sábado, 29 de julho de 2017

Senso numérico - importância para a fluência matemática

Ana Lúcia Hennemann¹

“Quando criança, eu me sentia incompetente em relação à matemática, achava tudo sem sentido, sem encanto, sem porquê. A matemática se resumia a um amontoado de regras para acertar exercícios e conseguir passar de ano. Lembro-me de um problema em um livro de matemática, sem cor nem imagem: Um palhaço tem 5 roupas e 4 chapéus. De quantas formas diferentes ele pode se vestir? Como não sabia o que era para fazer, fiquei parada, olhando aquele texto. Foi então que a professora disse: “Multiplique a quantidade de roupas pela quantidade de chapéus”. Foi o que fiz: 5x4=20. E, ganhei um certo. Acertei, mas não compreendi! Na verdade, senti-me o palhaço daquele problema...”
- Luiza Faraco Ramos (2009, p.8-9)

     Se alguém menciona a expressão “mundo letrado”, o que exatamente vem à sua mente?
    Se num primeiro momento você pensou em letras, saiba que seu pensamento está correto, porém o mundo letrado não consiste apenas em letras, mas também em números, sendo que estes estão presentes no relógio, no controle remoto da televisão, no teclado do notebook, do celular, do computador, na camisa dos jogadores, nos preços das mercadorias. Pode-se afirmar que em toda a nossa volta as noções de números e todos seus demais contextos estão presentes, sendo que a interação do sujeito com o meio e o desenvolvimento das funções cerebrais cognitivas proporcionam a criança a aquisição destes saberes relacionados com as habilidades matemáticas.
   A relação destes números com suas respetivas quantidades inicia de modo lúdico, seja através de brinquedos, brincadeiras, narração de histórias (os três ursos, por exemplo), jogos e atividades cotidianas diversificadas.  Situações onde a criança é solicitada a mostrar em seus dedos quantos anos tem, contar objetos que possui, brincadeiras envolvendo relações termo a termo (correspondência entre quantidades) fazem com que as habilidades matemáticas se consolidem e vão permitindo deste modo a noção de senso numérico.
  O senso numérico envolve noções básicas do conhecimento numérico e suas respectivas quantidades, sendo que Corso e Dorneles (2010, p. 299) explicam que não há na literatura um conceito único desta habilidade, porém “de um modo geral, este se refere à facilidade e à flexibilidade das crianças com números e à sua compreensão do significado dos números e ideias relacionadas a eles”.
   As autoras também alertam que indivíduos que possui o senso numérico pouco desenvolvido podem ter baixo desempenho em atividades de contagem, realização de operações, estimativas e cálculo mental, ou seja, nos saberes básicos que auxiliam na fluência matemática. Por exemplo, no caso da citação inicial de Luiza Faraco Ramos, uma  criança com o senso numérico bem desenvolvido apresenta condições de resolver cálculos através de diferentes representações, ou seja, ela poderia ter estimativa da resposta, talvez inicialmente nem pensasse na possibilidade de multiplicação, mas poderia desenhar as tais roupas e chapéus e desse modo fazer as combinações.
    Nossas aprendizagens relacionadas às quantidades e números envolvem vários circuitos cerebrais que estão interligados repassando informações uns para os outros, através da coordenação do lobo parietal. Cosenza e Guerra (2011) nos dizem que o modelo mais adotado na relação cérebro x matemática é o Modelo Triplo Código, onde segundo este construto três circuitos diferentes são ativados:
1º no córtex do lobo parietal dos dois hemisférios cerebrais, ao redor de um sulco horizontal denominado sulco intraparietal = ocorre a percepção da magnitude (quantidade, fileira numérica);
2º em uma porção do córtex na junção occipito-temporal, também em ambos os hemisférios cerebrais = ocorre a representação visual dos símbolos numéricos (algarismos arábicos)
3º em uma região cortical do hemisfério esquerdo e parece envolver regiões temporo-parietais, que são ligadas ao processamento da linguagem = ocorre a representação verbal dos números (quatro, sete, vinte e um, etc.)

   Toda esta base envolvendo matemática deve estar organizada por volta dos 5 anos de idade (COSENZA; GUERRA, 2011), ressaltando aqui a importância do trabalho desenvolvido pela Educação Infantil, principalmente na identificação precoce de crianças que apresentam o senso numérico pouco desenvolvido. A alfabetização matemática, na qual se desenvolve o senso numérico, requer bases anteriores ao trabalho desenvolvido no Ensino Fundamental.
    Nesse sentido, o lúdico se mostra como maior recurso para o desenvolvimento destas habilidades básicas, sendo que Kamii e Clark (1992) enfatizam a importância da “aritmetização lógica da realidade”, ou seja, a criança interagir com as situações propostas como forma de construir o pensamento numérico, pensamento que não vem de livros, de explicações de outros, de programas de computador, mas sim das construções que ela vai realizando.  
Fonte: www.smarkids.com.br
- Jogo de memória: além do senso numérico, o jogo de memória é um dos jogos que trabalha muitas outras habilidades cognitivas:
- percepção visuoespacial (lembrar a forma/cor da figura virada e a sua localização),
- memória de trabalho (a criança precisa reter a informação das figuras que ela já virou)
- controle inibitório (pois ela precisa esperar até a próxima rodada)
- flexibilidade cognitiva (se alguém pegou o par de cartas antes que ela, se faz necessário criar uma nova estratégia para a próxima jogada)
- e também auxilia na relação termo a termo (correspondência).
Crianças por volta dos 4 anos de idade inicialmente podem se utilizar de jogos de memória que envolvam apenas quantidades, entretanto lá pelo final dos 5 anos já é possível trabalhar a relação quantidade x numeral correspondente até o numeral 10.


- Jogo de quantidades:
Fonte: http://professorajuce.blogspot.com.br/2015/02/matematica-na-educacao-infantil.html?spref=pi 
A criança joga o dado e precisa preencher seu tabuleiro (caixa de ovos) com a quantidade mostrada.


Noção de maior que  x menor que:










- Relações numeral x quantidade

 








Livros de histórias que trabalham o senso numérico:

- Os dez amigos. Autor: Ziraldo. Editora: Melhoramentos.
- Os dez sacizinhos. Autor: Tatiana Belinky. Editora: Paulinas.
- Chá das dez. Autor: Celso Sisto. Editora: Aletria.
- Cachinhos dourados. Autor: Ana Maria Machado. Editora: FTD.

Referências Bibliográficas:
BASTOS, José Alexandre. O cérebro e a matemática. São Paulo: Edição do Autor, 2008.
CORSO, Luciana. DORNELES, Beatriz. Senso numérico e dificuldades de aprendizagem na matemática. Rev. Psicopedagogia 27(83): 298-309. Porto Alegre: 2010.
COSENZA, Ramon. GUERRA, Leonor. Neurociência e Educação – Como o cérebro aprende. Porto Alegre: Artmed, 2011.
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[1]Especialista em Alfabetização, Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva, Neuropsicopedagogia Clínica e Neuroaprendizagem. - whatsApp - 51 99248-4325
Como fazer a citação deste artigo:
HENNEMANN, Ana L.   Senso numérico - importância para a fluência matemática. Novo Hamburgo, 29 de julho/ 2017. Disponível online em:   http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2017/07/senso-numerico-importancia-para.html

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