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sábado, 20 de julho de 2013

O homem está evoluindo para conciliar a emoção e a razão.


     Em entrevista a VEJA, o neurocientista português António Damásio fala sobre como as emoções e sentimentos são essenciais ao influenciar a tomada de decisões e moldar a razão humana.
     O português António Damásio, 69 anos, é um dos maiores nomes da neurociência na atualidade. Radicado nos Estados Unidos desde a década de 70, e professor da University of Southern Califórnia, em Los Angeles, onde dirige o Instituto do Cérebro e da Criatividade, ele conduziu pesquisas que ajudaram a desvendar a base neurológica das emoções, demonstrando que elas têm um papel central no armazenamento de informações e no processo de tomada de decisões. Seus livros O Erro de Descartes (1994), O mistério da Consciência (1999), Em Busca de Espinosa (2003) e E o Cérebro Criou o Homem (2009), todos publicados no Brasil pela Cia. das Letras, tratam principalmente do papel das emoções e sentimentos na razão humana e quais são os processos que produzem o fenômeno da consciência. Em visita ao Brasil para participar da série de palestras Fronteiras do Pensamento, Damásio falou a VEJA.

     Na introdução de seu último livro, O Cérebro criou o Homem, o senhor diz que acabou se desapontando com algumas de suas abordagens ao longo do tempo e decidiu começar seu trabalho de novo. Quais foram as descobertas que o levaram a repensar sua pesquisa? Ao longo desses anos todos, o estudo sobre a estrutura do cérebro avançou muito e ajudou a entender melhor certas operações, como a memória e a consciência. Além disso, por meio das minhas pesquisas pude perceber a importância das emoções e dos sentimentos na construção do nosso raciocínio. Para ter o que chamamos de consciência básica é preciso ter sentimentos. Isto é, é preciso que o cérebro seja capaz de representar aquilo que se passa no corpo e fora dele de uma forma muito detalhada. É daí que nasce a rocha sobre a qual a mente forma sua base e se edifica.

     O que é a mente? Ela é uma sucessão de representações criadas através de sistemas visuais, auditivos, táteis e, muito frequentemente, das informações fornecidas pelo próprio corpo sobre o que está acontecendo com ele — quais músculos estão se contraindo, em que ritmo o coração está batendo e assim por diante. Em resumo: a mente é um filme sobre o que se passa no corpo e no mundo a sua volta.

   Qual a diferença entre emoção e sentimento? A emoção é um conjunto de todas as respostas motoras que o cérebro faz aparecer no corpo em resposta a algum evento. É um programa de movimentos como a aceleração ou desaceleração do batimento do coração, tensão ou relaxamento dos músculos e assim por diante. Existe um programa para o medo, um para a raiva, outro para a compaixão etc. Já o sentimento é a forma como a mente vai interpretar todo esse conjunto de movimentos. Ele é a experiência mental daquilo tudo. Alguns sentimentos não têm a ver com a emoção, mas sempre têm a ver os movimentos do corpo. Por exemplo, quando você sente fome, isso é uma interpretação da mente de que o nível de glicose no sangue está baixando e você precisa se alimentar.

    O senhor diz que as emoções desempenham um papel muito importante no desenvolvimento do raciocínio e na tomada de decisões. Que papel é esse? Há certas decisões que são evidentemente feitas pela própria emoção. Quando há uma situação de medo, ele aconselha um entre dois tipos de decisão: correr para longe do perigo ou permanecer quieto para não ser notado. Há também decisões muito mais complexas, como, por exemplo, aceitar ou não um convite para jantar. Nesse caso, a emoção tem um papel de primeiro conselheiro, um primeiro indicador do que se deve fazer.  Você pode querer ir, mas ao mesmo tempo há qualquer coisa no comportamento da pessoa que o faz desconfiar de que ela pode não ser sincera. E o que é isto? É uma reação emotiva, a emoção participando da sua decisão.

     Então é a emoção que nos fornece o que chamamos popularmente de instinto ou sexto sentido? Instinto é uma palavra que deve ser reservada para certas coisas muito fundamentais, como o instinto sexual ou de alimentação. Eu diria que a emoção fornece incentivos. As emoções, quer as positivas quer as negativas, podem ter uma enorme influência naquilo que nós pensamos. Mesmo as pessoas que se dizem muito racionais não podem separar as duas coisas. Por exemplo: imaginemos que um chefe esteja entrevistando uma pessoa para uma vaga. O currículo da pessoa é ótimo e as referências também, mas algo diz que ela não vai dar certo na empresa. Esse 'algo me diz' é a emoção falando. Algo no comportamento dessa pessoa evoca uma emoção negativa que leva o chefe a ficar com um pé atrás.

      O que pode causar essa desconfiança? O ser humano avalia uma outra pessoa principalmente pela voz e pela expressão facial dela. Assim, a forma como a pessoa olha para você pode parecer insolente; ou um jeito de mexer a boca faz parecer que ela não é sincera.

    Se toda a nossa percepção do mundo é afetada pela emoção, como podemos confiar nos nossos julgamentos? As emoções foram extremamente bem sucedidas, ao longo da evolução, em nos manter vivos. O medo fez com que nos expuséssemos menos ao perigo e tivéssemos mais chance de sobreviver. A alegria nos deu incentivo para fazer o que precisamos para prosperar: exercitar a mente, inventar soluções para problemas, comer, nos reproduzir. Emoções como a compaixão, a culpa e a vergonha são importantes porque orientam nosso comportamento moral. Se você fizer qualquer coisa que não está correta em relação a outra pessoa, vai se sentir envergonhado e terá um sentimento de culpa. Isso é muito importante porque vai ajudar a manter a sua conduta de acordo com a convivência em sociedade. Uma coisa que falta aos psicopatas é exatamente esse sentimento de culpa, de vergonha. Os sentimentos são, portanto, fundamentais para organizar a sociedade e foram fundamentais para a formação dos sistemas moral e judicial. Mas as emoções por si só têm limites. Para vivermos em sociedade no século XXI, precisamos muitas vezes ser capazes de criticar as nossas próprias emoções e dizer não a elas. E a única maneira de ultrapassar as emoções é o conhecimento: saber analisar as situações com grande pormenor, ser capaz de raciocinar sobre elas e decidir quando uma emoção não é vantajosa. Há um nível básico em que as emoções ajudam, e se você não tem esse nível você é um psicopata. Mas há um nível mais elevado em que as emoções têm de ser não as conselheiras, mas as aconselhadas.

      As emoções são condicionadas pela vivência em sociedade? As emoções são em grande parte inatas, mas nos primeiros anos de vida são condicionadas e sintonizadas com a sociedade. Alguns mamíferos têm emoções mais elevadas, como a compaixão, especialmente na relação entre mães e filhos. As mães de cães e lobos tratam seus filhotes com um carinho que é emocional e é totalmente inato, ninguém as ensinou. Há elefantes que quando perdem um companheiro ficam não só tristes como deixam de brincar e são capazes até de fazer uma espécie de luto. Claro que nada disso foi ensinado, é tudo inato. O que acontece com os seres humanos é que esses programas inatos têm sido, através de milhares de anos, refinados e melhorados por aspectos sócio-culturais. Hoje em dia, evidentemente, nossa estrutura moral não é inata. Ela tem sido condicionada pela história da nossa sociedade com elementos que têm a ver com a religião, a justiça e a economia, estruturas que são resultado da vida humana em sociedades complexas.

      Se as emoções podem moldar o raciocínio, o oposto pode acontecer? Isto é, o raciocínio pode alterar nossas emoções? Claro, e é aí que está a grande beleza e a grande complicação dos seres humanos. É aí que você vai encontrar todos os grandes dramas da história, aquilo que Sófocles ou Shakespeare captaram em suas peças. Os grandes dramas de reis e rainhas, príncipes e plebeus, é o constante conflito entre aquilo que são os conselhos da emoção e do instinto, por um lado, e a influência que vem do raciocínio, do conhecimento e da reflexão. Essa é a grande base da tragédia grega ou shakespeariana. Nós, na medida em que as sociedades evoluem, estamos caminhando para uma maior harmonia entre o lado emocional e instintivo e o lado racional e de reflexão. Essa harmonia ainda não se estabeleceu e não vai acontecer nem na minha geração nem na sua. É um trabalho por se concluir. Mas um dia, a convivência em sociedade, que exige que se ponha razão e emoção na balança o tempo inteiro, vai conseguir equilibrar os dois lados.

      E como ocorre esse condicionamento das emoções? É nos primeiros anos de vida que podemos inculcar valores e formas de raciocínio através da repetição de exemplos. Eles são o alicerce da construção da nossa moral. Do ponto de vista do cérebro isso é muito curioso porque é quase uma negociação entre suas partes. Há partes muito antigas em termos de evolução, como o tronco cerebral, e muito mais recentes, como o córtex cerebral. No córtex cerebral estão as grandes representações que constroem a mente: visão, audição, tato. Todas essas representações se constroem ali, e da ligação entre elas se dá o raciocínio. Mas o córtex cerebral precisa negociar com regiões do cérebro que estão no tronco cerebral e são as responsáveis pelos impulsos e as reações rápidas. É dessa negociação que surge o conceito de que algo é permitido ou não. Você repete, repete, repete até que as duas partes entrem em consenso.

    É possível recondicionar os sentimentos já na vida adulta? É possível, porém é muito mais difícil e nem sempre é um trabalho bem sucedido. Se você tem uma pessoa que começou a vida como um sociopata, é extraordinariamente difícil tornar essa pessoa um ser normal em relação a comportamento social. Isto porque seria necessário fazer todo o processo que se faz numa criança, mas o paciente já tem autonomia para não aceitá-lo.

      Como raciocinamos melhor? Felizes ou tristes? A felicidade está ligada a certas moléculas químicas e a tristeza a outras. Quando estamos felizes as imagens se sucedem com mais rapidez e se associam mais facilmente. Na tristeza as imagens passam muito mais devagar e ficam como que impressas ali por um tempo. O ponto ideal para a efetividade do raciocínio é a felicidade com uma ponta de tristeza — porque na euforia, o pensamento se embaralha.


terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Marcadores Somáticos



     De acordo com Antonio Damásio, o resultado de uma experiência condiciona as antecipações e decisões futuras, são os marcadores somáticos, através deles existe o registo emocional das decisões, ou seja, os efeitos da decisão provocam determinadas emoções que podem ser positivas ou negativas e que vão ser associadas à decisão que a originou. Desta forma, quando nos confrontamos com uma situação semelhante, a memória vai ajudar o cérebro associando a decisão ao respectivo estado emocional, que pode ser positivo ou negativo. Frente a isto somos direcionados a repetir decisões e experiências que motivaram os estados positivos e a evitar o que se associa aos estados negativos. Procura-se otimizar as decisões futuras em função do passado, regulando as escolhas para o que nos levou ao sucesso."

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O novo cérebro...


    Os avanços da neurociência estão permitindo descortinar um novo konzept não apenas sobre a estrutura, mas também sobre o funcionamento e o papel do cérebro em todo o corpo humano. Ele faz parte de um sistema integrado, holístico.
   Com os estudos já realizados a partir do Connectome[1], chegamos a um ponto de entendimento de que o cérebro, na realidade, é uma grande rede, e não uma parte estanque do corpo. Tampouco se limita a ser apenas aquele órgão que conhecemos dentro da caixa craniana. Por mais paradoxal que possa parecer, ao mesmo tempo em que deixa de ter o poder absoluto que lhe foi arbitrado em séculos de estudos, o cérebro ganha uma nova dimensão e se espalha por todo o corpo. 


    Acreditem, senhores, e, por favor, dispensem as camisas de força. Podemos afirmar que o cérebro não está apenas na cabeça. Ele se 'espraia' como rede formando a identidade do seu próprio corpo (self) e se estende extracorpo na formação de uma fisionomia cultural e social. Ele vai da ponta do dedão do pé até o teto da Capela Sistina ou da sonda Phoenix, pousada em Marte, passando por panturrilhas e braços. Ou seja: passe a cuidar bem dos seus cotovelos. Eles também pensam e sentem por você.
Antonio Damasio
Estudos recentes comprovam este novo conceito do cérebro. Uma das pesquisas mais emblemáticas foi conduzida pelo médico português António Damásio, um dos grandes nomes da neurociência e professor da University of Southern California. Ele forjou a invasão de uma casa com homens encapuzados, que assaltaram as pessoas. Nenhum dos presentes viu o rosto dos supostos ladrões. Depois ele criou uma situação para que um dos “assaltantes” passasse na rua ao lado de uma das pessoas que estavam na residência. Ela teve uma sensação horrorosa, algo que não estava na elaboração mental dela, mas, sim, em seu corpo. Automaticamente, ela vinculou aquele sujeito a seu lado a um episódio de estresse e angústia. Essa associação comprovada pela experiência feita por António Damásio apenas revelou a importância de um mecanismo fundamental para o entendimento desta nova concepção sobre o funcionamento do sistema nervoso e, mais especificamente, do cérebro: os marcadores somáticos. Segundo a tese de Damásio, os marcadores somáticos podem guiar o processo emocional, o comportamento, principalmente a tomada de decisões. São associações entre estímulos e um estado afetivo e fisiológico, capazes de interferir em nosso processo cognitivo.
    A tese de António Damásio apenas reforça a ideia de que o cérebro está em todas as partes, ou seja, há um sistema integrado que rege as reações nervosas e emocionais. Nosso corpo é cheio de marcadores somáticos, sensores que captam deslocamentos táteis, vozes, gestuais, enfim, qualquer fenômeno externo capaz de criar uma resposta interna. Essas sensações são enviadas para as diversas regiões do cérebro, que funciona como uma espécie de satélite e retransmite o sinal para o corpo. Portanto, dentro deste novo ângulo de compreensão, é absolutamente equivocado dizer que a emoção está no cérebro. Ela até está, mas não apenas lá. Distribui-se, isso sim, pelos marcadores somáticos, mecanismos como disparo do coração, mal-estar epigástrico, uma dor na virilha ou sensações de medo, fome, sede, desejo sexual. Por isso, podemos dizer: o cérebro mudou e não mais está circunscrito à caixa craniana. Não há qualquer exagero ou crime de lesa-ciência ao se afirmar que ele está no joelho, nas dobras do mindinho, no baço, no lóbulo da orelha, nos quadris, na virilha. O corpo está no cérebro, e o cérebro, por meio dos marcadores somáticos, está em todas as latitudes do corpo. Quando disse que o homem pinta com o cérebro e não com as mãos, Michelangelo atirou no que viu e acertou no que não viu. A partir desta nova concepção do sistema nervoso, cérebro e mãos funcionam como um só órgão.

O caso Gage


     Dois casos famosos na medicina neuropsiquiátrica ilustram bem a importância dos marcadores somáticos no funcionamento do cérebro. Um deles tem como protagonista Phineas Gage, que trabalhava na construção da estrada de ferro Rutland & Burlington, em Cavendish, no estado norte-americano de Vermont. No dia 13 de setembro de 1848, Gage foi vítima de uma explosão. No acidente, uma barra de ferro de um metro e meio atravessou seu rosto. Entrou pela face esquerda, esmagando seu olho, cruzou a parte frontal do cérebro e saiu pelo topo do crânio, no lado direito. Logo após, ele se levantou e andou e falou normalmente. Phineas Gage foi submetido a testes de memória, que apresentaram resultados normais. Tempos depois, no entanto, Gage, que era considerado um funcionário absolutamente exemplar, começou a ter um comportamento errático e irresponsável. Tomava decisões completamente equivocadas e tinha atitudes impróprias. O médico John Harlow, que o atendeu logo após o acidente, cunhou uma frase que se tornaria famosa no estudo da neurociência: “Gage não é mais Gage”.
    Simplesmente sua personalidade mudou depois do acidente. Dentro da rede de neurônios que compõem o cérebro ele não tinha mais empatia por nada. Ele não conseguia mais interpretar seus marcadores somáticos, que, por sua vez, perderam conectividade. Como diz António Damásio, a emoção norteia a nossa razão. Gage perdeu a razão porque teve subtraída a emoção.
    Outro exemplo emblemático do funcionamento dos marcadores somáticos vem de uma experiência feita por um grande neurologista e filósofo chamado Miller Fisher. Ele selecionou um grupo de pessoas com catarata congênita. Em sua maioria, eram filhos de mães sifilíticas e tinham zero de visão. Todos foram operados e, aos 20 e poucos anos, passaram a enxergar. Ou seja: o módulo receptivo da visão foi acionado. Miller, então, começou a mostrar objetos a essas pessoas. Todos olhavam e ninguém sabia dizer o que era. Depois, todos puderam pegar o material em questão nas mãos. Miller, então, exibiu mais uma vez o objeto e, ao vê-lo, todos passaram a identificá-lo. A conclusão dessa experiência é que, na teoria do conhecimento, o toque é o mais importante, acima da própria visão. Esse estudo deu origem à pirâmide do conhecimento: - Palestras nos permitem reter 5% de conhecimento; - a leitura, 10%; - o audiovisual, 20%; - a demonstração empírica, 30%; - grupos de discussão, 50%; - a prática, 75%; e - ensinar os outros, 80%. Ou seja: o ensinamento, como eufemismo para o toque, é fundamental.



Fonte: Recorte do artigo "A Parte e o Todo: O Novo Cérebro e seu contexto histórico" que se encontra no blog Neuroscience



[1] Um projeto sem precedentes na história da neurociência e praticamente ainda desconhecido no Brasil. Guardadas as devidas proporções, trata-se de uma espécie de “Genoma do cérebro”. O próprio Projeto Genoma chegou a contemplar estudos sobre as conexões cerebrais, trazendo  avanços importantes para a hodologia, a ciência das conexões. No entanto, o Connectome é a promessa de um salto triplo no conhecimento neurocientífico. É como se, finalmente, o manual de instruções do mais intrincado equipamento do corpo humano começasse a ser traduzido. O projeto prevê o mais completo mapeamento jamais feito pela medicina de todos os sistemas cerebrais, desde o nível das transações moleculares na conexão até os níveis celulares, sistêmicos, comportamentais, sociais e culturais. Ao longo de séculos, após muitos ziguezagues, posto que a ciência não foi feita para caminhar em linha reta, a medicina conseguiu desvendar a macroestrutura do cérebro. Agora, estamos dando um mergulho de Jacques Costeau nas profundezas do órgão. Chegou a hora de conhecermos, no detalhe do detalhe, a microestrutura cerebral.