Por: AVOL
Imagem: http://www.aboutalzheimerscare.com/
Perda de memória não é própria do envelhecimento. Problema precisa ser investigado.
À medida que a população envelhece, cresce a incidência de
demências, dentre elas, a Doença de Alzheimer. Um dos desafios lançados aos
profissionais de saúde é o de assegurar um diagnóstico preciso e formas de
tratamento visando à qualidade de vida desta população. Diante dessa realidade,
faz-se necessário realizar um diagnóstico precoce para que se obtenha maior
eficácia no tratamento, destaca a psicóloga Silviane Andrade, especialista em
Neuropsicologia.
A também Mestre em (Neuro)ciências pela Universidade Federal de
São Paulo/Escola Paulista de Medicina divide com a terapeuta ocupacional e
especialista em Neuropsicologia, Débora Câmara, a direção do Neuropsicocentro.
Esta clínica disponibiliza a avaliação neuropsicológica, exame feito por
neuropsicólogos e cujo objetivo principal é realizar o mapeamento cerebral
através do qual é possível verificar se possíveis alterações estão compatíveis
com a idade ou se já se configuram como um déficit.
Diante da dificuldade de chegar a um diagnóstico, descreva a
importância do tratamento precoce e das possibilidades de melhorar a qualidade
da vida do paciente. Ao falarmos em diagnóstico precoce, estamos nos reportando
a uma fase anterior à instalação da demência, que é o Comprometimento Cognitivo
Leve (CCL). O CCL é de difícil diagnóstico, uma vez que se confunde com o
envelhecimento normal, já que os déficits são ainda muito sutis e, como no
processo de envelhecimento, há um rebaixamento da memória (próprio da idade),
isso mascara os sintomas do CCL. Muitas pessoas pensam que, pelo fato de estarem
envelhecendo, é normal terem problemas de memória. Porém, isso não é verdadeiro,
pois pode haver uma diminuição de memória, mas até determinado limite. Além
desse limite, já se configura como patologia, devendo ser investigada e tratada.
Para tanto, a Neuropsicologia é uma ciência nova que vem contribuir sobremaneira
para esse diagnóstico.
O que é Neuropsicologia e suas áreas de atuação?
É uma área da
ciência relativamente recente que surgiu da confluência da neurologia com a
psicologia e que tem duas vertentes: a avaliação neuropsicológica e a
reabilitação neuropsicológica. Ela atua tanto no diagnóstico de doenças
neurológicas (demências, parkinson, AVC, epilepsia, TDAH, distúrbios de
aprendizagem, etc.) e psiquiátricas (depressão, transtorno bipolar, etc.) e no
tratamento das mesmas.
No que consiste uma avaliação neuropsicológica?
Trata-se de um
exame feito por psicólogos especializados em Neuropsicologia, por meio do qual é
feito um mapeamento cerebral, em que são avaliadas as funções cerebrais
superiores do paciente, como memória, atenção, raciocínio, linguagem, percepção,
ou seja, todas as funções responsáveis pela eficiência intelectual. O exame
possibilita quantificar as alterações dessas funções, assim como verificar se
essas alterações estão compatíveis com a idade ou se já se configuram como um
déficit. Para um bom funcionamento da memória, há um envolvimento de motivação,
atenção e intenção. No caso das pessoas que não possuem um humor positivo
(depressivas ou ansiosas) tendem a apresentar dificuldades de memória bastante
graves, não conseguindo organizar seu dia-a-dia de forma adequada. Por isso, a
avaliação neuropsicológica é importante, uma vez que possibilita um diagnóstico
diferencial entre problemas de memória decorrentes de depressão (quadro
extremamente comum no idoso), ou se são decorrentes de demência. Realizando o
diagnóstico e encontrando alteração de memória, mesmo que ainda sutil, existe a
reabilitação neuropsicológica, cujo objetivo é estimular a memória e as demais
funções cognitivas para que o déficit não evolua de forma intensa e rápida, e
assim, possa retardar a instalação da demência. A reabilitação também atua no
tratamento das pessoas que já foram diagnosticadas com demência.
Como é realizada a reabilitação neuropsicológica em pacientes
com Alzheimer?
É feita por uma equipe multi e interdisciplinar formada por
neuropsicólogos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos etc. A reabilitação
neuropsicológica consiste no atendimento psicoterápico, na estimulação
cognitiva, atendimento em grupo e no apoio aos familiares.
Qual a importância de cada um deles?
A psicoterapia se faz
necessária quando há comorbidades, ou seja, associação da demência com
depressão, pois além de trabalhar as perdas sofridas, ajuda no enfrentamento da
nova realidade na vida do paciente e familiares. A estimulação cognitiva
baseia-se no que as neurociências têm descoberto recentemente sobre a
neuroplasticidade, que é capacidade do cérebro de se regenerar mediante seu uso
e potenciação: no sentido de moldar o cérebro através da atividade. Daí
propõe-se atividades que estimulem não apenas a memória, como as demais funções
responsáveis pelo bom funcionamento intelectual. Pois o que acontece é que o ser
humano, após aposentar-se e, à medida que avança em idade, tende a diminuir seu
contexto profissional e social, fazendo com que não use e nem estimule mais seu
cérebro. Uma comparação grosseira que podemos fazer é quando utilizamos um
eletrodoméstico (ex: liquidificador), e passamos um ano sem usá-lo. Quando
formos ativá-lo novamente, ele não funcionará mais, pois estará enferrujado. É
como se acontecesse mais ou menos assim com o cérebro, quanto mais utilizamos o
cérebro no nosso trabalho, em leituras, atividades intelectuais, melhor ele
funciona, pois precisa de estímulos e, quando não recebe mais esses estímulos,
acaba por atrofiar.
E como é realizado o atendimento em grupo e sua importância no
contexto geral do tratamento?
É extremamente importante, pois como o idoso tem
seu contexto social reduzido, o atendimento em grupo possibilita uma
ressocialização, na qual o paciente pode criar novos laços de amizade, sair para
outros lugares. Costumamos levar os pacientes para visitar museus e exposições,
estimulando sua criatividade e atividade expressiva, como forma de tornar o
tratamento uma atividade prazerosa. Pois como diz uma de nossas pacientes que
tem Alzheimer, em fase moderada, ao chegar para o atendimento em grupo: ´eu não
sei o que vim fazer aqui, mas quando chego aqui, eu gosto tanto´. Resgatar esse
sentimento de alegria e de que, mesmo com demência, pode-se dar qualidade de
vida a esses pacientes é o nosso grande objetivo. Por fim, não há como tratar um
paciente de Alzheimer e não cuidar da família. Realizamos reuniões mensais com
os familiares de pacientes, momento no qual prestamos esclarecimentos sobre a
doença, assim como propiciamos um espaço de desabafo dos familiares-cuidadores
sobre as experiências vividas por essa doença, tão sofrida para todos.
De quais ferramentas o neuropsicólogo lança mão para realizar a
estimulação cognitiva e conseguir a ativação cerebral?
Numa sessão de grupo, por
exemplo, iniciamos com uma fase de relaxamento, cujo objetivo é esquecer
preocupações e ajudar a se concentrar nas tarefas que serão propostas. A seguir,
realizamos as atividades de estimulação e, por último, explicamos como e quais
as áreas que as atividades realizadas ativaram o cérebro. Portanto, a
estimulação cognitiva lança mão desde o fornecimento de informações de como o
cérebro funciona ao próprio paciente como, por exemplo, os fatores que
interferem na memória, como estresse, preocupação, desinteresse, falta de
motivação, entre outros, até a realização de atividades que promovam a
estimulação das várias esferas cognitivas. Para ajudar na orientação
têmporo-espacial, propomos estratégias compensatórias como agendas, cronogramas,
calendários. Para a memória, podemos solicitar que resgatem informações de
histórias contadas previamente, que falem sobre atividades realizadas no dia
anterior ou o que tem para fazer no dia seguinte (que estaria relacionada à
memória prospectiva). Para estimular linguagem, podemos dar algumas letras
aleatórias e solicitar que formem o máximo de palavras com essas letras. Para a
percepção, podemos pedir que o paciente procure um estímulo específico no meio
de vários outros. Enfim, esses são apenas alguns exemplos dentro de uma
infinidade de outras atividades que possibilitam a estimulação cerebral. Ao
longo do tratamento, também incluímos atividades artísticas/expressivas que
ajudam a estimular o hemisfério cerebral direito do paciente.
Qual a real necessidade de se manter o cérebro sempre em
atividade?
Manter o cérebro sempre ativo pode ajudar a retardar a instalação da
doença, pois como a demência é uma doença degenerativa e para a qual ainda não
há cura, é importante estar sempre realizando atividades intelectuais. Uma vez
que as conexões entre os neurônios estejam bem consolidadas, mais tempo levará
para elas se desfazerem, ou seja, mais tempo o cérebro ficará funcionante. Isso
é o que chamamos de reserva intelectual, na qual as pessoas que usarem mais o
cérebro terão mais proteção em relação aos sintomas demenciais. Para isso,
realizamos também um trabalho com idosos que ainda não apresentam problemas
demenciais, mas que já apresentam algumas queixas de memória. O objetivo
principal é ativar o cérebro, protegendo-o.
Qual a idade média desse grupo ou a partir de qual idade os que
possuem histórico familiar de Alzheimer ou demências devem observar mais
atentamente o comportamento do cérebro/memória?
A idade considerada crítica é a partir dos 65 anos, pois é
quando aumenta a incidência dos estados de demências em geral. Portanto, quem
perceber nessa faixa etária o surgimento de alterações de memória ou que tiveram
antecedentes de Doença Alzheimer na família, estão aptos e podem se beneficiar
do trabalho de estimulação cognitiva.O importante é investigar os níveis dessa
perda.
Fique por dentro
A doença pode manter-se invisível durante anos Forma mais comum
de demência, a Doença de Alzheimer foi descrita pela primeira vez em 1906 pelo
psiquiatra alemão Alois Alzheimer. Acomete geralmente pessoas acima de 65 anos,
embora seu diagnóstico seja possível também em pessoas de outras faixas etárias.
O número de portadores é crescente no mundo inteiro.
Embora existam pontos em comum, cada paciente sofre a doença de
forma única. A perda de memória é o sintoma primário mais freqüente. A
dificuldade maior em fechar o diagnóstico reside no fato de os primeiros
sintomas serem confundidos com problemas decorrentes da idade ou de
estresse.
Com o avançar da doença, aparecem novos sintomas: confusão,
irritabilidade e agressividade, alterações de humor, falhas na linguagem, perda
de memória a longo prazo e das funções motoras. A doença pode se desenvolver em
um período indeterminado de tempo.
Fonte de Consulta: http://www.assistiva.org.br
