O caso relato a história de uma garota onde o hemisfério cerebral esquerdo não se desenvolveu então, o direito assumiu todas as funções. Segundo Cosenza, o cérebro que se desenvolveu de forma
diferente por fatores genéticos ou que sofreu modificações devido a condições da
gestação apresentará comportamentos diferentes e necessitará de estratégias
pedagógicas distintas durante a aprendizagem. Enfim, há necessidade do
investimento em muitos estímulos para que ocorra a neuroplasticidade.
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domingo, 2 de junho de 2013
domingo, 28 de abril de 2013
Hipnose: o poder elástico do cérebro
Fonte: Ciência
e Vida
A plasticidade do cérebro e outras possibilidades por meio
da hipnose moderna trazem um novo caminho para o psicólogo e outros
profissionais da saúde, com resultados comprovados e eficazes
A hipnose é definida como um estado alterado de consciência
ampliada, em que o sujeito permanece acordado todo o tempo, experimentando
sensações, sentimentos, talvez tendo imagens, regressões, anestesia, analgesias
e outros fenômenos enquanto está nesse estado. Assim, poucas palavras têm o
poder de despertar reações tão hipnóticas quanto o próprio termo hipnose. A
prática moderna da hipnose se estende atualmente por diversas áreas, como a
Medicina, a Odontologia e a Psicologia. Podemos afirmar que a sua utilização se
encontra presente em toda história da humanidade. Os acontecimentos chamados
hipnóticos fazem parte da vida dos seres humanos continuamente. Todos os dias e
a cada instante estamos embutidos nesse chamado “estado alterado de
consciência”.
Algumas pessoas a consideram um embuste ou algo que só serve
para fazer com que alguém tenha ações específicas: agir como animais ou provar
alimentos picantes. Há quem acredite que cura todos os tipos de patologias e há
aqueles que a acham tão perigosa que deveria ser completamente abandonada.
O Dr. Milton Erickson estudou profundamente a hipnose e seus
fenômenos durante toda sua vida, demonstrando-a como um fenômeno natural da
mente humana, bem como sua existência e efeitos no cotidiano. Uma das suas
contribuições para a Psicologia foi o conceito de utilização da realidade individual
do paciente, a terapia naturalista, as diferentes formas de comunicação
indireta, a técnica de confusão e de entremear. Dessa forma, o legado do Dr.
Erickson contribuiu para diversas escolas e campos de conhecimento que tratam
da relação entre cognição, comportamento e atividade do sistema nervoso em
condições normais ou patológicas, como o caso da própria neuropsicologia, que
tem caráter multidisciplinar e apoio na Anatomia, Fisiologia, Neurologia,
Psicologia, Psiquiatria e Etologia, entre outras ciências. Assim, a questão que
fica: seria possível promover a reabilitação neuropsicológica pelo princípio da
plasticidade cerebral através das ferramentas de hipnose?
A prática moderna da hipnose se estende atualmente por
diversas áreas, como a Medicina, a Odontologia e a Psicologia
A melhor resposta pode ser descrita pelo próprio Milton
Erickson, ele mesmo acometido pela poliomielite e suas consequências que o
acompanharam durante a vida. Dr. Erickson, em muitos de seus artigos, livros e
seminários didáticos, relatava que usava o próprio transe hipnótico como uma
forma de manter um estado adequado, sem dor e, consequentemente, viver melhor.
Dessa forma, percebemos a autohipnose como uma ferramenta importante nessa
intervenção cerebral.
Pesquisas recentes
As pesquisas atuais estão avançando no sentido de aprofundar
os conhecimentos sobre os mecanismos de recuperação funcional, bem como sobre
os fatores relacionados às variações interindividuais. Novas abordagens quanto
aos dados empíricos permitem delinear uma nova visão do sistema nervoso como um
órgão dinâmico, constituindo uma unidade funcional com o corpo e o ambiente.
Atualmente, quando se fala em reabilitação neuropsicológica,
devemos pensar que existem técnicas de reabilitação que podem atuar em níveis
diferentes, como o treino cognitivo que trabalha a restauração da função, as
estratégias compensatórias (internas ou externas), que atuam no nível da
atividade, e participação social, com o intuito de tornar o indivíduo mais
participativo. Além disso, é comum nos programas de reabilitação a utilização
de diferentes técnicas com cada tipo de paciente, como atendimento individual e
em grupo, psicoterapia para ampliação da percepção e aceitação dos déficits,
orientação e replanejamento vocacional. O profissional em reabilitação tem de
buscar algo que vá ao encontro das necessidades de cada paciente e o contexto
biopsicossocial no qual está inserido.
Partindo do pressuposto de que existem diversas técnicas de
reabilitação, o interessante é realizar uma discussão sobre o uso da hipnose
enquanto ferramenta em reabilitação neuropsicológica, especificamente atuando
em neuroplasticidade.
A plasticidade cerebral pode ser definida como uma mudança
adaptativa na estrutura e função do sistema nervoso que ocorre em qualquer fase
do desenvolvimento, como funções de interação com o meio ambiente interno e
externo, ou ainda como resultante de lesões que afetam o ambiente neuronal.
Além disso, a plasticidade cerebral constitui-se de um processo dinâmico, em
que se relacionam as estruturas e suas funções, proporcionando respostas
adaptativas que são impulsionadas por desafios do meio ou alguma lesão, se
mantendo ativa, em diferentes graus, durante toda a vida inclusive na velhice.
Os neurocientistas constataram que o grau de
neuroplasticidade varia conforme a idade do indivíduo. Como exemplo, durante o
desenvolvimento ontogenético, o sistema nervoso é mais plástico. Essa é a fase
da vida do indivíduo onde tudo se constrói e se molda de acordo com o genoma e
as influências do ambiente. Porém, mesmo durante o desenvolvimento, existe uma
fase de maior plasticidade denominada período crítico, na qual o sistema
nervoso é mais suscetível às transformações provocadas pelo meio ambiente
externo. Após o organismo ultrapassar essa fase e atingir a maturidade, sua
capacidade plástica diminui, se modifica, mas não se extingue. Há várias formas
de neuroplasticidade, como: regeneração, plasticidade axônica, plasticidade
sináptica, plasticidade dendrítica e plasticidade somática.
Para pensar no poder elástico do cérebro e relacionar com a
hipnose moderna empregada pelo Dr. Milton Erickson é necessário verificar,
dentro da própria vida deste, uma similaridade curativa, onde essa
neuroplasticidade desempenhou um papel de reestruturação nele mesmo, como
descrito acima.
Nessa interrelação sistêmica, entre corpo e ambiente,
podemos estabelecer uma percepção avançada ao ver que Dr. Erickson, por si
mesmo, desenvolveu um tipo especial de concentração mental para qualquer
movimento mínimo, refazendo mentalmente cada movimento repetidas vezes, de
forma a fazer uma nova ligação de aprendizado entre os fatores pensantes da sua
subjetividade e a reação física dos movimentos. A comprovação dessa prática
fora descrita nos artigos médicos acadêmicos que ele havia escrito. Outras
enfermidades também acompanharam a vida de Erickson, como o daltonismo e a
deficiência auditiva, podendo parecer para qualquer pessoa como problemas ou
grandes dificuldades para viver. Mas Dr. Erickson descreveu e utilizou destas
os seus próprios recursos para desenvolver uma abordagem terapêutica que se
tornou reconhecida pela eficácia e elegância de aplicação, utilização e resultados
imediatos, além da reabilitação neuropsicológica autoapresentada.
Erickson estudou profundamente a hipnose e seus fenômenos
durante toda sua vida, demonstrando-a como um fenômeno natural.
PRESENTE DE GREGO?
A hipnose ericksoniana pode ser vista como um “cavalo de
troia”, em que é ofertado um presente disfarçado ao sujeito, no qual este,
nessa condição, recebe e se faz elaborar internamente questões e ensaios, como
uma espécie de trabalho que nasce de dentro, recuperando neurônios ao gerar a
plasticidade cerebral necessária para a reabilitação funcional. Através da
própria sugestão (autohipnose) ou ao induzir pacientes pelo instrumento da
hipnose, podemos criar novas representações subjetivas, novas ressignificações
e novas conexões; dessa forma, manter um ambiente interno capaz de promover
mudanças ou simplesmente ajudar o sujeito a encontrar recursos internos para
auxílio na reabilitação neuropsicológica.
Uma das formas de aplicação da hipnose elaborada pelo Dr.
Erickson está na maestria da utilização da linguagem analógica, por comparação,
em que as metáforas, alegorias e anedotas faziam um papel desse “cavalo de
troia” mencionado anteriormente, um disfarce linguístico na condução do transe
hipnótico.
Ao observar a forma de trabalho hipnótico do Dr. Erickson,
pode-se perceber a clara intenção de ofertar presentes linguísticos ao
inconsciente do sujeito hipnotizado. Quando Erickson contava a um paciente
sobre o caso de outro paciente, na verdade sua intenção esperada seria que o
próprio paciente fizesse a relação com sua história de vida. Se o relato
tivesse uma solução ou alternativa para um problema que estava sendo
trabalhado, o paciente encontraria relações com esse fato, se comparando ao
mesmo e encontrando na sua própria história recursos internos para
enfrentamento da situação problema.
Para ilustrar tal metodologia, podemos citar Rosen (1982),
em que o Dr. Erickson utilizava uma passagem de sua própria história, quando
criança, com a intenção de estabelecer vínculo com o paciente e permitir que o
mesmo falasse de seu problema, com confiança e assertividade necessárias. “É...
você sabe, bom... vou iniciar nossa sessão contando um trecho interessante da
minha vida... foi assim: ...muita gente estava preocupada comigo porque eu já
tinha quatro anos de idade e ainda não falava e uma irmãzinha minha, dois anos
mais nova, já falava, e continua falando, mas até agora não disse quase nada.
E... muitos ficavam aflitos porque eu era um menino de quatro anos que não
podia falar... Minha mãe dizia confiante: ‘vai falar quando chegar a hora’”
(ROSEN, 1982, p. 67).
Novas abordagens quanto aos dados empíricos permitem
delinear uma nova visão do sistema nervoso como um órgão dinâmico
Dessa forma, o paciente poderia elaborar o melhor momento
para falar com confiança. Como Rosen (1982) menciona, nesse exemplo se destaca
a convicção do Dr. Erickson de que se pode confiar que a mente inconsciente
terá as respostas certas no momento oportuno. E, se essa história fosse contada
a um paciente que começa a experimentar o transe hipnótico, poderia
tranquilizá-lo no sentido de que pode aguardar, sem preocupações, até que
apareça o impulso para falar algo relevante, ou até que possa revelar, de uma
maneira não verbal, as suas mensagens inconscientes.
Ao pensar dessa forma, poderíamos trazer a seguinte questão:
“O que aconteceria se fosse dada uma relação metafórica para um paciente em
reabilitação neuropsicológica de que outra pessoa conseguiu resultados
importantes com determinado pensamento ou atividade?”. Se a metodologia e
ferramentas aplicadas pelo Dr. Erickson estiverem certas, a reabilitação
neuropsicológica estaria sendo auxiliada pela linguagem e comunicação do
psicoterapeuta, favorecendo assim a neuroplasticidade e provável recuperação de
um paciente.
Ao tratarmos de conhecimento científico, é necessário
enfatizarmos que este pode criar paradigmas, conceitos e visões referentes ao
mundo, à maneira como encaramos a nós mesmos, nosso cérebro e as relações
externas que nos cercam. A ciência cria modelos teóricos com suas visões sobre
como operamos no mundo, desenvolvemos nossa personalidade, construímos nossa
subjetividade e o modo como nosso cérebro se desenvolve e se adapta. Tais
modelos teóricos estão em constantes mudanças e recriações.
É justamente nesse ponto que se concebe que o legado de
Erickson consiste prioritariamente em um presente de grego, na medida em que
convida seus interlocutores às transformações profundas não apenas em suas
formas de abordagem terapêutica, mas também a uma revisão crítica de todos os
momentos e situações onde o conhecimento se constrói.
O profissional em reabilitação tem de buscar algo que vá ao
encontro das necessidades de cada paciente
PAPEL DO TERAPEUTA
Em Psicologia, podemos levar esse conhecimento a novos
caminhos, indo além de simples acolhimentos a pacientes com lesões funcionais,
mas podendo influenciar positivamente na reconstrução e reabilitação do sujeito
atendido.
O papel do psicólogo como profissional deve carregar um
arquétipo de curador, em que sua figura traz conforto, aceitação e,
principalmente, a esperança de recuperação. Neste momento, fica a importância
de esse profissional perceber que o ser humano é constituído pelo princípio do
biológico, psicológico e social. Naturalmente, através da constante pesquisa e
desenvolvimento de novas técnicas, nós, os psicólogos, podemos agregar mais e
ajudar outros profissionais da área médica na recuperação de pacientes com
lesões neuropsicológicas.
Quando consideramos a hipnose como instrumento ou
simplesmente como uma forma de comunicação, abre-se a escolha para todas as
linhas terapêuticas, seja comportamental, humanista, psicanalista ou cognitiva.
Partimos do pressuposto de que, para atuar, o psicólogo precisa se comunicar e
comunicação é redundância, sempre estamos comunicando algo. A hipnose moderna,
termo considerado após Erickson, é uma forma de comunicação elegante, às vezes
formalmente, com os olhos fechados em profundo estado alterado de consciência
ou simplesmente de forma coloquial, como uma conversa, ao contar uma história
ou relatar um fato, pode trazer dentro desse conto uma semente de mudança em
reabilitação. O poder elástico do cérebro, sua plasticidade e outras
possibilidades através da hipnose moderna trazem um novo caminho para o
psicólogo e outros profissionais da saúde, com resultados comprovados e
eficazes. Ignorar esse conhecimento pode significar ignorar as próprias
condições do ser humano e do profissional psicólogo, onde a curiosidade por
novas descobertas trará novos resultados no futuro.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
Autodidatismo amigável ao cérebro: três pilares
Tudo leva a crer
que as mudanças na educação finalmente terão que acontecer, seja pela evolução
da escola atual ou pelo seu colapso. No
entanto, o sistema formal de ensino é um organismo gigantesco e complexo, que
tem seguidamente mostrado dificuldades em incorporar os avanços da ciência e da
tecnologia no seu dia-a-dia no ritmo necessário. É conhecida a piada que diz
que se um cidadão do século XIX viajasse no tempo e viesse parar nos dias de
hoje, a única coisa que ele reconheceria sem dificuldades seria a sala de
aula...
Enquanto isso, o
mundo caminha a passos largos para um futuro onde a capacidade de digerir e
apreender grandes quantidades de informação será tão fundamental quanto a
capacidade de ler e escrever é hoje em dia. Para tornar a situação um pouco
mais complicada, a quantidade de dados novos sendo gerada a cada instante pela
humanidade tende ao infinito. A cada minuto, nós produzimos mais informação do
que é humanamente possível consumir em um ano. Ou seja, precisamos saber
aprender muito, e rápido.
Mas enquanto
isso não acontece, o que nós -- filhos dos últimos suspiros do sistema
educacional "industrial" -- fazemos para lidar com esse
"admirável mundo novo"?
A resposta está
na busca da autonomia cognitiva: precisamos
aprender a aprender sozinhos ou com bem pouca ajuda. As gerações atuais não
podem se dar ao luxo de esperar que os educadores passem a ser realmente mais
um auxílio e menos um empecilho a nossa aprendizagem. Em outras palavras,
precisamos ser autodidatas e construir nossos próprios caminhos de
aprendizagem.
O primeiro passo
nessa direção é entender como nossos cérebros aprendem, e, a partir desse
conhecimento, criar para nós mesmos as condições que a escola de hoje não
consegue proporcionar para aprender de forma eficiente e eficaz. Mas em que a
neurociência contemporânea pode ajudar neste desafio de nos tornarmos os nossos
próprios educadores?
Um
pouco de história
A década de 90
ficou conhecida como a década do cérebro, e a principal responsável pelo início
daquela que foi uma verdadeira revolução no conhecimento desta pequena
maravilha que temos entre as duas orelhas foi invenção da ressonância magnética
funcional (RMF). Capaz de registrar o funcionamento do cérebro em imagens, e
sem a necessidade do uso de radiação, a RMF tornou possível o estudo extensivo
e ao vivo de cérebros saudáveis, enquanto as pessoas realizavam diferentes
atividades cognitivas.
Não demorou
muito para que educadores e pessoas interessadas em aprendizagem se
interessassem pelas novidades que estavam sendo descobertas todos os dias nos
laboratórios dos neurocientistas. Afinal, o sistema educacional no mundo todo
já dava sinais da imensa crise que atravessa hoje, e era natural que se
começasse a procurar saídas.
A seguir, são
discutidas algumas das principais descobertas da neurociência que afetam
diretamente a aprendizagem. Em seguida são apresentadas algumas ideias de como
pessoas autodidatas podem utilizar esses conhecimentos para aprender mais e
melhor por conta própria.
Sinto,
logo existo
Está cada vez
mais claro que as emoções afetam diretamente e de
forma mensurável a capacidade de aprender.
Esta descoberta que não chega a surpreender, já que confirma aquilo que qualquer
aprendiz já sabe por experiência própria: estudar irritado com a discussão
havida ontem com o colega de trabalho não funciona muito bem. Nesse caso, é
melhor usar os neurônios buscando soluções para o problema, para depois retomar
o estudo com mais foco e concentração.
Mas é possível
ir um pouco além do óbvio aqui: a relação entre emoções e
capacidade de aprendizagem deixa claro que uma vida equilibrada é fundamental
na conquista da autonomia cognitiva.
Estudar horas a fio e deixar outros aspectos importantes da vida sem a devida
atenção normalmente é menos eficiente
que estudar por um tempo menor. Claro, supondo que usamos o restante do tempo
para garantir as condições psicológicas necessárias para nos concentrarmos
naquilo que estamos tentando aprender.
Formação
da Memória
Apesar da
má-fama da tenebrosa "decoreba", o fato é que sem memória, não há
aprendizagem. A diferença é que a "decoreba" é a memorização mecânica
e sem significado, que se perde rapidamente após alguns dias. Já uma
boa memória de longo prazo (MLP) é essencial para aprendizagem e se constrói
através de associações significativas com aquilo que já se conhece, além de repetições que reforcem a rede neuronal
responsável por essas novas associações.
Uma das
descobertas de aplicação prática mais imediata nesta área é o papel fundamental
do sono na consolidação da MLP. Ou seja, dormir mais tarde para estudar pode
não estar sendo tão proveitoso quanto você imagina: você pode até estudar mais
tempo, e eventualmente aumentar a sensação de "dever cumprido", mas
na prática acaba aprendendo menos.
Outro fator
fundamental para uma memorização eficiente é o intervalo entre as repetidas
exposições à mesma informação. A consolidação da memória é, essencialmente, um
processo químico, e como tal, não acontece instantaneamente. Ao contrário, as pesquisas
mostram que é preciso um intervalo de tempo significativo para uma certa
quantidade de informação "assentar" nos nossos neurônios. Esse "assentamento" se traduz
concretamente no engrossamento da camada de mielina que recobre o caminho
neuronal recém-formado. E quanto mais mielina em uma rede de neurônios, mas
rapidamente a informação trafega nesse caminho, e menos esforço é necessário
para nos lembrarmos das informações contidas nele.
Experimentos práticos
com estudantes como os da “aprendizagem
espaçada” (link) mostram que intervalos em torno de 10 minutos entre sessões
de estudo podem multiplicar muitas vezes a eficiência da memorização de grandes
quantidades de informações.
Em resumo, para
termos uma boa memória (e portanto aprender mais) precisamos revisar as novas
informações em intervalos regulares e dormir tudo o que o nosso cérebro tem
direito.
Para
aprender, tem que se mexer!
Neste item, as
escolas estão totalmente na contramão da ciência. A movimentação do corpo
aumenta o fluxo sanguíneo no cérebro, melhorando a sua nutrição e oxigenação, o
que comprovadamente melhora a aprendizagem. Ou seja, do ponto de vista do nosso
cérebro, as famigeradas filas de carteiras apertadas onde os estudantes são
obrigados a ficar sentados por horas a fio estão bem longe de representar o
cenário ideal para a aprendizagem.
Isso também vale
para aquela escrivaninha em que passamos horas e horas sem sequer levantar para
beber água. Além de não dar os intervalos necessários para a formação da
memória, essa situação pode, literalmente, deixar seu cérebro dormente!
A incorporação
dessa informação na nossa vida de autodidatas pode ser feita sob dois pontos de
vista: um deles é a prática de exercícios regulares. O outro é a movimentação durante pelo
menos alguns dos nossos períodos de estudo. Ou
seja, por incrível que pareça, aquela caminhada no parque que você faz ouvindo
uma aula gravada pode ser bem mais produtiva que ouvir o mesmo material na
própria sala de aula ou deitado no sofá. Não só porque você está aproveitando o
tempo, mas também porque o seu cérebro está em melhores condições de capturar a
informação.
Neurogênese:
nunca é tarde para aprender
As descobertas
mais festejadas dos últimos anos giram em torno da neurogênese, o processo de
formação de novos neurônios. Até bem pouco tempo atrás, acreditava-se que
neurônios só eram formados durante a infância. Mas hoje, está comprovado que a
neurogênese ocorre durante toda a vida. Na
vida adulta, ela se concentra em uma área do cérebro chamada de hipocampo, que
é justamente onde a memória de longo prazo é formada. Ora, se aprender é
armazenar informações significativas na memória de longo prazo, a consequência
é óbvia desse fato é: podemos sim, aprender coisas completamente novas a partir
de qualquer idade. As universidades da Terceira Idade estão aí para comprovar.
Neuroplasticidade:
nem tudo está perdido
Atualmente
sabe-se que, além de formar novos neurônios, o cérebro é capaz de modificar a
sua estrutura em qualquer momento da vida. Novas conexões entre os neurônios
são formadas o tempo todo, e redes cerebrais inteiras podem literalmente
"migrar" de um lugar para o outro em caso de necessidade.
A
neuroplasticidade significa que grande parte dos danos físicos que podem acontecer ao cérebro tem boas
chances de ser recuperados com “re-treinamento” da pessoa para as funções
afetadas, que passam pouco a pouco a ser controladas por outras regiões
diferentes daquelas originalmente utilizadas. É o caso de pessoas que ficam
cegas e passam a usar o córtex visual para funções de tato, por exemplo.
A palavra-chave
do parágrafo anterior é "re-treinamento". Quando estamos falando de
aprendizagem, a neuroplasticidade comprova a nossa capacidade virtualmente
ilimitada para aprender coisas novas, mesmo em áreas onde a pessoa inicialmente
não tenha uma grande habilidade previamente desenvolvida.
Em termos
concretos, a neuroplasticidade significa que é possível sim -- através do
treinamento consistente -- aprender uma segunda língua depois de adulto ou
tornar-se proficiente em leitura ou matemática mesmo com um histórico de
dificuldades nessas áreas. A esse
"treinamento consistente", dá-se o nome de prática deliberada,
expressão que se consagrou e popularizou nos últimos anos com a publicação do
livro "Fora de Série", de Malcom Gladwell, seguido depois por vários
outros autores.
Os
três pilares
Da discussão
anterior é possível resumir três grandes pilares para um autodidatismo
competente e eficiente:
· ter
uma vida equilibrada - física e emocionalmente
· estudar
sempre, revisando de forma intervalada
· fazer
uso de técnicas de prática deliberada para consolidar novos conhecimentos e
habilidades
É importante
ressaltar que esses pilares -- aparentemente simples -- não são técnicas de “autoajuda”
baseadas em casos isolados e sem comprovação. Na verdade, eles são derivadas
diretamente das mais recentes contribuições da neurociência para a
aprendizagem. Vale, portanto, prestar um pouco mais de atenção a eles.
[i] Autora do livro “Histórias de Aprendizagem” (http://www.amazon.com.br/Hist%C3%B3rias-de-Aprendizagem-ebook/dp/B00B8BRKYY/
)
e do vídeo-blog VideoAulas ByAna (http://www.facebook.com/VideoAulasByAna
), Ana Lopes tem Doutorado em Ciência da Computação e paixão irremediável por
aprendizagem.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Plasticidade cerebral
Há alguns anos admitia-se que o tecido cerebral não tinha
capacidade regenerativa e que o cérebro era definido geneticamente, ou seja,
possuía um programa genético fixo. No entanto, não era possível explicar o fato
de pacientes com lesões severas obterem, com técnicas de terapia, a recuperação
da função. O aumento do conhecimento sobre o cérebro mostrou que este é muito
mais maleável do que até então se imaginava, modificando-se sob o efeito da
experiência, das percepções, das ações e dos comportamentos
“A cada nova experiência do indivíduo, redes de
neurônios são rearranjadas, outras tantas sinapses são reforçadas e múltiplas
possibilidades de respostas ao ambiente tornam-se possíveis.” (Michael Merzenich)
O pintor de 41 anos Huang Guofu, natural de
Chongqing, na China, aprendeu a dominar o pincel com a boca e com o pé direito
depois de ter perdido ambos os braços em um acidente de choque elétrico quando
possuía apenas 4 anos de idade.
O acidente, porém, não o impediu de seguir seus sonhos, e
aos 12 anos, começou a pintar com os pés. O talentoso artista lembra que no
início suas obras não se pareciam em nada com o que ele pretendia pintar, mas,
como o passar dos anos, suas habilidades melhoraram consideravelmente.
sábado, 17 de novembro de 2012
Plasticidade Cerebral de crianças nascidas prematuras
Adolescentes
nascidos prematuramente podem ter dificuldades cognitivas e de aprendizagem
devido a alterações sutis na neuroquímica cerebral, microestrutura e / ou
conectividade neural. Adolescentes nascidos antes ou na 37ª semana também têm
baixos níveis de cortisol, um hormônio que desempenha um papel crucial na
consolidação de novos conhecimentos.
Uma nova
pesquisa da Universidade de Adelaide tem demonstrado que os adolescentes
nascidos prematuramente podem sofrer problemas de desenvolvimento cerebral que
afetam diretamente a sua memória e capacidade de aprendizagem. Esta pesquisa,
conduzida por doutores da Universidade de
Adelaide Robinson Institute, mostra reduzida "plasticidade" nos
cérebros de adolescentes que nasceram prematuros (antes ou às 37ª semanas de
gestação). Os
resultados da pesquisa foram publicados hoje no Journal of Neuroscience .
"Plasticidade
do cérebro é fundamental para o aprendizado e a memória por toda a vida",
diz a Drª. Jarro. "Ele permite que o cérebro reorganize-se, respondendo às mudanças de
comportamento, meio ambiente e estímulos, modificando o número e a força das
conexões entre os neurônios e áreas diferentes do cérebro. Plasticidade é
também importante para a recuperação de danos cerebrais".
"Nós
sabemos de pesquisas anteriores que crianças nascidas pré-maturas, muitas vezes,
apresentam dificuldades no desenvolvimento motor, cognitivo e na aprendizagem. O crescimento do cérebro é
rápido entre as 20ª e 37ª semanas de gestação, e nascer prematuro pode alterar significativamente a microestrutura do cérebro, conectividade
neural e neuroquímica".
"No
entanto, os mecanismos que ligam esta fisiologia cerebral alterada com
resultados comportamentais - como problemas de memória e de aprendizagem - têm
permanecido desconhecido", diz a Drª. Jarro.
Os
pesquisadores compararam os adolescentes nascidos prematuros com os nascidos em
tempo normal. Usaram uma técnica não-invasiva de estimulação magnética do
cérebro, induzindo respostas do cérebro para se obter uma medida da sua
plasticidade. Os níveis de cortisol, normalmente produzidas em resposta ao
stress, também foram medidos para melhor compreender as diferenças químicas e
hormonais entre os grupos.
"Os
adolescentes nascidos prematuros mostraram claramente neuroplasticidade
reduzida em resposta à estimulação do cérebro," diz a Drª. Jarro. "Adolescentes
prematuros também tinham níveis baixos de cortisol na saliva, o que foi
altamente preditivo desta resposta cerebral reduzida. Muitas vezes as pessoas
associam o aumento do cortisol ao estresse, mas flutua acima e abaixo
normalmente, ao longo de cada período de 24 horas e isso desempenha um papel
crítico na aprendizagem, na consolidação de novos conhecimentos na memória e na
posterior recuperação dessas memórias. Isso pode ser importante para o
desenvolvimento de uma possível terapia para superar o problema
neuroplasticidade”, diz ela.
Portanto, as
alterações cognitivas de bebês nascidos prematuros, em geral surgem mais
tardiamente, afetam especialmente funções cognitivas, como a memória e/ou
linguagem, envolvendo principalmente a função de processamento simultâneo e o
processamento de informações complexas que requerem raciocínio lógico e
orientação espacial e que podem estar associadas a perturbações de déficit de
atenção.
O presente
estudo vem ressaltar o que Zomignani et al (2009, p. 203) já haviam publicado
sobre o desenvolvimento cerebral de recém- nascidos prematuros,
... a prematuridade pode levar a alterações anatômicas
e estruturais do cérebro devido à interrupção das etapas de desenvolvimento
pré-natal, a qual prejudica a maturação desse órgão no período pós-natal. Tais
alterações podem causar déficits funcionais e as crianças nascidas prematuramente
estão mais sujeitas a problemas cognitivos e motores, assim como às suas repercussões
nas atividades de vida diária e nas atividades escolares, mesmo na adolescência
e idade adulta.
Fonte:
ZOMIGNANI, Andrea. ZAMBELLI, Helder. ANTONIO,
Maria. Desenvolvimento cerebral em recém-nascidos prematuros. Revista Paul
Pediatrica. 2009. Disponível on line em > http://www.scielo.br/pdf/rpp/v27n2/13.pdf
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
Exercite o corpo, exercite o cérebro
Por Sergio Freitas
A ciência coloca um novo e maravilhoso efeito na lista
de benefícios positivos da atividade física: aprimoramento do cérebro humano.
As mais recentes descobertas indicam que a prática regular de exercícios
físicos ajuda a pensar com mais clareza, melhora a memória e proporciona um
grande ganho na aprendizagem. E ainda sugere mudanças mais radicais, como a
alteração do próprio órgão, com o nascimento e desenvolvimento de novos neurônios.
Com um trabalho publicado na revista Curret Topics in
Behavioral Neurosciences, a pesquisadora americana Henriette van Praag (Ph.D),
uma das mais renomadas cientistas no campo da neurogênese ( nascimento de
neurônios), afirma que há maior produção de neurônios e um aumento das
substâncias que atuam na nutrição e desenvolvimento dessas células em animais
submetidos a exercícios regulares. A cientista detectou ainda que o exercício
aumenta a capacidade do cérebro de se
adaptar e criar novas conexões e de remapeamento das conexões das nossas
células nervosas, o processo que nos ajuda a continuar a aprender. Ela se
refere à maneira como nosso cérebro age e reage, à medida que experimentamos
uma mudança em nosso ambiente ou desenvolvemos uma habilidade, a chamada
neuroplasticidade.
Em estudos com ressonância magnética feitos em
indivíduos foi possível observar que quem se exercita regularmente produz uma
intensa atividade no hipocampo. Essa região cerebral está associada à memória e
à aprendizagem e lá estão armazenadas as células-tronco que darão origem aos
novos neurônios.
As relações entre exercícios e cérebro estão no centro
das atenções da neurociência por suas implicações imediatas futuras na vida de milhares de pessoas. Há
avanços em diversas frentes. Os cientistas comprovaram, por exemplo, que as
vantagens começam com a elevação dos níveis de oxigenação e do fluxo sanguíneo
no corpo como um todo. O incremento da circulação também estimula a comunicação
mais eficiente entre os neurônios. Consequentemente, a atividade física aumenta
ainda mais a produção e a liberação de neurotransmissores (hormônios fabricados
pelos neurônios que atuam nas sinapses – a comunicação entre essas células). E
tais compostos participam de funções como memória, aprendizagem, emoções, sede,
sono, fome, bem-estar, ansiedade e humor.
O resultado é um reequilíbrio das quantidades dessas
substâncias no cérebro, melhorando ainda mais o desempenho, não somente do
nosso físico, como também da nossa mente.
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| Imagem: http://jezebel.uol.com.br/o-que-acontece-com-nosso-cerebro-quando-nos-exercitamos-e-por-que-ficamos-felizes/ |
Texto
extraído do caderno “Viver com Saúde”, Jornal NH.
FREITAS,
Sérgio. Exercite o corpo, exercite o cérebro. Novo Hamburgo: Jornal NH,
2012.
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
Contribuições da Neurociência para a Formação de Professores
Por Fátima Noronha
A educação é uma arte em permanente construção. Tem seu primeiro degrau no olhar sobre a criança de 0 a 6 anos, em creches e pré-escolas, que cresce em importância à medida que a formação desses sujeitos, antes majoritariamente a cargo das famílias, é cada vez mais institucionalizada em creches e pré-escolas.
Contudo, a educação é o feixe central da
interdisciplinaridade que engloba aspectos antropológicos, filosóficos,
biológicos e psicológicos da espécie humana. Transpondo essa colocação para o
foco desta pesquisa, pode-se dizer que o cérebro desempenha o papel deste feixe
na formação do intelecto humano, através de conexões neurais que são a
polarização dos opostos em busca de caminhos para o aprendizado.
Por entender a importância do cérebro no processo de
aprendizagem, consideram-se, aqui, as contribuições da Neurociência para a
formação de professores, com o objetivo de oferecer aos educadores um
aprofundamento a esse respeito, para que se obtenham melhores resultados no
processo de ensino-aprendizagem, especialmente, na educação básica.
A metodologia utilizada caracteriza-se como uma abordagem
exploratória do tema alicerçada em pesquisa bibliográfica em autores
pertinentes, dentre os quais foram citados Assmann (2001), Bear, Connors,
Paradiso (2002), Demo (2001), Fernàndez (1991),Johnson & Myklebust (1983),
Markova (2000), Morim (2007; 2002), Smith (1999), Soares (2003),Sternberg &
Grigorenko (2003) e Vygotsky (1991). Assim, descrevem-se a função e as
finalidades da Neurociência; a relação entre o cérebro e a aprendizagem e as
disfunções cerebrais verbais e não verbais.
1.1 FUNÇÃO E AS FINALIDADES DA NEUROCIÊNCIAS
A Neurociência é e será um poderoso auxiliar na
compreensão do que é comum a todos os cérebros e poderá nos próximos anos dar
respostas confiáveis a importantes questões sobre a aprendizagem humana,
pode-se através do conhecimento de novas descobertas da Neurociência,
utilizá-la na nossa prática educativa. A imaginação, os sentidos, o humor, a
emoção, o medo, o sono, a memória são alguns dos temas abordados e relacionados
com o aprendizado e a motivação. A aproximação entre as neurociências e a
pedagogia é uma contribuição valiosa para o professor alfabetizador. Por
enquanto os conhecimentos das Neurociências oferecem mais perguntas do que
respostas, mas cremos que a Pedagogia Neurocientífica esta sendo gerada para
responder e sugerir caminhos para a educação do futuro.
Ao ignorar as peculiaridades da infância e as bases
necessárias ao seu adequado desenvolvimento, a educação infantil brasileira
caminha entre acertos e experimentações. É alvo fácil de propostas
novidadeiras, por vezes apoiadas em uma visão pseudocientífica, carente de
sustentação mais sólida. A bola da vez são as neurociências, mais precisamente
as ciências cognitivas, que se propõem a promover uma compreensão maior dos
processos de ensino-aprendizagem.
Enquanto pesquisadores de todo o mundo reforçam a tese de
que os primeiros anos são fundamentais para a constituição cerebral, há quem
aponte para os perigos desse determinismo científico e de uma visão que induza
à hiperestimulação infantil.
O futuro da neurociência é brilhante. O perigo é que se
está no pé da montanha e muitas pessoas pensam que já completamos a escalada. É
uma grande montanha e vai levar um século [para que a escalemos]. Não se trata,
contudo, de negar a contribuição das neurociências para a esfera pedagógica. A
própria história da pedagogia como disciplina acadêmica construiu seus
alicerces a partir do diálogo com diferentes saberes. Traz em sua natureza
contribuições que vão da filosofia rousseauniana à Escola Nova da psicologia
experimental; da psicogênese descrita por Piaget (1983); aos estudos antropológicos e, no caso
da pedagogia infantil e, também, à visão recente da sociologia da infância,
difundida na década de 1990, com quase um século de atraso.
A questão não é condenar as neurociências. O importante é
saber se serão encontradas nelas as contribuições para o que parece central:
conhecer o papel da educação infantil. Seu agir educativo deve moldar-se a
partir das referências do ensino fundamental ou buscar caminhos para construir
sua própria identidade? Enfatizar o que a criança já é ou valorizar o que lhe
falta?
Há conflitos de sobra que precisam ser resolvidos e
proposições que parecem transcender a esfera pedagógica e caminhar para um
debate que é também ideológico. Afinal, quais são os mitos e as verdades
extraídos das recentes descobertas das neurociências e o que de tudo isso
interessa à educação, em particular à educação infantil?
Por enquanto, os conhecimentos oferecem mais perguntas do
que respostas, mas cremos que a pedagogia neurocientífica está sendo gerada
para responder e sugerir caminhos para a educação do futuro, mas, como alertou
o pensador Morin (2007) em palestra realizada em São Paulo, a neurociência,
como outros aspectos da evolução humana, carrega em si uma promessa e uma
ameaça. A promessa é de um melhor entendimento dos processos cerebrais. A
ameaça é bastante cinzenta: a de que esse conhecimento possa levar à pior
manifestação totalitária, a de controlar seres humanos com informações advindas
do conhecimento científico.
O foco da educação tem sido o conhecimento a ser ensinado
de maneira mecânica e igual a todos os alunos, sem a devida atenção à individualidade,
numa demonstração de total falta de consciência da força que possuem os modelos
mentais e da influência que eles exercem sobre o comportamento. Por sua vez os
alunos, acostumados a perceber o mundo a partir da visão do docente, aceitam
passivamente essa proposta pedagógica, desempenhando um papel de receptor de
informações, as quais nem sempre são compreendidas e geram conhecimento. Muitas
pesquisas no campo educativo apontam o professor como um dos principais
protagonistas da educação (DEMO, 2001; ASSMANN, 2001; MORIN, 2002).
Entretanto, proporcionar uma boa aprendizagem para o
aluno não depende só do professor, pois é fundamental para uma educação que
pretende ajudar o aluno a perceber sua individualidade, tornando-o também
responsável pelo ato de aprender, proporcionar a otimização de suas
habilidades, facilitar o processo de aprendizagem e criar condições de aprender
como aprender. Nesse contexto conhecer o seu padrão de pensamento pessoal e
saber como usá-lo é o primeiro passo para ser um participante ativo no processo
de aprender. A compreensão de como podemos lidar com certas características
pessoais ajudará o aluno a identificar, mobilizar e utilizar suas
características criativas e intuitivas, pois cada um aprende no seu próprio
ritmo e à sua maneira.
É fundamental que professores estimulem individualmente a
inteligência das crianças, empregando técnicas que permitam a cada aluno
aprender da maneira que é melhor para ele, aumentando sua motivação para o
aprendizado, pois cada pessoa tem de encontrar seu próprio caminho, já que não
existe um único para todos (STERNBERG & GRIGORENKO, 2003). Considerando que
alunos diferentes lembram e integram informações com diferentes modalidades
sensoriais, analisar como as pessoas se relacionam, atuam e solucionam
problemas, identificar os estilos específicos da aprendizagem, torna-se
bastante útil (WILLIAMS, apud MARKOVA, 2000).
Partindo desse pressuposto, ao professor cabe oferecer,
através de sua prática, um ambiente que respeite as diferenças individuais permitindo
que os aprendizes se sintam estimulados do ponto de vista intelectual e
emocional. Daí a necessidade do educador, consciente de seu papel de
interventor responsável pela mediação da informação, buscar estruturar o ensino
de modo que os alunos possam construir adequadamente os conhecimentos a partir
de suas habilidades mentais. E para isso, é imprescindível que conheçam os
significativos estudos da neurociência, uma vez que esses, sem dúvida,
influenciam na compreensão dos processos de ensino e de aprendizagem.
No cérebro humano
existem aproximadamente cem bilhões de neurônios (unidade básica que processa a
informação no cérebro) e, cada um destes pode se conectar a milhares de outros,
fazendo com que os sinais de informação fluam maciçamente em várias direções
simultaneamente, as chamadas conexões neurais ou sinapses (BEAR, CONNORS,
PARADISO, 2002, p. 704).
Se os estados mentais são provenientes de padrões de
atividade neural, então a aprendizagem é alcançada através da estimulação das
conexões neurais, podendo ser fortalecida ou não, dependendo da qualidade da
intervenção pedagógica.
A pesquisa e o interesse em neurociências tem crescido em
resposta à necessidade de, não somente entender os processos
neuropsicobiológicos normais, mas também para respaldar a ciência da educação.
É sabido que ocorrem dificuldades de comunicação entre
neurocientistas e educadores devido à linguagem diversa empregada em suas
terminologias específicas profissionais, bem como a utilização de temas,
métodos, lógicas e objetivos diferentes. No entanto, novos desafios históricos
têm redimensionado e emergidos novos paradigmas, os quais impulsionam a ciência
e a todos aqueles que se preocupam com a integridade humana, nos aspectos
físico, emocional e, em particular, sócio-cultural. Nesse âmbito atuam os
processos sócio-educacionais, cujos reflexos encontram eco na plasticidade das
células cerebrais.
Todas as reflexões
desta pesquisa tiveram como intuito maior compreender e ainda que minimamente,
contribuir na discussão e na procura de respostas de como instrumentalizar o
professor do ensino fundamental, através do conhecimento das conexões neurais e
plasticidade cerebral envolvidos no processo de aprendizagem, visto ser este de
vital importância para todos os seres humanos. Através da aprendizagem, o
indivíduo constrói e desenvolve os comportamentos que são necessários para sua
sobrevivência, pois não há realizações ou práticas humanas que não resultem do
aprendizado.
O estudo dos processos de aprendizagem e de todos os
fatores que os influenciam, constitui um dos maiores desafios para a educação,
pois ao entendê-lo e explicitá-lo, ocorre o desenvolvimento do sujeito dentro
do contexto sócio-histórico, e é através dele que se forja a personalidade e a
racionalidade humana para que o indivíduo esteja apto a exercer sua função
social.
Durante todo
ensino fundamental I, o professor é visto pelo aluno como um exemplo a ser
seguindo e sua opinião é de extrema consideração para o aprendiz. Assim, todo e
qualquer parecer do professor em relação ao aluno, torna proporções
determinantes para a formação da auto-estima do estudante.
Para a sala de aula, para a educação a Neurociência é e
será uma grande aliada para identificar cada ser humano, como único e para
descobrirmos a regularidade, o desenvolvimento, o tempo de cada um.
A Neurociência traz
para a sala de aula o conhecimento sobre a memória, o esquecimento, o tempo, o
sono, a atenção, o medo, o humor, a afetividade, o movimento, os sentidos, a
linguagem, as interpretações das imagens que fazemos mentalmente, o
"como" o conhecimento é incorporado em representações dispositivas,
as imagens que formam o pensamento, o próprio desenvolvimento infantil e
diferenças básicas nos processos cerebrais da infância, e tudo isto se torna
subsídio interessante e imprescindível para nossa compreensão e ação
pedagógica. Os neurônios espelho, que possibilitam a espécie humana progressos
na comunicação, compreensão e no aprendizado. A plasticidade cerebral, ou seja,
o conhecimento de que o cérebro continua a desenvolver-se, a aprender e a
mudar, até à senilidade ou à morte também altera nossa visão de aprendizagem e
educação. Ela nos faz rever o fracasso e as dificuldades de aprendizagem, pois
existem inúmeras possibilidades de aprendizagem para o ser humano, do
nascimento até a morte.
Leia mais em: http://www.webartigos.com/artigos/contribuicoes-da-neurociencia-para-a-formacao-de-professores/4590/#ixzz27dGkYvKV
REFERÊNCIAS
AFECHE Solange Castro. 5 ed.São Paulo: Martins Fontes, 1994.
ASSMANN, H. Reencantar a educação: rumo à sociedade aprendente. Petrópolis: Vozes, 2001.
BEAR, M. F.; CONNORS, B. W.; PARADISO, M. A. Neurociências Desvendando o Sistema Nervoso. 2. ed. Porto Alegre, RS: Artmed, 2002.
FONSECA, V. da. Aprender a Aprender: a educatibilidade cognitiva. Porto Alegre: Artmed, 1998.
COLE. M.; SCRIBNER, S. Introdução. In: VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. Org. Michael Cole et AL.Tradução José Cipolla Neto; Luís Silveira Menna Barreto; Solange Castro Afeche. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998. pp. 3-19.
DAMÁSIO, A R. O Erro de Descartes. São Paulo: Cia das Letras, 1996.
DEMO, P. Saber Pensar. 2. ed., São Paulo: Cortez, 2001.
D' EUS, Caravansarai,. Rio de Janeiro. 2003.
FERNÀNDEZ, A. A Inteligência Aprisionada: abordagem psicopedagógica clínica da criança e sua família. Porto Alegre. Artes Médicas, 1991.
JOHNSON, D J e MYKLEBUST, H. R. O cérebro e a aprendizagem. São Paulo: Pioneira, 1987.
JOHNSON, D. & MYKLEBUST, H. R.Distúrbios de Aprendizagem. Tradução do inglês de Maria Zanella Sanvicentes.S. Paulo: Pioneira. 1983.
MARKOVA D. O natural é ser inteligente: padrões básicos de aprendizagem a serviço da criatividade e educação. São Paulo: Summus, 2000.
MORIN, E. Palestra em dezembro/2007. Disponível em http://revistaeducacao. uol.com. br. textos.asp?codigo=12337. Acesso em 30.dez.2007.
MORIN, E. A cabeça bem-feita: repensar a reforma reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.
ROGERS, Carl. Liberdade para aprender. Belo Horizonte: Interlivros, 1967.
SMITH, Frank. Leitura Significativa. 3.ed. Porto Alegre: Artmed, 1999.
SOARES, D. Os Vínculos como passaporte da Aprendizagem: Um encontro, 2003.
STERNBERG, R. J. & GRIGORENKO, E. L. Inteligência Plena : ensinando e incentivando a aprendizagem e a realização dos alunos. Porto Alegre: ARTMED, 2003.
VISCA, J. Clínica Psicopedagógica: Epistemologia Convergente. Porto Alegre: Artes Médicas, 1987.
VYGOTSKY, L.S.A Formação social da mente. Trad. José Cipólio Neto et al. São Paulo: 1991.
sábado, 25 de agosto de 2012
Revista com assuntos sobre o cérebro
Para
aqueles que têm boa compreensão na leitura em espanhol e gostam de assuntos
relativos ao cérebro, segue o link abaixo no qual poderão baixar a revista
eletrônica conforme indicada na imagem...
Obs.: Muito bom o material
http://www.mediafire.com/?laaz1dkkw1jlj16domingo, 8 de julho de 2012
Ciência e Cognição
Ciência e cognição é o título da revista eletrônica editada pelo Instituto de Ciências Cognitivas (ICC). É uma revista multidisciplinar que publica artigos científicos de colaboradores nacionais e internacionais, em português, espanhol, e inglês, após revisão por pares antes da publicação. Desde 2004, a revista publica artigos originais sobre temas relativos a processos cognitivos (produção, circulação e recepção) sob enfoque de vários campos acadêmicos. Desde sua criação, vem sendo publicada regularmente, com volumes quadrimestrais (março, julho e novembro), e sem interrupção.
Para ter acesso as informações contidas nestas publicações basta acessar o site http://www.cienciasecognicao.org/
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Artigos Científicos,
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Estudos,
Neurociências,
Neuroplasticidade,
Psicologia Cognitiva,
Revista Eletrônica
Local:
Novo Hamburgo - RS, Brasil
sábado, 30 de junho de 2012
Minha paixão pela neuropsicopedagogia
Ana Lúcia Hennemann
Minha paixão sempre foi trabalhar em contextos educacionais. Os
educandos sempre nos trazem ânimo e vigor, estão sempre nos proporcionando
momentos de aprendizagens.
Quando acadêmica no Curso Normal Superior tive minhas
primeiras cadeiras voltadas à Psicopedagogia. O encantamento pelo processo
psicopedagógico, as vivências de algumas técnicas de intervenção, perceber que
a inclusão é algo possível e viável me proporcionaram aberturas para novos
horizontes, pois podemos fazer mais do que simplesmente aquilo que o contexto
educativo nos apresenta.
Logo após veio a Pós em Neuropsicopedagogia e tudo aquilo que
aprendi na faculdade ganhou maior significado. O conhecimento das Neurociências
despertou em mim o desejo de saber mais, estudar mais. Elencar novas prioridades
em minha vida, entender que através de nossos estudos estamos colaborando para melhorar
a qualidade de vida de outras pessoas. Entender as bases neurais do comportamento humano, ter
conhecimento da neuroplasticidade, relacionar aprendizagem e cérebro são
aspectos fascinantes que a Neuropsicopedagogia nos proporciona.
Ser Neuropsicopedagogo é um compromisso sério e de muita
responsabilidade, pois diariamente novos conhecimentos do cérebro vêm sendo
apresentados, novos livros e técnicas de estimulação surgem em diversos contextos
da educação. Precisamos estar em constante reciclagem, o fazer
neuropsicopedagógico nos exige dedicação e constante atualização, mas se você
se permite apaixonar-se pela Neuropsicopedagogia, ela te contagia e mesmo sem
perceber já estará em busca do mais.
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