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quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Como pode a neurociência ajudar o professor?

     
     A apresentação de Jaderson da Costa, diretor do Instituto do Cérebro e professor titular de Neurologia da Faculdade de Medicina da PUCRS, no 12º Congresso do Ensino Privado Gaúcho divulgou aos participantes os resultados de estudos e pesquisas científicas que podem levar a resultados mais positivos na missão de ensinar. De acordo com Costa, o cérebro "aprende" mais e melhor quando é estimulado por afeto, emoção e recompensa.

     Ele explicou que os avanços neurocientíficos na última década, alicerçados nas novas tecnologias, possibilitaram o maior conhecimento do cérebro humano e embasaram o desenvolvimento da NEUROEDUCAÇÃO, que estabelece a PONTE ENTRE A NEUROCIÊNCIA COGNITIVA E A EDUCAÇÃO. "E uma das máximas que a ciência já comprovou é que não dá para separar razão e emoção. Os bons sentimentos facilitam o aprendizado", informou à plateia de professores e educadores. Com isso, segundo o médico, uma sala de aula em que os bons aspectos afetivos são desenvolvidos rende mais.

     Costa elencou atividades fundamentais para que, tecnicamente, o cérebro evolua:
-  a experiência constrói os caminhos neurais utilizados para aprender e executar tarefas;
- a repetição é necessária para melhorar estes caminhos;
- fazer associações e imitações também é importante com o intuito de memorizar.

     "Além disso, O ELOGIO SEMPRE ATINGE OS CENTROS DE RECOMPENSA DO CÉREBRO E IMPULSIONA SUAS ATIVIDADES", destacou. O conferencista acredita que estas constatações científicas contribuem para que os educadores entendam o funcionamento do aprendizado e possam lidar cada vez melhor com as necessidades dos alunos.  


Fonte: SINEPE- RS

terça-feira, 30 de julho de 2013

Neurociência na Educação

By   A. B. Bartoszeck[i]

          A neurociência é uma disciplina recente agrupando neurologia, psicologia e biologia. Nos últimos anos muitos aspectos da fisiologia, bioquímica, farmacologia e estrutura do sistema nervoso de invertebrados e o cérebro de vertebrados foram elucidados. Estudos fundamentais sobre a função da percepção, emoções, aprendizagem & memória mostraram significativo progresso, especialmente adotando abordagens da neurociência cognitiva.
         Aprendizagem e educação podem ser estudadas como um novo campo das ciências naturais, variando de ambiente fetal até a idade adulta avançada. A alfabetização em neurociência reveste-se de importância para o cotidiano, ajudando a população a ter melhor entendimento de si e dos avanços científicos, evitando especulações e a crença em neuromitologias. São esquematizadas implicações educacionais a partir dos princípios de neurociência.

Introdução

             A neurociência é uma das áreas do conhecimento biológico que utiliza os achados de subáreas que a compõe, por exemplo, a neurofisiologia, a neurofarmacologia, o eixo psiconeuro-endoimuno, a psicologia evolucionária, o neuroimageamento, a fim de esclarecer como funciona o sistema nervoso (Purpura, 1992; Purves et al., 1997; Kandel et al., 2000; Lent, 2001).
       O desenvolvimento de técnicas modernas para o estudo da atividade cerebral em crianças, adolescentes e adultos, durante a realização de tarefas cognitivas, tem permitido uma investigação mais precisa dos circuitos neuronais durante seu funcionamento, que geram as capacidades intelectuais humanas, como linguagem, criatividade, raciocínio (Rocha & Rocha, 2000).
          Os circuitos neuronais são responsáveis pelas funções básicas do nosso sistema nervoso bem como de outros animais. No caso humano determinam como nos comportamos como indivíduos. Nossas emoções vivenciadas como medo, raiva e as situações prazerosas da vida originam-se da atividade dos circuitos neuronais no cérebro (Johnston, 1999; LeDoux, 2002).
         Nossa habilidade de pensar e armazenar lembranças depende de atividades físico-químicas complexas que ocorrem nos circuitos neuronais (Dudai, 1989; Rose, 1992; Schacter, 1996; Fields, 2005). Os circuitos neuronais existentes no cérebro e medula espinhal programam todos nossos movimentos, desde colocar fio no buraco da agulha até chutar uma bola na partida de futebol. Este entrelaçado de processos neuronais também controla inúmeras funções no organismo humano. Por exemplo, a manutenção da temperatura corporal, a pressão sanguínea são controlados automaticamente, fazendo com que nosso corpo fique em atividade, sem que tomemos conhecimento do que os circuitos neuronais estão fazendo.
       São funções autônomas orquestradas pelos circuitos neuronais, e ocorrem de forma não consciente (Rocha, 1999; Beatty, 2001). A biologia elementar mostra claramente que qualquer animal é o produto de complexa interação entre sua genética e os fatores ambientais (Werner, 1997). Nos primórdios da história dos seres vivos elementares, a evolução aquinhoava vantagens competitivas aos animais cujo sistema nervoso pudesse fazer projeções antecipadas, de acontecimentos baseadas em correlações do passado. O cérebro que aprende confere vantagens adaptativas ao seu possuidor na procura de alimentos, parceiros sexuais, localização de abrigos e evitar perigos, garantindo maior longevidade (Churchland & Churchland, 2002; Churchland, 2004).

Alfabetização em Neurociência.

        Baseada no conceito amplo de alfabetização científica (Lacerda, 1997; FreireMaia; Bizzo, 1998) a alfabetização em neurociência pode ser definida como o entendimento dos processos e conceitos para a compreensão de tópicos relativos às doenças do cérebro e distúrbios do comportamento. Também se ocupa dos mecanismos saudáveis de sua função cerebral regular (Livingstone, 1973; Nyslinski, 2001; Herculamo-Houzel, 2002) 
          Os frutos da alfabetização científica para a sociedade em geral e o indivíduo em particular incluem:
1- uso do conhecimento em neurociência para a concepção de ambientes para a participação social de indivíduos portadores de características específicas de processamento pelo sistema nervoso;
2- tomada de decisões esclarecidas em caráter pessoal ou familiar em relação à saúde, como suporte para o bom funcionamento do sistema nervoso na faixa etária de criança a adulto;
3- aplicação do conhecimento neurocientífico para o bom desenvolvimento e funcionamento do cérebro de recém-nascidos, crianças, adolescente e adultos;
4- o entendimento e o desenvolvimento de postura crítica frente a pesquisa e material neurocientífico veiculado pela mídia (adaptado de Zardetto-Smith et al., 2002).

Crianças & Neurociência.

       As crianças por natureza têm espírito inquisidor e inquieto. Logo aprendem (e mesmo no final da vida uterina) a coletar informação do mundo interno & externo, por meio de receptores e dos órgãos sensoriais. Estes lhes trazem as sensações primárias que logo se tornam percepções gustativas, olfativas, auditivas, visuais e táteis. À medida que amadurecem aperfeiçoam a interpretação de seu ambiente e melhoram a tomada de decisões, baseadas nestas informações (Eliot, 1999).
     Na população em geral, e em alguns casos crianças em idade escolar, podem estar afetados por patologias neurológicas ou distúrbios afetivos. Não é incomum membros da família mais idosos como tios, avôs, devido a longevidade atual maior, estarem acometidos por doenças como Alzheimer e Parkinson.
       Mesmo na sala de aula as crianças convivem com colegas com dificuldades de aprendizagem (déficit de atenção, hiperatividade, dislexia, Bossa, 2000; Cameron & Chudler, 2003). Por outro lado, há evidência, com aumento substancial no ensino médio, documentada do uso de álcool, cigarro e maconha precocemente já na escola primária (ensino fundamental), com aumento significativo no ensino médio (Wilson et al., 2002).
    Diferentemente do que ocorre nos países desenvolvidos, curiosamente a população adulta brasileira mostra um interesse diminuído por tópicos relativos a doenças do sistema nervoso, consumo abusivo de drogas e atividade motora. A preferência recai em aspectos de memória, consciência, emoção e desenvolvimento do sistema nervoso (Herculano-Houzel, 2003). Observa-se que crianças estão mais interessadas no funcionamento normal do cérebro, do que no cérebro doente, indicando portanto, que políticas educacionais devem ser implementadas neste sentido. Os currículos devem incentivar a alfabetização científica (Zardetto-Smith et al., 2000).

Aprendizagem e Educação


       O aprender e o lembrar do estudante ocorre no seu cérebro. Conhecer como o cérebro funciona não é a mesma coisa do que saber qual é a melhor maneira de ajudar os alunos a aprender. A aprendizagem e a educação estão intimamente ligados ao desenvolvimento do cérebro, o qual é moldável aos estímulos do ambiente (Fischer & Rose, 1998). Os estímulos do ambiente levam os neurônios a formar novas sinapses. Assim, a aprendizagem é o processo pelo qual o cérebro reage aos estímulos do ambiente, ativando sinapses, tornado-as mais  “intensas”. Como conseqüência estas constituem-se em circuitos que processam as informações, com capacidade de armazenamento molecular ( Shepherd, 1994; Mussak, 1999; Koizumi, 2004).
      O estudo da aprendizagem une a educação com a neurociência (Livingstone, 1973; Saavedra, 2002; Mari, 2002, Flores, 2003). A neurociência investiga o processo de como o cérebro aprende e lembra, desde o nível molecular e celular até as áreas corticais. A formação de padrões de atividade neural considera-se que correspondam a determinados “estados & representações mentais” (Kelso, 1995; Shepherd, 1998). O ensino bem sucedido provocando alteração na taxa de conexão sináptica, afeta a função cerebral. Por certo, isto também depende da natureza do currículo, da capacidade do professor, do método de ensino, do contexto da sala de aula e da família e comunidade.
    Todos estes fatores interagem com as características do cérebro dos indivíduos (Lowery, 1998; Westwater & Wolfe, 2000; Ramos, 2002). A alimentação afeta o cérebro da criança em idade escolar. Se a dieta é de baixa qualidade, o aluno não responde adequadamente à excelência do ensino fornecido (Given, 1998).

Neurociência cognitiva & Educação.

       A neurociência cognitiva (Gazzaniga et al., 2002) utiliza vários métodos de investigação (por ex. tempo de reação, eletroencefalograma, lesões em estruturas neurais em animais de laboratório, neuroimageamento) a fim de estabelecer relações cérebro & cognição em áreas relevantes para a educação. Está abordagem permitirá o diagnóstico precoce de transtornos de aprendizagem. Este fato exigirá métodos de educação especial, ao mesmo tempo a identificação de estilos individuais de aprendizagem e a descoberta da melhor maneira de introduzir informação nova no contexto escolar (Byrnes & Fox, 1998). Investigações focalizadas no cérebro averiguando aspectos de atenção, memória, linguagem, leitura, matemática, sono e emoção & cognição, estão trazendo valiosas contribuições para a educação (Berninger & Corina, 1998; Stanovich, 1998; Brown & Bjorklund, 1998; Geake & Cooper, 2003; Geake, 2004).
   Pesquisadores em educação têm uma postura otimista de que as descobertas em neurociências contribuam para a teoria e práticas educacionais. Destarte, uma avalanche de artigos leigos em jornais diários e revistas de divulgação e mesmo periódicos científicos, têm exagerando os benefícios desta contribuição, variando daqueles totalmente especulativos àqueles incompreensíveis e esotéricos (Bruer, 1997; 1998; 1999). Exemplos incluem empreendimentos para desenvolver currículo sob medida, para atender fraqueza/excelência daqueles alunos que usam preferencialmente um dos hemisférios. Este “neuromito” é uma informação infundada do que a neurociência pode oferecer à educação (Williams, 1996; Springer & Deutsch, 1998; OCDE, 2003).
    Alternativamente à proposta de John Bruer (1997; 2002) o qual argumenta que a neurociência possivelmente nunca contribuirá para a educação devido a desarticulação de conhecimentos entre as duas áreas, contrapõe-se a postura de Connell (2004). O pesquisador da Universidade Harvard argumenta que, introduzindo o “nível de análise” com agregação da neurociência computacional, elimina as fronteiras específicas. Assim, a neurociência, psicologia & ciências cognitivas somadas à educação, trazem novo enquadramento e integração destas áreas do conhecimento (Anderson, 1992: McKnight & Walberg, 1998)

Neurociência e prática educativa.

     A pesquisa em neurociência por si só não introduz novas estratégias educacionais. Contudo fornece razões importantes e concretas, não especulativas, porque certas abordagens e estratégias educativas são mais eficientes que outras (Reynolds, 2000; Smilkstein, 2003). A tabela 1 sugere como o cérebro aprende em determinado ambiente de sala de aula.
    Tabela 1. Princípios da neurociência com potencial aplicação no ambiente de sala de aula.


Conclusão

      A neurociência oferece um grande potencial para nortear a pesquisa educacional e futura aplicação em sala de aula. Pouco se publicou para análise retrospectiva. Contudo, faz-se necessário construir pontes entre a neurociência e a prática educacional. Há forte indicação de que a neurociência cognitiva está bem colocada para fazer esta ligação de saberes.
     Políticas educacionais devem ser planejadas através da alfabetização em neurociência, como forma de envolver o público em geral além dos educadores. É preciso aprofundar o estudo de ambientes educativos não tradicionais, que privilegiem oportunidades para que os alunos desenvolvam entendimento, e que possam  construir significado à partir de aplicações no  mundo real.

Referências

Anderson, O. R. (1992). Some interrelations between constructivist models of learning and current neurobiological theory, with implications for science education. Journal of Research in Science Teaching, 29(10):1037- 1058.
Beatty, J. (2001). The human brain: essentials of behavioral neuroscience. Thousand Oaks, CA: Sage Publications.
Berninger, V. W., Corina, D. (1998). Making cognitive neuroscience educationally relevant: creating bidirectional collaborations between educational psychology and cognitiveneuroscience. Educational Psychology Review, 10(3):343-354.
Bizzo, N. (1998). Ciências: fácil ou difícil. São Paulo, SP: Editora Ática.
Bossa, N. A. (2000). Dificuldades de aprendizagem: o que são? Como tratá-las. Porto Alegre, RS: Artmed Editora.
Bransford, J. D., Brow, A. L., Cocking, R. R. (2000). How people learn: brain, mind, experience, and school. Washington, D.C.: National Academy Press.
Brown, R. D., Bjorklund, D. F. (1998). The biologizing of cognition, development and education: approach with cautious enthusiasm. Educational psychology Review, 10(3):355-373.
Bruer, J. T. (1997). Education and the brain: a bridge too far. Educational Researcher,  26(8):4-16.
Bruer, J. T. (1998). Brain science, brain  fiction. Educational Leadership, 56(3):14-18.
Ramos, C. (2002). O despertar do gênio: aprendendo com o cérebro inteiro. Rio de Janeiro, RJ: Qualitymark Editora.
Reynolds, S. (2000). Learning is a verb: the psychology of teaching and learning. Scottsdale, AZ: Holcomb Hathaway Publishers.
Rocha, A. F. (1999). O cérebro: um breve relato de sua função. Jundiaí, SP: EINA.
Rocha, A. F., Rocha, M. T. (2000). O cérebro na Escola. Jundiaí, SP: EINA.
Rose, S. (1992). The making of memory: from molecules to mind. New York, NY: Anchor Books.Rushton, S. P., Eitelgeorge, J.,
Zickafoose, R. (2003). Connecting Brian Cambourne’s conditions of learning theory to brain/mind principles: implications for early childhood educators. Early Childhood Education Journal, 31(1):11-21.
Rushton, S., Larkin, E. (2001). Shaping the learning environment: connecting developmentally appropriate practices to brain research. Early Childhood Education Journal,  29(1):25-33.
Saavedra , M. A. (2002). Algumas contribuiciones de las neurociencias a la educacion. Revista Enfoques Educacionales, 4(1):65-73.
Schacter, D. (1996). Searching for memory: the brain, the mind and the past. New York, NY: Basic Books.
Shepherd, G. M. (1994). Neurobiology. 3a. ed., New York, NY: Oxford University Press.
Shepherd, G. M. (1998). The synaptic organization of the brain. 4th ed., New York, NY: Oxford University Press.
Smilkstein, R. (2003). We’re born to learn: using the brain’s natural learning process to create today´s curriculum.Thousand Oaks, CA: Corwin Press.
Springer, S. P., Deutsch, G. (1998). Cérebro esquerdo, cérebro direito. São Paulo, SP: Summus Editorial.
Stanovich, K. E. (1998). Cognitive neuroscience and educational psychology: what season is it? Educational psychology Review, 10(4): 419-426.
Werner, D. (1997). O pensamento de animais e intelectuais: evolução e epistemologia. Florianópolis, SC: Editora UFSC.
Westwater, A., Wolfe, P. (2000). The brain-compatible curriculum. Educational Leadership, 58(3):49-52.
Williams, L. V. (1986). Teaching for the two-sided mind: a guide to right brain/left brain education. New York, NY: Simaon & Schuster.
Wilson, N. V., Battistich, V., Syme, S. L., Boyce, W. T. (2002). Does elementary school alcohol, tobacco and marijuana use increase middle school risk? Journal of Adolescent Health, 30:442-447.
Zardetto-Smith, A. M., Mu K., Phelps, C.L., Houtz, L. E., Royeen, C. B. (2002). Brains rule! Fun=learning=neuroscience literacy. The Neuroscientist, 8(5): 396-404.


[i] Amauri Betini Bartoszeck* Professor visitante, Laboratório de Neurofisiologia, Instituto de Saúde Dr. Bezerra de Menezes, Faculdades Integradas Espirita, Curitiba, Brasil.
* Professor Adjunto de Fisiologia, Fellow in Basic Medical Education, Universidade Federal do
Paraná, e-mail: bartozek@ufpr.br
Correspondência: Cx. Postal 2276, 80011-970 Curitiba, PR-Brasil; e-mail:

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Neurociência no contexto escolar




    Na atualidade a neurociência tem sido a menina dos olhos de muitas pessoas. Todos querem compreender e aprender sobre este órgão chamado cérebro.  André Palmini em entrevista ao Programa Mãos e Mentes, menciona que cada vez mais o cérebro está sendo interessante: “De um órgão que as pessoas viam com uma reverência excessiva, e quase não fazendo parte do jargão do dia a dia, hoje, cada vez mais as pessoas comentam sobre doenças cerebrais, sobre mecanismos cerebrais, sobre o quanto de determinada pessoa é assim, o quanto se fala da questão de temperamento de cada um, porque a cabeça de determinada pessoa é assim, e a de outra é de outro modo... Tudo isso é a neurociência do imaginário do dia a dia das pessoas, de forma que esse é um assunto que permeia a sociedade, se acompanharmos as publicações leigas (jornais, revistas...) volta e meia eles trazem assuntos relacionados a este contexto, logo pesquisas sobre o funcionamento do cérebro é um assunto cada vez mais interrelacional.

   No âmbito educacional  Roberte Metring, além de enfatizar que as escolas deveriam preparar o ambiente de tal forma que se obtivesse o melhor aproveitamento do cérebro na aprendizagem, proporcionando assim atividades relaxantes, exercícios respiratórios a fim de evitar situações estressantes  também menciona que em todas suas palestras  pergunta: - Quem está na sala de aula? E ele diz que muitas são as respostas, mas raríssimas vezes alguém fala que o corpo do aluno e toda sua configuração psicobiologica está presente e quanto ao sistema nervoso, nunca houve uma só resposta sobre sua presença em uma sala de aula  até hoje. (METRING, 2011)

    Segundo Nicolelis (2011) em entrevista para o Jornal Diário Regional, “o neurocientista estuda como o cérebro aprende, esse diálogo com os educadores é fundamental, porque os educadores estão tentando ensinar cérebros.” 

    Em educação estamos em constantes mudanças, idas e vindas, o que deu certo em determinada época pode não fazer efeito no momento atual, entretanto com as descobertas das neurociências, não podemos mais levar na perspectiva de ensaio x erro, mas sim o que realmente pode ser eficaz dentro da educação. Nesse sentido  venho compartilhar as contribuições de neurocientista Edouard Gentaz, onde as crianças francesas já no ensino pré-escolar, aqui no Brasil, seria a Educação Infantil, utilizam-se de leitura sensorial, pois aprendem a ler com os dedos, ou seja,  além dos olhos e dos ouvidos, usam o sentido do tato (o trabalho do mesmo chega até a lembrar os antigos períodos preparatórios ofertados pelo “Pré-Primário” e o 1º ano de alfabetização que foram abolidos com a inserção de correntes teóricas da época). 

     Eles projetaram exercícios os quais as crianças com os olhos vendados tinham que tatear letras em relevo. O desempenho dos alunos que participaram desses treinamentos foram então comparados com os de outras crianças que receberam a formação tradicional. Resultado, aqueles que foram treinados no reconhecimento visual e tátil das letras tiveram uma melhor compreensão do princípio alfabético do que os outros. "Estes exercícios também facilitam o reconhecimento das letras espelho, porque o fato de traçar as letras com os dedos ajuda a diferenciar ", completa a psicóloga envolvida no processo.


    Apesar de ser um novo método, ele já vem evidenciando melhoras na forma de aprender, pois nesta idade o toque é um dos sentidos mais desenvolvidos. Conforme Edouard Gentaz: “O grande desafio para as crianças do ensino básico é compreender a relação entre a forma visual de uma letra, que é tratada pelo córtex visual, e os sons correspondentes, que são tratados pelas zonas auditivas. Para facilitar esta associação adicionamos a zona de toque. Desta forma, melhoramos a relação entre a forma visual da letra e o som correspondente.”
    Os professores que cursam a Neuropedagogia estão aprendendo a estimular novas zonas do cérebro e criar ligações, auxiliando as crianças no reconhecimento mais eficaz das palavras e procurando errar menos.


    Esta descoberta ajuda a explicar um problema comum enfrentado por crianças quando aprendem o alfabeto muitos deles confundem as letras consideradas "espelho" como "b" e "d". Esta abordagem "multissensorial" do alfabeto não é em si uma novidade: a educadora italiana Maria Montessori já recomendou no início do século XX. Mas Edouard Gentaz e seus colegas foram capazes de provar cientificamente a sua relevância para as crianças do jardim de infância.

   Além deste trabalho pautado na educação sensorial, existe todo outro trabalho feito com adolescentes procurando desenvolver o controle emocional, pois os neurocientistas comprovam que os  adolescentes são muito dominado pelas emoções. Então a pergunta é: - Como podem ser controlados? E a resposta veio no ato de surpreender os alunos para provocar uma ligação, a que os cientistas chamam de “emoção positiva”.

    Segundo Dominique Fargues, Professor de Física: “Colocamos um pequeno vídeo ou uma imagem, por vezes texto, que capta a sua atenção. Imediatamente eles têm uma emoção positiva e começam a ouvir a aula, é realmente interessante.  Depois, quando percebe-se que num determinado ponto estão distraídos, então, novamente, colocamos um outro vídeo e recriamos uma emoção positiva entre eles, que dura mais um determinado período de tempo.”

    Quando o cérebro sente uma emoção positiva, libera dopamina, conhecida como o hormônio do prazer que nos desperta o desejo de aprender. Por outro lado, se emoções negativas como o estresse ou medo se acumulam no sistema límbico, o cérebro bloqueia e a informação não circula em direção ao córtex pré-frontal: a casa da memória de longo prazo e da capacidade de pensar.

    Desta forma assustar ou intimidar os estudantes é contra produtivo. A Neuropedagogia utiliza técnicas de memorização mais eficazes. Por exemplo: Os alunos estudam  determinado texto“ O Vermelho e o Negro” de Stendhal e trabalham por associação de ideias, traçando um “mapa mental”.



   O objetivo é ligar o texto a imagens e memórias personalizadas, porque está provado que o cérebro cria conexões e se lembra da informação mais facilmente.
  Então fica a dica: - muita atividade multissensorial, vídeos para criar um estado emocional positivo  e "mapa mental" para criar associações de ideias

Fonte:


terça-feira, 23 de julho de 2013

O futuro da Neurociência -

Como Deepak Chopra e Rudolf Tanzi enxergam a mente nos próximos anos.



Entramos em uma era de ouro para a pesquisa em neurociência, porém todos os novos achados não focam o indivíduo. Ainda assim, as descobertas apontam que é possível a todos melhorar seus cérebros. Sucintamente:

- seu cérebro se renova constantemente;
- seu cérebro pode curar cicatrizes do passado;
- as experiências mudam o cérebro constantemente;
- as experiências que você fornece ao seu cérebro forma novos caminhos neuronais;
- quanto mais experiências positivas, melhor seu cérebro irá funcionar.

   A visão antiga de que o cérebro constantemente perde neurônios e diminui seu funcionamento foi abolida. O novo cérebro é um processo, não uma coisa, que evolui de acordo com o a direção que você aponta. Um monge budista, meditando sobre a compaixão, desenvolve um circuito cerebral que dá realidade a compaixão. Dependendo do impulso dado você pode criar um cérebro compassivo, um cérebro artístico, um cérebro sábio ou um cérebro de qualquer outro tipo.
    A parte mais nova do cérebro, o neocortex, é onde as possibilidades residem. É lá que as decisões são feitas, onde discriminamos, adoramos, estimamos, controlamos e evoluímos.
Se você coloca as experiências do dia-a-dia como uma entrada para seu cérebro, e suas ações como saída, uma alça de feedback é criada. O velho cliché sobre programas de computador – lixo para dentro, lixo para fora – aplicam-se a essas alças de feedback. Suas ações dependem do que você coloca em seu cérebro. Experiências tóxicas dão formato ao cérebro de maneira muito diferente das experiências saudáveis. Isso parece senso comum, porém a neurociência juntou forças com a genética para revelar que até o nível do DNA, a alça de feedback que fala da mente e do corpo é alterada profundamente pelas “entradas” processadas pelo cérebro.
    A vida sempre apresentará desafios, retrocessos e crises. O ponto aqui é  criar um meio que permita a melhor adaptação aos dois lados, o da luz e o da escuridão das experiências.

As recomendações dos autores, baseadas naquilo que é mais atual em neurociência:

- tenha bons amigos;
- não se isole;
- sustente sua vida num relacionamento com um companheiro;
- engaje-se em projetos que valham a pena;
- aproxime-se de pessoas que possuem um bom estilo de vida – hábitos são contagiosos;
- siga um propósito em sua vida;
- deixe tempo para brincar e relaxar;
- aborde as questões que o fizeram ficar com raiva;
- mantenha uma boa atividade sexual;
- pratique  a administração do stress;
- lide com os rompantes negativos: Quando você tiver um reação negativa, pare, volte atrás, respire, e observe como você esta se sentindo.
Seu cérebro irá prosperar, mesmo que a vida se apresente com altos e baixos. Você é o líder do seu cérebro.


O texto na íntegra se encontra no site: Academia Médica

sábado, 20 de julho de 2013

O homem está evoluindo para conciliar a emoção e a razão.


     Em entrevista a VEJA, o neurocientista português António Damásio fala sobre como as emoções e sentimentos são essenciais ao influenciar a tomada de decisões e moldar a razão humana.
     O português António Damásio, 69 anos, é um dos maiores nomes da neurociência na atualidade. Radicado nos Estados Unidos desde a década de 70, e professor da University of Southern Califórnia, em Los Angeles, onde dirige o Instituto do Cérebro e da Criatividade, ele conduziu pesquisas que ajudaram a desvendar a base neurológica das emoções, demonstrando que elas têm um papel central no armazenamento de informações e no processo de tomada de decisões. Seus livros O Erro de Descartes (1994), O mistério da Consciência (1999), Em Busca de Espinosa (2003) e E o Cérebro Criou o Homem (2009), todos publicados no Brasil pela Cia. das Letras, tratam principalmente do papel das emoções e sentimentos na razão humana e quais são os processos que produzem o fenômeno da consciência. Em visita ao Brasil para participar da série de palestras Fronteiras do Pensamento, Damásio falou a VEJA.

     Na introdução de seu último livro, O Cérebro criou o Homem, o senhor diz que acabou se desapontando com algumas de suas abordagens ao longo do tempo e decidiu começar seu trabalho de novo. Quais foram as descobertas que o levaram a repensar sua pesquisa? Ao longo desses anos todos, o estudo sobre a estrutura do cérebro avançou muito e ajudou a entender melhor certas operações, como a memória e a consciência. Além disso, por meio das minhas pesquisas pude perceber a importância das emoções e dos sentimentos na construção do nosso raciocínio. Para ter o que chamamos de consciência básica é preciso ter sentimentos. Isto é, é preciso que o cérebro seja capaz de representar aquilo que se passa no corpo e fora dele de uma forma muito detalhada. É daí que nasce a rocha sobre a qual a mente forma sua base e se edifica.

     O que é a mente? Ela é uma sucessão de representações criadas através de sistemas visuais, auditivos, táteis e, muito frequentemente, das informações fornecidas pelo próprio corpo sobre o que está acontecendo com ele — quais músculos estão se contraindo, em que ritmo o coração está batendo e assim por diante. Em resumo: a mente é um filme sobre o que se passa no corpo e no mundo a sua volta.

   Qual a diferença entre emoção e sentimento? A emoção é um conjunto de todas as respostas motoras que o cérebro faz aparecer no corpo em resposta a algum evento. É um programa de movimentos como a aceleração ou desaceleração do batimento do coração, tensão ou relaxamento dos músculos e assim por diante. Existe um programa para o medo, um para a raiva, outro para a compaixão etc. Já o sentimento é a forma como a mente vai interpretar todo esse conjunto de movimentos. Ele é a experiência mental daquilo tudo. Alguns sentimentos não têm a ver com a emoção, mas sempre têm a ver os movimentos do corpo. Por exemplo, quando você sente fome, isso é uma interpretação da mente de que o nível de glicose no sangue está baixando e você precisa se alimentar.

    O senhor diz que as emoções desempenham um papel muito importante no desenvolvimento do raciocínio e na tomada de decisões. Que papel é esse? Há certas decisões que são evidentemente feitas pela própria emoção. Quando há uma situação de medo, ele aconselha um entre dois tipos de decisão: correr para longe do perigo ou permanecer quieto para não ser notado. Há também decisões muito mais complexas, como, por exemplo, aceitar ou não um convite para jantar. Nesse caso, a emoção tem um papel de primeiro conselheiro, um primeiro indicador do que se deve fazer.  Você pode querer ir, mas ao mesmo tempo há qualquer coisa no comportamento da pessoa que o faz desconfiar de que ela pode não ser sincera. E o que é isto? É uma reação emotiva, a emoção participando da sua decisão.

     Então é a emoção que nos fornece o que chamamos popularmente de instinto ou sexto sentido? Instinto é uma palavra que deve ser reservada para certas coisas muito fundamentais, como o instinto sexual ou de alimentação. Eu diria que a emoção fornece incentivos. As emoções, quer as positivas quer as negativas, podem ter uma enorme influência naquilo que nós pensamos. Mesmo as pessoas que se dizem muito racionais não podem separar as duas coisas. Por exemplo: imaginemos que um chefe esteja entrevistando uma pessoa para uma vaga. O currículo da pessoa é ótimo e as referências também, mas algo diz que ela não vai dar certo na empresa. Esse 'algo me diz' é a emoção falando. Algo no comportamento dessa pessoa evoca uma emoção negativa que leva o chefe a ficar com um pé atrás.

      O que pode causar essa desconfiança? O ser humano avalia uma outra pessoa principalmente pela voz e pela expressão facial dela. Assim, a forma como a pessoa olha para você pode parecer insolente; ou um jeito de mexer a boca faz parecer que ela não é sincera.

    Se toda a nossa percepção do mundo é afetada pela emoção, como podemos confiar nos nossos julgamentos? As emoções foram extremamente bem sucedidas, ao longo da evolução, em nos manter vivos. O medo fez com que nos expuséssemos menos ao perigo e tivéssemos mais chance de sobreviver. A alegria nos deu incentivo para fazer o que precisamos para prosperar: exercitar a mente, inventar soluções para problemas, comer, nos reproduzir. Emoções como a compaixão, a culpa e a vergonha são importantes porque orientam nosso comportamento moral. Se você fizer qualquer coisa que não está correta em relação a outra pessoa, vai se sentir envergonhado e terá um sentimento de culpa. Isso é muito importante porque vai ajudar a manter a sua conduta de acordo com a convivência em sociedade. Uma coisa que falta aos psicopatas é exatamente esse sentimento de culpa, de vergonha. Os sentimentos são, portanto, fundamentais para organizar a sociedade e foram fundamentais para a formação dos sistemas moral e judicial. Mas as emoções por si só têm limites. Para vivermos em sociedade no século XXI, precisamos muitas vezes ser capazes de criticar as nossas próprias emoções e dizer não a elas. E a única maneira de ultrapassar as emoções é o conhecimento: saber analisar as situações com grande pormenor, ser capaz de raciocinar sobre elas e decidir quando uma emoção não é vantajosa. Há um nível básico em que as emoções ajudam, e se você não tem esse nível você é um psicopata. Mas há um nível mais elevado em que as emoções têm de ser não as conselheiras, mas as aconselhadas.

      As emoções são condicionadas pela vivência em sociedade? As emoções são em grande parte inatas, mas nos primeiros anos de vida são condicionadas e sintonizadas com a sociedade. Alguns mamíferos têm emoções mais elevadas, como a compaixão, especialmente na relação entre mães e filhos. As mães de cães e lobos tratam seus filhotes com um carinho que é emocional e é totalmente inato, ninguém as ensinou. Há elefantes que quando perdem um companheiro ficam não só tristes como deixam de brincar e são capazes até de fazer uma espécie de luto. Claro que nada disso foi ensinado, é tudo inato. O que acontece com os seres humanos é que esses programas inatos têm sido, através de milhares de anos, refinados e melhorados por aspectos sócio-culturais. Hoje em dia, evidentemente, nossa estrutura moral não é inata. Ela tem sido condicionada pela história da nossa sociedade com elementos que têm a ver com a religião, a justiça e a economia, estruturas que são resultado da vida humana em sociedades complexas.

      Se as emoções podem moldar o raciocínio, o oposto pode acontecer? Isto é, o raciocínio pode alterar nossas emoções? Claro, e é aí que está a grande beleza e a grande complicação dos seres humanos. É aí que você vai encontrar todos os grandes dramas da história, aquilo que Sófocles ou Shakespeare captaram em suas peças. Os grandes dramas de reis e rainhas, príncipes e plebeus, é o constante conflito entre aquilo que são os conselhos da emoção e do instinto, por um lado, e a influência que vem do raciocínio, do conhecimento e da reflexão. Essa é a grande base da tragédia grega ou shakespeariana. Nós, na medida em que as sociedades evoluem, estamos caminhando para uma maior harmonia entre o lado emocional e instintivo e o lado racional e de reflexão. Essa harmonia ainda não se estabeleceu e não vai acontecer nem na minha geração nem na sua. É um trabalho por se concluir. Mas um dia, a convivência em sociedade, que exige que se ponha razão e emoção na balança o tempo inteiro, vai conseguir equilibrar os dois lados.

      E como ocorre esse condicionamento das emoções? É nos primeiros anos de vida que podemos inculcar valores e formas de raciocínio através da repetição de exemplos. Eles são o alicerce da construção da nossa moral. Do ponto de vista do cérebro isso é muito curioso porque é quase uma negociação entre suas partes. Há partes muito antigas em termos de evolução, como o tronco cerebral, e muito mais recentes, como o córtex cerebral. No córtex cerebral estão as grandes representações que constroem a mente: visão, audição, tato. Todas essas representações se constroem ali, e da ligação entre elas se dá o raciocínio. Mas o córtex cerebral precisa negociar com regiões do cérebro que estão no tronco cerebral e são as responsáveis pelos impulsos e as reações rápidas. É dessa negociação que surge o conceito de que algo é permitido ou não. Você repete, repete, repete até que as duas partes entrem em consenso.

    É possível recondicionar os sentimentos já na vida adulta? É possível, porém é muito mais difícil e nem sempre é um trabalho bem sucedido. Se você tem uma pessoa que começou a vida como um sociopata, é extraordinariamente difícil tornar essa pessoa um ser normal em relação a comportamento social. Isto porque seria necessário fazer todo o processo que se faz numa criança, mas o paciente já tem autonomia para não aceitá-lo.

      Como raciocinamos melhor? Felizes ou tristes? A felicidade está ligada a certas moléculas químicas e a tristeza a outras. Quando estamos felizes as imagens se sucedem com mais rapidez e se associam mais facilmente. Na tristeza as imagens passam muito mais devagar e ficam como que impressas ali por um tempo. O ponto ideal para a efetividade do raciocínio é a felicidade com uma ponta de tristeza — porque na euforia, o pensamento se embaralha.


segunda-feira, 22 de abril de 2013

O mundo secreto do inconsciente


Ele ocupa a maior parte do cérebro e controla quase tudo o que fazemos. Mas a ciência já sabe como domá-lo e usar os poderes dele para várias coisas, de guardar senhas a fazer espionagem militar. Conheça as novas descobertas sobre o inconsciente - e veja como elas confirmam a principal teoria de Freud.


Revista Superinteressante - por Alexandre de Santi e Sílvia (fevereiro de 2013)

Quando tinha pouco mais de cinquenta anos, o médico africano T.N. sofreu dois derrames cere­brais devastadores. Eles destruíram totalmente seu córtex visual, a re­gião do cérebro que nos permite enxergar. T.N. ficou completa e ir­remediavelmente cego. Mas, ainda no hospital, um grupo de cientistas ingleses decidiu recrutá-lo para um estudo estranho. Colocaram um laptop na frente de T.N. e pediram a ele que identificasse qual figura aparecia na tela, que poderia ser um círculo ou um quadrado. O homem identificou corretamente 50% das figuras - o que é de se esperar num cego, pois esse índice de acerto é o mesmo que se consegue fazendo escolhas aleatoriamente. T.N. estava apenas chutando. Mas aí, num se­gundo teste, os pesquisadores tro­caram as imagens exibidas no lap­top. Agora, aparecia uma sequência de rostos, alguns amigáveis e outros hostis. T.N. deveria dizer se cada face era amiga ou inimiga.

Para perplexidade geral, ele identificou corretamente dois ter­ços dos rostos. Sorte? Os cientistas repetiram o teste, mas o índice de acerto se mantinha. T.N. estava tendo alguma reação aos rostos. Ele dizia que não estava vendo nada - e, clinica­mente, de fato era impossível que enxergasse. Como explicar isso, então? Um fenômeno sobrenatural? Não.

Ser capaz de ler expressões faciais é uma habilidade extre­mamente importante. Para o homem das cavernas, saber se um indivíduo era amistoso ou hostil poderia significar a diferença entre a vida e a morte. E era preciso fazer isso no ato; não dava tempo de conversar e analisar racionalmente a pessoa para saber se ela era boazinha ou não. Por isso, ao longo da evolu­ção, uma região cerebral se especializou em julgar rostos. Ela se chama área fusiforme e é um pedaço fininho e comprido da parte de baixo do cérebro. Quando você vê uma pessoa pela primeira vez, sua área fusiforme analisa o rosto dela. O proces­so dura frações de segundo e é inconsciente, ou seja, você não percebe que está acontecendo. Sabe aquela primeira impressão instantânea, que parece puro instinto e sempre temos ao co­nhecer alguém? É um julgamento feito pela área fusiforme.

No cérebro de T.N., esse pedaço estava intacto. O córtex dele não conseguia processar as imagens enviadas pelos olhos, mas a área fusiforme sim. É por isso que, mesmo estando cego, T.N. ainda conseguia ver rostos. Seu cérebro consciente não enxer­gava mais nada. Mas o inconsciente dele ainda conseguia ver - e, mais do que ver, julgar os rostos das pessoas.

Há diversos casos como o de T.N., tantos que a ciência até criou um termo para desígná-Ios. blindsight, ou visão cega. Todos seguem o mesmo padrão. Conscientemente, a pessoa está cega - mas partes do cérebro dela ainda conseguem en­xergar. A visão cega é apenas uma das demonstrações do po­der do inconsciente, que interessa cada vez mais aos cientistas. Agora, o lado oculto da mente não é apenas um assunto de psi­canalistas; ele também virou uma das áreas mais interessantes da neurociência moderna. Essa transformação aconteceu por­ que as técnicas de mapeamento cerebral finalmente estão permitindo que os cientistas comecem a desbravar o inconsciente - um mundo inexplorado e muito maior que a consciência.

Quão maior? No ano passado, a emissora inglesa BBC fez essa pergunta a sete dos maiores experts do mundo em cérebro e cognição, de quatro grandes universidades (Oxford, Montreal, Columbia e Londres). Cada um deles deu seu palpite - sim, palpite, pois a ciência ainda está longe de ter um catálogo comple­to dos processos cerebrais. Pelas estimativas dos especialistas, a consciência ocupa no máximo 5% do cérebro. Todo o resto, 95%, é o reino do inconsciente.

Muito do que você faz, o tempo inteiro, é inconsciente. Falar, por exemplo. Você simplesmente pensa no que quer dizer (as ideias), e não precisa selecionar conscientemente as palavras - elas simplesmente aparecem. Isso acontece porque o seu in­consciente trabalha nos bastidores durante o papo, vasculhan­do o seu vocabulário e abastecendo o consciente para ajudar você a se expressar. Enquanto você escuta outra pessoa falar, acontece algo parecido. Você não precisa analisar e decodificar conscientemente cada palavra do que ela está dizendo - porque o seu inconsciente se encarrega de transformar em ideias os sons que estão saindo da boca dela. Quando você lê um texto, é a mesma coisa: o inconsciente transforma automaticamente os símbolos gráficos (as letras e palavras) da página em ideias, que só então são transmitidas para a sua consciência. É por isso que é tão difícil aprender outro idioma. Quando você começa a falar ou ler textos em outra língua, só usa a consciência - porque o inconsciente ainda não assumiu a tarefa (mais sobre isso daqui a pouco), e você tem de escolher ou analisar as palavras uma por uma. "Falar outro idioma é quase experimentar ser outra pessoa. Precisamos reunir os sentidos usando outra lógica" , diz Luiza Surreaux, doutora em estudos da linguagem e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

O inconsciente se encarrega de tudo o que fazemos sem es­forço perceptível, como andar na rua ou escovar os dentes. Por causa disso, ele opera em potência máxima o tempo todo - e é uma exceção no organismo. Se você se levantar e sair correndo, por exemplo, os seus músculos vão gastar aproximadamente 100 vezes mais energia do que se você estivesse imóvel (e co­ração e pulmão também serão mais exigidos). Mas o cérebro é diferente. Quando você faz alguma coisa mentalmente intensa, como jogar xadrez, ele gasta apenas 1 % a mais de energia do que se você estivesse olhando para o teto, sem pensar em nada. Isso acontece graças ao inconsciente - que trabalha frenetica­mente até quando estamos relaxados. "O cérebro é abastecido pelos olhos, ouvidos e outros sentidos, e o inconsciente traduz tudo em imagens e palavras", diz o psicólogo e neurocientista Ran Hassin, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém e um dos autores do livro The New Unconscious ("O novo in­consciente", ainda não lançado no Brasil). "Novo inconscien­te", aliás, é o termo que os cientistas têm utilizado para definir essa nova abordagem - que propõe uma explicação puramente neurológica para o lado oculto da mente. Mas também confir­ma a principal ideia de Freud.

• Psicanálise X Ciência

Sigmund Freud não foi o "descobridor" do inconsciente. Já durante o Iluminismo, no século 18, se discutia a existência dele - entendido como um pedaço da mente dotado de vontades que escapavam ao controle consciente. A contribuição específica (e enorme) de Freud foi transformar uma noção vaga num conjunto de ideias, teorias e técnicas: a psicanálise. Como explica o biógrafo Peter Gay em Freud - Uma Vida para Nosso Tempo (Companhia das Letras, 2012), Freud acreditava que o inconsciente era "uma prisão de segurança máxima" na qual os traumas sofridos na infância ficavam aprisionados, e nisso estaria a raiz das infelicidades humanas.

A neurociência nunca deu muita bola para a psicanálise. Mas os novos estudos sobre inconsciente trazem comprovação para um conceito central dela. Uma experiência liderada pelo psi­quiatra Eric Kandel, que ganhou o prêmio Nobel de Medicina de 2000 por estudos sobre neurotransmissores, mostra como o inconsciente pode funcionar como amplificador das emoções. Antes da experiência, os voluntários preencheram questioná­rios que mediam seus níveis de ansiedade. Depois, enquanto seu cérebro era monitorado pelos cientistas, cada voluntário via uma série de rostos com expressões de medo. Foram duas sessões. Na primeira, as fotos passavam bem devagar, com tempo suficiente para o voluntário analisar os detalhes de cada uma. Na segunda, as imagens passavam tão rápido que os vo­luntários não conseguiam identificar nada - não tinham nem certeza de ter visto um rosto ou qualquer outra coisa. A inten­ção de Kandel e seus colegas era provocar emoções conscientes e inconscientes. Quando a foto ficava por um bom tempo na tela, o voluntário tinha tempo de perceber conscientemente a expressão de medo da imagem. No outro experimento, era tudo tão rápido que não era possível ter uma reação consciente.

Essas imagens rápidas estimulavam diretamente o inconscien­te, e provocavam atividade muito alta no núcleo basolateral da amídala cerebral - área ligada às sensações de medo. Já as ima­gens lentas, que eram interpretadas de forma consciente, não geravam nenhuma atividade nessa área. Quanto mais ansiosa a pessoa era, maior a diferença entre a interpretação consciente e inconsciente da mesma coisa (as imagens). Para Kandel, o estudo é a comprovação neurocientífica de uma teoria central da psicanálise: a interpretação inconsciente de coisas negativas é a fonte de muitas das aflições humanas. Freud tinha razão.

O inconsciente pode ser fonte de angústias - e também de algumas injustiças, cujos efeitos são perceptíveis desde a in­fância. O queridinho do professor, provavelmente, será o aluno com as melhores notas da classe. Não porque ele seja necessa­riamente o melhor, mas porque os professores acreditam que seja - e acabam atuando inconscientemente a favor dele. Esse fenômeno, que se chama incentivo inconsciente, tem respaldo em diversos estudos científicos. Um dos mais engenhosos (e mais polêmicos também) foi conduzido na década de 1960 por Robert Rosenthal, hoje um octogenário professor de psicologia da Universidade da Califórnia.

Na experiência, os alunos de uma escola americana foram submetidos a uma prova. Rosenthal e sua equipe disseram aos 18 educadores do colégio que se tratava de um teste especial, desenvolvido na Universidade Harvard para analisar o poten­cial de desenvolvimento de cada criança. Mentira. Era apenas um reles teste de QI, sem nada de especial. O objetivo da lorota era aumentar as expectativas dos professores. Os alunos fize­ram a prova, e a grande sacada de Rosenthal veio na hora de anunciar o resultado. Antes mesmo de calcular a pontuação de cada aluno, os pesquisadores escolheram aleatoriamente três a seis crianças de cada série e disseram aos professores que aqueles alunos haviam se destacado e teriam um desempenho extraordinário nos anos seguintes. Era outra mentira.

No final do ano escolar, a equipe de Rosenthal voltou à escola e repetiu o teste. Os alunos que haviam sido falsamente diag­nosticados como gênios haviam ganho, em média, 3,8 pontos de QI a mais que os demais. O resultado foi ainda mais surpre­endente entre alunos da primeira série: a diferença entre os ungidos e o resto foi de assombrosos 15,4 pontos de QI a mais. Ou seja: as crianças que haviam sido apre­sentadas como mais inteligentes de fato se tornaram mais inteligentes - porque inconscientemente, sem querer, os professores haviam dado mais atenção e estímulo a elas. "O resultado mais importante des­se experimento foi mostrar como a expectativa dos professores faz toda a diferença para o desenvolvi­mento dos alunos", analisa Rosenthal. É impossí­vel ser completamente justo e imune a esse tipo de influência, mas existe um antídoto eficaz contra as distorções induzidas pelo inconsciente: saber que ele sempre está pronto para nos enganar.



• Aprender sem saber

Se, por um lado, é impossível controlar o inconsciente de maneira consciente, é possível influenciá-lo. "Po­demos mudá-lo. Ele é tão maleável quanto a consci­ência, ou talvez mais", afirma o neurologista Ran Has­sino Como se faz isso? Praticando alguma coisa até que ela se torne uma segunda natureza, ou seja, vire um processo automático. Qualquer profissional de elite, seja um pianista profissional, um jogador da seleção brasileira de futebol, um médico-cirurgião ou uma bailarina do Theatro Municipal, depende de anos de o consciente prática para chegar ao topo da carreira. Cerca de dez anos de prática - ou 10 mil horas de treino, segundo uma famosa pesquisa do psicólogo Anders Ericsson, da Universidade da Flórida. Ericsson estudou violinis­tas de uma das melhores escolas de música de Berlim. Eles começaram com cinco anos de idade, todos no mesmo ritmo. Mas, a partir dos oito anos, as horas de ensaio começaram a variar entre os estudantes. Quando chegaram aos 20 anos, os melhores violinis­tas haviam somado 10 mil horas de treino, enquanto os demais não passavam de 8 mil horas - e os piores da turma tinham apenas 4 mil horas de estudo.

A dedicação trouxe recompensa porque, quando se pratica muito alguma coisa, ela fica gravada num tipo especial de memória: a memória não-declarativa, que faz parte do inconsciente e registra ações e movimentos do corpo. É ela que permite que o violinista consiga tocar bem. Se dependesse apenas do consciente, ele não daria conta de todos os procedimentos envolvidos na tarefa (ler a partitura, equilibrar o instrumento no ombro, posicionar os dedos, mover o arco, respirar e, ainda por cima, tocar de maneira natural e relaxada).

E ninguém conseguiria aprender a falar fluentemente um segundo idioma. Em suma: a chave para ensinar uma nova habilidade ao próprio inconsciente é treinar, treinar e treinar. É um processo bem demorado. Mas já existe gente tentando deixá -lo mais rápido.

• As senhas invisíveis

Elas são um problema típico do mundo moderno. Ou você aca­ba esquecendo as suas, ou escolhe uma bem bobinha e usa pra tudo - até que, por causa disso, alguém acaba invadindo o seu e-mail ou conta bancária. Um grupo de cientistas da Univer­sidade Stanford tem uma solução melhor: senhas ultrassecre­tas, que ficam armazenadas no inconsciente. Funciona assim. Primeiro, os cientistas pedem a voluntários que joguem um joguinho no qual bolinhas caem, uma de cada vez, em uma das seis colunas que aparecem na tela. O objetivo é apertar o botão do teclado correspondente à posição da bolinha na tela. Se a bolinha cai do lado esquerdo, por exemplo, a pessoa aperta a letra S (porque ela fica bem à esquerda no teclado). A ordem das bolinhas parece aleatória, mas não é. A pessoa não percebe, mas existe uma sequência que se repete de tempos em tempos - cerca de 90 vezes ao longo de 30 minutos, a duração do jogo. Essa sequência é definida pelo computador e é personalizada, ou seja, diferente para cada jogador. Ela é a senha. E, graças à repetição, acaba sendo gravada no inconsciente da pessoa.

Na segunda etapa da experiência, a pessoa joga o joguinho novamente. E as bolinhas vão caindo na tela do mesmo jeito: sua ordem parece aleatória, mas uma sequência específica (a senha) se repete de tempos em tempos. Como as bolinhas caem bem depressa, o jogador erra muitas. Exceto as boli­nhas daquela sequência que ficou gravada no inconsciente dele. Sem perceber nem saber o motivo, a pessoa acerta to­das. Está digitada a senha. Ela é reconhecida pelo compu­tador, que libera o acesso. Além de ser conveniente (você nunca mais precisará se lembrar de uma senha), a tecnolo­gia é extremamente segura. "O sistema torna praticamente impossível para um assaltante forçar a vítima a revelar sua senha bancária, por exemplo. Porque a senha está no cérebro da pessoa, mas não está acessível conscientemente a ela", explica Hristo Bojinov, um dos criadores da tecnologia.

Segundo ele, o sistema de senhas inconscientes pode che­gar ao mercado dentro de três anos, mas ainda precisa ser aperfeiçoado. Por enquanto, ele é inviável para uso cotidiano - porque é preciso jogar o joguinho durante 5 a 10 minutos até que a senha inconsciente seja digitada. Dez minutos é bastante. Mas é bem menos do que as 10 mil horas do exemplo anterior. Ou seja: a nova técnica mostra que é possível inserir informações simples no inconsciente muito mais de­pressa do que se acreditava.

O Exército americano já percebeu, e está tentando tirar proveito disso. A ideia é ajudar os analistas de imagens aére­as, funcionários do Pentágono que olham as fotos tiradas pelos satélites espiões dos EUA - e dizem quais delas contêm algo re­levante (como um reator nuclear ou uma base militar inimiga, por exemplo). É um trabalho cansativo e difícil, pois são mi­lhares de fotos aparentemente iguais, com diferenças minús­culas. Mas o cientista Paul Sajda, da Universidade Columbia, teve a ideia de monitorar o cérebro de um analista enquanto ele olhava essas fotos. O analista vestiu uma touca de eletroen­cefalograma (EEG), cheia de sensores que medem a atividade elétrica em determinadas regiões do cérebro. Aí Sajda mostrou a ele uma foto relevante, ou seja, na qual se via claramente uma construção suspeita. O eletroencefalograma registrou um pico de atividade cerebral - pois aquela imagem havia despertado a curiosidade do analista. Normal.

Mas aí os pesquisadores resolveram acelerar as coisas, e co­meçaram a exibir dez imagens por segundo. Algumas das fotos eram relevantes, outras não, mas todas passavam rápido de­mais para que o analista conseguisse prestar atenção em qual­quer coisa. Mesmo assim, quando aparecia uma foto relevante, algo incrível acontecia: o eletroencefalograma registrava um pico de atividade no cérebro dele. O analista não conseguia perceber nada de diferente nas imagens, mas o inconsciente dele sim - e estava identificando as fotos que tinham pontos interessantes. De acordo com Sajda, o novo método permite aumentar em até 300 vezes a eficiência da análise de imagens militares. "Os processos inconscientes são capazes de algum tipo de racionalidade, muito mais do que se pensa, e essa racio­nalidade pode levar a boas decisões", escreve o neurocientista Antonio Damasio no livro E o Cérebro Criou o Homem.

• Hans, o cavalo esperto

O inconsciente não é apenas um depósito de traumas reprimi­dos e habilidades incríveis. Ele também é especialista em fazer o contrário: colocar tudo pra fora. O psicólogo Paul Ekrnan, da Universidade da California, ficou famoso por ter catalogado mais de 10 mil conjuntos de "microexpressões" - expressões faciais que fazemos inconscientemente enquanto conversamos, e que podem revelar nossas verdadeiras emoções. Inclusive se o seu interlocutor for um cavalo.

Em 1904, o alemão Wilhelm von Oster ficou famoso por suas apresentações com Hans - um cavalo que era capaz de "quase tudo, menos falar". Segundo o dono, Hans fazia cálculos ma­temáticos complexos. Quando perguntavam a raiz quadrada de quatro, o bicho respondia batendo o casco duas vezes no chão. A conexão era tanta que Hans acertava o resultado mesmo quando seu mestre não fazia as perguntas em voz alta - e apenas pensava nelas. Havia quem jurasse de pés juntos que o cavalo lia a mente de Von Oster. A dupla rodou a Alemanha em apre­sentações fantásticas, e deixou estudiosos debruçados sobre o mistério durante anos. Em 1907, o psicólogo Oskar Pfungst pu­blicou um estudo que solucionava a charada. Hans só acertava os resultados quando seu 'entrevistador' (no caso, Von Oster) já sabia a resposta certa. Pfungst descobriu um padrão: Von Oster se inclinava levemente para frente quando terminava de propor uma questão. Esse era o sinal. Hans entendia e começava a bater o casco no chão. Quando atingia o número certo de batidas, algum outro movimen­to do dono denunciava a hora de parar. Von Oster era um charlatão, então? Talvez. Mas muitas outras pessoas, que não sabiam de nada, desafiaram Hans com problemas matemáticos. O cavalo acertou to­dos. É que elas, sem saber, também coordenavam com movimentos inconscientes as respostas dele. Ou seja: cavalos talvez não saibam fazer contas, mas podem ser capazes de ler o inconsciente alheio com mais precisão do que muito humano.

Ainda não existe uma fórmula que permita con­trolar o que dizemos de forma inconsciente. Emi­timos sinais inconscientes o tempo todo - a ponto de sermos transparentes até para cavalos. É por isso que é tão difícil fingir: todo mundo percebe quando achamos que uma festa está meio chata, por exem­pIo. Mas não vá culpar o seu inconsciente por isso. Se não fosse ele, você sequer conseguiria dançar e conversar ao mesmo tempo.

Para saber mais

Subliminal, Leonard Mlodinow. Pantheon Books, 2012.
Em Busca da Memória, Eric Kandel. Companhia das letras, 2009.

sábado, 30 de março de 2013

O que é aprendizagem? (na percepção da Neurociência)



        A aprendizagem é um processo e depende fundamentalmente de experiência, o nosso cérebro aprende por tentativa e erro, ele vai se esculpindo a si próprio conforme ele é usado. (HERCULANO-HOUZEL). Aprendemos na medida em que experimentamos e fazemos novas associações.
     Existe uma demanda muito grande pela aplicação prática do conhecimento: como podemos aprender melhor?
     Os fatores que mais influenciam no aprendizado elencados pela Neurociência são: EXPERIÊNCIA (ter muitas vivências, explorar diversos materiais, locais, interagir com diversas pessoas de diferentes contextos), PRÁTICA (métodos adequados, lembrar que não existe um método para tudo cada indivíduo possui as suas sincrasias, diante de suas facilidades ou dificuldades particulares, cada um vai precisar de um método), dedicar a ATENÇÃO (para aquilo que se está fazendo, não há como fazer duas coisas ao mesmo tempo, pois nosso foco fica alternando entre uma coisa e outra) e o principal é a MOTIVAÇÃO (se o indivíduo não tiver interesse, poderá até praticar, mas o resultado não será tão eficiente). 

domingo, 24 de março de 2013

Salta Buraco - um jogo com o olhar neuropsicopedagógico...


Sabe aqueles jogos que dá pra utilizar o ano inteiro e com muitas variações, pois,   o Jogo Salta Buracos é deste tipo, que trabalha a metacognição, ou seja, ele privilegia aos alunos a reflexão sobre os processos de seus pensamentos, favorecendo a objetivação de suas estratégias.


      O “tabuleiro”, feito em TNT ( pois é um material acessível, dura mais tempo e fácil de guardar) consta de uma sequências de casas e entre as mesmas, existem algumas “casas buracos”. Estas, têm algumas pedras coladas ao seu redor. Então, na medida em que os jogadores caem nestes locais, eles devem contar quantas pedras há ali e voltar a mesma quantidade de casas.
     Os jogadores podem ser confeccionados de acordo com o projeto que está sendo trabalhado, por exemplo, como estamos em época de Páscoa, todos os alunos criaram coelhos, mas logo irá chegar o dia das mães...rsrsrs...cada um terá que criar um jogador que representará a sua mãe...
     Outra dica é: dividir os alunos em grupos ou equipes, pois não há como esperar cada aluno jogar, quando um aluno do grupo joga, todos os demais posicionam os jogadores no mesmo local.
      As crianças adoram o jogo, justamente, por causa da possibilidade de cair nos buracos, sendo que muitas vezes estavam na etapa final e tinham que voltar várias casas, criando assim expectativas de que talvez o próximo grupo também tivesse que voltar.
    Geralmente utilizamos 2 dados, os alunos fazem a soma e avançam a quantidade de casas, mas como é bom aumentar a dificuldade, dá para inserir mais um dado, aí eles precisam ter maior atenção na hora de calcular e avançar as casas.
      Também, no início é normal, as crianças contarem de casa em casa para verificar em qual local irão ficar, mas com o tempo, se faz necessário começar a dificultar e solicitar para que eles contem mentalmente, ou se não conseguirem, utilizem outro material de contagem alternativo (exemplo: base 10, palitos, tampinhas).
  E porque deste jogo ser “neuropsicopedagógico”. Simples, a neuropsicopedagogia é justamente a junção da neurociência, com a psicologia e a pedagogia, cujo foco principal é a aprendizagem, o desenvolvimento metacognitivo. Não basta somente o aluno desenvolver a atividade ele precisa entender, analisar, refletir sobre o que está fazendo e como poderia ter feito melhor. 
   Também, frente à neurociência, veja só quantas áreas cerebrais estão sendo ativadas neste simples jogo (lógico que foi bem sutilmente colocado, pois na verdade há muito mais funções envolvidas durante esta atividade):


- Lobo temporal – memória
- Lobo Frontal – pensamento abstrato, tomada de decisões, regular minha conduta frente às jogadas, feitas pelo prórpio aluno ou por alguém do seu grupo
- Lobo parietal - habilidades de matemática
- Lobo occipital - Visão
- Sistema Límbico - controle das emoções, os sentimentos que temos durante o jogo...
No final do jogo, há duas ações muito importantes a serem feitas:
- os alunos devem falar o que acharam do jogo, se poderia ter sido feito de outra maneira, se foi fácil realizar as somas, como se sentiram ao ter que voltar as casas, quando caíam nos buracos...etc
2º - registro da atividade feita, seja com desenho, seja com a escrita do mesmo, ou ambas as atividades. Mas é importante fazer este processo, pois além de resgate da ação que inicialmente se dará na memória de trabalho, os alunos irão transportando estas para a memória de longa duração.