domingo, 29 de março de 2015

Neurociências e os 4 pilares da educação propostos para o século XXI

Ana Lúcia Hennemann*
Nota: artigo publicado no site Meucerebro

Ontem um menino que brincava me falou que hoje é semente do amanhã...Para não ter medo que este tempo vai passar...Não se desespere não, nem pare de sonhar... Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs... - Gonzaguinha


A criança é a semente do amanhã. Semente que todo dia é ofertada aos cuidados da educação...Quanto tempo levará para ela brotar? Crescer? Tornar-se árvore? Nove anos? Treze anos? Dezoito anos? Vinte e um anos? Menos? Mais? Nada de prazos!  É necessário colocar a educação no coração da sociedade durante toda a vida (Delors, 1999).
Diariamente temos possibilidades de criar novas conexões neurais, novas aprendizagens, por isso educação é algo que nunca chega ao fim, ela faz parte do ser humano, está em todos os lugares, nas mais diversas situações. Contudo, como forma de organização social, há um local que elegemos como foco principal de disseminação do saber, a escola. Esta, assim como a sociedade, vem passando por constantes transformações, e como proposta de melhorias, tem investido em ações que visem o desenvolvimento integral do indivíduo.
O ser humano é o centro do processo educacional, faz-se necessário instrumentalizar os indivíduos para que possam ser protagonistas de seu próprio desenvolvimento e dessa forma ter atitudes mais assertivas, conforme o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) a inspiração para a educação do Século XXI é Paradigma do Desenvolvimento Humano.
Por volta de março de 1993 até setembro de 1996 uma comissão de especialistas coordenada por Jacques Delors - professor, economista e político francês - elaborou um relatório elencando quatro aprendizagens fundamentais que, ao longo de toda a vida, serão de algum modo para cada indivíduo, os pilares do conhecimento.
A palavra aprendizagem é o ponto chave destes pilares, mas ela contempla diversas dimensões nas quais o ser humano pode ser “trabalhado”, ou seja, a aprendizagem se dá de forma contínua e multifacetada, não se limitando somente a aquisição de conhecimentos, mas aprender a conhecer, a fazer, a conviver e a ser.
Aprender a conhecer faz menção a busca pelo conhecimento, o que nos faz querer aprender. Aprender a fazer nos fala da prática, das habilidades.  Aprender a conviver ressalta o respeito ao próximo, o pluralismo de ideias, a cooperação. Aprender a ser menciona a compreensão de si mesmo, a introspecção.
Quando foi elaborado este relatório para a UNESCO, Delors e demais integrantes desta comissão já mencionavam o avanço cientifico no âmbito mundial, entretanto ainda desconheciam o quanto este avanço viesse a contribuir com as questões educacionais.
Os quatro pilares propostos para a educação do século XXI, podem ser relacionados com alguns conhecimentos provindos das neurociências:
" Aprender a CONHECER – Esse pilar nos arremete a MOTIVAÇÃO que podem ser as estratégias utilizadas pelo educador visando despertar o interesse do educando. Causar motivos para que o indivíduo tenha o desejo de conhecer mais sobre o assunto. Também pode ser relacionada a RECOMPENSAS, tais como um simples elogio quando o aluno conseguiu realizar a atividade. Ivan Izquierdo, nos diz que “Da mesma forma que sem fome não aprendemos a comer e sem sede não aprendemos a beber água, sem motivação não conseguimos aprender.”
" Aprender a FAZER – O educando através da EXPERIÊNCIA e da PRÁTICA vai tornando a aprendizagem mais significativa, pois aprendemos a medida em que experimentamos e fazemos novas associações. Conforme Suzana Herculano-Houzel: “A aprendizagem é um processo e depende fundamentalmente de experiência, o nosso cérebro aprende por tentativa e erro, ele vai se esculpindo a si próprio conforme ele é usado.”
" Aprender a CONVIVER -  Nosso cérebro possui neurônios especializados em colocar-nos no lugar do outro, são os NEURÔNIOS-ESPELHO – Conforme Ramachandran, “Os neurônios-espelho praticam uma simulação virtual da realidade, pois nosso cérebro adota a perspectiva de outra pessoa e pode inclusive, aprender apenas por observação.” Aprender a conviver proporciona a construção de laços afetivos, fortalece a EMPATIA, pois nos ensina a ter respeito pelo outro.
" Aprender a SER - Uma das últimas áreas a atingir a MATURAÇÃO CEREBRAL é a região frontal, local este responsável pela nossa capacidade de autorregulação. Controle de nossa conduta. Investir no SER é um processo continuo, e conforme Delors envolve todos os demais pilares mencionados.   Da mesma forma Gardner (apud Cosenza) enfatiza que “Os educadores têm por função ajudar o aprendiz a atingir o estágio de mestre” e dessa forma só nos tornamos mestres quando temos autorregulação, ou seja, conseguimos traçar metas, e vamos em busca das mesmas, evidenciando iniciativa, criatividade, perseverança, tolerância e MATURIDADE.
Se a escola é o cenário da educação, se faz necessário que políticas educacionais priorizem a formação continuada dos educadores. Que possibilitem maior entendimento do funcionamento do sistema nervoso, pois a inspiração da Educação do Século XXI, pautada no Paradigma de Desenvolvimento Humano, só será eficaz se realmente o educador entender cada vez mais sobre desenvolvimento humano. Não há como cultivarmos árvores sem entender de sementes...


Referências Bibliográficas:
COSENZA, Ramon. As neurociências e a Educação no século XXI. Fórum de Educação 2012.
DELORS, Jacques. Educação, um tesouro a descobrir. Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre educação para o século XXI. Brasília, MEC, UNESCO e Cortez, 1998.
INSTITUTO AYRTON SENNA. Competências Socioemocionais. Disponível em http://educacaosec21.org.br/
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* Especialista em Alfabetização/ Educação Inclusiva/ Neuropsicopedagogia. Pós-graduanda em Neuroaprendizagem/ Professora em cursos de pós-graduação nas disciplinas voltados às  Neurociências, Neuropsicopedagogia, Educação Inclusiva, Alfabetização.

sábado, 7 de março de 2015

Percepção, atenção e observação...

[...]por muito tempo, as pessoas não se davam conta do quanto não sabiam e quanto já sabiam.
 Hoje por sua vez, já sabem, o quanto não sabem, o que as deixam ansiosas.
Duringan e Moreno(2011)


Já reparou como muita informação circula dia a dia “bem na frente de nossos olhos” e se alguém perguntar o que aconteceu, nem sempre conseguimos ter um feedback do assunto... e fica aquela situação: onde é mesmo que vi isso...
Um dos grandes recursos que temos para armazenar  informações é relacioná-las com outras que possuem algo em comum, por isso na atividade proposta a figura nos arremete a pensar em números, números levam a cálculos, cálculos para serem realizados precisam seguir regras, estruturas lógicas e automaticamente ficamos tentando encontrar qual é a lógica para a resolução do fato.
No entanto a resposta não se encaixa a nenhuma equação matemática, trata-se apenas de nossa percepção...ou seja, que local que estes símbolos aparecem? Ao entrarmos dentro de um carro, bem na frente há a alavanca de câmbio (humm, tá certo, depende também do modelo de carro que a pessoa está habituado a usar...) e mesmo que no dia a dia estamos diante dessa informação nem sempre a percebemos, pois ela é apenas mais uma informação...

Willingham autor do livro Por que os alunos não gostam da escola? Menciona que informações podem ser registradas de maneiras diferentes em nossa memória. Por exemplo: pense numa nota de 10 reais, neste momento, sem olhar para a mesma, você conseguiria descrevê-la detalhadamente? O que você lembra? Do animal que está estampado na mesma? Da cor da nota? Do numeral ou da escrita do número... Muitos, nem sequer visualizaram nenhum detalhe da nota de R$ 10,00, apenas lembram dela como um valor simbólico, pois conforme o autor não podemos armazenar tudo em nossa memória, e talvez nem tenhamos a consciência de escolher o que será e o que não será guardado em nossa memória, pois  se não pensamos muito sobre alguma coisa, provavelmente não queremos pensar nela novamente, assim, não será armazenado. Se pensamos sobre algo, procuramos ter maior conhecimento sobre o assunto, nosso cérebro entende que talvez essa informação é importante e que de alguma forma iremos reutilizá-la no futuro.