Você já parou alguma vez para observar as nuvens e perceber que elas podem adquirir formas diferentes? Alguns veem animais, outros rostos e formas de pessoas, mas a verdade é que podemos enxergar este fenômeno em diversos objetos. Isso tem sua origem em nossa arquitetura neural, pois apesar de usarmos os nossos olhos para ver o mundo, nós realmente vemos utilizando nosso cérebro. O fenômeno neuropsicológico pelo qual o cérebro
interpreta as imagens vagas como aquelas específicas é chamado de pareidolia.
O exemplo mais comumente conhecido é o do reconhecimento
de rostos e formas nas nuvens quando somos crianças. O termo Pareidolia vem do
grego vernacular “para” (ao lado, com) e “eidōlon” (diminutivo de “eidos” ou,
imagem) e é uma das formas conhecidas fenomologicamente como “apofenias” (ou
apophenias).
Conforme Dalgarrondo ( 2008,
p. 120) o termo pareidolias caracteriza-se por
... imagens visualizadas voluntariamente a partir de
estímulos imprecisos do ambiente. Ao olhar uma nuvem e poder ver nela um gato
ou um elefante, a criança está experimentando o que se denomina pareidolia.
Da mesma forma, ocorre pareidolia ao se olhar uma folha com manchas imprecisas
e, por meio de esforço voluntário, visualizar nessas manchas determinados
objetos. Ambas as formas de percepção artificialmente modificadas devem ser
classificadas como pareidolias.
Aqui há alguns rostos. Você consegue vê-los?
Quanto mais perto de nosso cotidiano e nossas crenças,
mais fácil e rápido somos “vítimas” da pareidolia, enxergando anjos em manchas
nas janelas, fantasmas em borrões da visão periférica, sorrisos em pias e
mensagens secretas em discos rodando ao contrário.
Muitas vezes não somos capazes de identificar algo, mas,
basta que nos seja insinuado para que nosso cérebro entre em desespero e comece
a recriar os padrões da imagem ou áudio para aplicar na insinuação.

O problema maior é quando as pessoas começam a acreditar
que a pareidolia não é um fenômeno psicológico e sim algo sobrenatural. Aí
começamos a ver peregrinações para adorar Maria em manchas nas janelas, Jesus
“projetando sua imagem” em qualquer mancha, líquido ou farelo, que acabam se
tornando objetos frutos de “milagres” e por aí vai.
Testes Psicológicos:
Dentro da área da Psicologia o teste de Rorschach[1] usa pareidolia para obter
insights sobre o estado mental de uma pessoa. É uma técnica de
avaliação psicológica pictórica, comumente denominada de teste projetivo, ou
mais recentemente de método de auto expressão. Foi desenvolvido pelo psiquiatra
suíço Hermann Rorschach.
Ele consiste de 10 pranchas com borrões de tintas coloridas
e preto e branco que possuem características específicas quanto a luminosidade,
ângulo, proporção, espaço, cor e forma. Essas características contribuem para a
rápida associação das imagens mentais que envolvem ideias e afetos, mobilizando
a memória de trabalho. consiste em dar respostas sobre com o que se parecem as
dez pranchas com manchas de tinta simétricas. A partir das respostas,
procura-se obter um quadro amplo da dinâmica psicológica do indivíduo. O teste
de Rorschach é amplamente utilizado em vários países.
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| Os desenhos apenas não são os originais utilizados nos testes psicológicos, apenas parecidos. Mas a foto ao lado é sim Hermann Rorschach |
Quanto a aplicação, ela é feita individualmente, em
qualquer pessoa que tenha condições de se expressar verbalmente e que tenha
acuidade visual, de qualquer idade e nível sócio-econômico. As pranchas são
apresentadas uma por uma ao examinando que deve então dizer com o que acredita
serem parecidas as manchas. A partir dessas respostas, procura-se obter um
quadro amplo da dinâmica psicológica do indivíduo, colocando a prova suas
funções psíquicas de percepção, atenção, julgamento crítico, simbolização e
linguagem.
Quanto a análise do teste, o avaliador deve decodificar
as respostas dadas que são classificadas através de um complexo sistema de
códigos sendo que cada resposta é vista sob quatro pontos diferentes:
è modo
de percepção - se o borrão é visto como um todo ou como partes;
è determinante
– o aspecto importante do borrão como a forma, a cor, a impressão de movimento
e etc;
è conteúdo
- a figura descrita, se é um ser humano, um animal, uma parte do corpo humano,
uma planta e etc.
è originalidade
ou vulgaridade da resposta – se a resposta é, na população da pessoa que está
sendo testada, uma resposta comum ou rara.
Na interpretação desse teste são mostrados resultados
quanto a avaliação quantitativa da inteligência; a avaliação qualitativa da
inteligência; a avaliação da afetividade; as atitudes gerais como ambição,
sentimentos de inferioridade ou superioridade, agressividade, entre outros; o
humor; os traços neuróticos e os indícios de um diagnóstico psiquiátrico.
Através da base nesses dados o realizador do teste obtém
um perfil da personalidade da pessoa testada, entretanto o teste sozinho não
deve oferecer uma base sólida para o diagnóstico. Um fator importante para o
teste de Rorschach é saber que não existem respostas corretas, pois cada
resposta só obtém seu significado quando vista em conjunto, seus significados
variam também de acordo com a população do indivíduo testado, que sofre
influência da cultura sobre os padrões de percepção e interpretação.
O Rorschach é muito utilizado em diversas atividades
assim como entrevista de emprego, na neuropsicologia, em testes vocacionais, em
pesquisas antropológicas, na área organizacional, na área jurídica, entre
outras. É atraente porque é um teste diferente e interativo, que avalia como a
pessoa lida com novas tarefas, levando em consideração a forma como ela é capaz
de dar respostas rápidas, bem elaboradas, bem explicadas e com tranquilidade. A
prova também avalia a utilização dos diversos recursos que pode indicar se o
profissional é capaz de executar com competência e inteligência suas tarefas.
Fontes:
- DALGARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos
transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008.
[1] Hermann
Rorschach nasceu em Zurique, Suíça, em 08 de novembro de 1884. Rorschach
possuía uma incrível facilidade no aprendizado de línguas, além de reunir a
formação científica à cultura humanista, interessava-se por literatura e artes,
porém formou-se em medicina. Em 1912 apresenta sua tese em medicina, tendo como
tema: "As alucinações reflexas e fenômenos associados. No ano de 1911
inicia seus estudos e pesquisas com manchas de tinta; contudo sua preocupação
era mais ampla que o simples estudo da imaginação e fantasia, desejando obter
um método de investigação da personalidade, situando a interpretação das
manchas de tinta no campo da percepção e apercepção.





