Por Ana Lúcia Hennemann- setembro /2012
Santos (2008) em “Um discurso sobre as ciências” nos traz
apontamentos relativos sobre as ciências, o progresso, nossos valores... O
autor aponta, inicialmente, que nos encontramos em uma fase de transição entre
"tempos" científicos, tempos de perplexidade, exemplificada pela metáfora
do vaso da Gestalt,
“olhando a mesma
figura, ora vemos um vaso grego branco recortado sobre um fundo preto, ora
vemos dois rostos gregos de perfil, frente a frente, recortados sobre um fundo
branco. Qual das imagens é verdadeira? Ambas e nenhuma. E esta a ambiguidade e
a complexidade da situação do tempo presente, um tempo de transição, síncrone
com muita coisa que está além ou aquém dele, mas descompassado em relação a
tudo o que o habita. (SANTOS, p.46, 2008)
Por
outro lado, utiliza-se do exemplo de Rousseau, que na obra "Discours sur
Le Sciences et lês Arts", de 1750, que buscou respostas por meio de perguntas
elementares e simples, mas que também apontava para a ideia de que não haveria
respostas para tudo. Sendo assim, Santos (2008) enfatiza que continuamos a
viver em um tempo atônito, e se nos voltarmos para os progressos científicos
dos últimos trinta anos, nos deparamos com uma ordem tão dramática de avanços
que todo o período anterior parecerá uma pré- história longínqua. Vivemos uma
sociedade sem limites para o progresso científico, uma sociedade de comunicação
e interação, mas que convive com conflitos que não sabe mais distinguir do que
é útil para o que nos deixa feliz.
O
autor sistematiza seu discurso em 3 enfoques importantes: - o primeiro,
refere-se ao paradigma dominante ou paradigma da modernidade; - o segundo,
destaca a crise do paradigma dominante, que estamos vivendo atualmente; - o
terceiro, aponta quatro aspectos ou teses essenciais de um paradigma emergente.
No
paradigma dominante, Santos (2008) inicia afirmando que a própria ciência ao se
aprofundar começa a observar que o alicerce fundador de sua estrutura não tem
base sólida, sendo que questiona a estrutura deste
modelo científico desenvolvido a partir do século XVI e que ao longo dos anos
foi fortalecendo-se. Esta estrutura científica compromete-se unicamente com uma
forma singular de se buscar o conhecimento verdadeiro, baseando-se em seus
princípios epistemológicos e em metodologias restritas. Caracterizando-se como
um modelo autoritário e que não corresponde às necessidades humanas, opondo-se
duramente ao senso comum e afastado da natureza e das carências humanas.
Na
crise do paradigma dominante, que segundo Santos (2008) decorrente
da interatividade de uma série de condições teóricas e sociais, sendo que o
mesmo aponta quatro condições teóricas que contribuíram para esta crise: - a
teoria da relatividade de Einstein; - a mecânica quântica; - o questionamento
do rigorismo matemático; - o avanço do conhecimento nas áreas da microfísica,
química e biologia na segunda metade do século XX.
No
paradigma emergente Santos (2008) também apresenta quatro hipóteses básicas: -
todo conhecimento científico-natural é científico social, no sentido de que o
novo paradigma deve romper com a dicotomia ciências naturais/ciências sociais,
a fim de que se revalorizem os estudos humanísticos; - todo conhecimento local
é total, no sentido de que a especialização do conhecimento gera a criação de
ignorantes especializados, sendo necessária exploração circular entre a relação
do conhecimento local (especializado) em face do total; - todo conhecimento é
autoconhecimento, no sentido que temos muitos saberes científicos que devem nos
ensinar a viver e traduzir-se num saber prático ; - todo o conhecimento
científico visa constituir-se num novo senso comum, no sentido de que o conhecimento científico deva fundamentar-se
na conciliação de diversas áreas das ciências existentes da atualidade,
enfatizando a interdisciplinaridade e transdisciplinaridade para alcançar uma
dimensão mais aproximada do real.
Ao
analisar as propostas do autor percebe-se que transpassa uma sensação de
desacomodação, inquietude frente aquilo que pensamos. Nossos valores e tudo o
que nos cerca, nossas certezas são incertas, pode-se comparar tais reflexões com as do autor Otto
Maduro, no seu livro intitulado “Mapas para a festa”, onde ele faz estes mesmos
questionamentos, mas numa outra abordagem, sendo que de certa forma ele questiona
sobre o valor de nossos conhecimentos se dentro de uma diferente cultura não
conseguimos utilizá-los, e Santos nos arremete a isso, a nos questionar o
porque de ter tanto, querer saber tanto, investir tanto, mas o que fazer com tudo isso, quais melhorias
que iremos trazer para as nossas vidas e a das pessoas que nos rodeiam? Diante
a tantos paradigmas, qual a certeza de nosso futuro que se mostra incerto?
Não tendo tanta propriedade de conhecimento
quanto ao autor, mas divagando na atualidade, pode-se perceber que muito daquilo que
tínhamos como certo, já não é mais tão certo: - casamento, - meios de
comunicação, - doenças terminais e outros, sendo assim, creio que a própria Psicologia Social está aí, para
fazer-nos perceber que todo conhecimento adquirido pelo homem deve primar por
uma melhoria na sua qualidade de vida, mas que devemos estar abertos, perceber
as mudanças, romper paradigmas e perceber que não existe uma única verdade. O
mundo é multifacetado, tudo depende de qual prisma se está olhando.
REFERÊNCIA:
SANTOS,
Boaventura de Souza. Um discurso sobre
as ciências. São Paulo: Cortez, 2008.

