARRONDO,
Paulo. Evolução do cérebro: sistema
nervoso, psicologia e psicopatologia sob a perspectiva evolucionista. Porto
Alegre: Artmed, 2011.
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* Especialista em Alfabetização/ Educação Inclusiva/Neuropsicopedagogia.
Pós-graduanda em Neuroaprendizagem/ Professora em
cursos de pós-graduação nas disciplinas voltados às Neurociências,
Neuropsicopedagogia, Educação Inclusiva, Alfabetização.
Email: ana.hennemann@outlook.com


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