Ana Lúcia
Hennemann
Durante
muito tempo os surdos sempre foram estigmatizados e vistos como indivíduos que
apresentavam uma doença ou algo trágico que poderia ser transmitido aos que
estivessem próximos. De acordo com FELIPE (2007) muitos surdos eram excluídos
da sociedade pois não falavam, dessa forma, a sociedade demonstrava que a maior
dificuldade era a fala e não a surdez.
Na
Grécia os surdos eram privados de toda a
possibilidade de desenvolvimento intelectual e moral porque confundiam a
habilidade de falar com voz, com a inteligência desta pessoa, embora a palavra
“fala” esteja relacionada ao verbo/pensamento/ação e não ao simples fato de
emitir sons articulados.
As
pessoas que nasciam surdas eram
consideradas incapazes para a prática de atos da vida acadêmica. Eles não
possuíam uma linguagem reconhecida e respeitada que proporcionasse a valorização
de sua comunicação e expressão. Eram vistos como ineducáveis e considerados
inúteis à coletividade, além de enfretarem preconceito, descrédito e muitas
vezes foram considerados loucos.
A
partir do século XVI, com a influência da ciência e da tecnologia, inicia-se na
Espanha a educação para pessoas surdas. Muitos métodos forma desenvolvidos a
partir dos gestos e chegavam à escrita e à fala.
Conforme
estudos de Meserlian (2009) a primeira escola para surdos foi criada em 1775,
por Charles Michel L'Epée em Paris,
Em
1775, L'Epée fundou a primeira escola pública para o ensino da pessoa surda, em
Paris, onde professores e alunos utilizavam-se dos sinais metódicos, sendo seus
trabalhos divulgados em reuniões periódicas com objetivo de discutir os
resultados obtidos. Para L'Epée a linguagem de sinais seria a língua natural
dos surdos e, por meio dela, poderia desenvolver o pensamento e a comunicação. (MESERLIAN, 2009, P. 4)
Esta
escola tinha uma filosofia manualista e oralista, sendo assim, essa foi a
primeira vez na história que os surdos adquiriram o direito a uma linguagem
própria, apesar de que o sistema de sinais utilizados eram metódicos e formado
por uma combinação dos sinais dos surdos com sinais inventados por L'epée, mas
que garantiam o aprendizado da leitura e da escrita aos surdos. Em 1791, esta
escola tornou-se o Instituto Nacional para Surdos-Mudos em Paris.
Contudo
o fato mais marcante na história dos surdos foi o Congresso de Milão, no ano de
1880, em que se decidiu que os surdos seriam educados através da oralização[1], pois
acreditavam que o método oral era superior ao gestual e como forma de
comprovarem essa teoria, apresentaram vários surdos que falavam bem, como forma
de mostrar a eficiência do método oral. Dessa forma os surdos tiveram que abandonar
sua cultura, sua identidade surda e se submeteram as práticas de pessoas
ouvintistas que acreditavam que a aprendizagem da língua oral era de suma
importância para a vida social do surdo, e que os gestos e sinais os desviavam
desse caminho.
Skliar ( apud MESERLIAN, 2009, p.6), menciona que as
conclusões do Congresso de Milão dividiram a história da educação dos surdos em
dois períodos:
Um
período prévio, que vai desde meados do século XVIII até a primeira metade do
século XIX, quando eram comuns as experiências educativas por intermédio da
Língua de Sinais, e outro posterior, que vai de 1880, até nossos dias, de
predomínio absoluto de uma única 'equação', segundo a qual a educação dos
surdos se reduz à língua oral.
A
proibição da língua de sinais por mais de 100 anos, permanece viva nas mentes
dos povos surdos. Em 1971, no Congresso Mundial de surdos em Paris, que a
Língua de Sinais passou a ser valorizada.
Muitas
conquistas e melhoria de condições de vida para os surdos já ocorreram, pois se
lembrarmos as dificuldades que os mesmos tiveram no passado, pode-se dizer que
hoje eles são integrantes de uma sociedade, já tem a oficialização da Libras
(Língua Brasileira de Sinais)[2], bem
como possuem alguns recursos, tais como: telefone, despertador para surdos,
legenda em alguns programas de TV. O surdo luta por seus direitos como cidadão
e um espaço maior dentro da sociedade.
Faz-se
necessário um novo olhar frente a trajetória dos surdos, conhecer sua história
é muito importante, bem como mostrá-la a toda a comunidade surda, ou seja, a
todos envolvidos neste processo. Precisamos ter em mente toda essa identidade
cultural para que dessa forma possamos almejar novos rumos, redefinir
prioridades, saborear vitórias. Nesse
sentido transcrevo as orientações do MEC (2007, p. 13) que nos alertam sobre a
educação dos surdos:”Estudar a educação escolar das pessoas com surdez nos
reporta não só a questões referentes aos seus limites e possibilidades, como
também aos preconceitos existentes nas atitudes da sociedade para com elas.”
A
comunidade surda precisa ser respeitada e vista como uma sociedade com uma
cultura diferenciada, com saberes próprios. Assim como se luta pelos povos
quilombolas e povos indígenas, devemos saber que a comunidade surda também tem
sua própria linguagem, linguagem que as caracteriza que as torna singulares.
REFERÊNCIAS:
BRASIL.
Ministério da Educação e Cultura. Formação Continuada a Distância de
Professores para o Atendimento Educacional Especializado: Pessoa com
surdez. Brasília: 2007.
BRITO,
Lucinda F. Integração Social & Educação de Surdos. Rio de Janeiro:
Babel, 1993.
FELIPE,
Tayna. Libras em Contexto: curso básico. Rio de Janeiro: Walprint, 2007.
MESERLIAN,
Kátia Tavares. Análise sobre a trajetória histórica da educação dos surdos.
IX Congresso Nacional de Educação – EDUCERE. III Encontro Sul Brasileiro de
Psicopedagogia. 26 a 29 de outubro de 2009.
[1] O Oralismo vigorou na educação do
aluno surdo por um longo período, até mesmo nos dias atuais encontramos escolas
de educação de surdos que seguem essa perspectiva. Nesta filosofia são
utilizados três elementos para o seu desenvolvimento, que são: o treinamento
auditivo, a leitura labial e o desenvolvimento da fala, também o uso da prótese
individual que amplifica os sons, com o objetivo de aproveitar os resíduos
auditivos do aluno surdo, possibilitando aos mesmos a comunicação oral (SILVA,
2003).
[2] A língua de sinais é o
canal que os surdos dispõem para receber a herança cultural, e a Língua
Brasileira de Sinais - LIBRAS é utilizada pela comunidade surda brasileira que
se torna diferente das línguas orais, pois, utiliza o canal visual-espacial. É
adquirida como língua materna pelas crianças surdas e o simples contato com a
comunidade de surdos adultos propicia a sua aquisição naturalmente (BRITO,
1993).
