terça-feira, 27 de outubro de 2015

Motivação como ferramenta de aprendizagem

Ana Lúcia Hennemann[1]



Da mesma forma que sem fome não apreendemos a comer e sem sede não aprendemos a beber água, sem motivação não conseguimos aprender.
- Iván Izquierdo.

    Vivemos tempos em que tudo parece muito difícil: violência, situação política, econômica, saúde pública, enfim, cada um através de seu prisma consegue enxergar aquilo que lhe aflige... Mas, também podemos afirmar que nosso conforto nos cega!!! Talvez tenhamos comodidades que em séculos anteriores nossos antepassados não as tiveram.
       Que tal imitarmos o personagem de Christopher Lloyd, o cientista Doc  Brown, no filme “De volta para o futuro”, mas voltar  no tempo até aportar exatamente no local onde estão chegando os primeiros imigrantes em terras brasileiras? Na mala, apenas sonhos, esperança de um futuro melhor, sementes e ferramentas agrícolas para que pudessem plantar seus alimentos, construir suas casas. Por todos os lados há somente mata, mas é esta a realidade, é através dela que terão que cuidar da família, zelar pela educação de filhos, caçar o alimento, buscar água para o próprio consumo...imaginem o tamanho da motivação que estes indivíduos precisavam ter?
      Muitos devem pensar: - mas isso é uma questão de sobrevivência!!! Lógico que é!! E é bem nesse ponto que quero tocar: - MOTIVAÇÃO é questão de sobrevivência! É ela que nos faz querer algo mais, que nos impulsiona para nos desvencilhar de todos e quaisquer empecilhos para que possamos alcançar nossos objetivos.
     Motivação provém da palavra em latim “MOVERE”, que significa mover para realizar determinada ação. Ou seja, é o impulso que nos move para agir. Percebe-se muitas escritas em neuroeducação enfatizando o papel das emoções, que trata-se de “um estado que a pessoa fica diante determinada situação/sentimento” (Mattos, 2010), pode ser algo passageiro, mas elas são de extrema importância, pois as emoções em ação tornam-se poderosos fatores de motivação, liberando neurotransmissores responsáveis pela nossa sensação de prazer, de bem-estar, acionando assim mecanismos que  sustentam a motivação, que “é uma condição de estar preparado e com vontade de fazer alguma coisa” (Mattos, 2010).
       A motivação traz o entendimento do porquê o aluno precisa estudar, que diferença fará na sua vida aprender determinado conteúdo, além de dar suporte para que muitas vezes consiga dizer não para algum compromisso com amigos e mesmo assim tenha prazer em estudar.
      Os mecanismos da motivação quando ativados no cérebro liberam dopamina, que é uma substância neuromoduladora capaz de modificar as atividades elétricas dos neurônios. Quanto maior a quantidade de dopamina que recebemos, maior é a sensação de bem-estar que associamos aquele comportamento, procurando repetir este estímulo como forma de ativar nosso sistema de recompensa.
        Se o aluno recebe um elogio do professor por determinada situação, com certeza irá querer repetir a ação para receber novos elogios. Se disser para tal pessoa que o sorriso dela é encantador, certamente ela vai sorrir com muito mais frequência. Como também se comemos algo que nos deu prazer, visitamos algum local maravilhoso ou sentimos alegria na companhia de alguma pessoa, vamos querer repetir a dose...
       Dentro da questão motivacional entra em cena também os famosos neurônios-espelho, que são células especializadas que tentam reproduzir automaticamente ações alheias e nos permitem tanto imitá-las quanto interpretá-las e nesse sentido Fraiman (2014) nos diz que “a postura do educador influencia na motivação de seus alunos e em seu impacto na comunidade”. Portanto, para motivar alunos, precisamos ser exemplo de motivação. Eles precisam sentir que é possível sim, fazer a diferença, que a educação é âncora motivacional para a vida, que nosso cérebro ‘aprende’ não só novos conteúdos na escola, mas também a alterar processos-chave para a vida.
        Talvez alguns educadores esqueceram o que um dia os motivou a chegar a tal lugar, o encanto que teve o primeiro emprego, ou ser chamado no edital do concurso, seu primeiro dia na escola, sua primeira reunião, o primeiro olhar de cada aluno... sim, os alunos já eram agitados, desmotivados, sempre o foram! Mas, a expectativa do fazer docente, fazia com que isso servisse de impulso para criar novas técnicas, preparar aulas diferenciadas, propor atividades diversificadas.... Em muitos momentos do fazer docente podemos passar por situações de desmotivação, mas se faz necessário pensar: - e se fosse meu primeiro dia, se fosse meu primeiro ano? Como agiria?
       Mussak (2013, p.119) conta um episódio que assistira de Madame Bovary: “Emma, queixa-se do esposo, e me chamou particularmente a atenção um trecho em que ela diz que seu marido é muito bom, atencioso, mas não é ambicioso. Ela, ao contrário, é ambiciosa, ela quer mais da vida. Naquele tempo, a mulher não devia ser ambiciosa, quem tinha de ser ambicioso era o marido, mas seu nível de expectativa é mais elevado do que o dele. Em certo momento, ela diz algo assim: quando olho para meu futuro, vejo um corredor escuro com uma porta fechada no seu extremo”. E isso a desesperava. Ela não conseguia manter a motivação no casamento porque, ao olhar para adiante, via apenas um trajeto sombrio e sem saída”.
        E quantas vezes podemos passar esta mesma sensação a nossos alunos, de que a vida é um trajeto sombrio e sem saída, é preciso ter vistas para um futuro mais audacioso ter a certeza do que e porque estamos na estrada da educação.
       Nosso corpo possui drogas internas, a dopamina e a ocitocina, responsáveis pelo prazer e pela colaboração, que são estimuladas com a palavra e o reconhecimento. (Costa, 2014). Quando falamos em motivação como ferramenta de aprendizagem é justamente o encantar com a palavra e o reconhecimento, durante séculos estes recursos nunca caíram de moda: “mostrar empatia pelo aluno, ser exemplo de motivação, trabalhar conteúdos através de histórias, mudar a tonalidade da voz, ...”
        São pequenos fatores que fazem a diferença, se não os fizesse não existiria nenhuma Malala Yousafzai, em pleno século XXI, recebendo prêmio Nobel (2014) por reivindicar o direito ao estudo, o direito de ter a presença de um professor, o direito de fazer a diferença no mundo.
        Se em tempos anteriores, alguns transformaram a história, trazendo consigo apenas algumas sementes e ferramentas agrícolas, que nós sejamos mais audaciosos, pois com todos os recursos que dispomos, precisamos ser referência em motivação, de tal forma que lá dentro do cérebro de nossos alunos, seus neurônios-espelho, clamem por: - eu quero ser assim, eu quero aprender isso... E dessa forma podemos passar a sensação de que a vida é um trajeto claro e com muitas oportunidades, desde que tenhamos motivação para alcançar nossos objetivos.

Referências:
COSTA, J. Congregarh-2015
JESEN, Eric. Enriqueça o cérebro: como maximizar o potencial de aprendizagem de todos os alunos. Porto Alegre: Artmed, 2011.
MATTOS, Geraldo. Dicionário Júnior da Língua Portuguesa. São Paulo: FTD, 2010.
MARINS, L. MUSSAK, E. Motivação: Do querer ao fazer. Campinas: 7 mares, 2013.


[1] Especialista em Alfabetização. Neuropsicopedagogia Clínica. Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva. Neuroaprendizagem. Pós-Graduanda em MBA em Liderança e Coaching para Gestão de Pessoas.

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