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domingo, 2 de junho de 2013

Neuroplasticidade

      O caso relato a história de uma  garota onde o hemisfério cerebral esquerdo não se desenvolveu então, o direito assumiu todas as funções. Segundo Cosenza, o cérebro que se desenvolveu de forma diferente por fatores genéticos ou que sofreu modificações devido a condições da gestação apresentará comportamentos diferentes e necessitará de estratégias pedagógicas distintas durante a aprendizagem. Enfim, há necessidade do investimento em muitos estímulos para que ocorra a neuroplasticidade. 

Obs.: O vídeo pertence a Inez Cozzo

domingo, 28 de abril de 2013

Hipnose: o poder elástico do cérebro





    A plasticidade do cérebro e outras possibilidades por meio da hipnose moderna trazem um novo caminho para o psicólogo e outros profissionais da saúde, com resultados comprovados e eficazes

   A hipnose é definida como um estado alterado de consciência ampliada, em que o sujeito permanece acordado todo o tempo, experimentando sensações, sentimentos, talvez tendo imagens, regressões, anestesia, analgesias e outros fenômenos enquanto está nesse estado. Assim, poucas palavras têm o poder de despertar reações tão hipnóticas quanto o próprio termo hipnose. A prática moderna da hipnose se estende atualmente por diversas áreas, como a Medicina, a Odontologia e a Psicologia. Podemos afirmar que a sua utilização se encontra presente em toda história da humanidade. Os acontecimentos chamados hipnóticos fazem parte da vida dos seres humanos continuamente. Todos os dias e a cada instante estamos embutidos nesse chamado “estado alterado de consciência”.

    Algumas pessoas a consideram um embuste ou algo que só serve para fazer com que alguém tenha ações específicas: agir como animais ou provar alimentos picantes. Há quem acredite que cura todos os tipos de patologias e há aqueles que a acham tão perigosa que deveria ser completamente abandonada.

   O Dr. Milton Erickson estudou profundamente a hipnose e seus fenômenos durante toda sua vida, demonstrando-a como um fenômeno natural da mente humana, bem como sua existência e efeitos no cotidiano. Uma das suas contribuições para a Psicologia foi o conceito de utilização da realidade individual do paciente, a terapia naturalista, as diferentes formas de comunicação indireta, a técnica de confusão e de entremear. Dessa forma, o legado do Dr. Erickson contribuiu para diversas escolas e campos de conhecimento que tratam da relação entre cognição, comportamento e atividade do sistema nervoso em condições normais ou patológicas, como o caso da própria neuropsicologia, que tem caráter multidisciplinar e apoio na Anatomia, Fisiologia, Neurologia, Psicologia, Psiquiatria e Etologia, entre outras ciências. Assim, a questão que fica: seria possível promover a reabilitação neuropsicológica pelo princípio da plasticidade cerebral através das ferramentas de hipnose?

     A prática moderna da hipnose se estende atualmente por diversas áreas, como a Medicina, a Odontologia e a Psicologia

     A melhor resposta pode ser descrita pelo próprio Milton Erickson, ele mesmo acometido pela poliomielite e suas consequências que o acompanharam durante a vida. Dr. Erickson, em muitos de seus artigos, livros e seminários didáticos, relatava que usava o próprio transe hipnótico como uma forma de manter um estado adequado, sem dor e, consequentemente, viver melhor. Dessa forma, percebemos a autohipnose como uma ferramenta importante nessa intervenção cerebral.

Pesquisas recentes

     As pesquisas atuais estão avançando no sentido de aprofundar os conhecimentos sobre os mecanismos de recuperação funcional, bem como sobre os fatores relacionados às variações interindividuais. Novas abordagens quanto aos dados empíricos permitem delinear uma nova visão do sistema nervoso como um órgão dinâmico, constituindo uma unidade funcional com o corpo e o ambiente.

   Atualmente, quando se fala em reabilitação neuropsicológica, devemos pensar que existem técnicas de reabilitação que podem atuar em níveis diferentes, como o treino cognitivo que trabalha a restauração da função, as estratégias compensatórias (internas ou externas), que atuam no nível da atividade, e participação social, com o intuito de tornar o indivíduo mais participativo. Além disso, é comum nos programas de reabilitação a utilização de diferentes técnicas com cada tipo de paciente, como atendimento individual e em grupo, psicoterapia para ampliação da percepção e aceitação dos déficits, orientação e replanejamento vocacional. O profissional em reabilitação tem de buscar algo que vá ao encontro das necessidades de cada paciente e o contexto biopsicossocial no qual está inserido.

    Partindo do pressuposto de que existem diversas técnicas de reabilitação, o interessante é realizar uma discussão sobre o uso da hipnose enquanto ferramenta em reabilitação neuropsicológica, especificamente atuando em neuroplasticidade.

    A plasticidade cerebral pode ser definida como uma mudança adaptativa na estrutura e função do sistema nervoso que ocorre em qualquer fase do desenvolvimento, como funções de interação com o meio ambiente interno e externo, ou ainda como resultante de lesões que afetam o ambiente neuronal. Além disso, a plasticidade cerebral constitui-se de um processo dinâmico, em que se relacionam as estruturas e suas funções, proporcionando respostas adaptativas que são impulsionadas por desafios do meio ou alguma lesão, se mantendo ativa, em diferentes graus, durante toda a vida inclusive na velhice.

    Os neurocientistas constataram que o grau de neuroplasticidade varia conforme a idade do indivíduo. Como exemplo, durante o desenvolvimento ontogenético, o sistema nervoso é mais plástico. Essa é a fase da vida do indivíduo onde tudo se constrói e se molda de acordo com o genoma e as influências do ambiente. Porém, mesmo durante o desenvolvimento, existe uma fase de maior plasticidade denominada período crítico, na qual o sistema nervoso é mais suscetível às transformações provocadas pelo meio ambiente externo. Após o organismo ultrapassar essa fase e atingir a maturidade, sua capacidade plástica diminui, se modifica, mas não se extingue. Há várias formas de neuroplasticidade, como: regeneração, plasticidade axônica, plasticidade sináptica, plasticidade dendrítica e plasticidade somática.

     Para pensar no poder elástico do cérebro e relacionar com a hipnose moderna empregada pelo Dr. Milton Erickson é necessário verificar, dentro da própria vida deste, uma similaridade curativa, onde essa neuroplasticidade desempenhou um papel de reestruturação nele mesmo, como descrito acima.

     Nessa interrelação sistêmica, entre corpo e ambiente, podemos estabelecer uma percepção avançada ao ver que Dr. Erickson, por si mesmo, desenvolveu um tipo especial de concentração mental para qualquer movimento mínimo, refazendo mentalmente cada movimento repetidas vezes, de forma a fazer uma nova ligação de aprendizado entre os fatores pensantes da sua subjetividade e a reação física dos movimentos. A comprovação dessa prática fora descrita nos artigos médicos acadêmicos que ele havia escrito. Outras enfermidades também acompanharam a vida de Erickson, como o daltonismo e a deficiência auditiva, podendo parecer para qualquer pessoa como problemas ou grandes dificuldades para viver. Mas Dr. Erickson descreveu e utilizou destas os seus próprios recursos para desenvolver uma abordagem terapêutica que se tornou reconhecida pela eficácia e elegância de aplicação, utilização e resultados imediatos, além da reabilitação neuropsicológica autoapresentada.

     Erickson estudou profundamente a hipnose e seus fenômenos durante toda sua vida, demonstrando-a como um fenômeno natural.

PRESENTE DE GREGO?

     A hipnose ericksoniana pode ser vista como um “cavalo de troia”, em que é ofertado um presente disfarçado ao sujeito, no qual este, nessa condição, recebe e se faz elaborar internamente questões e ensaios, como uma espécie de trabalho que nasce de dentro, recuperando neurônios ao gerar a plasticidade cerebral necessária para a reabilitação funcional. Através da própria sugestão (autohipnose) ou ao induzir pacientes pelo instrumento da hipnose, podemos criar novas representações subjetivas, novas ressignificações e novas conexões; dessa forma, manter um ambiente interno capaz de promover mudanças ou simplesmente ajudar o sujeito a encontrar recursos internos para auxílio na reabilitação neuropsicológica.

     Uma das formas de aplicação da hipnose elaborada pelo Dr. Erickson está na maestria da utilização da linguagem analógica, por comparação, em que as metáforas, alegorias e anedotas faziam um papel desse “cavalo de troia” mencionado anteriormente, um disfarce linguístico na condução do transe hipnótico.

     Ao observar a forma de trabalho hipnótico do Dr. Erickson, pode-se perceber a clara intenção de ofertar presentes linguísticos ao inconsciente do sujeito hipnotizado. Quando Erickson contava a um paciente sobre o caso de outro paciente, na verdade sua intenção esperada seria que o próprio paciente fizesse a relação com sua história de vida. Se o relato tivesse uma solução ou alternativa para um problema que estava sendo trabalhado, o paciente encontraria relações com esse fato, se comparando ao mesmo e encontrando na sua própria história recursos internos para enfrentamento da situação problema.

    Para ilustrar tal metodologia, podemos citar Rosen (1982), em que o Dr. Erickson utilizava uma passagem de sua própria história, quando criança, com a intenção de estabelecer vínculo com o paciente e permitir que o mesmo falasse de seu problema, com confiança e assertividade necessárias. “É... você sabe, bom... vou iniciar nossa sessão contando um trecho interessante da minha vida... foi assim: ...muita gente estava preocupada comigo porque eu já tinha quatro anos de idade e ainda não falava e uma irmãzinha minha, dois anos mais nova, já falava, e continua falando, mas até agora não disse quase nada. E... muitos ficavam aflitos porque eu era um menino de quatro anos que não podia falar... Minha mãe dizia confiante: ‘vai falar quando chegar a hora’” (ROSEN, 1982, p. 67).

    Novas abordagens quanto aos dados empíricos permitem delinear uma nova visão do sistema nervoso como um órgão dinâmico

    Dessa forma, o paciente poderia elaborar o melhor momento para falar com confiança. Como Rosen (1982) menciona, nesse exemplo se destaca a convicção do Dr. Erickson de que se pode confiar que a mente inconsciente terá as respostas certas no momento oportuno. E, se essa história fosse contada a um paciente que começa a experimentar o transe hipnótico, poderia tranquilizá-lo no sentido de que pode aguardar, sem preocupações, até que apareça o impulso para falar algo relevante, ou até que possa revelar, de uma maneira não verbal, as suas mensagens inconscientes.

    Ao pensar dessa forma, poderíamos trazer a seguinte questão: “O que aconteceria se fosse dada uma relação metafórica para um paciente em reabilitação neuropsicológica de que outra pessoa conseguiu resultados importantes com determinado pensamento ou atividade?”. Se a metodologia e ferramentas aplicadas pelo Dr. Erickson estiverem certas, a reabilitação neuropsicológica estaria sendo auxiliada pela linguagem e comunicação do psicoterapeuta, favorecendo assim a neuroplasticidade e provável recuperação de um paciente.

    Ao tratarmos de conhecimento científico, é necessário enfatizarmos que este pode criar paradigmas, conceitos e visões referentes ao mundo, à maneira como encaramos a nós mesmos, nosso cérebro e as relações externas que nos cercam. A ciência cria modelos teóricos com suas visões sobre como operamos no mundo, desenvolvemos nossa personalidade, construímos nossa subjetividade e o modo como nosso cérebro se desenvolve e se adapta. Tais modelos teóricos estão em constantes mudanças e recriações.

    É justamente nesse ponto que se concebe que o legado de Erickson consiste prioritariamente em um presente de grego, na medida em que convida seus interlocutores às transformações profundas não apenas em suas formas de abordagem terapêutica, mas também a uma revisão crítica de todos os momentos e situações onde o conhecimento se constrói.

    O profissional em reabilitação tem de buscar algo que vá ao encontro das necessidades de cada paciente

PAPEL DO TERAPEUTA

     Em Psicologia, podemos levar esse conhecimento a novos caminhos, indo além de simples acolhimentos a pacientes com lesões funcionais, mas podendo influenciar positivamente na reconstrução e reabilitação do sujeito atendido.

    O papel do psicólogo como profissional deve carregar um arquétipo de curador, em que sua figura traz conforto, aceitação e, principalmente, a esperança de recuperação. Neste momento, fica a importância de esse profissional perceber que o ser humano é constituído pelo princípio do biológico, psicológico e social. Naturalmente, através da constante pesquisa e desenvolvimento de novas técnicas, nós, os psicólogos, podemos agregar mais e ajudar outros profissionais da área médica na recuperação de pacientes com lesões neuropsicológicas.

      Quando consideramos a hipnose como instrumento ou simplesmente como uma forma de comunicação, abre-se a escolha para todas as linhas terapêuticas, seja comportamental, humanista, psicanalista ou cognitiva. Partimos do pressuposto de que, para atuar, o psicólogo precisa se comunicar e comunicação é redundância, sempre estamos comunicando algo. A hipnose moderna, termo considerado após Erickson, é uma forma de comunicação elegante, às vezes formalmente, com os olhos fechados em profundo estado alterado de consciência ou simplesmente de forma coloquial, como uma conversa, ao contar uma história ou relatar um fato, pode trazer dentro desse conto uma semente de mudança em reabilitação. O poder elástico do cérebro, sua plasticidade e outras possibilidades através da hipnose moderna trazem um novo caminho para o psicólogo e outros profissionais da saúde, com resultados comprovados e eficazes. Ignorar esse conhecimento pode significar ignorar as próprias condições do ser humano e do profissional psicólogo, onde a curiosidade por novas descobertas trará novos resultados no futuro.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Autodidatismo amigável ao cérebro: três pilares


Tudo leva a crer que as mudanças na educação finalmente terão que acontecer, seja pela evolução da escola atual ou pelo seu colapso.  No entanto, o sistema formal de ensino é um organismo gigantesco e complexo, que tem seguidamente mostrado dificuldades em incorporar os avanços da ciência e da tecnologia no seu dia-a-dia no ritmo necessário. É conhecida a piada que diz que se um cidadão do século XIX viajasse no tempo e viesse parar nos dias de hoje, a única coisa que ele reconheceria sem dificuldades seria a sala de aula...
Enquanto isso, o mundo caminha a passos largos para um futuro onde a capacidade de digerir e apreender grandes quantidades de informação será tão fundamental quanto a capacidade de ler e escrever é hoje em dia. Para tornar a situação um pouco mais complicada, a quantidade de dados novos sendo gerada a cada instante pela humanidade tende ao infinito. A cada minuto, nós produzimos mais informação do que é humanamente possível consumir em um ano. Ou seja, precisamos saber aprender muito, e rápido.
Mas enquanto isso não acontece, o que nós -- filhos dos últimos suspiros do sistema educacional "industrial" -- fazemos para lidar com esse "admirável mundo novo"?
A resposta está na busca da autonomia cognitiva: precisamos aprender a aprender sozinhos ou com bem pouca ajuda. As gerações atuais não podem se dar ao luxo de esperar que os educadores passem a ser realmente mais um auxílio e menos um empecilho a nossa aprendizagem. Em outras palavras, precisamos ser autodidatas e construir nossos próprios caminhos de aprendizagem.
O primeiro passo nessa direção é entender como nossos cérebros aprendem, e, a partir desse conhecimento, criar para nós mesmos as condições que a escola de hoje não consegue proporcionar para aprender de forma eficiente e eficaz. Mas em que a neurociência contemporânea pode ajudar neste desafio de nos tornarmos os nossos próprios educadores?
Um pouco de história
A década de 90 ficou conhecida como a década do cérebro, e a principal responsável pelo início daquela que foi uma verdadeira revolução no conhecimento desta pequena maravilha que temos entre as duas orelhas foi invenção da ressonância magnética funcional (RMF). Capaz de registrar o funcionamento do cérebro em imagens, e sem a necessidade do uso de radiação, a RMF tornou possível o estudo extensivo e ao vivo de cérebros saudáveis, enquanto as pessoas realizavam diferentes atividades cognitivas.
Não demorou muito para que educadores e pessoas interessadas em aprendizagem se interessassem pelas novidades que estavam sendo descobertas todos os dias nos laboratórios dos neurocientistas. Afinal, o sistema educacional no mundo todo já dava sinais da imensa crise que atravessa hoje, e era natural que se começasse a procurar saídas.
A seguir, são discutidas algumas das principais descobertas da neurociência que afetam diretamente a aprendizagem. Em seguida são apresentadas algumas ideias de como pessoas autodidatas podem utilizar esses conhecimentos para aprender mais e melhor por conta própria.
Sinto, logo existo
Está cada vez mais claro que as emoções afetam diretamente e de forma mensurável a capacidade de aprender. Esta descoberta que não chega a surpreender, já que confirma aquilo que qualquer aprendiz já sabe por experiência própria: estudar irritado com a discussão havida ontem com o colega de trabalho não funciona muito bem. Nesse caso, é melhor usar os neurônios buscando soluções para o problema, para depois retomar o estudo com mais foco e concentração. 
Mas é possível ir um pouco além do óbvio aqui: a relação entre emoções e capacidade de aprendizagem deixa claro que uma vida equilibrada é fundamental na conquista da autonomia cognitiva. Estudar horas a fio e deixar outros aspectos importantes da vida sem a devida atenção normalmente é menos eficiente que estudar por um tempo menor. Claro, supondo que usamos o restante do tempo para garantir as condições psicológicas necessárias para nos concentrarmos naquilo que estamos tentando aprender.
Formação da Memória
Apesar da má-fama da tenebrosa "decoreba", o fato é que sem memória, não há aprendizagem. A diferença é que a "decoreba" é a memorização mecânica e sem significado, que se perde rapidamente após alguns dias. Já uma boa memória de longo prazo (MLP) é essencial para aprendizagem e se constrói através de associações significativas com aquilo que já se conhece, além de repetições que reforcem a rede neuronal responsável por essas novas associações.
Uma das descobertas de aplicação prática mais imediata nesta área é o papel fundamental do sono na consolidação da MLP. Ou seja, dormir mais tarde para estudar pode não estar sendo tão proveitoso quanto você imagina: você pode até estudar mais tempo, e eventualmente aumentar a sensação de "dever cumprido", mas na prática acaba aprendendo menos. 
Outro fator fundamental para uma memorização eficiente é o intervalo entre as repetidas exposições à mesma informação. A consolidação da memória é, essencialmente, um processo químico, e como tal, não acontece instantaneamente. Ao contrário, as pesquisas mostram que é preciso um intervalo de tempo significativo para uma certa quantidade de informação "assentar" nos nossos neurônios. Esse "assentamento" se traduz concretamente no engrossamento da camada de mielina que recobre o caminho neuronal recém-formado. E quanto mais mielina em uma rede de neurônios, mas rapidamente a informação trafega nesse caminho, e menos esforço é necessário para nos lembrarmos das informações contidas nele.
Experimentos práticos com estudantes como os da aprendizagem espaçada(link) mostram que intervalos em torno de 10 minutos entre sessões de estudo podem multiplicar muitas vezes a eficiência da memorização de grandes quantidades de informações.
Em resumo, para termos uma boa memória (e portanto aprender mais) precisamos revisar as novas informações em intervalos regulares e dormir tudo o que o nosso cérebro tem direito.
Para aprender, tem que se mexer!
Neste item, as escolas estão totalmente na contramão da ciência. A movimentação do corpo aumenta o fluxo sanguíneo no cérebro, melhorando a sua nutrição e oxigenação, o que comprovadamente melhora a aprendizagem. Ou seja, do ponto de vista do nosso cérebro, as famigeradas filas de carteiras apertadas onde os estudantes são obrigados a ficar sentados por horas a fio estão bem longe de representar o cenário ideal para a aprendizagem.
Isso também vale para aquela escrivaninha em que passamos horas e horas sem sequer levantar para beber água. Além de não dar os intervalos necessários para a formação da memória, essa situação pode, literalmente, deixar seu cérebro dormente!
A incorporação dessa informação na nossa vida de autodidatas pode ser feita sob dois pontos de vista: um deles é a prática de exercícios regulares. O outro é a movimentação durante pelo menos alguns dos nossos períodos de estudo. Ou seja, por incrível que pareça, aquela caminhada no parque que você faz ouvindo uma aula gravada pode ser bem mais produtiva que ouvir o mesmo material na própria sala de aula ou deitado no sofá. Não só porque você está aproveitando o tempo, mas também porque o seu cérebro está em melhores condições de capturar a informação.
Neurogênese: nunca é tarde para aprender
As descobertas mais festejadas dos últimos anos giram em torno da neurogênese, o processo de formação de novos neurônios. Até bem pouco tempo atrás, acreditava-se que neurônios só eram formados durante a infância. Mas hoje, está comprovado que a neurogênese ocorre durante toda a vida. Na vida adulta, ela se concentra em uma área do cérebro chamada de hipocampo, que é justamente onde a memória de longo prazo é formada. Ora, se aprender é armazenar informações significativas na memória de longo prazo, a consequência é óbvia desse fato é: podemos sim, aprender coisas completamente novas a partir de qualquer idade. As universidades da Terceira Idade estão aí para comprovar.
Neuroplasticidade: nem tudo está perdido
Atualmente sabe-se que, além de formar novos neurônios, o cérebro é capaz de modificar a sua estrutura em qualquer momento da vida. Novas conexões entre os neurônios são formadas o tempo todo, e redes cerebrais inteiras podem literalmente "migrar" de um lugar para o outro em caso de necessidade.
A neuroplasticidade significa que grande parte dos danos físicos  que podem acontecer ao cérebro tem boas chances de ser recuperados com “re-treinamento” da pessoa para as funções afetadas, que passam pouco a pouco a ser controladas por outras regiões diferentes daquelas originalmente utilizadas. É o caso de pessoas que ficam cegas e passam a usar o córtex visual para funções de tato, por exemplo.
A palavra-chave do parágrafo anterior é "re-treinamento". Quando estamos falando de aprendizagem, a neuroplasticidade comprova a nossa capacidade virtualmente ilimitada para aprender coisas novas, mesmo em áreas onde a pessoa inicialmente não tenha uma grande habilidade previamente desenvolvida.
Em termos concretos, a neuroplasticidade significa que é possível sim -- através do treinamento consistente -- aprender uma segunda língua depois de adulto ou tornar-se proficiente em leitura ou matemática mesmo com um histórico de dificuldades nessas áreas. A esse  "treinamento consistente", dá-se o nome de prática deliberada, expressão que se consagrou e popularizou nos últimos anos com a publicação do livro "Fora de Série", de Malcom Gladwell, seguido depois por vários outros autores.
Os três pilares
Da discussão anterior é possível resumir três grandes pilares para um autodidatismo competente e eficiente:
·       ter uma vida equilibrada - física e emocionalmente
·       estudar sempre, revisando de forma intervalada
·       fazer uso de técnicas de prática deliberada para consolidar novos conhecimentos e habilidades
É importante ressaltar que esses pilares -- aparentemente simples -- não são técnicas de “autoajuda” baseadas em casos isolados e sem comprovação. Na verdade, eles são derivadas diretamente das mais recentes contribuições da neurociência para a aprendizagem. Vale, portanto, prestar um pouco mais de atenção a eles.


[i] Autora do livro “Histórias de Aprendizagem” (http://www.amazon.com.br/Hist%C3%B3rias-de-Aprendizagem-ebook/dp/B00B8BRKYY/
e do vídeo-blog VideoAulas ByAna (http://www.facebook.com/VideoAulasByAna ), Ana Lopes tem Doutorado em Ciência da Computação e paixão irremediável por aprendizagem.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Plasticidade cerebral

Uma das últimas investigações da neurociência demonstram
que o cérebro pode se regenerar mediante seu uso e potenciação.
A chave para alcançar o sucesso se chama:

“NEUROPLASTICIDADE”
que é moldar a mente, o cérebro, através de uma ou várias atividade(s).

    Plasticidade cerebral é a denominação das capacidades adaptativas do Sistema Nervoso central – sua habilidade para modificar sua organização estrutural própria e funcionamento. É a propriedade do sistema nervoso que permite o desenvolvimento de alterações estruturais em resposta à experiência, e como adaptação a condições mutantes e a estímulos repetidos.
    Há alguns anos admitia-se que o tecido cerebral não tinha capacidade regenerativa e que o cérebro era definido geneticamente, ou seja, possuía um programa genético fixo. No entanto, não era possível explicar o fato de pacientes com lesões severas obterem, com técnicas de terapia, a recuperação da função. O aumento do conhecimento sobre o cérebro mostrou que este é muito mais maleável do que até então se imaginava, modificando-se sob o efeito da experiência, das percepções, das ações e dos comportamentos
“A cada nova experiência do indivíduo, redes de neurônios são rearranjadas, outras tantas sinapses são reforçadas e múltiplas possibilidades de respostas ao ambiente tornam-se possíveis.” (Michael Merzenich)

  O pintor de 41 anos Huang Guofu, natural de Chongqing, na China, aprendeu a dominar o pincel com a boca e com o pé direito depois de ter perdido ambos os braços em um acidente de choque elétrico quando possuía apenas 4 anos de idade.
    O acidente, porém, não o impediu de seguir seus sonhos, e aos 12 anos, começou a pintar com os pés. O talentoso artista lembra que no início suas obras não se pareciam em nada com o que ele pretendia pintar, mas, como o passar dos anos, suas habilidades melhoraram consideravelmente.

sábado, 17 de novembro de 2012

Plasticidade Cerebral de crianças nascidas prematuras

Adolescentes nascidos prematuramente podem ter dificuldades cognitivas e de aprendizagem devido a alterações sutis na neuroquímica cerebral, microestrutura e / ou conectividade neural. Adolescentes nascidos antes ou na  37ª semana também têm baixos níveis de cortisol, um hormônio que desempenha um papel crucial na consolidação de novos conhecimentos.


   Uma nova pesquisa da Universidade de Adelaide tem demonstrado que os adolescentes nascidos prematuramente podem sofrer problemas de desenvolvimento cerebral que afetam diretamente a sua memória e capacidade de aprendizagem. Esta pesquisa, conduzida por doutores  da Universidade de Adelaide Robinson Institute, mostra reduzida "plasticidade" nos cérebros de adolescentes que nasceram prematuros (antes ou às 37ª semanas de gestação). Os resultados da pesquisa foram publicados hoje no Journal of Neuroscience .
     "Plasticidade do cérebro é fundamental para o aprendizado e a memória por toda a vida", diz a Drª. Jarro. "Ele permite que o cérebro  reorganize-se, respondendo às mudanças de comportamento, meio ambiente e estímulos, modificando o número e a força das conexões entre os neurônios e áreas diferentes do cérebro. Plasticidade é também importante para a recuperação de danos cerebrais".
    "Nós sabemos de pesquisas anteriores que crianças nascidas pré-maturas, muitas vezes, apresentam dificuldades no desenvolvimento motor, cognitivo e  na aprendizagem. O crescimento do cérebro é rápido entre as 20ª e 37ª semanas de gestação, e nascer prematuro pode alterar significativamente a microestrutura do cérebro, conectividade neural e neuroquímica".
     "No entanto, os mecanismos que ligam esta fisiologia cerebral alterada com resultados comportamentais - como problemas de memória e de aprendizagem - têm permanecido desconhecido", diz a Drª. Jarro.
     Os pesquisadores compararam os adolescentes nascidos prematuros com os nascidos em tempo normal. Usaram uma técnica não-invasiva de estimulação magnética do cérebro, induzindo respostas do cérebro para se obter uma medida da sua plasticidade. Os níveis de cortisol, normalmente produzidas em resposta ao stress, também foram medidos para melhor compreender as diferenças químicas e hormonais entre os grupos.
     "Os adolescentes nascidos prematuros mostraram claramente neuroplasticidade reduzida em resposta à estimulação do cérebro," diz a Drª. Jarro. "Adolescentes prematuros também tinham níveis baixos de cortisol na saliva, o que foi altamente preditivo desta resposta cerebral reduzida. Muitas vezes as pessoas associam o aumento do cortisol ao estresse,  mas flutua acima e abaixo normalmente, ao longo de cada período de 24 horas e isso desempenha um papel crítico na aprendizagem, na consolidação de novos conhecimentos na memória e na posterior recuperação dessas memórias. Isso pode ser importante para o desenvolvimento de uma possível terapia para superar o problema neuroplasticidade”, diz ela.
     Portanto, as alterações cognitivas de bebês nascidos prematuros, em geral surgem mais tardiamente, afetam especialmente funções cognitivas, como a memória e/ou linguagem, envolvendo principalmente a função de processamento simultâneo e o processamento de informações complexas que requerem raciocínio lógico e orientação espacial e que podem estar associadas a perturbações de déficit de atenção.
     O presente estudo vem ressaltar o que Zomignani et al (2009, p. 203) já haviam publicado sobre o desenvolvimento cerebral de recém- nascidos prematuros,
... a prematuridade pode levar a alterações anatômicas e estruturais do cérebro devido à interrupção das etapas de desenvolvimento pré-natal, a qual prejudica a maturação desse órgão no período pós-natal. Tais alterações podem causar déficits funcionais e as crianças nascidas prematuramente estão mais sujeitas a problemas cognitivos e motores, assim como às suas repercussões nas atividades de vida diária e nas atividades escolares, mesmo na adolescência e idade adulta.


Fonte:
ZOMIGNANI, Andrea. ZAMBELLI, Helder. ANTONIO, Maria. Desenvolvimento cerebral em recém-nascidos prematuros. Revista Paul Pediatrica. 2009. Disponível on line em > http://www.scielo.br/pdf/rpp/v27n2/13.pdf

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Exercite o corpo, exercite o cérebro

Por  Sergio Freitas

    
  A ciência coloca um novo e maravilhoso efeito na lista de benefícios positivos da atividade física: aprimoramento do cérebro humano. As mais recentes descobertas indicam que a prática regular de exercícios físicos ajuda a pensar com mais clareza, melhora a memória e proporciona um grande ganho na aprendizagem. E ainda sugere mudanças mais radicais, como a alteração do próprio órgão, com o nascimento e desenvolvimento de novos neurônios.
   Com um trabalho publicado na revista Curret Topics in Behavioral Neurosciences, a pesquisadora americana Henriette van Praag (Ph.D), uma das mais renomadas cientistas no campo da neurogênese ( nascimento de neurônios), afirma que há maior produção de neurônios e um aumento das substâncias que atuam na nutrição e desenvolvimento dessas células em animais submetidos a exercícios regulares. A cientista detectou ainda que o exercício aumenta a capacidade do cérebro  de se adaptar e criar novas conexões e de remapeamento das conexões das nossas células nervosas, o processo que nos ajuda a continuar a aprender. Ela se refere à maneira como nosso cérebro age e reage, à medida que experimentamos uma mudança em nosso ambiente ou desenvolvemos uma habilidade, a chamada neuroplasticidade.
     Em estudos com ressonância magnética feitos em indivíduos foi possível observar que quem se exercita regularmente produz uma intensa atividade no hipocampo. Essa região cerebral está associada à memória e à aprendizagem e lá estão armazenadas as células-tronco que darão origem aos novos neurônios.

   As relações entre exercícios e cérebro estão no centro das atenções da neurociência por suas implicações imediatas  futuras na vida de milhares de pessoas. Há avanços em diversas frentes. Os cientistas comprovaram, por exemplo, que as vantagens começam com a elevação dos níveis de oxigenação e do fluxo sanguíneo no corpo como um todo. O incremento da circulação também estimula a comunicação mais eficiente entre os neurônios. Consequentemente, a atividade física aumenta ainda mais a produção e a liberação de neurotransmissores (hormônios fabricados pelos neurônios que atuam nas sinapses – a comunicação entre essas células). E tais compostos participam de funções como memória, aprendizagem, emoções, sede, sono, fome, bem-estar, ansiedade e humor.
    O resultado é um reequilíbrio das quantidades dessas substâncias no cérebro, melhorando ainda mais o desempenho, não somente do nosso físico, como também da nossa mente.
Imagem: http://jezebel.uol.com.br/o-que-acontece-com-nosso-cerebro-quando-nos-exercitamos-e-por-que-ficamos-felizes/


Texto extraído do caderno “Viver com Saúde”, Jornal NH.
FREITAS,       Sérgio. Exercite o corpo, exercite o cérebro. Novo Hamburgo: Jornal NH, 2012.


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Contribuições da Neurociência para a Formação de Professores


  
 A educação é uma arte em permanente construção. Tem seu primeiro degrau no olhar sobre a criança de 0 a 6 anos, em creches e pré-escolas, que cresce em importância à medida que a formação desses sujeitos, antes majoritariamente a cargo das famílias, é cada vez mais institucionalizada em creches e pré-escolas.
   Contudo, a educação é o feixe central da interdisciplinaridade que engloba aspectos antropológicos, filosóficos, biológicos e psicológicos da espécie humana. Transpondo essa colocação para o foco desta pesquisa, pode-se dizer que o cérebro desempenha o papel deste feixe na formação do intelecto humano, através de conexões neurais que são a polarização dos opostos em busca de caminhos para o aprendizado.
  Por entender a importância do cérebro no processo de aprendizagem, consideram-se, aqui, as contribuições da Neurociência para a formação de professores, com o objetivo de oferecer aos educadores um aprofundamento a esse respeito, para que se obtenham melhores resultados no processo de ensino-aprendizagem, especialmente, na educação básica.
  A metodologia utilizada caracteriza-se como uma abordagem exploratória do tema alicerçada em pesquisa bibliográfica em autores pertinentes, dentre os quais foram citados Assmann (2001), Bear, Connors, Paradiso (2002), Demo (2001), Fernàndez (1991),Johnson & Myklebust (1983), Markova (2000), Morim (2007; 2002), Smith (1999), Soares (2003),Sternberg & Grigorenko (2003) e Vygotsky (1991). Assim, descrevem-se a função e as finalidades da Neurociência; a relação entre o cérebro e a aprendizagem e as disfunções cerebrais verbais e não verbais.

1.1 FUNÇÃO E AS FINALIDADES DA NEUROCIÊNCIAS

  A Neurociência é e será um poderoso auxiliar na compreensão do que é comum a todos os cérebros e poderá nos próximos anos dar respostas confiáveis a importantes questões sobre a aprendizagem humana, pode-se através do conhecimento de novas descobertas da Neurociência, utilizá-la na nossa prática educativa. A imaginação, os sentidos, o humor, a emoção, o medo, o sono, a memória são alguns dos temas abordados e relacionados com o aprendizado e a motivação. A aproximação entre as neurociências e a pedagogia é uma contribuição valiosa para o professor alfabetizador. Por enquanto os conhecimentos das Neurociências oferecem mais perguntas do que respostas, mas cremos que a Pedagogia Neurocientífica esta sendo gerada para responder e sugerir caminhos para a educação do futuro.


   Ao ignorar as peculiaridades da infância e as bases necessárias ao seu adequado desenvolvimento, a educação infantil brasileira caminha entre acertos e experimentações. É alvo fácil de propostas novidadeiras, por vezes apoiadas em uma visão pseudocientífica, carente de sustentação mais sólida. A bola da vez são as neurociências, mais precisamente as ciências cognitivas, que se propõem a promover uma compreensão maior dos processos de ensino-aprendizagem.
   Enquanto pesquisadores de todo o mundo reforçam a tese de que os primeiros anos são fundamentais para a constituição cerebral, há quem aponte para os perigos desse determinismo científico e de uma visão que induza à hiperestimulação infantil.
  O futuro da neurociência é brilhante. O perigo é que se está no pé da montanha e muitas pessoas pensam que já completamos a escalada. É uma grande montanha e vai levar um século [para que a escalemos]. Não se trata, contudo, de negar a contribuição das neurociências para a esfera pedagógica. A própria história da pedagogia como disciplina acadêmica construiu seus alicerces a partir do diá­logo com diferentes saberes. Traz em sua natureza contribuições que vão da filosofia rousseauniana à Escola Nova da psicologia experimental; da psicogênese descrita por Piaget  (1983); aos estudos antropológicos e, no caso da pedagogia infantil e, também, à visão recente da sociologia da infância, difundida na década de 1990, com quase um século de atraso.
   A questão não é condenar as neurociências. O importante é saber se serão encontradas nelas as contribuições para o que parece central: conhecer o papel da educação infantil. Seu agir educativo deve moldar-se a partir das referências do ensino fundamental ou buscar caminhos para construir sua própria identidade? Enfatizar o que a criança já é ou valorizar o que lhe falta?
   Há conflitos de sobra que precisam ser resolvidos e proposições que parecem transcender a esfera pedagógica e caminhar para um debate que é também ideológico. Afinal, quais são os mitos e as verdades extraídos das recentes descobertas das neurociências e o que de tudo isso interessa à educação, em particular à educação infantil?
   Por enquanto, os conhecimentos oferecem mais perguntas do que respostas, mas cremos que a pedagogia neurocientífica está sendo gerada para responder e sugerir caminhos para a educação do futuro, mas, como alertou o pensador Morin (2007) em palestra realizada em São Paulo, a neurociência, como outros aspectos da evolução humana, carrega em si uma promessa e uma ameaça. A promessa é de um melhor entendimento dos processos cerebrais. A ameaça é bastante cinzenta: a de que esse conhecimento possa levar à pior manifestação totalitária, a de controlar seres humanos com informações advindas do conhecimento científico.


   O foco da educação tem sido o conhecimento a ser ensinado de maneira mecânica e igual a todos os alunos, sem a devida atenção à individualidade, numa demonstração de total falta de consciência da força que possuem os modelos mentais e da influência que eles exercem sobre o comportamento. Por sua vez os alunos, acostumados a perceber o mundo a partir da visão do docente, aceitam passivamente essa proposta pedagógica, desempenhando um papel de receptor de informações, as quais nem sempre são compreendidas e geram conhecimento. Muitas pesquisas no campo educativo apontam o professor como um dos principais protagonistas da educação (DEMO, 2001; ASSMANN, 2001; MORIN, 2002).
   Entretanto, proporcionar uma boa aprendizagem para o aluno não depende só do professor, pois é fundamental para uma educação que pretende ajudar o aluno a perceber sua individualidade, tornando-o também responsável pelo ato de aprender, proporcionar a otimização de suas habilidades, facilitar o processo de aprendizagem e criar condições de aprender como aprender. Nesse contexto conhecer o seu padrão de pensamento pessoal e saber como usá-lo é o primeiro passo para ser um participante ativo no processo de aprender. A compreensão de como podemos lidar com certas características pessoais ajudará o aluno a identificar, mobilizar e utilizar suas características criativas e intuitivas, pois cada um aprende no seu próprio ritmo e à sua maneira.
  É fundamental que professores estimulem individualmente a inteligência das crianças, empregando técnicas que permitam a cada aluno aprender da maneira que é melhor para ele, aumentando sua motivação para o aprendizado, pois cada pessoa tem de encontrar seu próprio caminho, já que não existe um único para todos (STERNBERG & GRIGORENKO, 2003). Considerando que alunos diferentes lembram e integram informações com diferentes modalidades sensoriais, analisar como as pessoas se relacionam, atuam e solucionam problemas, identificar os estilos específicos da aprendizagem, torna-se bastante útil (WILLIAMS, apud MARKOVA, 2000).
    Partindo desse pressuposto, ao professor cabe oferecer, através de sua prática, um ambiente que respeite as diferenças individuais permitindo que os aprendizes se sintam estimulados do ponto de vista intelectual e emocional. Daí a necessidade do educador, consciente de seu papel de interventor responsável pela mediação da informação, buscar estruturar o ensino de modo que os alunos possam construir adequadamente os conhecimentos a partir de suas habilidades mentais. E para isso, é imprescindível que conheçam os significativos estudos da neurociência, uma vez que esses, sem dúvida, influenciam na compreensão dos processos de ensino e de aprendizagem.
   No cérebro humano existem aproximadamente cem bilhões de neurônios (unidade básica que processa a informação no cérebro) e, cada um destes pode se conectar a milhares de outros, fazendo com que os sinais de informação fluam maciçamente em várias direções simultaneamente, as chamadas conexões neurais ou sinapses (BEAR, CONNORS, PARADISO, 2002, p. 704).
   Se os estados mentais são provenientes de padrões de atividade neural, então a aprendizagem é alcançada através da estimulação das conexões neurais, podendo ser fortalecida ou não, dependendo da qualidade da intervenção pedagógica.
   A pesquisa e o interesse em neurociências tem crescido em resposta à necessidade de, não somente entender os processos neuropsicobiológicos normais, mas também para respaldar a ciência da educação.
   É sabido que ocorrem dificuldades de comunicação entre neurocientistas e educadores devido à linguagem diversa empregada em suas terminologias específicas profissionais, bem como a utilização de temas, métodos, lógicas e objetivos diferentes. No entanto, novos desafios históricos têm redimensionado e emergidos novos paradigmas, os quais impulsionam a ciência e a todos aqueles que se preocupam com a integridade humana, nos aspectos físico, emocional e, em particular, sócio-cultural. Nesse âmbito atuam os processos sócio-educacionais, cujos reflexos encontram eco na plasticidade das células cerebrais.

  
 Todas as reflexões desta pesquisa tiveram como intuito maior compreender e ainda que minimamente, contribuir na discussão e na procura de respostas de como instrumentalizar o professor do ensino fundamental, através do conhecimento das conexões neurais e plasticidade cerebral envolvidos no processo de aprendizagem, visto ser este de vital importância para todos os seres humanos. Através da aprendizagem, o indivíduo constrói e desenvolve os comportamentos que são necessários para sua sobrevivência, pois não há realizações ou práticas humanas que não resultem do aprendizado.
  O estudo dos processos de aprendizagem e de todos os fatores que os influenciam, constitui um dos maiores desafios para a educação, pois ao entendê-lo e explicitá-lo, ocorre o desenvolvimento do sujeito dentro do contexto sócio-histórico, e é através dele que se forja a personalidade e a racionalidade humana para que o indivíduo esteja apto a exercer sua função social.
   Durante todo ensino fundamental I, o professor é visto pelo aluno como um exemplo a ser seguindo e sua opinião é de extrema consideração para o aprendiz. Assim, todo e qualquer parecer do professor em relação ao aluno, torna proporções determinantes para a formação da auto-estima do estudante.
Para a sala de aula, para a educação a Neurociência é e será uma grande aliada para identificar cada ser humano, como único e para descobrirmos a regularidade, o desenvolvimento, o tempo de cada um.
    A Neurociência traz para a sala de aula o conhecimento sobre a memória, o esquecimento, o tempo, o sono, a atenção, o medo, o humor, a afetividade, o movimento, os sentidos, a linguagem, as interpretações das imagens que fazemos mentalmente, o "como" o conhecimento é incorporado em representações dispositivas, as imagens que formam o pensamento, o próprio desenvolvimento infantil e diferenças básicas nos processos cerebrais da infância, e tudo isto se torna subsídio interessante e imprescindível para nossa compreensão e ação pedagógica. Os neurônios espelho, que possibilitam a espécie humana progressos na comunicação, compreensão e no aprendizado.        A plasticidade cerebral, ou seja, o conhecimento de que o cérebro continua a desenvolver-se, a aprender e a mudar, até à senilidade ou à morte também altera nossa visão de aprendizagem e educação. Ela nos faz rever o fracasso e as dificuldades de aprendizagem, pois existem inúmeras possibilidades de aprendizagem para o ser humano, do nascimento até a morte.


   

REFERÊNCIAS

AFECHE Solange Castro. 5 ed.São Paulo: Martins Fontes, 1994.
ASSMANN, H. Reencantar a educação: rumo à sociedade aprendente. Petrópolis: Vozes, 2001.
BEAR, M. F.; CONNORS, B. W.; PARADISO, M. A. Neurociências Desvendando o Sistema Nervoso. 2. ed. Porto Alegre, RS: Artmed, 2002.
FONSECA, V. da. Aprender a Aprender: a educatibilidade cognitiva. Porto Alegre: Artmed, 1998.
COLE. M.; SCRIBNER, S. Introdução. In: VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. Org. Michael Cole et AL.Tradução José Cipolla Neto; Luís Silveira Menna Barreto; Solange Castro Afeche. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998. pp. 3-19.
DAMÁSIO, A R. O Erro de Descartes. São Paulo: Cia das Letras, 1996.
DEMO, P. Saber Pensar. 2. ed., São Paulo: Cortez, 2001.
D' EUS, Caravansarai,. Rio de Janeiro. 2003.
FERNÀNDEZ,  A. A Inteligência Aprisionada: abordagem psicopedagógica clínica da criança e sua família. Porto Alegre. Artes Médicas, 1991.
JOHNSON, D J e MYKLEBUST, H. R.  O cérebro e a aprendizagem. São Paulo: Pioneira, 1987.
JOHNSON, D. & MYKLEBUST, H. R.Distúrbios de Aprendizagem. Tradução do inglês de Maria Zanella Sanvicentes.S. Paulo: Pioneira. 1983.
MARKOVA D. O natural é ser inteligente: padrões básicos de aprendizagem a serviço da criatividade e educação. São Paulo: Summus, 2000.
MORIN, E. Palestra em dezembro/2007. Disponível em http://revistaeducacao. uol.com. br. textos.asp?codigo=12337. Acesso em 30.dez.2007.
MORIN, E. A cabeça bem-feita: repensar a reforma reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.
ROGERS, Carl. Liberdade para aprender. Belo Horizonte: Interlivros, 1967.
SMITH, Frank. Leitura Significativa. 3.ed. Porto Alegre: Artmed, 1999.
SOARES, D. Os Vínculos como passaporte da Aprendizagem: Um encontro, 2003.
STERNBERG, R. J. & GRIGORENKO, E. L. Inteligência Plena : ensinando e incentivando a aprendizagem e a realização dos alunos. Porto Alegre: ARTMED, 2003.
VISCA, J. Clínica Psicopedagógica: Epistemologia Convergente. Porto Alegre: Artes Médicas, 1987.
VYGOTSKY, L.S.A Formação social da mente. Trad. José Cipólio Neto et al. São Paulo: 1991.



sábado, 25 de agosto de 2012

Revista com assuntos sobre o cérebro


      Para aqueles que têm boa compreensão na leitura em espanhol e gostam de assuntos relativos ao cérebro, segue o link abaixo no qual poderão baixar a revista eletrônica conforme indicada na imagem... 
Obs.: Muito bom o material
http://www.mediafire.com/?laaz1dkkw1jlj16

domingo, 8 de julho de 2012

Ciência e Cognição

Ciência e cognição é o título da revista eletrônica editada pelo  Instituto de Ciências Cognitivas (ICC). É uma revista multidisciplinar que publica artigos científicos de colaboradores nacionais e internacionais, em português, espanhol, e inglês, após revisão por pares antes da publicação. Desde 2004, a revista publica artigos originais sobre temas relativos a processos cognitivos (produção, circulação e recepção) sob enfoque de vários campos acadêmicos. Desde sua criação, vem sendo publicada regularmente, com volumes quadrimestrais (março, julho e novembro), e sem interrupção.
Para ter acesso as informações contidas nestas publicações basta acessar o site http://www.cienciasecognicao.org/

sábado, 30 de junho de 2012

Minha paixão pela neuropsicopedagogia


Ana Lúcia Hennemann

     Minha paixão sempre foi trabalhar em contextos educacionais. Os educandos sempre nos trazem ânimo e vigor, estão sempre nos proporcionando momentos de aprendizagens.
     Quando acadêmica no Curso Normal Superior tive minhas primeiras cadeiras voltadas à Psicopedagogia. O encantamento pelo processo psicopedagógico, as vivências de algumas técnicas de intervenção, perceber que a inclusão é algo possível e viável me proporcionaram aberturas para novos horizontes, pois podemos fazer mais do que simplesmente aquilo que o contexto educativo nos apresenta.
     Logo após veio a Pós em Neuropsicopedagogia e tudo aquilo que aprendi na faculdade ganhou maior significado. O conhecimento das Neurociências despertou em mim o desejo de saber mais, estudar mais. Elencar novas prioridades em minha vida, entender que através de nossos estudos estamos colaborando para melhorar a qualidade de vida de outras pessoas. Entender as bases neurais do comportamento humano, ter conhecimento da neuroplasticidade, relacionar aprendizagem e cérebro são aspectos fascinantes que a Neuropsicopedagogia nos proporciona.
    Ser Neuropsicopedagogo é um compromisso sério e de muita responsabilidade, pois diariamente novos conhecimentos do cérebro vêm sendo apresentados, novos livros e técnicas de estimulação surgem em diversos contextos da educação. Precisamos estar em constante reciclagem, o fazer neuropsicopedagógico nos exige dedicação e constante atualização, mas se você se permite apaixonar-se pela Neuropsicopedagogia, ela te contagia e mesmo sem perceber já estará em busca do mais.