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domingo, 10 de fevereiro de 2013

O iceberg cerebral




Uma metáfora sedutora nos ensinamentos da psicanálise é a comparação da consciência com o topo de um iceberg. A maior parte do iceberg está oculta abaixo da superfície da água, embora somente o topo (cerca de um décimo do volume total) seja visível. No entanto, são as correntes subterrâneas que movem o bloco de gelo, da mesma forma que nossas motivações inconscientes impelem nosso comportamento. Essa visão cativante é endossada pela neurociência cognitiva atual – boa parte de tudo que passa em nossa mente está oculto de nossa consciência.
O neurocientista cognitivo V. S. Ramachandran (2002, p.198) afirma que: “ a mais valiosa contribuição de Freud foi a descoberta que a mente consciente é simplesmente uma fachada e de que você é completamente inconsciente de 90%  do que realmente se passa em seu cérebro”.
A metáfora é precisa, mas o entendimento das razões que levam a este fenômeno por meio da ótica das neurociências difere da tradicional teoria psicanalítica, que oferece tanto descrições de fenômenos amplos do comportamento humano como explicações teóricas...
Através do avanço das técnicas de neuroimagem, talvez muitas teorias se confirmarão, talvez muitas serão desmistificadas...

CALLEGARO, Marco. O novo Inconsciente. Artmed

Se quiser saber mais sobre o a visão neurocientífica de Ramachandran assista o vídeo abaixo:



domingo, 20 de janeiro de 2013

Sonhos, Freud e Neurociências

Imagem: Ciência Hoje

 Numa época em que a fisiologia do sono e sonhos era desconhecida, Freud utilizando-se da interpretação psicanalítica teorizou  que os sonhos refletiam a experiência inconsciente e era um guardião do sono. Para ele, os desejos reprimidos são, particularmente, aqueles associados ao sexo e à hostilidade, os quais eram liberados nos sonhos quando a consciência era diminuída.
Fraga (2010) cita que um dos maiores responsáveis no Brasil por pesquisas nessa área é o neurocientista Sidarta Ribeiro[1]. Ele e outros pesquisadores desenvolvem estudos que seguem uma linha da neurociência cujas conclusões contrariam as convicções de muitos cientistas: Freud estava certo, afinal!
Imagem: Istoé

Ele dizia, por exemplo, que sonhos representam a satisfação de desejos. “Na linguagem da neurociência, isso significaria que sonhos concatenam fragmentos de memórias de forma a simular expectativas futuras de recompensa e punição mediadas por dopamina”, explica Ribeiro. “Tudo indica que o sonho tem a função de simular comportamentos – tanto os que levam a recompensa (os bons) como os que levam a punição (os pesadelos). Portanto, sua função seria evitar ações que resultem em punição e procurar aquelas que levam à satisfação do desejo.” “Hoje sabemos que a reverberação das memórias, que Freud chamava de ‘restos’ do dia, acontece durante o sono profundo. Durante o sono REM, quando os sonhos acontecem, são ativados os genes que promovem a fixação das memórias”, diz Sidarta. Somente agora, no entanto, com os progressos da neurociência, compreende-se muito mais seu papel real na vida cotidiana – a prática e a emocional.
Imagem: Istoé

Para entender como isso acontece, percebe-se por meio de eletroencefalogramas que durante o sono a atividade cerebral não se mantém constante. Ondas cerebrais lentas são sucedidas por curtos períodos de ondas mais aceleradas, acompanhadas por rápidos movimentos involuntários dos olhos. É o chamado sono REM (do inglês “movimento rápido dos olhos”). Constatou-se, posteriormente, que, durante esse período mais agitado, o fluxo sanguíneo cerebral se intensifica e uma série de imagens toma conta do cérebro. É o nascimento dos sonhos. A fixação de memórias acontece quando as memórias de curta duração, armazenadas no hipocampo, são transpostas para o córtex cerebral, região mais exterior, onde são armazenadas as memórias de longa duração.
Imagem: Istoé

Cheniaux(2006) traz um recorte interessante sobre os sonhos,
Segundo Francis Crick - ganhador do prêmio Nobel por suas pesquisas sobre o DNA - e Graeme Mitchison36, sonhamos não com as memórias que estão sendo consolidadas, mas com aquelas que estão sendo apagadas. Para eles, o sono REM é necessário para a eliminação de informações erradas ou inúteis armazenadas no cérebro. O sonho seria um reflexo de um processo de aprendizagem reversa, no qual determinadas sinapses são enfraquecidas. Embora esta formulação não tenha recebido muito apoio nos meios acadêmicos, ela é frequentemente citada e parece ser coerente com o fato de os sonhos retratarem eventos bizarros ou irreais, os quais precisariam ser eliminados da memória.
Nesse sentido, o neurologista Flávio Alóe diz que "O sonho serve para depurar a emoção negativa recente. É como se você limpasse o seu HD para sofrer menos durante o dia. Já os pesadelos são sonhos que provocam sensação de impotência diante de ameaças de sobrevivência, segurança pessoal ou autoestima. Com sequências temporais semelhantes à realidade, eles se confundem com esta, tornam-se perturbadores e terminam com o despertar consciente e com emoções negativas como ansiedade, medo, raiva, vergonha e nojo, que permanecem na memória. Também podem ser acompanhados de taquicardia, respiração ofegante, sudorese ou ereção". Porém, noites cortadas por pesadelos prejudicam o sono REM, essencial para regular funções como criatividade e memória.

Segundo a revista  QUANTA as descobertas sobre o sono também arremetem a algumas situações que ocorrem na escola...

"Sonho e escola"

Na educação, as descobertas sobre sono, sonho e aprendizado têm implicações importantes. “O sono deve ser visto como algo relevante para os alunos, e não como um mero problema de disciplina”,  diz Fernando Louzada, neurocientista da Universidade Federal do Paraná. Ou seja, quando um aluno dormir na aula, o professor deve lembrar que isso não é necessariamente falta de interesse.

Um dos problemas é que as aulas começam muito cedo e não respeitam o ritmo biológico dos jovens. Embora entre os cientistas isso seja um consenso, o horário das aulas nas escolas não mudou. A principal dificuldade é reorganizar o horário de forma que seja bom para todo mundo: escolas, alunos e professores. “Mas poderia começar pelo menos um pouco mais tarde, pois o horário das 7h afeta até os pequenos. Os mais prejudicados, porém, são os alunos que têm dificuldades”, alerta Fernando.

Além disso, é importante perceber que o bom sono não serve só para manter os alunos atentos no dia seguinte durante as aulas, mas também para consolidar o que se aprendeu na aula do dia anterior. “A falta de sono na noite anterior pode fazer com que o aluno não aprenda direito. Se ele dormir mal no dia seguinte, porém, ele vai aprender, mas seu aprendizado será menos flexível”, explica Paula Tiba. “Em laboratório, observamos que ratos aprendem a se localizar em um labirinto, mas dormem mal no dia seguinte, fazem sempre o mesmo caminho. Se você bloquear esse caminho, ele tem dificuldade em achar uma alternativa.” Dormindo bem e sonhando, o cérebro reativa redes neurais ativadas durante o dia e transforma memórias de curto prazo em longo prazo, que poderão ser utilizadas depois, aproveitando ao máximo as informações.

Quando o sono é irresistível, uma alternativa para muitos alunos pode ser a sesta. “Uma dormida rápida tem um papel reparador e diminui a sonolência”, diz Fernando. Além disso, é importante reconhecer as mudanças no sono nas diferentes fases na vida. Assim como o idoso adianta o sono, o adolescente atrasa. “Uma possível explicação do ponto de vista biológico é que o adolescente fica acordado até mais tarde porque está entrando na fase reprodutiva”, diz Fernando Louzada.

A falta de sono também pode estar por trás de problemas de aprendizagem “Alguns alunos que parecem ter dificuldade para acompanhar a aula podem na verdade estar com algum distúrbio do sono, como a apneia, que diminui o fluxo de oxigênio e atrapalha o aprendizado”, diz Camila Cruz Rodrigues, neuropsicóloga do Mackenzie.

Fonte:
COSTA, Raquel. JULIÃO, André. Por que os sonhos nos ajudam a viver melhor. Revista Istoé. Disponível online em: http://www.istoe.com.br/reportagens/99517_POR+QUE+OS+SONHOS+NOS+AJUDAM+A+VIVER+MELHOR
CHENIAUX, Elie. Os sonhos: integrando as visões psicanalítica e neurocientífica. Scielo, 2006. Disponível online em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-81082006000200009
FRAGA, Isabela. Um neurocientista enrustido. Ciência Hoje, 2010. Disponível online em: <http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-27/anais-da-neurociencia/sonhos-de-natal>




[1] Chefe de laboratório do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS), vinculado à Universidade Federal do Rio Grande do Norte.