Em uma cena bem conhecido da Matrix, Neo
(interpretado por Keanu Reeves) encontra-se na cadeira de uma dentista, coberto
com tiras de alta tecnologia sobre uma variedade
de eletrodos, então, “baixa” uma série de programas de treinamento de artes
marciais em seu cérebro. A informação é transferida através do córtex visual.
Depois, ele pisca os olhos e fala: "Sei kung fu!"
A “aprendizagem automática” é um sonho
antigo da subcultura Cyberpunk[1], e
a maioria das pessoas pensava que permaneceriam neste reino ficcional por mais
algum longo tempo. No entanto, graças a pesquisas recentes, aquilo que tinha
sido considerado “ficção científica” em breve pode tornar-se um “fato na
ciência”. Uma pesquisa recente da Universidade Brown, nos EUA, liderada pelo neurocientista Takeo Watanabe, está
demonstrando que a ficção científica pode se tornar fato científico. Suas
descobertas revelam que é possível atingir os padrões de ondas cerebrais de especialistas
como atletas e músicos, e depois para induzir esses padrões no cérebro de um
sujeito passivo, através de estímulos visuais. O resultado: os participantes melhoraram o desempenho de uma tarefa.
"Visualmente, os adultos, possuem
muita plasticidade para permitir a aprendizagem da percepção visual",
disse o pesquisador.
Para entender o avanço de Watanabe, é preciso
conhecer um pouco sobre o sistema visual. Vinte anos atrás, o neurobiólogo
israelense Dov Sagi descobriu que com treinamento intensivo em determinadas
tarefas visuais, tais como orientação de destino (a capacidade de olhar para um
ponto na parede, olhar para longe, em seguida, olhar para trás, local exato do
ponto de), pessoas muito mais velhas podem melhorar seu desempenho nessas tarefas.
O "aprendizado perceptual" estudado por Sagi, em 1994 derrubou o
conceito do sistema de visão rígida. A aprendizagem não se manifesta, de
repente, como aconteceu com Neo. Mas em 2011, Watanabe imaginou a possibilidade
de treinar o sistema de visão, sem o conhecimento do indivíduo e sem o uso de
estímulos. Como isso?
Da seguinte maneira: um grupo de participantes
tiveram seus cérebros escaneados por uma Máquina de Ressonância Magnética
Funcional (fMRI) enquanto olhavam fixamente para uma tela de computador. Nela
havia uma imagem simples, composta por uma série de linhas diagonais.
Simplesmente analisando essas linhas, um padrão de ativação muito específico
foi produzido no córtex visual, codificado e armazenado pela FMRI.
No dia seguinte, ocorreu a segunda parte
da pesquisa. Indivíduos olharam novamente para uma tela de computador enquanto
seus cérebros eram digitalizados por Ressonância Magnética. Agora, em vez de
linhas, a imagem tinha um pequeno disco. O objetivo dos participantes era fazer
com que o disco ficasse maior, porém mentalmente – os cientistas não disseram a
eles como aumentar o disco. Portanto, a solução estava longe de ser óbvia. A
única maneira de aumentar o tamanho do disco era fazer com que o cérebro
produzisse um padrão, o mesmo gerado quando eles olharam fixamente para as
linhas diagonais no dia anterior.
Muitos podem achar a tarefa impossível,
mas na verdade não foi. Tentando solucionar um problema aparentemente
insolúvel, o nosso cérebro automaticamente repete padrões de percepção
recentemente adquiridos, no caso dos participantes da pesquisa, incluíam o padrão
produzido por essas linhas diagonais observadas. Quando o cérebro deles
processou este padrão, o disco começou a se expandir sem a necessidade de
treinamento. "Quanto mais semelhante o padrão de ativação cerebral
era", diz Watanabe, "quanto maior o disco se tornou."
A partir deste ponto, as coisas ficam
ainda mais interessantes. O primeiro padrão de ativação consistia apenas em
informação sem sentido. Mas, de maneira hipotética, isso não precisa funcionar
desta forma. Teoricamente, se a sequência produzida ao olhar para essas
primeiras linhas realmente continha informações significativas – como uma série
de treinamentos de kung fu, por exemplo –, então o indivíduo automaticamente
repetiu esse padrão, praticando cada vez que o cérebro tentou ampliar o disco.
Entretanto, a técnica ao estilo de Matrix,
onde o conhecimento é baixado diretamente no cérebro, exigirá muito mais do que
apenas gravar e reproduzir padrões de ativação do córtex visual. A ciência
ainda não sabe dizer se este tipo de fenômeno surge também em áreas como o
córtex motor ou córtex auditivo do cérebro, que viria a ser útil no domínio de
habilidades físicas ou linguísticas.
Watanabe pensa que futuramente este
método pode ser utilizado para curar a depressão. "Eu acho que nós poderíamos
facilmente treinar pessoas para ser feliz", diz ele. "Basta mostrar fotos de bebês e
gatinhos e outras imagens conhecidas para elevar o humor, gravar e usar esse
padrão como o gatilho para o “alargamento do disco”. Então, quando os assuntos executar
esta tarefa, eles estariam se tornando feliz também. "Eu acho que nós
poderíamos usar a técnica para apagar memórias, como a remoção de 12 meses de
vida de uma pessoa”, diz Watanabe. Dessa forma, quando o sinal é
dado, o assunto seria lembrar a memória implantada ao invés da memória do real.
Fonte: Discovermagazine
[1] A
palavra “Cyberpunk” vem, não surpreendentemente, de uma junção dos termos
“cibernética” e “punk”.
Cibernética
é, de forma simples, uma forma de compreender como diferentes máquinas agem e
se comunicam, trocando informações. É a ciência e tecnologia dos sistemas. Vale
lembrar que “máquinas” são conjuntos de sistemas (desde os mais simples até os
mais complexos) que atuam de forma coordenada para atingir um objetivo. Notemos
também que, tanto o equipamento eletrônico que você está usando pra ler esse
texto quanto o seu próprio corpo são máquinas. Máquinas que possuem níveis
diferentes de complexidade, claro, mas ainda assim, máquinas.
Mas qual é a maior diferença entre a cibernética e a
mecânica, ou a computação, por exemplo? A maior diferença é que a cibernética
trata principalmente de sistemas autômatos, ou seja, que conseguem existir “por
si só”, enviando informações ao ambiente e recebendo novas informações do
ambiente, reprocessando-as e enviando-as novamente, num ciclo infinito,
evocando o conceito de aprendizagem. Afinal, o que é “aprendizagem” senão
“tentar, tentar e tentar, até ver o que funciona”?
Vale colocar uma ressalva: claro que nada no mundo
existe “por si só” – por exemplo, por mais autômato que o ser humano seja,
conseguindo “atuar” sem precisar de mais nada, ele precisa comer, beber,
depende do clima etc. – portanto, quando pensamos em sistemas isolados, temos
que ter um certo grau de liberdade ao usar a palavra “isolado”.
O Punk é um
movimento cultural da década de 70, nascido na música, que prega políticas
revolucionárias através de desobediência civil, tratando de assuntos sociais
como a violência, guerra e o desemprego. A estética punk é agressiva e
chocante, portanto, somada com sua postura destrutiva e de “anti-idolização”,
gera uma certa repulsa nas mentes mais resistentes à mudança. E quem é mais
resistente à mudança do que o tal sistema? Quando os punks se referem ao “sistema”
(sempre de forma “pacífica” como na música “Fuck the System”), estão se
referindo ao status quo, aos dominantes, aos governos, às corporações que detém
o capital, o poder. O punk prega rebelião contra o sistema, denunciando as
injustiças e problemas cometidos por ele.


