sexta-feira, 6 de novembro de 2015

As crianças estão mudando o foco...


Ana Lúcia Hennemann[1]
“As crianças de hoje estão crescendo numa nova realidade, na qual estão conectadas mais a máquinas e menos a pessoas de uma maneira que jamais aconteceu antes na história da humanidade [...] Menos horas passadas com gente e mais horas olhando fixamente para uma tela digitalizada são o prenúncio de déficits”
Daniel Goleman

Nesta última década há a predominância de uma nova geração: “A falta de foco e desatenção”. E não estou falando da geração Y, a qual as repórteres Matsu e Schabib se referiram como as que nasceram com “a faca, o queijo e o smartphone na mão”, estou falando da geração “Z”, nascida a partir do ano 2000, que além dos atributos da faca, do queijo e do smartphone, está sendo apontada também, como a geração selfie, ou seja eu, meu mundo e nada mais.  Guilherme Arantes, há muito tempo já cantava isso...”Meu mundo e nada mais”, não no sentido dessa exposição do ego, mas no sentido das pessoas se perceberem tão feridas que não enxergam expectativas de mudanças.
O grande problema da geração selfie é que seu foco está todo voltado apenas para um mundo irreal, virtual, artificial...tempos líquidos. 
 Falas de adolescentes já se tornaram jargões de crianças: “Professora não deu tempo”. Como assim, criança não tem tempo? Também tenho acesso a internet, e aquele pequeno cidadão que aos 8 anos de idade enfatiza que não teve tempo para fazer a tarefa de casa, me conta fatos relacionados ao Facebook, ao YouTube e os avanços de nível que teve em determinado jogo virtual.
Poderíamos dizer que esta geração está sem foco, mas na verdade, focada ela está, porém a questão é: em quê? E não pensem que sou daquelas pessoas anti-era-digital, nada disso, mais plugada que eu, impossível! O problema é a qualidade do que escolhemos para nos manter atentos, pois foco é uma questão de nos afastar daquilo que não nos é importante! É concentrar nossa atenção em determinado aspecto, pois em latim atenção significa attendere, ou seja, entrar em contato, nos conectar com o mundo, moldando e definindo a nossa experiência.
Goleman (2013) relaciona a nossa capacidade de atenção, como nível de competência com que realizamos determinada tarefa. Entretanto, apesar da atenção ser um fator importante para a forma como levamos a vida, ela é um recurso mental que passa despercebido. Quando deixamos de desenvolver atividades que promovam o nosso foco, nossa atenção, nos tornamos mais dispersos. Quando nos dedicamos a fortalecer nossa atenção em aspectos que são realmente relevantes para o indivíduo humano, estamos nos proporcionando organização, economia de tempo e qualidade de vida.
Segundo Goleman existem três aspectos que envolvem o foco: - interno, no outro e externo.
® Foco interno – nos põe em sintonia com nossas intuições, nossos valores e nossas melhores decisões, esse tipo de foco nos faz refletir sobre nossas ações e nos proporciona melhor estrutura cognitiva.
Lembram daquele antigo hábito de escrever os famosos diários, pois eles eram importantíssimos, através deles colocávamos na escrita aquilo que vinha em nossos pensamentos. Isso é uma forma de se reestruturar, de analisar o que está acontecendo consigo.
Outra forma de perceber nossa capacidade de foco é redação. Qual seria a qualidade de sua redação? Em quanto tempo você conseguiria externalizar num texto o que permeia em seus pensamentos?
® Foco no outro – facilita nossas ligações com as pessoas de nossas relações. É a questão da empatia, de perceber o outro. Mas será que estamos ensinando nossas crianças a ter empatia?
Esta semana fiz uma atividade onde os alunos deveriam desenhar e apresentar aos colegas fatos relacionados ao final de semana: “o que me deixou feliz”, “o que me deixou triste”. Atividade feita, apresentação iniciada, mas a surpresa: a medida em que as crianças falavam, percebi que fatos que os deixaram tristes e felizes estavam somente voltados à questão de ter ou não adquirido pontuação em seus jogos virtuais. Isso me surpreendeu, pois noções de felicidade e tristeza são percebidas não mais pela nossa relação com o outro ser humano e sim pela interação com um jogo! E no exercício de refletir sobre o que falaram e analisar sobre a precariedade do afeto humano, eis que um pede a palavra e diz: - ‘Professora, mas a gente joga em família, meu pai e minha mãe usam seus notes e eu o Tablet, todo mundo fica junto jogando.” E desse modo a nova sociedade está sendo constituída...
® Foco externo -  nos ajudam a navegar pelo mundo que nos rodeia. Nos faz entender qual nossa contribuição para o mundo. Entretanto, se nas famílias as interações pessoais se dão via virtual, obviamente nossa interação com o mundo também será dessa forma. “Cada macaco no seu galho”. Aliás, este é o título de uma das crônicas de Daniela Malagoli retratando esta solidão coletiva à qual estamos vivenciando.
Se faz necessário entender que o mundo tecnológico é sim importante para a aprendizagem, ele também nos ensina a manter o foco. Contudo, o que é preocupante é o tempo com que as crianças estão plugadas e deixando de exercer outras atividades. É o não ter tempo para as atividades escolares, e futuramente é o não ter tempo para as atividades voltados ao trabalho, à família, à sociedade e principalmente o não ter tempo para cuidar de si.
Foco se relaciona com amor, com paixão, com desempenhar aquilo que estamos fazendo com entrega. Pessoas que amam o que fazem aumentam a capacidade de focar e aprendem com mais facilidade. Segundo Goleman (2012, p 20): “Quando nossa mente divaga, nosso cérebro ativa uma porção de circuitos neurais que murmuram sobre coisas que não tem nada a ver com o que estamos tentando aprender.”
As crianças estão sim tendo atenção seletiva, que é a capacidade neural de focar em determinado contexto e esquecer tudo aquilo que ocorre no ambiente. Porém, este tipo de atenção seletiva, “focada na máquina”, “no selfie”, está criando pessoas que já não olham mais nos olhos dos outros, que são incapazes de perceber os sentimentos e futuramente indivíduos desprovidos de afeto.
Ter foco, começa antes de tudo com os cuidados que temos para conosco, não esse olhar de selfie, de exposição, mas sim um olhar mais profundo, um olhar de identidade, de entender: quem somos, e qual nossa importância para o mundo. Que saibamos dar às crianças este entendimento e fazê-las sair deste estado de “Meu mundo e nada mais”.
Se faz necessário ensiná-las a ampliar a capacidade de focar, investir em outras áreas: sono, alimentação, ensino, artes, interação com outros, esportes...pois quando elas realmente tiverem adquirido a noção de cuidar de si, serão capazes de olhar nos olhos de outras pessoas e fazer o convite para cuidar do mundo.

Bibliografia:
GOLEMAN, Daniel. Foco: A atenção fundamental para o sucesso. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.
MATSU, Carla. SCHABIB, Luana. Geração Y: Quem são esses caras. Disponível online em: http://migre.me/mAzhM



[1]  Especialista em Alfabetização, Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva, Neuropsicopedagogia Clínica e Pós-graduanda em Neuroaprendizagem. - whatsApp - 51 9248-4325

Como fazer a citação deste artigo:

HENNEMANN, Ana L. As crianças estão mudando o foco. Novo Hamburgo, 06 nov/ 2015. Disponível online em: http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2015/11/as-criancas-estao-mudando-o-foco.html



3 comentários:

  1. Muito bom o artigo, realmente isso é uma realidade, porém isso não se restringe somente ao universo infantil digital.Hoje até os adultos sofrem com essa carência afetiva e buscam preencher esse vazio no meio digital ,entretanto o adulto têm o discernimento para enxergar esse problema( pelo menos deveria ter ).

    Jonathan Vieira

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  2. Excelente! Muitos pais já estão igual aos filhos. Como professores precisamos fazer a nossa parte em sala de aula com metodologias que provocam a curiosidade, se sintam desafiadas a fazer de outro jeito. Alimentar sonhos usando recursos para que queiram alcançá-los.

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