Ana Lúcia Hennemann*
“Os truques de mágica funcionam porque os seres
humanos têm um processo estruturado de atenção e consciência que pode ser
invadido e alterado.”
Macknik e Martinez-Conde
Assim como a música, a pintura, a
poesia, o teatro, também a magia é uma arte de encantar. Não importa a idade, o
fato é que ela nos ilude e o fascínio disso encanta, principalmente quando o
truque é feito com maestria. O mágico, sorridente e encantador gesticula dando a
impressão de um simples movimento, mas não, sabiamente o gesto inocente foi
utilizado para distrair e direcionar a atenção do público para aquilo que
deseja enfatizar.
Mágica tem muita semelhança com a
neurociência cognitiva, ou seja, ambas estudam o comportamento humano – suas experiências,
consciência e expectativas. Entretanto, na mágica há uma sequência de atos bem
planejados, ensaiados milhares de vezes e intencionais. Durante uma única apresentação
informações inverídicas são “implantadas” nos cérebros dos espectadores, porém
a credibilidade naquilo que se vê e toda a carga emocional recebida no momento,
faz com que detalhes minuciosos passem despercebidos.
Os mágicos utilizam-se de um
mecanismo chamado atenção seletiva. Por exemplo, quanto mais focamos nossa
atenção para determinado estímulo, maior a probabilidade de desconsiderar o que
ocorre a nossa volta. E a maioria dos truques faz com que o indivíduo foque sua
atenção, e aí vem a perspicácia e agilidade do mágico, porque geralmente eles
apresentam um truque inicial dando a entender que o mesmo não funcionou, e no
que a pessoa relaxa, aí a verdadeira mágica acontece. Ou então, utilizam-se de
estratégias que façam as pessoas rirem, e é difícil pensar criticamente quando se
está rindo.
Mágicos são manipuladores de atenção e não de olhares das pessoas,
pois vemos a mágica acontecer, mas não percebemos todos os detalhes que estão
ocorrendo junto com a mesma. Quanto mais
um indivíduo procura atentar para alguma coisa mais ele a acentua e mais
elimina as informações circundantes.
Quando pensamos em tomada de decisões, acentuar ou
eliminar informações fazem muita diferença, pois conforme os neurocientistas Macknik
e Martinez-Conde (2011, p 96) “no dia a dia mesmo quando a pessoa se concentra
em realizar um trabalho crucial, ela ainda precisa se lembrar de dar uma
olhadela em volta de vez em quando para não correr o risco de deixar passar
fatos importantes e oportunidades potenciais.” Um exemplo disso é quando o indivíduo
tem algo a resolver, mantém o foco naquilo, mas parece difícil encontrar a
solução. No momento que “desligou”, relaxou, aí a resposta aparece.
Um teste muito conhecido
desenvolvido pelo psicólogo e pesquisador Daniel J. Simons é aquele onde jogadores
estão driblando e passando entre si uma bola de basquete. A tarefa é contar
durante 60 segundos o número de vezes que cada jogador faz um passe. Enquanto
permanecemos concentrados e focando na bola e na quantidade de passes, alguém vestido de gorila caminha
entre os jogadores, vira o rosto para os espectadores, bate no peito e vai
embora. E muitos não conseguem perceber o gorila.
Há também um outro fator
interessante, quando vamos ao show de mágica, estamos cientes que se trata de
um espetáculo, de que alguém durante um determinado período irá se utilizar de
todos seus conhecimentos e habilidades para fazer o inacreditável acontecer...no
entanto, no dia a dia, somos vulneráveis a muitas manipulações de atenção seletiva, e nem sempre o percebemos...
Fontes
Bibliográficas:
GRAVENOR,
Misha. Mágica a truques que iludem o
cérebro. http://www2.uol.com.br/sciam/reportagens/magica_e_truques_que_iludem_o_cerebro.html
JOU, Gaziela. Atenção seletiva: Um estudo sobre
cegueira por desatenção. http://www.psicologia.pt/artigos/textos/A0305.pdf
MACKNIK,
Stephen. MARTINEZ-CONDE, Suzana. Truques
da mente: o que a mágica revela sobre o nosso cérebro. Rio de Janeiro:
Zahar, 2011.
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* Especialista em Alfabetização/ Educação Inclusiva/ Neuropsicopedagogia.
Pós-graduanda em Neuroaprendizagem/ Professora em cursos de pós-graduação nas disciplinas voltados às Neurociências, Neuropsicopedagogia, Educação Inclusiva, Alfabetização.
Email: ana.hennemann@outlook.com
