Ele ocupa a maior parte do cérebro e controla quase tudo o
que fazemos. Mas a ciência já sabe como domá-lo e usar os poderes dele para
várias coisas, de guardar senhas a fazer espionagem militar. Conheça as novas
descobertas sobre o inconsciente - e veja como elas confirmam a principal
teoria de Freud.
Revista Superinteressante - por Alexandre de Santi e Sílvia
(fevereiro de 2013)
Quando tinha pouco mais de cinquenta anos, o médico africano
T.N. sofreu dois derrames cerebrais devastadores. Eles destruíram totalmente
seu córtex visual, a região do cérebro que nos permite enxergar. T.N. ficou
completa e irremediavelmente cego. Mas, ainda no hospital, um grupo de
cientistas ingleses decidiu recrutá-lo para um estudo estranho. Colocaram um
laptop na frente de T.N. e pediram a ele que identificasse qual figura aparecia
na tela, que poderia ser um círculo ou um quadrado. O homem identificou
corretamente 50% das figuras - o que é de se esperar num cego, pois esse índice
de acerto é o mesmo que se consegue fazendo escolhas aleatoriamente. T.N.
estava apenas chutando. Mas aí, num segundo teste, os pesquisadores trocaram
as imagens exibidas no laptop. Agora, aparecia uma sequência de rostos, alguns
amigáveis e outros hostis. T.N. deveria dizer se cada face era amiga ou
inimiga.
Para perplexidade geral, ele identificou corretamente dois
terços dos rostos. Sorte? Os cientistas repetiram o teste, mas o índice de
acerto se mantinha. T.N. estava tendo alguma reação aos rostos. Ele dizia que
não estava vendo nada - e, clinicamente, de fato era impossível que
enxergasse. Como explicar isso, então? Um fenômeno sobrenatural? Não.
Ser capaz de ler expressões faciais é uma habilidade
extremamente importante. Para o homem das cavernas, saber se um indivíduo era
amistoso ou hostil poderia significar a diferença entre a vida e a morte. E era
preciso fazer isso no ato; não dava tempo de conversar e analisar racionalmente
a pessoa para saber se ela era boazinha ou não. Por isso, ao longo da
evolução, uma região cerebral se especializou em julgar rostos. Ela se chama
área fusiforme e é um pedaço fininho e comprido da parte de baixo do cérebro.
Quando você vê uma pessoa pela primeira vez, sua área fusiforme analisa o rosto
dela. O processo dura frações de segundo e é inconsciente, ou seja, você não
percebe que está acontecendo. Sabe aquela primeira impressão instantânea, que
parece puro instinto e sempre temos ao conhecer alguém? É um julgamento feito
pela área fusiforme.
No cérebro de T.N., esse pedaço estava intacto. O córtex
dele não conseguia processar as imagens enviadas pelos olhos, mas a área
fusiforme sim. É por isso que, mesmo estando cego, T.N. ainda conseguia ver
rostos. Seu cérebro consciente não enxergava mais nada. Mas o inconsciente
dele ainda conseguia ver - e, mais do que ver, julgar os rostos das pessoas.
Há diversos casos como o de T.N., tantos que a ciência até
criou um termo para desígná-Ios. blindsight, ou visão cega. Todos seguem o
mesmo padrão. Conscientemente, a pessoa está cega - mas partes do cérebro dela
ainda conseguem enxergar. A visão cega é apenas uma das demonstrações do
poder do inconsciente, que interessa cada vez mais aos cientistas. Agora, o
lado oculto da mente não é apenas um assunto de psicanalistas; ele também
virou uma das áreas mais interessantes da neurociência moderna. Essa
transformação aconteceu por que as técnicas de mapeamento cerebral finalmente
estão permitindo que os cientistas comecem a desbravar o inconsciente - um
mundo inexplorado e muito maior que a consciência.
Quão maior? No ano passado, a emissora inglesa BBC fez essa
pergunta a sete dos maiores experts do mundo em cérebro e cognição, de quatro
grandes universidades (Oxford, Montreal, Columbia e Londres). Cada um deles deu
seu palpite - sim, palpite, pois a ciência ainda está longe de ter um catálogo
completo dos processos cerebrais. Pelas estimativas dos especialistas, a
consciência ocupa no máximo 5% do cérebro. Todo o resto, 95%, é o reino do
inconsciente.
Muito do que você faz, o tempo inteiro, é inconsciente.
Falar, por exemplo. Você simplesmente pensa no que quer dizer (as ideias), e
não precisa selecionar conscientemente as palavras - elas simplesmente
aparecem. Isso acontece porque o seu inconsciente trabalha nos bastidores
durante o papo, vasculhando o seu vocabulário e abastecendo o consciente para
ajudar você a se expressar. Enquanto você escuta outra pessoa falar, acontece
algo parecido. Você não precisa analisar e decodificar conscientemente cada
palavra do que ela está dizendo - porque o seu inconsciente se encarrega de
transformar em ideias os sons que estão saindo da boca dela. Quando você lê um
texto, é a mesma coisa: o inconsciente transforma automaticamente os símbolos
gráficos (as letras e palavras) da página em ideias, que só então são
transmitidas para a sua consciência. É por isso que é tão difícil aprender
outro idioma. Quando você começa a falar ou ler textos em outra língua, só usa
a consciência - porque o inconsciente ainda não assumiu a tarefa (mais sobre
isso daqui a pouco), e você tem de escolher ou analisar as palavras uma por
uma. "Falar outro idioma é quase experimentar ser outra pessoa. Precisamos
reunir os sentidos usando outra lógica" , diz Luiza Surreaux, doutora em
estudos da linguagem e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS).
O inconsciente se encarrega de tudo o que fazemos sem
esforço perceptível, como andar na rua ou escovar os dentes. Por causa disso,
ele opera em potência máxima o tempo todo - e é uma exceção no organismo. Se
você se levantar e sair correndo, por exemplo, os seus músculos vão gastar
aproximadamente 100 vezes mais energia do que se você estivesse imóvel (e
coração e pulmão também serão mais exigidos). Mas o cérebro é diferente.
Quando você faz alguma coisa mentalmente intensa, como jogar xadrez, ele gasta
apenas 1 % a mais de energia do que se você estivesse olhando para o teto, sem
pensar em nada. Isso acontece graças ao inconsciente - que trabalha
freneticamente até quando estamos relaxados. "O cérebro é abastecido
pelos olhos, ouvidos e outros sentidos, e o inconsciente traduz tudo em imagens
e palavras", diz o psicólogo e neurocientista Ran Hassin, professor da
Universidade Hebraica de Jerusalém e um dos autores do livro The New
Unconscious ("O novo inconsciente", ainda não lançado no Brasil).
"Novo inconsciente", aliás, é o termo que os cientistas têm
utilizado para definir essa nova abordagem - que propõe uma explicação
puramente neurológica para o lado oculto da mente. Mas também confirma a
principal ideia de Freud.
• Psicanálise X Ciência
Sigmund Freud não foi o "descobridor" do
inconsciente. Já durante o Iluminismo, no século 18, se discutia a existência
dele - entendido como um pedaço da mente dotado de vontades que escapavam ao
controle consciente. A contribuição específica (e enorme) de Freud foi
transformar uma noção vaga num conjunto de ideias, teorias e técnicas: a
psicanálise. Como explica o biógrafo Peter Gay em Freud - Uma Vida para Nosso
Tempo (Companhia das Letras, 2012), Freud acreditava que o inconsciente era
"uma prisão de segurança máxima" na qual os traumas sofridos na
infância ficavam aprisionados, e nisso estaria a raiz das infelicidades
humanas.
A neurociência nunca deu muita bola para a psicanálise. Mas
os novos estudos sobre inconsciente trazem comprovação para um conceito central
dela. Uma experiência liderada pelo psiquiatra Eric Kandel, que ganhou o
prêmio Nobel de Medicina de 2000 por estudos sobre neurotransmissores, mostra
como o inconsciente pode funcionar como amplificador das emoções. Antes da
experiência, os voluntários preencheram questionários que mediam seus níveis
de ansiedade. Depois, enquanto seu cérebro era monitorado pelos cientistas,
cada voluntário via uma série de rostos com expressões de medo. Foram duas
sessões. Na primeira, as fotos passavam bem devagar, com tempo suficiente para
o voluntário analisar os detalhes de cada uma. Na segunda, as imagens passavam
tão rápido que os voluntários não conseguiam identificar nada - não tinham nem
certeza de ter visto um rosto ou qualquer outra coisa. A intenção de Kandel e
seus colegas era provocar emoções conscientes e inconscientes. Quando a foto
ficava por um bom tempo na tela, o voluntário tinha tempo de perceber
conscientemente a expressão de medo da imagem. No outro experimento, era tudo
tão rápido que não era possível ter uma reação consciente.
Essas imagens rápidas estimulavam diretamente o
inconsciente, e provocavam atividade muito alta no núcleo basolateral da
amídala cerebral - área ligada às sensações de medo. Já as imagens lentas, que
eram interpretadas de forma consciente, não geravam nenhuma atividade nessa
área. Quanto mais ansiosa a pessoa era, maior a diferença entre a interpretação
consciente e inconsciente da mesma coisa (as imagens). Para Kandel, o estudo é
a comprovação neurocientífica de uma teoria central da psicanálise: a
interpretação inconsciente de coisas negativas é a fonte de muitas das aflições
humanas. Freud tinha razão.
O inconsciente pode ser fonte de angústias - e também de
algumas injustiças, cujos efeitos são perceptíveis desde a infância. O
queridinho do professor, provavelmente, será o aluno com as melhores notas da
classe. Não porque ele seja necessariamente o melhor, mas porque os
professores acreditam que seja - e acabam atuando inconscientemente a favor
dele. Esse fenômeno, que se chama incentivo inconsciente, tem respaldo em
diversos estudos científicos. Um dos mais engenhosos (e mais polêmicos também)
foi conduzido na década de 1960 por Robert Rosenthal, hoje um octogenário
professor de psicologia da Universidade da Califórnia.
Na experiência, os alunos de uma escola americana foram
submetidos a uma prova. Rosenthal e sua equipe disseram aos 18 educadores do
colégio que se tratava de um teste especial, desenvolvido na Universidade
Harvard para analisar o potencial de desenvolvimento de cada criança. Mentira.
Era apenas um reles teste de QI, sem nada de especial. O objetivo da lorota era
aumentar as expectativas dos professores. Os alunos fizeram a prova, e a
grande sacada de Rosenthal veio na hora de anunciar o resultado. Antes mesmo de
calcular a pontuação de cada aluno, os pesquisadores escolheram aleatoriamente
três a seis crianças de cada série e disseram aos professores que aqueles
alunos haviam se destacado e teriam um desempenho extraordinário nos anos seguintes.
Era outra mentira.
No final do ano escolar, a equipe de Rosenthal voltou à
escola e repetiu o teste. Os alunos que haviam sido falsamente diagnosticados
como gênios haviam ganho, em média, 3,8 pontos de QI a mais que os demais. O
resultado foi ainda mais surpreendente entre alunos da primeira série: a
diferença entre os ungidos e o resto foi de assombrosos 15,4 pontos de QI a
mais. Ou seja: as crianças que haviam sido apresentadas como mais inteligentes
de fato se tornaram mais inteligentes - porque inconscientemente, sem querer,
os professores haviam dado mais atenção e estímulo a elas. "O resultado
mais importante desse experimento foi mostrar como a expectativa dos
professores faz toda a diferença para o desenvolvimento dos alunos",
analisa Rosenthal. É impossível ser completamente justo e imune a esse tipo de
influência, mas existe um antídoto eficaz contra as distorções induzidas pelo
inconsciente: saber que ele sempre está pronto para nos enganar.
• Aprender sem saber
Se, por um lado, é impossível controlar o inconsciente de
maneira consciente, é possível influenciá-lo. "Podemos mudá-lo. Ele é tão
maleável quanto a consciência, ou talvez mais", afirma o neurologista Ran
Hassino Como se faz isso? Praticando alguma coisa até que ela se torne uma
segunda natureza, ou seja, vire um processo automático. Qualquer profissional
de elite, seja um pianista profissional, um jogador da seleção brasileira de
futebol, um médico-cirurgião ou uma bailarina do Theatro Municipal, depende de
anos de o consciente prática para chegar ao topo da carreira. Cerca de dez anos
de prática - ou 10 mil horas de treino, segundo uma famosa pesquisa do
psicólogo Anders Ericsson, da Universidade da Flórida. Ericsson estudou
violinistas de uma das melhores escolas de música de Berlim. Eles começaram
com cinco anos de idade, todos no mesmo ritmo. Mas, a partir dos oito anos, as
horas de ensaio começaram a variar entre os estudantes. Quando chegaram aos 20
anos, os melhores violinistas haviam somado 10 mil horas de treino, enquanto
os demais não passavam de 8 mil horas - e os piores da turma tinham apenas 4
mil horas de estudo.
A dedicação trouxe recompensa porque, quando se pratica
muito alguma coisa, ela fica gravada num tipo especial de memória: a memória
não-declarativa, que faz parte do inconsciente e registra ações e movimentos do
corpo. É ela que permite que o violinista consiga tocar bem. Se dependesse
apenas do consciente, ele não daria conta de todos os procedimentos envolvidos
na tarefa (ler a partitura, equilibrar o instrumento no ombro, posicionar os
dedos, mover o arco, respirar e, ainda por cima, tocar de maneira natural e
relaxada).
E ninguém conseguiria aprender a falar fluentemente um
segundo idioma. Em suma: a chave para ensinar uma nova habilidade ao próprio
inconsciente é treinar, treinar e treinar. É um processo bem demorado. Mas já
existe gente tentando deixá -lo mais rápido.
• As senhas invisíveis
Elas são um problema típico do mundo moderno. Ou você acaba
esquecendo as suas, ou escolhe uma bem bobinha e usa pra tudo - até que, por
causa disso, alguém acaba invadindo o seu e-mail ou conta bancária. Um grupo de
cientistas da Universidade Stanford tem uma solução melhor: senhas
ultrassecretas, que ficam armazenadas no inconsciente. Funciona assim. Primeiro,
os cientistas pedem a voluntários que joguem um joguinho no qual bolinhas caem,
uma de cada vez, em uma das seis colunas que aparecem na tela. O objetivo é
apertar o botão do teclado correspondente à posição da bolinha na tela. Se a
bolinha cai do lado esquerdo, por exemplo, a pessoa aperta a letra S (porque
ela fica bem à esquerda no teclado). A ordem das bolinhas parece aleatória, mas
não é. A pessoa não percebe, mas existe uma sequência que se repete de tempos
em tempos - cerca de 90 vezes ao longo de 30 minutos, a duração do jogo. Essa
sequência é definida pelo computador e é personalizada, ou seja, diferente para
cada jogador. Ela é a senha. E, graças à repetição, acaba sendo gravada no
inconsciente da pessoa.
Na segunda etapa da experiência, a pessoa joga o joguinho
novamente. E as bolinhas vão caindo na tela do mesmo jeito: sua ordem parece
aleatória, mas uma sequência específica (a senha) se repete de tempos em
tempos. Como as bolinhas caem bem depressa, o jogador erra muitas. Exceto as bolinhas
daquela sequência que ficou gravada no inconsciente dele. Sem perceber nem
saber o motivo, a pessoa acerta todas. Está digitada a senha. Ela é
reconhecida pelo computador, que libera o acesso. Além de ser conveniente
(você nunca mais precisará se lembrar de uma senha), a tecnologia é
extremamente segura. "O sistema torna praticamente impossível para um
assaltante forçar a vítima a revelar sua senha bancária, por exemplo. Porque a
senha está no cérebro da pessoa, mas não está acessível conscientemente a
ela", explica Hristo Bojinov, um dos criadores da tecnologia.
Segundo ele, o sistema de senhas inconscientes pode chegar
ao mercado dentro de três anos, mas ainda precisa ser aperfeiçoado. Por
enquanto, ele é inviável para uso cotidiano - porque é preciso jogar o joguinho
durante 5 a 10 minutos até que a senha inconsciente seja digitada. Dez minutos
é bastante. Mas é bem menos do que as 10 mil horas do exemplo anterior. Ou
seja: a nova técnica mostra que é possível inserir informações simples no inconsciente
muito mais depressa do que se acreditava.
O Exército americano já percebeu, e está tentando tirar
proveito disso. A ideia é ajudar os analistas de imagens aéreas, funcionários
do Pentágono que olham as fotos tiradas pelos satélites espiões dos EUA - e
dizem quais delas contêm algo relevante (como um reator nuclear ou uma base
militar inimiga, por exemplo). É um trabalho cansativo e difícil, pois são
milhares de fotos aparentemente iguais, com diferenças minúsculas. Mas o
cientista Paul Sajda, da Universidade Columbia, teve a ideia de monitorar o
cérebro de um analista enquanto ele olhava essas fotos. O analista vestiu uma
touca de eletroencefalograma (EEG), cheia de sensores que medem a atividade
elétrica em determinadas regiões do cérebro. Aí Sajda mostrou a ele uma foto
relevante, ou seja, na qual se via claramente uma construção suspeita. O
eletroencefalograma registrou um pico de atividade cerebral - pois aquela
imagem havia despertado a curiosidade do analista. Normal.
Mas aí os pesquisadores resolveram acelerar as coisas, e
começaram a exibir dez imagens por segundo. Algumas das fotos eram relevantes,
outras não, mas todas passavam rápido demais para que o analista conseguisse
prestar atenção em qualquer coisa. Mesmo assim, quando aparecia uma foto
relevante, algo incrível acontecia: o eletroencefalograma registrava um pico de
atividade no cérebro dele. O analista não conseguia perceber nada de diferente
nas imagens, mas o inconsciente dele sim - e estava identificando as fotos que
tinham pontos interessantes. De acordo com Sajda, o novo método permite
aumentar em até 300 vezes a eficiência da análise de imagens militares.
"Os processos inconscientes são capazes de algum tipo de racionalidade,
muito mais do que se pensa, e essa racionalidade pode levar a boas
decisões", escreve o neurocientista Antonio Damasio no livro E o Cérebro
Criou o Homem.
• Hans, o cavalo esperto
O inconsciente não é apenas um depósito de traumas
reprimidos e habilidades incríveis. Ele também é especialista em fazer o
contrário: colocar tudo pra fora. O psicólogo Paul Ekrnan, da Universidade da
California, ficou famoso por ter catalogado mais de 10 mil conjuntos de
"microexpressões" - expressões faciais que fazemos inconscientemente
enquanto conversamos, e que podem revelar nossas verdadeiras emoções. Inclusive
se o seu interlocutor for um cavalo.
Em 1904, o alemão Wilhelm von Oster ficou famoso por suas
apresentações com Hans - um cavalo que era capaz de "quase tudo, menos
falar". Segundo o dono, Hans fazia cálculos matemáticos complexos. Quando
perguntavam a raiz quadrada de quatro, o bicho respondia batendo o casco duas
vezes no chão. A conexão era tanta que Hans acertava o resultado mesmo quando
seu mestre não fazia as perguntas em voz alta - e apenas pensava nelas. Havia
quem jurasse de pés juntos que o cavalo lia a mente de Von Oster. A dupla rodou
a Alemanha em apresentações fantásticas, e deixou estudiosos debruçados sobre
o mistério durante anos. Em 1907, o psicólogo Oskar Pfungst publicou um estudo
que solucionava a charada. Hans só acertava os resultados quando seu
'entrevistador' (no caso, Von Oster) já sabia a resposta certa. Pfungst
descobriu um padrão: Von Oster se inclinava levemente para frente quando
terminava de propor uma questão. Esse era o sinal. Hans entendia e começava a
bater o casco no chão. Quando atingia o número certo de batidas, algum outro
movimento do dono denunciava a hora de parar. Von Oster era um charlatão,
então? Talvez. Mas muitas outras pessoas, que não sabiam de nada, desafiaram
Hans com problemas matemáticos. O cavalo acertou todos. É que elas, sem saber,
também coordenavam com movimentos inconscientes as respostas dele. Ou seja:
cavalos talvez não saibam fazer contas, mas podem ser capazes de ler o
inconsciente alheio com mais precisão do que muito humano.
Ainda não existe uma fórmula que permita controlar o que
dizemos de forma inconsciente. Emitimos sinais inconscientes o tempo todo - a
ponto de sermos transparentes até para cavalos. É por isso que é tão difícil
fingir: todo mundo percebe quando achamos que uma festa está meio chata, por
exempIo. Mas não vá culpar o seu inconsciente por isso. Se não fosse ele, você
sequer conseguiria dançar e conversar ao mesmo tempo.
Para saber mais
Subliminal, Leonard Mlodinow. Pantheon Books, 2012.
Em Busca da Memória, Eric Kandel. Companhia das letras,
2009.


