sábado, 5 de agosto de 2017

Entendendo os processos cognitivos relacionados a atenção, memória operacional e funções executivas


Ana Lúcia Hennemann[1]
         Nosso sistema nervoso é repleto de estruturas que se utilizam de processos cognitivos que nos fazem desempenhar as tarefas do dia-a-dia, sendo que a obtenção de êxito nas mesmas se dá quando estes processos trabalham de forma equilibrada e integrada. Processos como atenção, memória operacional e funções executivas são primordiais para a realização de qualquer atividade, sendo que estudos com alunos que apresentam transtornos de aprendizagem evidenciam desempenho abaixo do esperado em tarefas que fazem a mensuração destes construtos.
        Nesse sentido, o entendimento do que exatamente são estes processos, como eles atuam no cérebro e quais as regiões responsáveis pelos mesmos, podem proporcionar ao educador a identificação precoce de situações disfuncionais em estudantes, auxiliando deste modo no processo de encaminhamento a outros profissionais quando se fizer necessário e também na escolha de atividades pedagógicas de intervenção.

Atenção

       Durante o percurso de uma hora ou um dia, muitas informações chegam ao nosso sistema nervoso através de receptores sensoriais periféricos que captam a energia do ambiente e vão passando-a de uma célula a outra, até chegar em áreas especificas do cérebro responsáveis pelo seu processamento, no entanto nem tudo é processado. Esta situação ocorre devido ao nosso cérebro ser constituído por mecanismos que necessitam filtrar as informações, focalizando somente aquilo que nos é importante. Este mecanismo de filtrar/selecionar as informações ocorre através do fenômeno da atenção, onde Guerra e Cosenza (2011) usam como metáfora a comparação com uma lanterna, ou seja, a luz da lanterna ilumina determinado foco dentro de um grande contexto, a iluminação da lanterna seria o mesmo que ocorre com o nosso foco atencional.  No entanto, os autores alertam que o foco atencional não ocorre apenas em situações extrínsecas, mas também nas intrínsecas, ou seja, em situações interiores do nosso organismo, por exemplo nossos pensamentos.
      A seleção das informações se dá através de cadeias neuronais onde as estações sinápticas intermediárias podem inibi-las, impedindo desse modo que as mesmas atinjam regiões que as torne conscientes. Nesse sentido, um aspecto importante a considerar é o nível de vigilância ou de alerta que o cérebro se encontra num determinado momento.
       O nível de vigilância é regulado pelo locus ceruleus[2](figura 1), localizado no mesencéfalo onde o principal neurotransmissor produzido nesta região é a noradrenalina. 

Figura 1 - Locus ceruleus
Fonte: adaptação de imagem de KANDEL, 2016

        Um nível de vigilância adequado permite que nosso cérebro possa manipular a atenção, fazendo com que o foco atencional consciente ocorra em diferentes modalidades sensoriais. (COSENZA; GUERRA, 2011). Entretanto, situações de extremo alerta atencional podem ocasionar prejuízos aos indivíduos, alterando a atenção e o processamento cognitivo, por exemplo: pessoas que sofrem de ansiedade ou esquizofrenia podem apresentar desequilíbrios atencionais fazendo com que as informações que lhe chegam sejam distorcidas.
      Quando falamos de atenção se faz necessário explicar que há circuitos neuronais que a governam, circuitos tais como: da regulação da vigilância, orientador e o executivo.
       O circuito da regulação da vigilância pode ser regulado de duas formas: “de baixo para cima” ou de “cima para baixo”.
    O circuito de regulação “de baixo para cima” chamado de atenção reflexa, é norteado pelos estímulos periféricos e suas características, algum tipo de novidade ou contraste. Por exemplo: algum som que ocorra repentinamente no ambiente: uma ambulância que passa, a porta que bate, a sineta que toca no contexto escolar. As situações internas do organismo como sede, fome, etc, também fazem parte da atenção reflexa.  Na atenção voluntária, a que ocorre “de cima para baixo”, é justamente quando temos uma escolha determinada por um algum contexto específico: procura de um objeto em algum local ou tentar alcançar algum objetivo.
    O circuito orientador, localizado no lobo parietal é aquele que nos permite desligar o foco atencional de um determinado alvo e o deslocar para outro ponto, ajustando a atenção para que possamos perceber com maior clareza o estímulo enviado. Nesse circuito o foco da atenção pode ser dirigido a outros sistemas sensoriais.
    No circuito executivo, ocorre o prolongamento da atenção ao mesmo tempo que são inibidos os estímulos distratores. Esse circuito (figura 2) localiza-se numa área do córtex frontal, numa porção mais anterior de uma região conhecida como giro do cíngulo que fica situada na parte interna do hemisfério cerebral adjacente ao outro hemisfério.
Figura 2- Circuito executivo

                                                         Fonte: adaptação de imagem de Kandel, 2016
      
        Uma das funções dessa atenção executiva relaciona-se aos mecanismos de autorregulação, que consiste na capacidade de modulação do nosso comportamento de acordo com as demandas cognitivas, emocionais e sociais de uma determinada situação (COSENZA e GUERRA, 2011). Sendo que no giro do cíngulo há duas áreas diferentes, uma que regula a atenção aos processos emocionais e outra que é voltada aos processos cognitivos.

Memória de trabalho

       Quando falamos de memória de trabalho, podemos utilizar a metáfora de uma mesa contendo objetos os quais iremos nos utilizar durante um determinado período para desempenhar uma tarefa. Deste modo, podemos entender que a memória de trabalho é também conhecida como memória operacional, sendo que a função da mesma permite a manutenção e a manipulação de informação de forma temporária enquanto são realizadas operações mentais. Essa memória é responsável pelo armazenamento e pela manipulação de novos conhecimentos, bem como permite que se faça correlações entre novas e antigas informações.
        A memória operacional não tem uma localização específica no cérebro, mas sim vários circuitos ou sistemas responsáveis por ela, sendo que o córtex pré-frontal coordena e integra ações desenvolvidas em várias áreas corticais e subcorticais como forma de cuidar de nossas atividades mentais.
       No entanto, se faz necessário lembrar que para que a informação chegue na memória de trabalho ela precisa ser relevante a ponto de se tornar consciente, ultrapassando deste modo o filtro da atenção. Uma memória inicial, ocorre através memória sensorial ou imediata, que dura alguns segundos e apenas ativa os sistemas sensoriais relacionados a ela. Embora com características um pouco diferenciadas, quanto ao tempo de armazenamento, esta memória lembra um modelo postulado por Baddeley (2000), conhecido como “buffer episódico”, o qual podemos verificar nas descrições de Abreu [et al] (2016, p.301),
Em uma revisão e nova proposta do modelo em 2000, Baddeley inseriu um novo componente, o buffer, ou retentor episódico, um sistema supostamente capaz de reter informações por curto tempo de forma multidimensional e realizar conexões entre os subsistemas da MO e as conexões da MO com inputs da memória de longa duração e da percepção (Baddeley, 2011; Canário & Nunes, 2012).

      No entanto, se a informação tiver relevância ela pode ser mantida na consciência através do sistema de repetição que pode ser feito através de recursos verbais ou visuais (imagens). Esses subsistemas são na verdade processos cognitivos, localizados no córtex cerebral, os quais Baddeley, 2011 os caracteriza como alça fonológica e esboço visuoespacial.
[...] na alça fonológica ocorre a codificação fonológica (verbal), enquanto o esboço visuoespacial é responsável por armazenamento e manipulação da informação correspondente a esse domínio, possibilitando o desenho mental de lugares ou situações. (ABREU [et al], 2016, p.301)

       Cosenza e Guerra (2011) alertam que o sistema de repetição tem capacidade limitada referente aos números de itens que consegue manter e processar, equivalente ao intervalo de 2 segundos. Contudo, tanto a memória sensorial quanto o sistema de repetição se mostram componentes essenciais da memória operacional, pois os sistemas neurais responsáveis por esta memória lidam com vários processos de informação, tais como: sons, imagens, pensamentos, no sentido de mantê-los disponíveis para que possamos desempenhar atividades voltadas cotidianas voltadas a resolução e compreensão de tarefas, ou seja, raciocinar sobre as mesmas.
      Pode-se tomar como exemplo a seguinte situação: a criança recebeu na escola um “tema de memória”, ou seja, um tema para casa o qual não necessitava fazer o registro no caderno ou agenda. Vamos simular que a tarefa seja: - trazer no dia seguinte uma gravura de um animal doméstico. Como estratégia para lembrar a atividade a criança poderá: - repetir a ordem dada até encontrar um familiar e informar o que necessita fazer; - se ela tem animal poderá visualizar a imagem do mesmo; -poderá associar o tema a uma situação em que brincou com um animal desta classificação. Enfim, ela terá que conservar esta informação, por determinado tempo, através de ativação de registros, pois quando associamos as tarefas a sinais e pistas maior a chance de manter por horas ou até mesmo dias a informação na memória operacional.

Funções executivas

        No desempenho de qualquer tarefa se faz necessário um conjunto de habilidades e capacidades que nos permitem realizar ações para a conclusão da mesma, chamamos isso de funções executivas (FEs). Por exemplo se necessitamos escrever um bilhete a alguém, se faz necessário desde a organização de objetos para a escrita até a seleção do conteúdo a ser inserido. Outro exemplo: o indivíduo precisa ir ao mercado comprar os alimentos para a semana, então será necessário: identificar quais produtos devem ser comprados, a forma de pagamento dos mesmos, o como irá transportá-los até sua residência, onde irá armazenar tais alimentos. Tudo isso requer “identificação de metas, planejamento de comportamento e a sua execução e monitoramento do próprio desempenho até que o objetivo seja consumado”. (COSENZA; GUERRA, 2016, p. 87)
      As funções executivas (FEs) nos dão condições para elaborar nossos pensamentos de modo a adaptá-los aos estímulos, antecipar ações futuras e mudar planos caso ocorram imprevistos, por isso elas possibilitam nossa interação com o mundo frente às mais diversas situações que encontramos. Faz com que desempenhamos uma tarefa global (tanto de curto quanto de longo prazo) ao mesmo tempo que executamos várias outras subtarefas que necessitam ser distribuídas no tempo de forma organizada e mantidas na memória operacional até que a meta final se concretize. (COSENZA; GUERRA, 2016).
       A região pré-frontal possui três circuitos neuronais responsáveis pela coordenação destas funções executivas: orbitofrontal, dorsolateral e medial.(figura 3)
Na orbitofrontal, localizada na porção inferior do cérebro, logo acima da órbita, se mostra responsável pela avaliação dos riscos e inibição de respostas inapropriadas. A dorsolateral situa-se na parte externa do cérebro e através dela ocorre o planejamento do comportamento, a flexibilização das ações e o funcionamento da memória de trabalho. Na superfície medial do cérebro juntamente com a porção mais anterior do giro do cíngulo está o circuito medial, responsável pelo automonitoramento, a correção dos erros e o fenômeno da atenção. 


                                   Figura 3- Regiões responsáveis pelas funções executivas
                                              Fonte: criação da autora adaptando de imagens de KANDEL, 2016.

       Todos indivíduos necessitam ter pleno funcionamento de suas funções executivas para êxito nas tarefas, no entanto devemos lembrar que estas funções se desenvolvem gradualmente ao longo da infância e da adolescência, pois o córtex pré-frontal responsável pela coordenação das funções executivas tem “maturação lenta e continua se modificando significativamente até a adolescência por meio de processo como ramificação de dendritos e a formação e a eliminação de sinapses”. (COSENZA; GUERRA, 2011, p. 92)
      Todo ser humano vai abarcando ao longo de sua vida experiências diferenciadas e desta forma vai se constituindo como indivíduo único, sendo que o ambiente social tem função essencial no desempenho das funções executivas, porém devemos lembrar que justamente pela trajetória de vida de cada um, o desenvolvimento destas funções também se apresentará de modo distinto para cada ser humano.

Considerações finais:
      
       Todos dependemos do bom funcionamento de nossos processos cognitivos para a realização das tarefas, sendo que no ambiente escolar, devido a grande demanda de atividades que exigem atenção, planejamento, velocidade de processamento, fluência verbal, memória, entre outros, fazem com muitos destes processos se mostram mais evidentes. Ter pleno funcionamento dos processos que envolvem atenção, memória operacional e funções executivas ajuda os alunos a focar, conseguir manter informações na mente enquanto realizam exercícios escolares, bem como conseguir priorizar e inibir comportamentos, situação que auxilia a resistir a distrações ou estímulos irrelevantes.
      Autores como Cosenza e Guerra ao mesmo tempo que nos orientam sobre todos estes construtos também nos alertam do que pode ser realizado para manter o equilíbrio destes processos. Atividades como: - estudar em ambientes sem distratores; - ter rotina para estudar; - ter atividades de higiene mental para ajudar a manter a memória de trabalho menos sobrecarregada de modo a processar as informações mais importantes. Do mesmo modo, tanto pais quanto educadores, mediante o conhecimento destes processos e com o entendimento de que a criança se encontra com o cérebro em processo de maturação podem ensinar estratégias que impulsionem o desenvolvimento das funções executivas, tais como: ensino de planejamento das atividades onde a criança seja capaz de estabelecer metas e executá-las desde o início até o fim das mesmas.
       Levando em consideração que o ambiente também vai moldando o quanto vamos desenvolvendo ou não nossas habilidades cognitivas, podemos entender o quanto é importante ter pessoas mais conscientes para orientar as crianças, pois elas serão os adultos de amanhã e a obtenção do pleno desenvolvimento destes processos cognitivos pode resultar em uma vida mais útil e com muito mais êxito.

 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
 CORSO, Luciana Vellinho. Dificuldades na Leitura e na Matemática: um estudo dos processos cognitivos em alunos da 3ª a 6ª série do Ensino Fundamental. Tese de Doutorado. Porto Alegre: UFRGS, 2008.
COSENZA, R.M. GUERRA, L. Neurociência e Educação: como o cérebro aprende. Porto Alegre: Artmed, 2011.
 MALLOY-DINIZ, L., MATTOS, Paulo, ABREU, Neander, FUENTES, Daniel. Neuropsicologia: Aplicações Clínicas. Porto Alegre: Artmed, 2016.



[1]Especialista em Alfabetização, Neuropsicopedagogia e Educação Inclusiva, Neuropsicopedagogia Clínica e Neuroaprendizagem. Professora de Pós-Graduação pelo CENSUPEG. Membro do Conselho Técnico da SBNPp (2016-2018) - whatsApp - 51 99248-4325
Como fazer a citação deste artigo:
HENNEMANN, Ana L.  Entendendo os processos cognitivos relacionados a atenção, memória operacional e funções executivas
Novo Hamburgo, 05 de agosto de 2017. Disponível online em:   https://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2017/08/entendendo-os-processos-cognitivos.html


[2] Locus ceruleus – é um grupo de neurônios que possuem um pigmento de coloração azulada.

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