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| Imagem: Ciência Hoje |
Numa época em que a fisiologia do sono e sonhos era
desconhecida, Freud utilizando-se da interpretação psicanalítica teorizou que os sonhos refletiam a experiência
inconsciente e era um guardião do sono. Para ele, os desejos reprimidos são,
particularmente, aqueles associados ao sexo e à hostilidade, os quais eram
liberados nos sonhos quando a consciência era diminuída.
Fraga (2010) cita que um dos maiores responsáveis no
Brasil por pesquisas nessa área é o neurocientista Sidarta Ribeiro. Ele e outros
pesquisadores desenvolvem estudos que seguem uma linha da neurociência cujas
conclusões contrariam as convicções de muitos cientistas: Freud estava certo, afinal!
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| Imagem: Istoé |
Ele dizia, por exemplo, que sonhos representam a
satisfação de desejos. “Na linguagem da neurociência, isso significaria que
sonhos concatenam fragmentos de memórias de forma a simular expectativas
futuras de recompensa e punição mediadas por dopamina”, explica Ribeiro.
“Tudo
indica que o sonho tem a função de simular comportamentos – tanto os que levam
a recompensa (os bons) como os que levam a punição (os pesadelos). Portanto,
sua função seria evitar ações que resultem em punição e procurar aquelas que
levam à satisfação do desejo.” “Hoje sabemos que a reverberação das
memórias, que Freud chamava de ‘restos’ do dia, acontece durante o sono
profundo. Durante o sono REM, quando os sonhos acontecem, são ativados os genes
que promovem a fixação das memórias”, diz Sidarta. Somente
agora, no entanto, com os progressos da neurociência, compreende-se muito mais
seu papel real na vida cotidiana – a prática e a emocional.
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| Imagem: Istoé |
Para entender como isso acontece, percebe-se por meio de
eletroencefalogramas que durante o sono a atividade cerebral não se mantém
constante. Ondas cerebrais lentas são sucedidas por curtos períodos de ondas
mais aceleradas, acompanhadas por rápidos movimentos involuntários dos olhos. É
o chamado sono REM (do inglês “movimento rápido dos olhos”). Constatou-se,
posteriormente, que, durante esse período mais agitado, o fluxo sanguíneo
cerebral se intensifica e uma série de imagens toma conta do cérebro. É o
nascimento dos sonhos. A fixação de memórias acontece quando as memórias de
curta duração, armazenadas no hipocampo, são transpostas para o córtex
cerebral, região mais exterior, onde são armazenadas as memórias de longa
duração.
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| Imagem: Istoé |
Cheniaux(2006) traz um recorte interessante sobre os
sonhos,
Segundo
Francis Crick - ganhador do prêmio Nobel por suas pesquisas sobre o DNA - e
Graeme Mitchison36, sonhamos não com as memórias que estão sendo consolidadas,
mas com aquelas que estão sendo apagadas. Para eles, o sono REM é necessário
para a eliminação de informações erradas ou inúteis armazenadas no cérebro. O
sonho seria um reflexo de um processo de aprendizagem reversa, no qual
determinadas sinapses são enfraquecidas. Embora esta formulação não tenha
recebido muito apoio nos meios acadêmicos, ela é frequentemente citada e parece
ser coerente com o fato de os sonhos retratarem eventos bizarros ou irreais, os
quais precisariam ser eliminados da memória.
Nesse sentido, o neurologista Flávio Alóe diz que "O
sonho serve para depurar a emoção negativa recente. É como se você limpasse o
seu HD para sofrer menos durante o dia. Já os pesadelos são sonhos que provocam
sensação de impotência diante de ameaças de sobrevivência, segurança pessoal ou
autoestima. Com sequências temporais semelhantes à realidade, eles se
confundem com esta, tornam-se perturbadores e terminam com o despertar
consciente e com emoções negativas como ansiedade, medo, raiva, vergonha e
nojo, que permanecem na memória. Também podem ser acompanhados de taquicardia,
respiração ofegante, sudorese ou ereção". Porém, noites cortadas por
pesadelos prejudicam o sono REM, essencial para regular funções como
criatividade e memória.
Segundo a revista QUANTA as descobertas sobre o
sono também arremetem a algumas situações que ocorrem na escola...
"Sonho
e escola"
Na educação, as descobertas sobre sono, sonho e
aprendizado têm implicações importantes. “O sono deve ser visto como algo
relevante para os alunos, e não como um mero problema de disciplina”, diz Fernando Louzada, neurocientista da
Universidade Federal do Paraná. Ou seja, quando
um aluno dormir na aula, o professor deve lembrar que isso não é
necessariamente falta de interesse.
Um dos problemas é que as aulas começam muito cedo e não
respeitam o ritmo biológico dos jovens. Embora entre os cientistas isso seja um
consenso, o horário das aulas nas escolas não mudou. A principal dificuldade é
reorganizar o horário de forma que seja bom para todo mundo: escolas, alunos e
professores. “Mas poderia começar pelo menos um pouco mais tarde, pois o horário
das 7h afeta até os pequenos. Os mais prejudicados, porém, são os alunos que
têm dificuldades”, alerta Fernando.
Além disso, é importante perceber que o bom sono não
serve só para manter os alunos atentos no dia seguinte durante as aulas, mas
também para consolidar o que se aprendeu na aula do dia anterior. “A falta de
sono na noite anterior pode fazer com que o aluno não aprenda direito. Se ele
dormir mal no dia seguinte, porém, ele vai aprender, mas seu aprendizado será
menos flexível”, explica Paula Tiba. “Em laboratório, observamos que ratos
aprendem a se localizar em um labirinto, mas dormem mal no dia seguinte, fazem
sempre o mesmo caminho. Se você bloquear esse caminho, ele tem dificuldade em
achar uma alternativa.” Dormindo bem e
sonhando, o cérebro reativa redes neurais ativadas durante o dia e transforma
memórias de curto prazo em longo prazo, que poderão ser utilizadas depois,
aproveitando ao máximo as informações.
Quando o sono é irresistível, uma alternativa para muitos
alunos pode ser a sesta. “Uma dormida rápida tem um papel reparador e diminui a
sonolência”, diz Fernando. Além disso, é importante reconhecer as mudanças no
sono nas diferentes fases na vida. Assim como o idoso adianta o sono, o
adolescente atrasa. “Uma possível explicação do ponto de vista biológico é que
o adolescente fica acordado até mais tarde porque está entrando na fase
reprodutiva”, diz Fernando Louzada.
A falta de sono também pode estar por trás de problemas
de aprendizagem “Alguns alunos que parecem ter dificuldade para acompanhar a
aula podem na verdade estar com algum distúrbio do sono, como a apneia, que
diminui o fluxo de oxigênio e atrapalha o aprendizado”, diz Camila Cruz
Rodrigues, neuropsicóloga do Mackenzie.
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