ADOLESCÊNCIA:
LAPIDAÇÃO SINÁPTICA E MIELINIZAÇÃO AXÔNICA
O
processo que forma uma grande massa de conexões sinápticas durante a infância
apresenta seu ápice durante os 8 a 10 anos de idade, quando começa a se
estabelecer o período da pré-adolescência, este momento já nos alerta de que
transformações dramáticas no corpo e no cérebro irão acontecer.
Até
o século XIX, a adolescência se estabelecia em termos biológicos aos 16, 17
anos, socialmente, era um fenômeno bastante negligenciado pelo ocidente, tendo
em vista que mesmo antes de deixar de ser criança muitas pessoas já estavam no
mercado de trabalho. Esta idade caiu para 12,5 anos no Brasil durante a década
de 1970 e parece estar ocorrendo cada vez em mais tenra idade.
O
corpo de meninos e meninas começa a armazenar energia na forma de lipídios na
camada de pele denominada hipoderme, cujos adipócitos, células especializadas em
armazenar ácidos graxos e triglicerídeos, aumentam o seu volume. Isso já pode
ser visualizado durante a pré-adolescência. Com mais lipídios armazenados na
hipoderme deve haver um mecanismo para comunicar isso ao cérebro, como as
moléculas de lipídios são muito grandes para passar a barreira hematoencefálica,
àquela barreira entre o sangue e o tecido nervoso, produzida pelos capilares
sangüíneos e pelos astrócitos, uma outra molécula denominada Leptina, produzida
pelos adipócitos à medida que acumulam lipídios, passa a barreira e informa o
hipotálamo destas reservas.
O hipotálamo, como discutido em outros tópicos
do caderno de estudos, é a porção do diencéfalo que controla todas as glândulas
do corpo, e que, graças ao aumento da leptina passa a reativar o eixo
Hipotálamo-hipófise-gônadas, ativo no início da infância. Mais lipídios, mais
leptina, significa um corpo preparado para uma gestação e o cuidado das crias no
caso das meninas e um corpo preparado para defender o território, competir pelo
acesso às fêmeas e mesmo a dominância do bando. No entanto, maior exposição e
estimulação erótica podem diminuir a idade média da menarca em meninas, bem como
fatores genéticos são determinantes da faixa etária em que adolescentes de ambos
os sexos apresentam a puberdade (Sisk e Foster, 2004).
O fenômeno da adolescência estabelecido leva a
alteração brusca e extensa do corpo e da mente. Em um primeiro momento a
ativação do eixo hipotálamo-hipófise-gônadas propicia a produção e liberação de
testosterona nos meninos e de estrógenos nas meninas, de grande relevância para
determinar os caracteres sexuais secundários próprios desta faixa etária. Os
meninos passam a produzir espermatozóides, a testosterona define melhor os
músculos (maior síntese de proteínas) promove também o espessamento das cordas
vocais, o aumento de pelos nas pernas, região pubiana e aparecimento da barba,
uma agressividade em relação a outros machos aumentada, bem como um desejo por
sexo. Nas meninas, a ativação do eixo promoverá a menarca, a primeira
menstruação, desenvolvimento de pêlos na região pubiana principalmente, aumento
dos seios e dos quadris, uma maior síntese de lipídios e aumento do desejo
sexual. Um estirão do crescimento é comum neste período. Em termos neurais as
principais ocorrências são as podas sináptica, uma perda de até 30% dos
neurônios e sinapses e a mielinização axônica proeminente nas áreas mais
utilizadas (Herculano-Houzel, 2005; Giedd et. al., 1999) como pode ser visto no
esquema.

Representação
esquemática dos processos de exuberância sináptica da infância, poda sináptica
da adolescência e a mielinização axônica entre a adolescência e a fase
adulta.
FONTE:
FRIEDRICH, G. e PREISS, G. Educar com a cabeça. Viver: Mente e Cérebro,
XIV(157), 2006.p.55.
O
estirão do crescimento que marca a adolescência no seu início promove uma perda
da identidade corpórea. Isso ocorre por termos na região do córtex parietal o
mapa somatotópico, um mapa cortical da topografia do nosso corpo. O corpo muda
de configuração mais rápida do que o cérebro tem condições de mapear, e a
representação do corpo no cérebro fica reduzida em proporção às diversas partes
do corpo. As conseqüências são os desastres na mesa do jantar, pois o cérebro
comanda um braço e uma mão maiores do que os representados por ele, e são comuns
os adolescentes derrubarem coisas à mesa. O andar desajeitado de muitos
adolescentes, e a postura por vezes arqueada de gente que cresce rápido e
vertiginosamente também são característicos deste momento do desenvolvimento. De
forma similar as mulheres grávidas esbarram o ventre com freqüência nos objetos
e móveis, pois a representação do ventre na mente é diferente da extensão e
formato do mesmo.
Adolescentes adeptos de esporte com regularidade e que tocam algum instrumento musical irão superar esta perda da identidade corpórea mais rápida, pois o cérebro promove
com mais sintonia e agilidade o ajuste das representações que forma do corpo. O
comportamento corriqueiro de se prostrar na frente do espelho verificando cada
pedaço do rosto e do corpo parece estar em sintonia com esta necessidade de
ajuste de uma imagem corpórea, os meninos verificando a espessura e rigidez dos
músculos e as meninas atestando o formato e tamanho dos seios, pernas e nádegas,
e ambos os sexos olhando muito o rosto, agora um pouco transformado e muitas
vezes com as famigeradas espinhas e cravos que tanto mal fazem para a
auto-estima já ferida de um corpo que não é mais o de criança, mas que tampouco
é de um adulto; um corpo em transformação radical.
Juntamente
com a perda da identidade corpórea e amplificada por esta, ocorre a perda da
identidade social. O adolescente não é mais criança e ao mesmo tempo é tratado
por muitos como o sendo, também não é ainda adulto e apresenta desejos e
necessidades parecidos com um adulto. O estabelecimento de uma identidade social
ocorre principalmente no contato com outros de sua mesma faixa etária, o que
pode ser inferido do ponto de vista evolucionista. No passado primitivo humano e
em muitas outras espécies de mamíferos, os indivíduos juvenis do bando devem
dispersar, formando novos bandos ou ainda migrando para bandos já estabelecidos.
Isso ocorre em particular quando meninos passaram a produzir espermatozóides e a
desafiar a hierarquia e mesmo ameaçar o acesso privilegiado de outros machos
adultos a sexo. O mesmo ocorrendo com as meninas que deveriam competir por
recursos para seus futuros filhotes, caso viessem a acasalar com os machos do
bando.
A
puberdade e o período da adolescência eram momentos decisivos para ser convidado
a se retirar do bando, isso explica em muitas medidas a necessidade que os
jovens têm de formar grupos (as tribos urbanas são exemplos marcantes deste
comportamento) e também o motivo pelo qual muito se escondem quando estão em
público com seus pais e são vistos por um colega, o que lhes parece uma
vergonha, afinal: “está pensando que eu ainda sou criança”. Muitos dos
comportamentos de revolta apresentados pelos adolescentes retratam uma
necessidade neural de criar a sua visão de mundo e não mais incorporar a visão
de mundo dos pais e das gerações agora “ultrapassadas”. As tribos urbanas
refletem esta necessidade por espaço, por uma ideologia. A música parece ter um
efeito também mediador deste processo na medida em que movimenta o corpo por
meio da dança, melhorando a imagem corpórea, e se for a alto som e na companhia
dos amigos, melhor, pois facilita esta integração entre imagem corpórea e imagem
social, o que lembra a frase que acompanha todos os discos da banda Legião
Urbana: “ouça no volume máximo”.
Uma
das conseqüências mais fortes da adolescência é a perda de até 30% das sinapses
do núcleo acumbente, área do córtex relacionada ao prazer. Esta redução
considerável de sinapses dopaminérgicas faz com que o adolescente se engaje nos
chamados comportamento de risco, relacionados aos prazeres consumatórios: não
basta pensar em sexo, tem que fazer sexo, não dá mais prazer brincar de roda,
mas sim esportes radicais, aquela transa em um lugar bem perigoso, correr em
alta velocidade de carro e o uso de drogas psicoestimulantes, principalmente
cocaína e anfetaminas. Ou seja, 30% menos sinapses do prazer significa
atividades que possam liberar uma quantidade maior de dopamina para suprir as
demandas de um cérebro carente. A principal conseqüência é que o jovem passa a
procurar novidades, passa a procurar os riscos que o conduzirão a fase adulta,
caso contrário nosso cérebro continuaria fazendo as mesmas coisas da infância e
não amadureceria. Outra característica disso é o tédio e a falta de motivação da
idade; é necessária maior estimulação para ativar um cérebro carente de
prazer.
A
diminuição das áreas de recompensa do cérebro expõe os adolescentes aos
comportamentos impulsivos próprios da idade, mas principalmente ao uso de drogas
de abuso, entre elas o álcool, as drogas estimulantes, que aumentam as
concentrações de dopamina na fenda sináptica e o tabaco, que coopta amplas áreas
do cérebro, incluindo os sistemas de recompensa e apresenta alto potencial
aditivo.
Por
último, a adolescência é marcada pelo processo de mielinização axônica, ou seja,
depois da poda sináptica é chagada a hora de reforçar aquelas vias neurais que
continuaram a ser usadas, afinal, se estão sendo usadas deverão continuar
servindo no futuro. Um bom exemplo para se fixar estes processos de
desenvolvimento neural é a busca pelo prazer, se aprendemos desde pequeno a
sentir prazer com coisas simples, formamos sinapses para estes prazeres, mesmo
que diminua a quantidade destas no cérebro adolescente, as que sobram podem ser
mielinizadas, portanto, reforçadas e mais rápidas ao longo do processo,
originando adultos também mais simples nas suas buscas pelo prazer.
A
adolescência será um período de exercícios de tudo aquilo que nós seremos na
fase adulta, um período de maturação das vias neurais construídas ao longo da
infância e um instante para delegar um segundo plano para aquilo que já não
havia sido muito estimulado durante o início do processo. Neste sentido, há um
jargão em neurociências de que “menos é melhor”, que vale também para a memória,
num sentido de que precisamos “esquecer para lembrar”.
Para
Giedd e seus colaboradores (1999) a adolescência num sentido neural pode se
estender até os 30 anos de idade, momento no qual o córtex pré-frontal e as
áreas de tomadas de decisões sofrem por último seus processos de mielinização. É
quando conseguimos antecipar os resultados danosos dos nossos atos e projetar
nossas vidas a mais longo prazo.
REFERÊNCIAS:
FRIEDRICH, G. e PREISS, G. Educar com a cabeça.
Viver: Mente e Cérebro, XIV(157), p.50-57, 2006.
GIEDD,
J. N., BLUMENTHAL, J., Jeffries N. O., CASTELLANOS, F. X., Liu H., ZIJDENBOS,
A., Paus T., EVANS A. C., RAPOPORT J. L. Brain development during childhood and
adolescence: a longitudinal MRI study. Nature Neuroscience 2:861-863,
1999.
HERCULANO-HOUZEL,
Suzana. O cérebro em transformação. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.
SISK,
Cheryl L. e FOSTER, Douglas L. The neural basis of puberty and adolescence.
Nature Neuroscience. 7(10):1040-1047, 2004.